06 setembro 2013

Um aldrabão, 10 milhões de...

Em meu último post escrevi sobre João de Santo Cristo, o carpinteiro traficante que morreu antes de conseguir uma audiência com o ex-presidente Figueiredo. Este é sobre João de Deus, o não-médico de Abadiânia que faz não-cirurgias, tema da reportagem de capa da Veja Brasília da semana passada intitulada “João do céu e da terra”, ótima porque não deve ter incomodado os que creem no curandeiro, ao passo que dá informações das quais pessoas de bom senso necessitam para identificar um aldrabão.

Segundo lemos em seu site, "João de Deus é um homem nascido em família simples, que tem problemas como qualquer homem comum. Tem defeitos, limitações e é capaz de errar e sofrer como qualquer outro ser humano". Não tem visão de raio-X mas voa - sim, de avião, mas isto é algo que o medroso Chico Xavier não conseguia fazer.

João de Deus levou um tempo para achar um nicho de mercado. Começou prevendo chuvas, mas o Cacique Cobra Coral preferiu incorporar em Adelaide Scritori. Seu ponto inicial de atuação era Brasília, mas em Abadiânia os terrenos eram mais baratos - foram doados pelo prefeito. Lá ele montou seu centro difamatório do nome de Inácio de Loyola, santo que o teria queimado vivo por se dizer possuído por espíritos, e que pularia com médium e tudo em uma fogueira de São João, se hoje incorporasse de fato no curandeiro goiano.

Sua fama cresceu e atingiu o auge quando Oprah o visitou no ano passado. Como Thomaz Green Morton, o guru das estrelas dos anos 80, adora celebridades e as recebe na sua própria casa. Luís Roberto Barroso, Marconi Perillo, Xuxa e Giovanna Antonelli são as Baby Consuelo, Dina Sfat e os Tom Jobim de hoje.

O goiano afirma receber 32 entidades com poderes e personalidades distintos. De acordo com seu humor matinal deve dizer incorporar este ou aquele espírito. As almas usam seu corpo para operar e até mesmo para requebrar. O pediatra e professor de medicina da Universidade de Brasília Ícaro Batista, amigo do médium, disse que “Quando vem a Joana d’Arc, ele dá umas requebradas...”. Embora consigam operar e rebolar, após possuir seu corpo, não são capazes de falar sem sotaque seus arcaicos idiomas nativos e tampouco de dar informações úteis, passíveis de comprovação, sobre suas vidas.

Atendendo três vezes por semana, significativamente mais, portanto, que muitos médicos da rede pública de saúde, e tendo aberto seu consultório em 1976, João de Deus afirma que já atendeu 10 milhões de pessoas. Como Túlio Maravilha, deve contar os gols que fez no jardim de infância. Não se sabe quantas delas morreram da doença que as afligiu a ponto de se hospedarem em uma pousada de Abadiânia, cidade cuja população é apenas 0,17% do total de atendimentos do médium e que tem IDH semelhante ao do Gabão, em parte pela saúde precária, e de esperarem às vezes por dias atendimento ao lado de outros desesperados.

O médium recebe umas mil pessoas diariamente, das oito ao meio-dia e das quatorze às dezoito, o que dá pouco menos de 30 segundos por paciente. Todos ganham ao menos uma mão na cabeça e umas palavras mágicas diferenciadas, escolhidas caso a caso pelas entidades, e ninguém sai sem seu suplemento à base de maracujá, ou passiflora, para a coisa ficar mais científica, ao custo de R$ 50,00 o frasco. Apesar de o remédio ser o mesmo para todos, o princípio ativo é a energia espiritual calibrada especialmente para a enfermidade do paciente. No FAQ do site oficial enfatiza-se que "o suplemento é energizado espiritualmente somente para você, não apresentando benefícios se dados (sic) a outra pessoa". O poder curativo da energia de João de Deus é tanto que uma garrafa de água é vendida na Casa Dom Inácio de Loyola por R$ 1,00 enquanto a energizada sai por R$ 3,00. Os pacientes podem também tomar banho de cristal por R$ 20,00, comprar livros psicografados, camisas brancas e até alugar apartamentos durante o tratamento.

Mas João de Deus não precisa tocar no enfermo para curá-lo. Basta enviar por meio de familiares ou conhecidos que estejam indo para Abadiânia "sua foto e seus dados (nome completo, data de nascimento, endereço completo e, se desejar, o nome da enfermidade)" - palavras dos responsáveis pela Casa. Em alguns casos nem esta burocracia é necessária. Lemos na Veja Brasília: "o oncologista aposentado do Hospital de Base de Brasília Roger Queiroz conta que João de Deus o curou à distância enquanto ele estava em uma UTI da capital. O médium confirma a cura."

