01 outubro 2009

Melhor estivesse no Madame Tussauds

Trecho do PowerPoint que recebi sobre o corpo de Bernadette Soubirous:

"(…) …tantos anos depois de sua morte, por seu corpo corre ainda sangue líquido. É algo Sobrenatural e todo o sobrenatural é obra de DEUS. O caso é que a Igreja decidiu pô-la numa urna de cristal em Lourdes, para a veneração de todos os que ali acodem. Hoje, Santa Bernadette teria 165 anos de idade."

Todo sobrenatural é obra de um deus? E por que não de um ET brincalhão? Ou por que não de Pierre Imans, o designer de manequins que reconstruiu o rosto e mãos de Bernadette com cera a pedido da Igreja, para os fiéis não ficarem chocados?

Foram necessárias fotografias para ele chegar às feições porque, embora o cadáver estivesse meio preservado por sais de cálcio(?), o rosto estava escuro, desfigurado, os olhos afundados, estava sem a ponta do nariz, trechos do corpo sem pele. Basta ver as fotos de Bernadette para entender que o artista que se celebrizou pelos manequins de loja deu de presente ao cadáver da camponesa uma rinoplastia para aproximá-la do ideal estético greco-romano, pagão, como toda iconografia católica.

Para vermos bonecos que pareçam vivos basta ir ao Madame Tussauds, aquele famoso museu de cera. Pelo menos não vêm recheados com um cadáver. E figuras como Shakespeare, que lá também parecem vivas, foram muito mais importantes para a humanidade do que uma camponesa que afirmou que a mãe de Jesus, a quem é dado um tratamento meio de segunda classe a partir dos trinta anos do filho - este nem se digna a lhe receber durante uma pregação, quando ela manifesta esse desejo -, nasceu sem herdar o pecadilho de Adão e Eva. Parece coisa de São Tomás de Aquino, o Doctor Angelicus, que sabia até o número de penas que um anjo tinha. As coisas passam a ser ou a não ser de acordo com pronunciamentos papais, de teólogos e de santinhos.

Esse culto à morte, essa fixação necrófila com glotes, cabeças, dedos, esse circo de horrores católico, é grotesco. Exumaram recentemente os restos de Joana D'Arc, perante os quais tantos se ajoelharam e obtiveram milagretes e curas, e acharam um fêmur de gato, uma costela humana e um trapo de múmia egípcia com uns 2500 anos de idade. Como bem disse Carlos Esperança, "O carbono 14 faz pior às relíquias católicas do que o CO2 ao aquecimento global". E, por séculos, diversos sagrados prepúcios de Cristo (circuncidado, como bom judeu) estiveram espalhados por igrejas italianas, e foram sumindo um a um, até o último ser roubado em 1983, após uma procissão com centenas de devotos católicos. O Sagrado Prepúcio era bom para fazer mulheres estéreis engravidar. É para rir!

Para um ser omni-tudo, o milagre do corpo incorrupto de Bernadette Soubirous foi tão mal feito, tão pela metade, que foi preciso um artista de bonecos para não deixar o resultado repulsivo. Da próxima vez que se invoque Zeus, Odin, Baal. Quem sabe o cadáver não ficará mais bonitinho, como o da Santa Evita Perón?

"por seu corpo corre ainda sangue líquido" - Mentiras "bem intencionadas", para variar...

------------

Voltando à Joana D'Arc

Por que o deus dos católicos os curaria por se ajoelharem perante um trapo de múmia, um fêmur de gato e uma costela humana que teriam pertencido a uma santa que matou cristãos ingleses em nome de Jesus sob as ordens do próprio criador do universo transmitidas por anjos?

O seu deus estaria endossando milhares de coisas apenas no simples ato de atender alguém que pede uma graça ajoelhado perante as relíquias de Joana D'Arc; desde a completa inutilidade de uma relíquia ser verdadeira - imaginem que tipo de relíquia apareceria por aí - até o assassínio em nome de um deus.

Há, claro, a hipocrisia da Igreja que não coloca a mão no fogo pela autenticidade das relíquias mas às vezes reluta em submetê-las à análise de cientistas, reconhece sua falsidade mas não as retira dos altares ou tenta inibir que fiéis façam promessas perante elas. A própria Catholic Encyclopedia diz, no site, que muitas relíquias são comprovadamente falsas mas como o povo, por tradição, está acostumado a venerá-las, a coisa é, digamos, tolerada.

------------

San Genaro

O Catholic Encyclopedia não diz que o "milagre" de San Genaro é falso. Diz, contudo, que a mesma liquefação tem lugar em várias outras relíquias nas vizinhanças de Nápoles ou em relíquias Itália afora trazidas dessa cidade. Acontece o mesmo com o suposto sangue de João Batista, de Santo Estevão, São Pantaleão, Santa Patrícia, São Nicolau de Tolentino, São Luis Gonzaga e muitos outros. O site cita um ou outro como "probably a pure fiction".

Pois bem... O mesmo patrão da Catholic Encyclopedia é o patrão das igrejinhas ao redor de Nápoles que também fazem seus milagres de liquefação. O patrão sabe mas deixa o rebanho crédulo lá estupefato perante a "ficção" porque, afinal, é tradição...
Só por isso?

5 comentários:

André disse...

