17 dezembro 2012

Apocalypse Simulator Release 2012

Lemos na última Veja que uma em cada dez pessoas acredita que o mundo acabará em 2012, segundo pesquisa Ipsos Global Public Affairs, em 21 países.

Perdi uma boa oportunidade de enriquecer licitamente. Abordando transeuntes aqui e no exterior, não teria sido difícil descobrir alguns dos 700 milhões que creem no tal Apocalipse Maia, a suposta profecia astrológica de um povo incapaz de calcular o fim da própria civilização mas preciso ao fazê-lo com o da nossa. Se eu abordasse 500 chegaria provavelmente a 50 crentes. Se dentre estes um único acedesse a me vender suas propriedades pela metade do preço de mercado, recebendo no ato o pagamento mas delas mantendo o usufruto até 21 de dezembro, quando então a posse passaria para mim, aí eu teria feito um grande investimento. No dia 22 de dezembro eu possuiria, por exemplo, um imóvel de 1 milhão que me teria custado 500 mil. O crente apocalíptico, embora pobre, estaria vivo, a contemplar pássaros, a natureza, na presença de familiares e amigos – quer prêmio maior? No caso de acabar o mundo, teve alguns meses para dissipar uma pequena fortuna, sem sair de seu lar, sem perder o aluguel de suas propriedades.

Na prática, contudo, seria assaz difícil encontrar alguém tão parvo. Muitos veados chapados devem ter vendido suas propriedades e se mudado para a Chapada dos Veadeiros, mas quantos simplesmente as abandonaram ou distribuíram os dividendos obtidos na venda? Aposto que nenhum. Schopenhauer dixit : “Se uma proclamação pública repentinamente anunciasse a anulação de todas as leis criminais, imagino que nenhum de nós teria coragem de ir para casa sob a proteção das causas religiosas.” Numa fábula de Esopo, enquanto o navio afunda, um rico reza para Atena e lhe promete mil oferendas caso se salve. Um náufrago adverte: “Convoca Atena e também teus braços”. No fundo, mesmo os fanáticos creem sabendo que podem estar errados, senão não creriam, saberiam. Senão não seriam tão truculentos com a descrença alheia, posto que saberiam ou teriam plena convicção de que indizíveis tormentos os aguardariam na outra vida. Não creio que o céu seja azul, que as árvores sejam verdes. Sei que são.

Não há uma crença mas uma atração e um desejo de Apocalipse. Esperá-lo é, de certo modo, vivenciá-lo. Será quando o vizinho que seguramente enriqueceu roubando, porque sou superior a ele e ainda assim mais pobre, pagará seus pecados, será quando todas as casas ricas serão destruídas junto com meu apartamento de dois quartos, quando não precisarei mais me olhar no espelho, trabalhar e competir para sobreviver. É uma atração suicida que também demanda destruição, típica de ressentidos, como esses losers que abrem fogo contra inocentes em escolas. Não é à toa que o que dá prazer para gente desse tipo é imaginar - amiúde com uma ajudinha de Hollywood - o Empire State e a Torre Eiffel sendo destruídos, como gigantescas estátuas de Buda escavadas na rocha virando farinha sob os pés encardidos dos Talibãs. Não tem graça imaginar africanos famintos sendo arrastados com suas malocas por ondas de centenas de metros de altura. Ora, formigas morrem todo dia. Qual a atração nisso?

Qualquer coisa é motivo para se vaticinar o fim do mundo. Efeito Estufa, Guerra Atômica, números decimais cheios de zeros: o ano 1000, por exemplo. O belo número cheio de bolinhas perde completamente a importância quando pensamos que o sistema poderia ser duodecimal e não decimal. A escala básica seria: 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 (x) (y) 10 - o "10" seria uma dúzia. “X” e “Y” seriam signos originais, como os números de 1 a 9. O "20" seria a grafia para duas dúzias. O ano 1000 duodecimal aconteceria no 1728 decimal, um anozinho como qualquer outro; nada, digamos, cabalístico. O universo não está nem aí para nossas convenções. Não tem sequer consciência. Mas é claro que as forças do destino usam a convenção humana para estabelecer eventos marcantes, principalmente os futuros.