Após a consulta, os espíritos encaminham alguns dos doentes para o centro cirúrgico, recinto distinguível dos demais pela plaquinha na porta, e pode-se optar por uma cirurgia com corte ou por uma sem corte, ambas invisíveis e igualmente curativas, segundo o FAQ do site. A esmagadora maioria opta pela última, que dispensa toda aquela aldrabice de simular incisão passando o dedo sobre a área a ser operada, de aparentemente atravessar a pele, de fingir introduzir as mãos nas entranhas do doente e, esguichando sangue de animais de um balão escondido na mão, desfazer-se de fígados, corações de galinha e outras miudezas orgânicas, jamais submetidas a testes de DNA, certamente. Além disso, nesta modalidade o não-médico não se sujeita à câmera lenta de filmagens feitas por céticos infiltrados ou por voluntários descontentes com mais sede de vingança do que direitos trabalhistas. E, afinal de contas, estas prestidigitações sangrentas são para médiuns iniciantes que querem impressionar. De fato, no FAQ do site lemos: "O tratamento na Casa de Dom Inácio é espiritual. As cirurgias, no geral, são sempre invisíveis (sem corte), e não há diferença nenhuma entre as cirurgias visíveis e invisíveis." Se você gosta de espetáculo e pede por uma cirurgia visível e depois, desapontado, não vê quaisquer marcas, é porque a cirurgia visível é idêntica à invisível.

As cirurgias são cicatrizadas com ajuda de pontos invisíveis, os quais devem ser retirados com orações, conforme lemos no FAQ do site: "Na sétima noite após a intervenção (...) deite-se antes da meia-noite com roupas brancas e não se levante antes das cinco horas da manhã. Ao deitar-se, coloque um copo de água fluidificada ao lado de sua cama e peça a Dom Inácio de Loyola que remova seus pontos espirituais e complete sua intervenção." Para quem não sabe, água fluidificada "é aquela em que fluidos medicamentosos são adicionados à água por espíritos desencarnados que, durante as sessões de fluidoterapia, fluidificam a água". Após tudo isso, o paciente morre, se seu caso for mortal, ou continua vivendo, se seu problema não for tão grave.

Segundo lemos no site, "Se você está seguindo alguma prescrição médica, a Casa aconselha que você continue com o tratamento e a medicação indicados pelo médico". Só para garantir, claro. Mas os louros pelas curas serão de João de Deus, que é do raro tipo "faça o que eu digo e faça o que eu faço". Coerente, segue aquilo que prescreve aos seus pacientes. Não descuida da medicina dos vivos. O médium sofreu obstruções na artéria do coração e tratou-se com o cardiologista da presidente Dilma Rousseff e do ex-presidente Lula, Roberto Kalil, que lhe implantou seis stents - reais, não imaginários.

Desesperados do mundo inteiro têm vindo parar em Abadiânia. Lemos na Veja Brasília que Stacie Mythen é terapeuta bioenergética em Seattle, nos Estados Unidos. Stacie não tinha problemas de saúde. Sentia medo. Ainda assim, fez questão de ser submetida a uma cirurgia espiritual com corte. A entidade fez uma cisão no ombro direito até o osso. Ela relata não ter sofrido com dor. “É uma experiência tão profunda que eu só posso comparar ao parto natural”, diz. Sim, parto natural é indolor. O australiano Walter Klocker não conseguia um relacionamento duradouro porque era ciumento e possessivo. Havia tentado psicanálise, todos os tipos de medicina alternativa, terapia cognitiva e rituais xamanísticos, mas somente na Casa Dom Inácio de Loyola encontrou paz e resolveu seu problema ao decidir não se envolver mais com ninguém durante uns dois anos, período em que se enclausurará em uma comunidade de monges budistas, o que sempre dá certo em filmes americanos.

João de Deus, como Houdini, é mestre em safar-se de situações perigosas. Abusou sexualmente de uma moça de 16 anos em um atendimento durante o qual exigiu que o pai ficasse de costas, mas a juíza da comarca de Abadiânia, Rosângela Rodrigues Santos, o absolveu sob o seguinte argumento: “Com efeito, a conduta do acusado, ao afastar-se dos princípios éticos e da caridade que norteiam os ensinamentos de Allan Kardec, foi imoral, mas não caracteriza a violação sexual mediante fraude, por ausência de suas principais elementares”. Poucos sabem que a lei brasileira cita explicitamente os princípios de Allan Kardec como norteadores da ética e da caridade. João de Deus "escravizou" a bela alcoólatra Clarissa Vanazzi por sessenta meses pagando-lhe apenas R$ 29,00 por semana, como se fosse uma médica cubana. Oficialmente, no entanto, deu-lhe uma esmeralda de sete mil reais e, em contrapartida, ela serviu cinco anos gratuitamente na Casa Dom Inácio de Loyola, que fatura 7,2 milhões de reais ao ano e representa a metade do PIB de Abadiânia. Ela jamais prestou queixa, claro. Hoje é dona de uma rentável joalheria e, feliz da vida, credita seu sucesso a João de Deus.

