21 março 2008

Jesus Salva...e Marx também

Hoje é sexta-feira santa e, talvez por ser um dia religioso, observei vários carros com inscrições como Jesus Salva ou Ele é o Caminho, ou coisas do tipo. Vi um grupo de moças bem vestidas que, ao passarmos por elas, nos entregaram um folheto dizendo que todo o sofrimento cessaria se fossemos para a igreja delas. Na hora, confesso que me lembrei de Buda e as Nobres Verdades.

Ontem, um 'quase doutorando' em Economia, bastante erudito, com quem eu conversava me disse que quando os trabalhadores tomarem o poder e impuserem a ditadura dos trabalhadores, cessará todo o conflito de classes e a verdadeira história da humanidade comecará ... Não pude deixar de retrucar que esta era um idéia messiânica, ou mesmo escatológica.

A realizacão da profecia marxista depende da vitória dos 'trabalhadores' na guerra de classes. Gramsci propôs então a atualização de Maquiavel, substituindo o príncipe pelo partido, ou seja, a estratégia seria fortalecer o partido, englobando a sociedade civil e substituindo as instituições pela hegemonia do partido.

O futuro construído pelos companheiros trabalhadores seria marcado pela substituição da propriedade privada e da livre iniciativa pela submissão a instâncias burocráticas de coordenação política da produção. Curiosamente, o Partido Comunista Chinês, o partido mais poderoso do mundo, age justamente na direcão contrária: monopoliza o poder e libera a livre iniciativa, além de caminhar na direção da propriedade privada. E que Império terrível é o chinês: a colônia tibetana que o diga.

Curiosamente, o marxismo se alimenta da burguesia como o próprio Marx, que passou a vida sendo sustentado por um milionário. A idéia de uma sociedade de iguais criada com a queda do Antigo Regime e o consequente fim dos privilégios da fidalguia é uma concepção burguesa e liberal. Uma das mais remotas fontes desta idéia é o próprio cristianismo com seu ideal da formação da comunidade dos irmãos em Cristo. As doutrinas religiosas monoteístas fizeram muito pela unificação política dos estados. O cristianismo, para muitos, teria criado a Europa a partir da idéia de cristandade. No marxismo, os irmãos em Cristo se tornam os companheiros trabalhadores e, certamente, quando os companheiros trabalhadores dominarem o mundo, cessará todo o sofrimento . Quem conhece minimamente um sindicato não alimenta tantas esperanças.

A propriedade privada é uma instituição recente, com uns duzentos anos ou menos na maioria dos países. Assim, quando d. Joao VI expropria casas no Rio para o corte, estava em seu direito. No feudalismo, se podia até comprar uma propriedade, mas não se podia retirar os servos que estavam ligados à terra e não necessariamente aos senhores dela. Somente com a Revolução Industrial, e mais intensamente no século XIX, foi possível expulsar os servos das propriedades.

Assim, o marxismo depende da idéia burguesa e cristã da igualdade, da ética burguesa e protestante do trabalho, sobre a qual ele baseia toda a sua teoria do valor-trabalho que afinal vem de Adam Smith. Disto Marx deduziu que a existencia da propriedade privada é fruto da exploracao de classe por meio da extracao da mais-valia. Como disse Lenin, Marx se apoiou na economia politica inglesa, na filosofia alemã "invertida" e na teoria política francesa.

Não podemos nos esquecer que no século XIX emergia o Estado como uma instituição de controle de toda a sociedade. Anteriormente, o mais poderoso Rei 'absolutista' jamais sonharia com o poder que o Estado teria a partir do século XIX. Antes, um Rei distribuia justiça e fazia a guerra, enquanto que o Estado de polícia iniciado nos finais do antigo regime ampliou-se progressivamente, atuando na disciplinarização dos corpos para a promoção do bem-comum.

O que o futuro nos reserva? Será que o PT e aliados conseguirão se fortalecer em detrimento das demais instituições até passarem a exercer a hegemonia? Será que as novas igrejas que pregam o sucesso e a felicidade substituirão a velha Igreja Católica? Será que as pessoas entregarão a responsabilidade pela sua felicidade e bem-estar ao Estado? Aguardem na próxima semana, na mesma BatHora, no mesmo BatCanal!

