30 agosto 2013

Jackson Pollock é melhor que Renato Russo

Ontem, durante o almoço, não resisti à expressão de "pidão" do Caco, o peludo e brincalhão shih tzu de meus filhos, e, após minha esposa deixar a mesa, discretamente dei-lhe umas tiras de gordura de picanha, as quais engoliu avidamente sem nem mesmo mastigar. Durou pouco a felicidade do animalzinho, que até então só provara serragem prensada, a tal ração. Não pôde conter a pressão do desarranjo intestinal e emporcalhou toda a área de serviço.

"Maldito animal de estômago delicado! Seria incapaz de sobreviver na floresta, de caçar, de competir com lobos", pensei quando vi a pintura marrom ao estilo de Jackson Pollock - um pouco mais criativa, na verdade - espalhada pela cerâmica. A empregada lavou o chão e pegou com a vizinha uns jornais para forrá-lo. À noite fui ver como estava o Caco. Chamou-me a atenção, no chão, a carranca feia de Renato Russo ineditamente formada por letrinhas, na capa do Correio Braziliense, com "z" mesmo. Era o texto completo da música Faroeste Caboclo, um épico candango, que está para Brasília como a Odisseia está para a Atenas antiga. A reportagem de capa era sobre o filme de mesmo nome que havia levado meio milhão de pessoas aos cinemas brasileiros. Apesar de já ter ouvido a música dezenas de vezes - contra a vontade, é claro -, nunca havia prestado atenção na letra. Resolvi então ler a obra prima de uma das melhores bandas de rock da história do país mais criativo e musical do mundo, o Brasil.

O título "Faroeste Caboclo" sugere que algum tiroteio acontecerá em um ambiente caipira, roceiro, sertanejo. Afinal é isso que quer dizer "caboclo", ou que o faroeste é mestiço de branco com índio. Não. Faroeste Caboclo se passa na capital da República. Vamos à história (link para a letra completa):

O destemido João de Santo Cristo era uma criança cheia de ódio no coração, desde que o pai fora morto por um soldado, que roubava doações de velhinhas a igrejas, era promíscuo sexual, aterrorizava a região onde morava, e que aos quinze anos foi enviado a um reformatório que lhe encheu de terror. Cansado do marasmo na fazenda, apesar da vida agitada que levava, e após um período filosófico em que tentou achar respostas para a discriminação que sofria, e em que tentou entender como a vida funcionava, mesmo não sendo biólogo, e também porque queria sair para ver o mar e as coisas que ele via na televisão, juntou dinheiro e foi para Salvador, onde encontrou, a tomar cafezinho, um improvável boiadeiro que lhe sugeriu ir a Brasília e lhe deu ou vendeu a passagem de ônibus.

João de Santo Cristo gostou muito de Brasília e quando chegou aqui resolveu trabalhar como carpinteiro, para a referência a Jesus Cristo ficar mais explícita. Sexta-feira gastava todo o dinheiro na zona, onde descobriu que um certo Pablo, traficante cucaracho, era seu primo. João trabalhava até não poder mais, contudo o dinheiro não era suficiente para ele se alimentar, quem sabe porque gastava tudo na zona. Às sete ligava o noticiário e ficava revoltado com as promessas de um ministro, provavelmente do trabalho, de que iria ajudar as pessoas a ganharem mais. Cansado, João resolveu plantar maconha.

João ficou rico e acabou com todos os traficantes da região, por dumping ou mandando matar. De repente, com a velocidade de um raio, sob a má influência dos boyzinhos da cidade ele começou a roubar, algo que não fazia desde a infância, quando roubava por influência do ódio que lhe dera Jesus, um filhinho de papai dono do mundo. O traficante poderoso que havia acabado com a concorrência foi preso no primeiro roubo e trancafiado na prisão. Na Papuda ele apanhou e foi estuprado.

Uma vez solto, abandonou o lucrativo tráfico de drogas que lhe deixara rico e tornou-se um bandido destemido e temido no Distrito Federal. Não tinha medo nem dos playboys que lhe influenciaram a roubar nem de generais. Nesta nova vida ele se apaixonou pela linda Maria Lúcia e arrependeu-se de seus pecados. Como ela era uma menina decente, de família, ele largou a vida de bandido destemido e voltou a ser carpinteiro, porque sempre havia vagas de trabalho na construção civil da nova capital.