Sempre foi fascinante o caos iminente pregado por profetas ensandecidos, que, alheios à lógica dos homens estão portanto mais próximos da lógica de Deus, segundo o sapientíssimo senso comum. Como nas montanhas-russas, que simulam situações limite, de quase morte, ou em filmes de serial killers, quando, na pele da vítima mas na segurança de nossas poltronas sentimos a morte se aproximar sabendo que terminaremos o filme vivos, de igual modo os crentes no fim do mundo se reúnem em fazendas, como se adentrassem uma Arca de Noé, para aguardar a grande destruição que jamais virá, fruem de toda preparação, das preliminares que não redundarão em orgasmos, dão as mãos, rezam, têm pesadelos, abraçam-se e... como em todas as vezes anteriores, veem amanhecer o Day After, idêntico ao Day Before, e comemoram o milagre: “Nossas orações foram atendidas! Deus cancelou nada mais nada menos do que o Fim do Mundo por conta de nossas poderosas orações!” E retornam felizes da vida para as propriedades de que jamais se desfariam.

E há aqueles que dão cabo da própria vida, quase sempre em grupo, pouco antes do fim anunciado. Estes são meros suicidas que desejam entrar para a glória da história por meio de uma nota de rodapé em algum jornal, como os emos que pulavam do alto do Shopping Pátio Brasil, ou muito estultos por perderem o grandioso espetáculo cinematográfico apocalíptico, durante o qual poderiam facilmente, para evitarem a terrível dor da submersão em lava, meter uma bala de 38 na cabecinha oca...

9 comentários:

Mário disse...

Gostei do artigo. O tom poderia ser menos raivoso. Acho também que seria bom você tomar cuidado com brincadeiras do tipo da "Chapada dos Veadeiros", porque tem gente cujo nariz é insensível a trocadilhos mas é capaz de farejar qualquer coisa que possa ser atribuída a preconceito e gerar alguma multa em favor da causa.

Anônimo disse...

És crente?

zefirosblog disse...

"Apocalipse Maia, a suposta profecia astrológica de um povo incapaz de calcular o fim da própria civilização mas preciso ao fazê-lo com o da nossa" Rs...

Quanto ao suposto tom raivoso, acho que talvez ele tenha sido confundido com o inteligente sarcasmo próprio dos textos do Catellius. Aliás, se ele aderisse a esses conselhos, Mário, seus textos deixariam de ser tão bons...

Mário disse...

É apenas um ponto de vista: De que a argumentação perde um pouco de sua força na medida em que transpire um excesso de emocionalidade. Mas... qual é a medida e o que é excesso, eis uma questão que fica em aberto. Proponho apenas uma reflexão a respeito, com base numa impressão subjetiva.

Catellius disse...

"...seus textos deixariam de ser tão bons..."

Opa, obrigado aí, Raphael. Não são "tão" bons, na verdade, sem falsa modéstia. Sou um medíocre com plena consciência de sua mediocridade, portanto não tão medíocre quanto a maioria dos medíocres, hehe.

E você, quando vai atualizar seu blog? Às vezes entro lá e nada! Nada a dizer de 21 de abril até hoje? Ou é falta de tempo mesmo...

He he! Brincadeira. Sei como funciona.
Abs

zefirosblog disse...

Fala, Cat,

Estou afastado do blog. Tenho mantido contato com o pessoal especialmente pelo Facebook, posto uma coisa ou outra por lá - segui a linha do Janer.

Faz uns 3 dias, uma representação minha derrubou na cidade de Salto totens que indicavam ser o município "A cidade do Senhor Jesus". Ouviu falar? Veja se o link abre aí: http://www.facebook.com/#!/photo.php?fbid=464217476958039&set=a.237522772960845.57675.100001093738315&type=1&theater

Catellius disse...

Grande Raphael!

Não, não tinha ouvido falar da representação. Muito bem! Você é um laicista atuante, então! Eu só resmungo e não faço nada, hehe.

Grande abraço!
Catelli

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