5 comentários:

André disse...

Messianismo e escatologia são muito próximos.

O dia em que os trabalhadores tomarão o poder... Bobagem, lógico, mas e daí se eles tomassem? Que diferença isso iria fazer. Quem realmente já tomou algumas vezes o poder foi uma pequena elite que manipulava os manés — nunca os manés.

O cristianismo não criou a Europa, mas teve sua importância, muita influência, claro.

Anônimo disse...

"A prioridade do governo é a hegemonia absoluta, via MPs"

Entrevistado: Deputado José Aníbal

Entrevistador: Luiz Carlos Azedo/ Correio Braziliense

Brasília (17 de março) - Em entrevista publicada no último domingo no Correio Braziliense, o líder do PSDB na Câmara, deputado José Aníbal (SP), critica duramente a tentativa do governo Lula de exercer a hegemonia absoluta do processo legislativo, por meio da edição excessiva de medidas provisórias. Apesar da postura construtiva apresentada pelos tucanos no parlamento, ele acredita que a gestão petista não mostra grande interesse em acordos para limpar a pauta, mas apenas em impor sua vontade à Câmara e ao Senado.

"A minha postura não é de confronto, apesar da tensão que provoca. Queremos caminhos para resolver os problemas do país, nas áreas de saúde, educação e desenvolvimento. Mas o governo não mostra grande interesse em acordos. A prioridade é a hegemonia absoluta, por meio das medidas provisórias", lamentou.

Na avaliação de Aníbal, muita coisa que está sendo mandada pelo Planalto ao Congresso é absolutamente irrelevante e sem urgência. Além disso, acredita que várias proposições poderiam ser feitas por meio de projeto de lei em vez de MP. "Há uma desconsideração pelo processo legislativo. Assim iremos ao impasse", alertou o tucano, para quem o governo Lula não tem o apreço necessário pelo parlamento. Leia abaixo a íntegra da entrevista:

A oposição partiu para uma obstrução desesperada à aprovação do Orçamento após a derrota na TV Pública, mas acabou recuando. O que houve?

No Orçamento, havia um acordo anterior ao episódio do Senado. Nós mantivemos o acordo, até porque é um bom acordo. Tinha três pontos fundamentais: primeiro, extinguir aquele "anexo" de metas, muito questionado no Parlamento e fora dele; segundo, repor os recursos da Lei Kandir, da ordem de R$ 700 milhões, que tinham sido retirados; terceiro, a preservação da emenda do rodoanel de São Paulo. Nessas condições, admitimos votar o Orçamento e não obstruir, como pretendiam os senadores. Eu próprio defendi a mudança de tática se fosse mantido o acordo, sem prejuízo das críticas ao governo por causa da forma como atuou no episódio da TV Pública.

Fazer uma obstrução indiscriminada às medidas provisórias, como a oposição anuncia, não pode ser um tiro no pé?

Há uma PEC que se propõe a mudar o rito das medidas provisórias, de modo que se possa resgatar o processo legislativo, que está garroteado. Desde novembro do ano passado só discutimos medidas provisórias. O governo está operando essas medidas para isso mesmo. Não conseguimos, por exemplo, abrir uma janela para discutir a segurança pública. Tem 13 projetos para votar sobre isso, inclusive alguns de iniciativa do Executivo e parte do acordo dos governadores do ano passado. Há outros projetos, como o voto distrital, as agências reguladoras, a reforma tributária. São 17 medidas provisórias na pauta da Câmara.

O presidente da Câmara, deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), está empenhado num acordo para mudar o rito das medidas provisórias. Como está essa negociação?

O presidente do Senado, Garibaldi Alves (PMDB-RN), também. Parece que se chegou à uma fórmula a ser fechada nos próximos dias. Decidimos obstruir a votação de todas as medidas provisórias como forma de forçar essa negociação. É preciso permitir o funcionamento do parlamento. O Congresso já é visto de uma forma muito depreciativa pela população. Se nada for feito, isso vai se agravar. A ação do governo é deletéria. O próprio presidente da Câmara admite que a burocracia do governo é incontrolável. Temos sete medidas sobre créditos extraordinários. Poderiam ser uma só.