O tempo passou, mas a fama de bandido e de traficante não, e um dia um senhor rico fez a João a proposta de explodir uma banca de jornal e de vender drogas em um colégio, provavelmente o Elefante Branco. João recusou a oferta de trabalho e mandou o rico malvado sair de sua casa, gritando para ele não brincar com um Peixes de ascendente Escorpião, apesar de o velho não parecer ter ido à sua casa para brincar e de, segundo os horóscopos, dois signos de elemento água acentuarem a base sensível, emotiva, interiorizada, introvertida, subjetiva da pessoa. Se fosse Hitler, teria gritado "não brinque com um Touro com ascendente em Libra". O velho, com ódio no olhar, disse "você perdeu sua vida, meu irmão".

O senhor estava apenas ameaçando, porque, do jeito que apareceu, sumiu da história, e aquele que o mataria seria Jeremias, com o perdão pelo duplo eco. Mas as palavras "você perdeu a sua vida meu irmão" entraram no coração de João e ele parou de trabalhar para se embebedar. No meio da bebedeira descobriu que sua vaga de carpinteiro havia sido preenchida, mas estava bêbado e não deve ter se importado muito. Apesar de Maria Lúcia ser a menina decente que o fizera se arrepender de seus pecados, e por quem valeria a pena continuar em uma vida correta, João falou com seu primo Pablo e retornou ao tráfico de drogas, afinal agora só havia uma vaga de carpinteiro na nova capital, sempre em construção, e ele a perdera.

Enquanto revendia em Planaltina a droga que chegava da Bolívia, João parou de ir para a casa e de ver Maria Lúcia, talvez porque ela não aprovasse esse estilo de vida ou porque simplesmente não a tinha procurado mais, por no mínimo nove meses. Maria Lúcia, entretanto, apesar de correta, casou e teve filho com um traficante de renome chamado Jeremias, que havia decidido matar João de Santo Cristo, provavelmente para controlar seus pontos de distribuição de drogas. Jeremias desvirginava mocinhas inocentes, como João quando estava no Nordeste, e dizia que era crente mas não sabia rezar. Em compensação, não roubava doações de velhinhas à Igreja, como João, e era bom organizador de "rockonhas".

Santo Cristo recebeu de Pablo um rifle e decidiu esperar Jeremias desafiá-lo antes de usar a arma. Contrariando seus planos, chamou Jeremias para um duelo quando descobriu, em um belo dia em que se lembrou de que havia algures uma mulher que era o amor de sua vida, que Maria Lúcia estava casada com Jeremias e ainda por cima tinha um filho com ele. A notícia do duelo se espalhou e a polícia permitiu que a população, jornalistas, a TV e sorveteiros o acompanhassem ao vivo - atrás dos cordões de isolamento, é certo. Jeremias, mesmo sabendo que a cidade toda assistia ao duelo, aproveitou o momento em que Santo Cristo ficara de costas e atirou nele. Apesar de ter dito que iria matar Maria Lúcia também, por ser uma menina falsa que não era como a Penélope de Ulisses, que esperara vinte anos o regresso do marido sem entregar-se aos pretendentes que acamparam em seu palácio, João provavelmente lhe entregou o rifle logo que chegou na Ceilândia, local do duelo, porque após ser baleado pelas costas, o sol cegou seus olhos e ele, por ver melhor cego, reconheceu Maria Lúcia, que lhe entregou o rifle, uma Winchester 22.

João deu cinco tiros em Jeremias. Maria Lúcia, ao ver o homem que a abandonara matar o pai de seu filho, arrependeu-se e, sabe-se lá como, morreu junto com João - seu protetor, segundo um tal Renato Russo. Provavelmente morreu de arrependimento. O povo chamou Santo Cristo de santo porque achou que ele sabia morrer, afinal havia morrido direitinho - constataram-no tomado-lhe o pulso.

E João não conseguiu o que queria quando veio para Brasília. Numa espetacular reviravolta teleológica, descobrimos que ele tinha um motivo oculto até mesmo do narrador onisciente, que explana no começo da história os motivos pelos quais João deixara o Nordeste. Na verdade, ele queria admoestar o Figueiredo, presidente da República, a ajudar o povo brasileiro, que só sofre. Nunca havia sequer marcado uma audiência com um assessor de um assessor do general, para lhe fazer tal eloquente e originalíssimo pedido. Porque estava muito ocupado traficando, roubando, matando, etc.

E este é o resumo em prosa da maior obra literária que esta cidade já viu.

Após ler o texto e rir da baixa qualidade daquela imundice, pus novamente a folha de jornal no cantinho da área de serviço em que o pobre cãozinho estava encolhido e amuado. De manhã o texto épico já não podia ser lido. Estava pintado de marrom. A capa do jornal estava bela como uma pintura de Pollock...

