29 agosto 2013

Eduardo Sabóia, um ser humano

Eduardo Sabóia foi o diplomata que decidiu retirar o senador boliviano que estava asilado na embaixada brasileira na Bolívia e trazê-lo para o Brasil. Procurando justificar para a elite petista dirigente sua ação, ele comparou a situação do asilado na embaixada à dos presos políticos no Brasil. A presidente Dilma ficou indignada com esta comparação e mostrou mais uma vez o seu destempero ao abominá-la com os olhos marejados. Defendo, entretanto, que Eduardo Sabóia foi um ser humano, pois procurou agir de acordo com a sua consciência.

De acordo com os jornais, o tal senador obteve asilo no Brasil e de acordo com um tratado de Caracas, entre países latino-americanos, quando isto ocorre, deve ser concedido o salvo conduto para que a pessoa deixe o país. O governo indígena esquerdista boliviano desrespeitou o tratado e o Itamaraty se omitiu na questão para não contrariá-lo. De fato, de acordo com o jurista Miguel Reale Jr, até mesmo o abominável Pinochet concedia salvo conduto a asilados políticos permitindo a sua saída do Chile.

Esta situação escandalosa para Dilma se aproxima da situação do sujeito do Wikileaks que está sendo processado por estupro na Suécia, se não me engano, e para escapar de uma extradição se refugiou na embaixada do Peru. A Grã-Bretanha se recusa a conceder o salvo conduto. O tal senador é acusado de corrupção e alega perseguição política assim como o fundador do Wikileaks. As esquerdas consideram absurda a atuação da Grã-Bretanha enquanto aceitam a postura da Bolívia, afinal não é um deles.

Talvez o mais importante desta questão seja a discussão em torno da ação do Eduardo Sabóia. Recentemente, tivemos um filme excelente sobre Hannah Arendt onde é discutida a sua tese da banalidade do mal. Uma das questões centrais do filme foi a sua avaliação de Eichmann, o sujeito que foi sequestrado e condenado à morte por Israel, que estava longe de ser um psicopata, que foi responsável por coordenar os trens que encaminhavam os judeus para os campos de concentração. Era pouco mais que um burocrata, uma pessoa essencialmente medíocre, buscando aceitação social, ascensão profissional e muito provavelmente seria considerado normal em uma avaliação psiquiátrica. Apesar disso, fez parte da engrenagem burocrática que matou milhões.

O Eduardo Sabóia fez justamente aquilo que Eichmann não fez. Ele questionou as ordens recebidas de acordo com a sua consciência e a despeito das pressões políticas e do que provavelmente irá se suceder com a sua carreira no Itamaraty optou por agir de uma forma humana. Sua ação foi condenada pela própria presidente da República, a chefe do Executivo. Sua carreira no Itamaraty provavelmente está terminada. Ele entrou na lista dos inimigos do partido que está no poder. Talvez ele não seja um bom burocrata mas acredito que seja um ser humano no sentido dado por Hannah Arendt.

2 comentários:

Anônimo disse...

Catellius,

A imagem ficou excelente...quem diria que Eichman e Eduardo seriam tão parecidos...

Catellius disse...

Excelente texto, Jorge,

Como nós mesmos agiríamos durante a 2ª Grande Guerra, se fôssemos alemães? Desobedeceríamos nossos superiores e o Estado e esconderíamos judeus por 3, 4 anos no sótão e aguentaríamos nossa esposa reclamando no nosso ouvido o dia inteiro, dizendo que estamos colocando em risco nossa própria família; ficaríamos indiferentes ao sofrimento daqueles que no dia anterior eram vizinhos e pais de amigos de nossos filhos; seríamos um pouco ativos e denunciaríamos judeus às autoridades, por dever cívico, ou, por fim, seríamos muito ativos e promoveríamos a matança de judeus, desde bebês a velhinhos?

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