A principal responsável pelo envio das medidas provisórias é a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma. Soube que o sr. teve uma conversa com ela, o que foi tratado?

Eu prefiro não entrar em detalhes, foi uma conversa pessoal. Ela compartilha dessa posição do governo. Eu procurei mostrar que muita coisa que está sendo feita é absolutamente irrelevante e sem urgência. Isso provoca desconfiança em relação ao governo, mesmo em sua base de sustentação. Agora mesmo votamos uma medida provisória para alterar o prazo de pagamento do benefício dos previdenciários até um salário mínimo. Isso não precisaria de medida provisória, poderia ser feito por meio de projeto de lei. Há uma desconsideração pelo processo legislativo. Assim iremos ao impasse.

A conversa com a ministra foi uma luz no fim do túnel?

Não necessariamente. A minha postura não é de confronto, apesar da tensão que provoca. Queremos caminhos para resolver os problemas do país, nas áreas de saúde, educação e desenvolvimento. Mas o governo não mostra grande interesse em acordos. A prioridade é a hegemonia absoluta, por meio das medidas provisórias. O Congresso é que tem que se impor. O atual governo colhe os frutos do que foi plantado, principalmente na economia, onde a política é a mesma desde o governo de Fernando Henrique. Não planta. Veja o que acontece com as agências, com as parcerias público-privadas. No ano passado, o governo só conseguiu gastar 30% dos recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) porque não tinha projetos.

Na oposição, o presidente do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ), tem se queixado muito da postura do PSDB. O líder Antônio Carlos Magalhães Neto (BA) também está preocupado. Como fica a aliança?

Nós temos nos preocupado muito com a preservação de nossa unidade, apesar de uma divergência ou outra. Agora mesmo, tanto eu como o ACM Neto fomos ao líder do governo na Câmara, Henrique Fontana (PT), pedir que o governo não mande mais medidas provisórias. Só vamos votar as medidas provisórias que estão na pauta se isso servir como horizonte de retomada do processo legislativo. Se o governo não mandar nenhuma medida até o final de junho, teremos um mês e meio ou dois para a atividade parlamentar. A proposta está feita, esperamos um retorno do governo sobre isso.

Então não há condições de votar a reforma tributária?

Hoje, nenhuma. Levantei essa questão quando nos reunimos com o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Vamos saber se o governo quer realmente a reforma tributária se houver compromisso de não emitir medidas provisórias até junho. Queremos limpar a pauta e retomar o processo legislativo. O PSDB tem uma posição construtiva. Na reforma tributária, há muita coisa obscura, como a substituição do velho ICMS pelo Imposto sobre o Valor Agregado (IVA). E propostas que deveriam ser implantadas já, como o cadastro único, o Conselho Nacional Tributário e, principalmente, a nota fiscal eletrônica.

Há uma maioria robusta na Câmara, que limita o espaço de negociação da oposição com o governo. Como você vê essa questão?

O governo Lula não tem o apreço necessário pelo parlamento. É um governo conservador, com postura autoritária em relação ao Congresso. Declarações sucessivas do presidente da Repúblicas mostram isso. Lula quer indispor o parlamento com a opinião pública, com propósitos obscuros.

Raphael disse...

“Ontem, um 'quase doutorando' em Economia, bastante erudito, com que eu conversava me disse que quando os trabalhadores tomarem o poder e impuserem a ditadura dos trabalhadores, cessará todo o conflito de classes e a verdadeira história da humanidade comecará”

Entre universitários neófitos, vá lá. Mas um quase doutorando em pleno século XXI dizendo essas bobagens só pode ter por perspectiva lecionar.

“Curiosamente, o marxismo se alimenta da burguesia como o próprio Marx, que passou a vida sendo sustentado por um milionário.”

Excelente! Poucos poderiam definir melhor.

“Será que o PT e aliados conseguirão se fortalecer em detrimento das demais instituições até passarem a exercer a hegemonia?”

O PT supostamente já articula o fim da reeleição, provavelmente temendo a falta de um candidato com força para preencher os sapatos do Lula depois que seu mandato terminar.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2003200812.htm

Heitor Abranches disse...