O Caco melhorou e eu prometi a mim mesmo nunca mais lhe dar gordura de picanha. Ao menos até ver a cara feia de Renato Russo ou alguma de suas letras medíocres impressas no jornal.

9 comentários:

Daniel disse...

Rrsrs...fantástico!!! Uma de suas melhores...

Diego Cunha disse...

É inveja porque ele é famoso e tu não. Sabe fazer melhor? Então cala a boca

Maurício disse...

ahahahah

"Ao menos até ver a cara feia de Renato Russo ou alguma de suas letras medíocres impressas no jornal." kkkk

Tive que ouvir a música e reler o seu texto. Ficou engraçado, e tomei a liberdade de encaminhá-lo a amigos!

Deixo-lhe duas pequenas dicas de portuga: utilizar vírgula antes da conjunção "mas" em orações coordenadas adversativas, e não utilizar crase antes de nomes de cidades (você vai "a" Uberlândia, "a" Santa Maria etc.).

Catellius disse...

Obrigado, Maurício e Daniel.

Diego, você mesmo já deve ter constatado que determinado filme é péssimo. Ou que determinado jogador esteve péssimo na partida. E você necessita fazer um filme melhor ou jogar melhor futebol para constatá-lo?

C. Mouro disse...

PÔ o Jeremias tava mesmo na pior, já que só tinha uma bala, ou poucas, permitindo que o Santo Cristo que acertasse cinco tiros, mesmo com sol nos olhos e ferido ...hehehe!

parece até a entrada do velho cristo no templo pra espancar os precursores da burguesia malvada que não reagiu a suas agressões. ...rsrs

Certamente essa música cheia de ódio tal qual a do cazuza e sua piscina cheia de ratos, foi feita num momento em que RR queria sentar mas não conseguia ...hehehe! ...influenciado historicamente, talvez ...hehehe!

Se virar moda teremos milhares deste tipo de cançao ...

zefirosblog disse...

Um dos lados ruins de ter amigos iconoclastas é receber essas balas perdidas de vez em quando.

Não ouvia a música há anos. Obrigado por destruir uma das minhas canções favoritas da adolescência, Catelli!

Catellius disse...

Salve Mouro e Raphael!


"foi feita num momento em que RR queria sentar mas não conseguia"

Ha ha! E o final daquela música desagradavelmente rousseauniana, Índios?

"Nos deram espelhos e vimos um mundo doente
Tentei chorar (sentar) e não consegui."


Raphael,

"Obrigado por destruir uma das minhas canções favoritas da adolescência, Catelli!"

Que nada, hehe. Continue curtindo a música pelo que ela tem de legal: o ritmo e o som isolado das palavras, ainda que desconexas, hehe.

Abração a todos

Catellius disse...

Meus comentários em negrito e entre parênteses.

Tempo Perdido

Todos os dias, antes de dormir, lembro e esqueço como foi o dia(pseudoprofundidade: lembro e esqueço, a vida é um tipo de morte, etc.). Sempre em frente. Não temos tempo a perder... Nosso suor sagrado é bem mais belo que esse sangue amargo("esse" qual? o sangue amargo é belo, mas o suor sagrado é mais). E tão sério (suor sério) e Selvagem! Veja o sol dessa manhã tão cinza (se dá para ver o sol, como a manhã está tão cinza?). A tempestade que chega é da cor dos teus olhos castanhos... Então me abraça forte (a tempestade é da cor... então me abraça... se a tempestade fosse de outra cor, não pediria um abraço, logicamente) e diz mais uma vez que já estamos distantes de tudo. Temos nosso próprio tempo... Não tenho medo do escuro mas deixe as luzes acesas agora (pseudoprofundidade: tipo, a humanidade é desumana). O que foi escondido é o que se escondeu (akuma???). E o que foi prometido ninguém prometeu (akuma???). Nem foi tempo perdido. Somos tão jovens...(akuma???)


Tudo a ver!!!!!!!!!!

Marcelo disse...

eu nunca tinha lido a letra de Faroeste Caboclo. É um lixo tanto pelo conteúdo (?!) como pela ausência de poesia. Pior ainda, fui ouvir a música até o fim. Melodia pobre, intragável, na voz de bunda do Renato Russo, tendo como única variação uns trechinhos gratadinhos quando ele queria falar de coisas mais violentas. Lixo, lixo, lixo. Nunca gostei de Legião Urbana. Aliás, do Legião eu só não gosto de três coisas: da voz do Renato Russo, das letras e das melodias. Esqueci de alguma coisa?

Abs,
Marcelo

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