9 comentários:

Carlos Rafael disse...

Muito bom. Não tem nem como ele te processar

zefirosblog disse...

O mais bacana é que nem mesmo é possível aplicar o art. 284 do Código Penal, porque o agente vai se valer do manto da liberdade de crença e invocar o art. 5º da CF.

Aliás, sobre o farsante francês, é impressionante o quanto o espiritismo tem influenciado o meio jurídico. Os maiores nomes do Direito Civil e Processual Civil moderno são adeptos da crença. São caras brilhantes que demonstram essa dicotomia entre a genialidade e a idiotice ingênua. Um deles, inclusive, chegou a escrever um artigo sobre a admissibilidade da prova psicografada no processo. Na época enviei um e-mail questionando acerca de como proceder diante de eventual crime de falso testemunho (denunciaríamos o médium ou o espírito) e qual seria a jurisdição (comum ou divina). Sei lá por que razão, não recebi resposta...

C. Mouro disse...

Esse trecho tem certa relação com as "belas roupas do rei", só visiveis para os melhores ...hehehe!

Pontos invisíveis, quem os vê?

"As cirurgias são cicatrizadas com ajuda de pontos invisíveis, os quais devem ser retirados com orações, conforme lemos no FAQ do site: "Na sétima noite após a intervenção (...) deite-se antes da meia-noite com roupas brancas e não se levante antes das cinco horas da manhã. Ao deitar-se, coloque um copo de água fluidificada ao lado de sua cama e peça a Dom Inácio de Loyola que remova seus pontos espirituais e complete sua intervenção.""

Anônimo disse...

10 milhões de quê? trouxas?

Catellius disse...

Carlos Rafael,

Processar? Pfff... Esse sujeito, além de não saber que eu existo - e mesmo de seus "pacientes" só sabe na hora da leitura a quente (quando seus assessores coletam informações sobre a pessoa, após os cadastros obrigatórios) -, finge-se de morto. Imagine o tanto de processos que tomou antes de se ver obrigado a escrever no FAQ de seu site que não é para abandonar o tratamento médico em nenhuma hipótese...

Grande Rafael,

É isso aí! A tal inteligência burra da qual o Janer sempre fala... O poder de dissociação é realmente impressionante. Como um médico que está na UTI de um grande hospital credita sua melhora a um médium picareta que nem estava lá, que fez tudo à distância? Há aí também um desejo de ser especial, de ter sido escolhido por seres místicos, de ser protagonista de um milagre e desatar a dar testemunhos por aí.
Gostei dessa, do falso testemunho, hehe. Pois é...
Se eu fosse juiz, marcaria data e hora para os espíritos adivinharem um número de 50 algarismos escrito em um papel trancado em um armário. Bastaria o fantasminha enfiar a cabeça através da porta e depois incorporar no médium para escrevê-lo. Se não conseguisse, estaria proibido de dizer incorporar espíritos. Até que algum espírito, mesmo vaidoso e involuído, o ajudasse com o teste, em nome de um bem maior, de milhões de curas, etc...

Catellius disse...

Grande Mouro,

Pontos invisíveis.... hahahaha

É muita picaretagem! Veja que no texto do blog eu praticamente copiei e colei informações do site do médium e da reportagem da Veja.

Definitivamente, o povo é estúpido...

Abraços a todos

Anônimo disse...

Caro aldrabão 2,
Pense o que quiser, não li nem a metade do que escreveu, pois a tua energia paralizou a leitura, entretanto, mais respeito com Chico Xavier. Tomara você ter feito um terço do ele fez pelas pessoas. Mais respeito!

Adriano Souza disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Adriano Souza disse...

Você é leviano, um "expert em coisa alguma". Tão cético por um lado quanto crente por outro por transcrever uma reportagem claramente superficial e habitualmente tendenciosa como as da Veja. Vá em Abadiânia, pesquise, investigue, constate e depois publique as suas conclusões. Sugiro o mesmo à todos. Foi o que eu fiz.

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