Governo chantageia oposição com dossiê contra FHC

(...) O Palácio do Planalto mandou fazer um dossiê sobre os gastos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em seus últimos cinco anos de governo – e ameaça divulgá-lo para tentar constranger os oposicionistas que insistem em investigar o presidente Lula.

VEJA teve acesso a parte do dossiê. Elaborado com base em dados considerados sigilosos pelo próprio governo, o material reúne detalhes das despesas do ex-presidente Fernando Henrique, de sua mulher, Ruth Cardoso, e de assessores próximos nos anos de 1998, 2000 e 2001 nas chamadas contas tipo B – aquelas a que o ministro Paulo Bernardo se referiu.

O documento lista centenas de compras realizadas pelo gabinete do ex-presidente, desce a insignificâncias, como pagamento de gorjetas e aquisição de material de higiene pessoal, e faz insinuações potencialmente graves, se verídicas, sobre a mistura de recursos públicos com despesas de campanha eleitoral. Estão também discriminados compras de bebidas, alimentos e aluguel de carros. As planilhas ainda revelam as iniciais de quatro agentes da Agência Brasileira de Inteligência (JCS, PSWR, SLCC e JCSB), seus CPFs e os valores que eles sacaram em dinheiro, 1,6 milhão de reais em 2002, usando as chamadas "despesas secretas". Uma simples consulta ao site da Receita Federal permite a identificação dos agentes. Os autores do dossiê queriam mostrar que no governo passado também houve abuso nos gastos secretos.

(...) É grave saber que informações de estado, algumas sigilosas por lei, estão sendo usadas para chantagear políticos de oposição. Mais grave ainda saber que a estrutura funcional do estado está sendo utilizada para montar um dossiê contra adversários – e, o que é mais espantoso, dentro do Palácio do Planalto, na vizinhança do gabinete do presidente Lula.

O dossiê construído dentro do Palácio do Planalto, usado pelos assessores do presidente na CPI em tom de ameaça e vazado pelos petistas como estratégia de intimidação, contém informações consideradas sigilosas e iguais às que o governo Lula briga para manter longe dos olhos da opinião pública. De um universo de gastos de 408 milhões de reais, os funcionários do Planalto pinçaram 295 transações em três anos, num total de 612.000 reais.

A ex-primeira-dama Ruth Cardoso é mencionada 23 vezes como beneficiária de despesas com locação de carros, hospedagem em hotéis, compra de ingressos para peças de teatro no exterior e até como ordenadora da compra de um porta-retratos, no valor de 100 dólares, para presentear um oficial da Colômbia designado para acompanhá-la durante visita ao país. Gastos com vinhos importados, champanhes franceses, carnes raras e até caviar foram compilados da documentação armazenada na Presidência da República e reproduzidos no dossiê. O levantamento tem o objetivo de mostrar que a equipe do presidente Lula não inovou ao usar as contas tipo B e os cartões corporativos para bancar despesas exóticas. Seus autores chegam a insinuar que dinheiro público usado para a compra de garrafas de champanhe teria sido desviado para a campanha eleitoral que reelegeu FHC em 1998. Assinante da revista leia mais em Um dossiê feito para chantagear

Angélica disse...

Heitor,

Setenta anos após a morte de Marx, em 1883, cerca de 1/3 de toda humanidade estava vivendo sob governos que se autoproclamaram "marxistas". Ai se incluíam todos os países da Europa oriental, toda a Rússia e o ex-império czarista, e toda a China. Nada parecido jamais ocorrera antes, nem é provável ( ousaríamos dizer ? ) que ocorra novamente. Nem mesmo a difusão do Cristianismo primitivo ou do Islã poderia se equiparar a isso, nem a difusão do budismo durante sua fase expansionista. É um fenômeno realmente espantoso, sobretudo diante do fato de que, num nível prático, a marca registrada do marxistmo foi o fracasso persistente: as idéias venceram em alguns lugares, mas as sociedades por elas ensejadas ou ruíram ou se afastaram das políticas marxistas. Desta feita, engana-se quem imagina-se salvo pelo pensamento marxista. Marx foi no máximo, um falso profeta, cujo governo Marxista só deu ao povo pobreza e tirania. Não me surpreendo mais com as idéias semelhantes às do teu amigo, futuro doutor em Economia. A religião ( assim como o Marxismo ) é o ópio do povo.

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