28 agosto 2013

Hemorroidas de ouro

Conforme lemos na Bíblia, nos capítulos 5 e 6 de I Samuel, os filisteus apoderaram-se da Arca da Aliança e meteram-na no templo de Dagon, colocando-a junto do ídolo. No dia seguinte viram-no estendido com o rosto por terra diante da Arca. Ergueram-no e na manhã seguinte estava novamente deitado, mas sua cabeça e suas mãos estavam desprendidas e jaziam perto do limiar do templo. E o fogo do Senhor desceu sobre a população e queimou-lhes... melhor dizendo, feriu por sete meses com hemorroidas os habitantes de cinco cidades filisteias pelas quais a Arca passou, desde bebês de colo aos mais idosos, e muitos acabaram morrendo. Depois que as fileiras inimigas sofreram este devastador ataque pela retaguarda, os adivinhos e sacerdotes de Dagon apelaram para a magia simpática e aconselharam os príncipes a devolver aos hebreus a Arca e que pusessem em seu interior, guardados em um cofre, ratos e hemorroidas de ouro como ofertas expiatórias. Os líderes filisteus assim o fizeram e a ira de Javé não se abateu mais sobre a população.

A intuição dos adivinhos e sacerdotes do pobre deus filisteu esquartejado serenou Javé e inspirou em Israel a formação de um departamento especializado de expiadores de pecados em uma inédita modalidade de holocausto em que não havia sangramento de cordeiros em altares, ainda que os sangramentos fossem mantidos. Aqueles que não encontravam trabalho melhor eram recrutados para ingerirem pouco líquido, pouca fibra e passarem o dia sentados. Se nada disso adiantava, os iracundos levitas conduziam-nos para trás da cortina de linho do Santo dos Santos para ajudá-los a produzir entre as bochechas inferiores a odiosa e dolente couve-flor entumecida. Quando atingia-se o objetivo, os funcionários sentavam no gesso úmido, e este era, definitivamente, o momento mais aprazível da profissão. Seco o molde, os levitas enchiam de ouro líquido o côncavo no cal endurecido.

Lá do alto Javé seguia todo processo murmurando "assim, assim, isso...". Quando levavam as hemorroidas de ouro ao templo, dentro da Arca da Aliança, o criador do universo aguardava as portas se fecharem, transportava para o céu as pedrinhas, brilhantes como estrelas, e as contemplava, deleitando-se com a agonia que representavam. "Serão símbolo de sofrimento e também de expiação, estarão nos altares do mundo inteiro, em Roma haverá uma hemorroida descomunal esculpida em mármore de Carrara por Vincenzo Gemito e em Assis os afrescos de Giotto di Bondone lembrarão à cristandade o supremo sacrifício do Messias, morto empalado", pensou um dia. Mil anos depois, precisamente no ano 70 a.C., enquanto assistia de camarote à divertida morte de Espártaco na cruz, lembrou-se de que ele próprio é que sofreria lá no Gólgota toda aquela agonia que planejara, mudou de ideia e conduziu os acontecimentos de modo que fosse crucificado pelos romanos 103 anos depois.

Apesar de Jesus ter de fato morrido na cruz, o linguista alemão Alois Walde defendia que na Roma antiga o termo "crucifixão" também podia se referir a empalamento. Isto deriva do fato de a cruz ser formada pelo esteio e pelo patíbulo, a trave horizontal que o sentenciado carregava, e de os romanos usarem o primeiro termo para designar ambos empalamento e crucifixão, distinguíveis apenas no contexto dos escritos. Além disso, a palavra grega Staurós (σταυρός), traduzida na Bíblia como "cruz", significava originalmente estaca ou poste. Daí a confusão que muitos fazem em torno ao modo como o Messias morreu. Eles também não consideram profecia a seguinte passagem nos Salmos: "Traspassaram minhas mãos e meus pés".

Seiscentos anos depois Javé decidiu mitigar a agonia daqueles que seguiram seu filho (ele mesmo) - os cristãos -, e lhes enviou São Fiacre, hoje o padroeiro de quem sofre de hemorroidas. Este irlandês padecia da desagradável enfermidade, chamada posteriormente na alta Idade Média de "Mal de São Fiacre", e num belo dia sentou-se em uma pedra e foi milagrosamente curado. Hoje peregrinos vão à igreja que leva o nome do santo, na Bretanha, e imploram por uma cura enquanto assistem à missa inteira ajoelhados, por fé e também porque as doações não permitiram ainda acolchoar os bancos. Quando o santo não os cura apelam para a cirurgia e depois agradecem a Deus por tanto amá-los...

6 comentários:

Anônimo disse...

Pra que eram os ratos?

C. Mouro disse...

Não se trata de idealistas x realistas, mas sim de espertalhões e invejosos x realistas.