Já vi muito disso na Europa, essas “relíquias”, de gente morta embalsamada e reconstituída a restos mortais (o esôfago não sei de quem, a laringe, a língua, sei lá). Acho isso nojento. Gosto da arte, da arquitetura das igrejas, da história. Não quero entrar numa pra dar de cara com isso.

Maria é ainda mais secundária para os protestantes, que não suportam o politeísmo católico (os santos) e, claro, as várias formas de Nossa Senhora. Eles não dizem isso, mas fica implícito que Maria não conta muito na história.

Acho São Tomás de Aquino superestimado. Santo Agostinho era bem mais interessante. E por mais voltas que Aquino tenha dado pra adaptar Aristóteles aos dogmas da Igreja, ele não pode ser posto no mesmo nível dos filósofos gregos e outros. Quem diz isso é Bertrand Russell na História da Filosofia Ocidental (em 3 volumes, não aquela condensação tardia feita pelo próprio, História do Pensamento Ocidental, que também é boa).

Outra coisa besta é a fixação desse povo em pedaços da cruz, como se fosse possível preservar com certeza uma entre milhares que eram usadas pelos romanos — e haja pedaço pra tanta gente e tantos lugares, essa cruz deveria ser do tamanho da Paelstina — sem falar naquela tapeçaria/obra medieval, o Santo Sudário, obviamente um tipo de desenho, de gravura num pano. Nenhum ser humano, enrolado num tecido, deixaria aquele tipo de marca, pelo simples fato de que aquilo não é uma marca, é uma pintura bem nítida, só isso. Acho até legal, mas vejo aquilo como o que ele é.

Chegaram até a reunir uns acadêmicos, experts (não sei em q), estudiosos, enfim, pra “determinar” qual seria o Santo Graal. Escolheram uns três ou quatro, peças bizantinas, romanas, medievais, uma super enfeitada, outra mais ou menos e uma bem simplezinha. Lembrei do terceiro Indiana Jones e pensei “ah, eles vão escolher a mais simplezinha”. Não, escolheram a do meio, a luxuosa, mas nem tanto. Deram um monte de explicações malucas pra isso. Não é possível, esses caras devem ter sido muito bem pagos pra participar disso. Agiam como se fosse arqueologia séria, História factual, sólida...

Dizem que Joana D’Arc foi uma invenção da nobreza da época. Afinal de contas, jamais a aristocracia se curvaria a uma camponesa, provavelmente analfabeta. Pode até ter existido, mas que a história foi bem aumentada, isso foi. Além do mais, os nobres guerreiros, militares, nunca aceitariam a liderança de uma mulher, e ainda por cima saída do campesinato. Acho que nem um camponês homem eles teriam aceitado.

Quanto a esses reservatórios de sangue que de quando em quando voltam ao estado líquido, isso pra mim está no mesmo nível das imagens santas que choram.

André disse...

“muitas relíquias são comprovadamente falsas mas como o povo, por tradição, está acostumado a venerá-las, a coisa é, digamos, tolerada”

Pois é. Dá muito, muito dinheiro também. Reliquias, o comércio de artigos, os pontos de peregrinação... Minha mãe, que é 50% católica e 50% ecumênica, sem exageros, fanatismos, e cuja religiosidade não visa o mal a ninguém (diferente de muita gente carola por aí) gostou de ter conhecido Fátima, Lourdes, as construções e etc e tal, mas detestou os excessos daquele povo, as provações de fé, digamos, físicas (autoflagelação moderna) e, sobretudo, aquela vulgarização. Tudo é massificado. Por exemplo, em Fátima ela comprou uma vela e queria acendê-la e colocá-la num lugarzinho... pra velas, só isso. Legal. Aí descobriu que não podia, porque passa tanta gente por ali que eles não teriam onde enfiar tanta vela. Fica um seminarista com cara de sardinha lá recebendo as velas e as atirando dentro de um incinerador — uma frigideira enorme, na verdade, o troço mais ridículo. Derrete milhares delas, toneladas de cera, imagino. Vulgar, tosco, feio. Ela e a minha tia deram meia volta e saíram da fila.

Só faltava o Padre Marcelo Rossi, com aquela cara de demente, dançando o “vira” enquanto rezava o “terço bizantino” para Nossa Senhora “Destadora dos Nós” (grande modismo entre velhotas católicas e senhoras gordas da platéia, se refastelando de rir com as tiradas genitais, ops, geniais, da Hebe). Antes de “batizar” coletivamente um monte de barangas jogando água direto de um balde em cima delas.

Anônimo disse...

'Para vermos bonecos que pareçam vivos basta ir ao Madame Tussauds, aquele famoso museu de cera. Pelo menos não vêm recheados com um cadáver.'

Ja assistiu o filme 'A Casa de Cera' (the wax hous)? Um thriller teen q mostra justamente uma cidade de bonecos de cera e dentro de cada um o cadaver assassinado pelo serial killer.

Abs
Carlos

Catellius disse...

Valeu, André!

"Chegaram até a reunir uns acadêmicos, experts (não sei em q), estudiosos, enfim, pra “determinar” qual seria o Santo Graal."

O que acontece, é que esse tipo de assunto dá audiência para o Discovery Channel. É uma baboseira, claro.

André disse...

Ah, mas o Discovery channel também tem muita coisa legal. Gosto daqueles programas que mostram como as coisas são feitas (lãmpadas, canetas, TVs de plasma e de LCD, vidros, pilhas e baterias, etc)

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...