Um sujeito tomado por uma vaidade doentia quer exibir-se perfeitamente enquadrado na moral que o valoriza na comunidade. Essa moral estabelecida para pautar o "comportamento perfeito" foi arbitrada por uma entidade incriticável, soberana e suprema sobre os humanos. Assim ficou estabelecido que o comportamento "salvador" que atribui ao indivíduo o máximo valor como tal não é a honestidade, nem inteligência, nem grandes habilidades, nem criatividade, nem senso justiça, nem o orgulho que o faz desejar ser integro, nem ...não segundo a moral arbitrada e estabelecida como verdade pretensamente ética (ciência da moral) o valor do indivíduo esta em:

- Perdoar a quem o agride, rouba, tiraniza e explora.
(Isso era muito conveniente ao Estado romano e suas autoridades)

- Amar o seu inimigo e ajuda-lo, ceder a ele o que exigisse e ainda mais.
(Isso também era conveniente ao Poder romano, governo, estabelecido)

- Ser pobre e viver da caridade ou então sustentar os pobres atendendo-lhe as necessidades mesmo a custo das próprias. Acumular riquezas, mesmo honestamente é ganância e opor-se a impostos e caridade é avareza, pecados dignos dos malvados.
(Isso era perfeito para os interesses dos governantes romanos: manipulava os miseráveis afagando-lhes a vaidade frustrada e ainda os insuflava contra os ricos e rebeldes que recusavam-se a pagar impostos e eram taxados de ganânciosos malvados e materialistas)

- Desprezar a si mesmo em favor alheio ou da coletividade. Fazendo do auto sacrificio para o benefício alheio um elevado valor moral.
(Evidente a conveniência do sacrificio do privado em benefício do público, da pátria=governo)

- Não reagir contra as injustiças percebidas e basear a idéia de justiça no atentimento de necessidades. Como se necessidade fosse o mesmo que direito.
(Assim atendendo a conveniência do governo arrecadar para atender necessidades alheias)

- Amar o mau e aceitar o mal, não se opondo a eles mas sacrificando-se porque o sacrificio, a dor e o sofrimento valorizam moralmente o indivíduo que não reage ao mal nem ao mau.
(Nem é preciso explicar a conveniência disso para o governo romano em suas conturbações e decadência - basta olhar a história e como foi a manutenção do Poder a pós Otaviano)

Enfim, ainda no Império romano elaborou-se uma moral para manipular as massas e sobretudo semear a discórdia, a inveja, a cobiça pelo alheio, o ódio e o desprezo pelo orgulho (não a soberba) que induz ao comportamento justo, reto. Estabelecendo o pieguismo e o falso sentimentalismo como exibição de valor moral em franca oposição à razão e aos fatos fazendo do exibicionismo pretensamente idealista a merlhor forma de ostentação moral onde as palavras superam as ações.

É isso que vige desde há muito e no Sec XX aboliu completamente a racionalidade da filosofia estóica para a absoluta hegemonia da ideologia ascética.
Não foi por acaso que a filosofia estóica sofreu uma tentativa de abafamento com a destruição de grande parte do que produziu. Porém, a realidade e dignidade da filosofia estóica e sua pretensão ética se manteve por muito tempo um tanto instintiva, dada sua realidade. Assim, a ética estóica apenas foi superada através da propaganeda massificante com os meio modernos de comunicação e doutrinação. Superar essa propaganda moral piegas é uma tarefa ciclopica.

C. Mouro disse...

O Coment colado foi errado ...rs

...hehehe!!!
Suprema essa, um primor mesmo:

"Mil anos depois, precisamente no ano 70 a.C., enquanto assistia de camarote à divertida morte de Espártaco na cruz, lembrou-se de que ele próprio é que sofreria lá no Gólgota toda aquela agonia que planejara, mudou de ideia e conduziu os acontecimentos de modo que fosse crucificado pelos romanos 103 anos depois."

...hehehe!
Abração!

Carlos Rafael disse...

De fato,

Homeric and classical Greek[edit source | editbeta]

In Homeric and classical Greek, until the early 4th century BC, stauros meant an upright stake, pole,[5][6] or piece of paling, "on which anything might be hung, or which might be used in impaling [fencing in] a piece of ground."[7]
In the literature of that time it never means two pieces of timber placed across one another at any angle, but always one piece alone.[8]

Catellius disse...

Para que eram os ratos de ouro?

Boa pergunta.

Um primo meu acho o texto muito ofensivo.
Vejamos: 1º parágrafo: só descrevi o que está na Bíblia.

2º parágrafo: imaginei uma nova modalidade de sacrifício em Israel. De qualquer modo, a parte do gesso deve ter ocorrido entre os filisteus.

3º parágrafo: Tudo bem, aqui fui sacana.

4º parágrafo: É a pura verdade.

5º parágrafo: Não creio que os que padecem do desagradável mal se dignam hoje a rezar, quando remover o problema cirurgicamente é tão mais fácil.

Lia¬¬ disse...

Grande C. Mouro!:) Bom saber que está vivo e afiado como sempre! Fez falta no antigo blog com o cuisp, cuisp!

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