16 setembro 2009

Para uma amiga muito querida, que passou a gostar de óperas

Janer Cristaldo


Uma amiga muito querida – que tive a honra de introduzir no mundo da ópera - me pergunta se é possível a qualquer pessoa gostar de ópera ou é um gênero musical exclusivo aos apreciadores de música erudita. Qual o motivo de a ópera ser tão pouco divulgada no Brasil, a ponto de praticamente não existirem CDs e DVDs produzidos aqui? Quais minhas óperas diletas em termos de enredo e música?

Para começar eu diria que o normal seria as pessoas gostarem de música erudita. Anormal, a meu ver, é gostar de bate-estaca. Não considero que se precise conhecer música a fundo para gostar de ópera. Claro que quem conhece música terá melhores condições de curtir o gênero. Eu, para não ir mais longe, aprendi a ler partituras no ginásio. Hoje, não consigo mais lê-las. Nem por isso deixo de me comover até as lágrimas com certas árias. Quando me perguntam se uma ópera foi bem executada, minha resposta é: “não sei”. Não conheço música a ponto de saber se os cantores foram sublimes em suas interpretações. Fico apenas no adorei, gostei ou não gostei. Isso vai depender de outros elementos que não apenas a música, como o libreto, a encenação e inclusive le physique du rôle dos personagens. Uma mulher gorda ou velha pode cantar muito bem Carmen. Daí a representá-la, em carne e osso, vai uma longa distância.

Já contei, mas conto de novo. Foi por aí que adquiri ojeriza à ópera, quando jovem. A soprano pra toda obra, em Porto Alegre, era uma rotunda senhora, a Eny Camargo. Até poderia ser uma aventura intelectual ouvi-la cantar, já não lembro. E não lembro porque havia uma barreira, aquela mulher baixinha, velha e quadrada representando uma cigana jovem, sedutora e sensual. Assim, não há quem possa gostar do gênero. Há alguns anos, comprei uma Carmen com a mezzo-soprano grega Agnes Baltsa. Não dá. Passou da idade. Voz também envelhece. Prova disto, é que você consegue identificar a voz de um velho ao telefone. Em compensação, sou capaz de rever e rever a versão filmada de Francesco Rosi, com Julia Migenes. Vou mais longe: Carmen, se não tiver cara de puta, não convence.

Só fui me reconciliar com o gênero aos trinta anos, em Paris, quando vi uma Carmen divina, toda meneios, dançando chez Lillas Pastia. Ópera podia ser algo lindo, não aquele espetáculo grotesco que eu via na Reitoria da UFRGS, em Porto Alegre. Música erudita é como literatura. Você começa lendo autores como Machado e passa a detestar toda a literatura.

Da mesma forma, um Pavarotti ainda jovem representando Don Giovanni, tudo bem. Seria ridículo se o representasse no final de sua vida, quando chegou a carregar 175 quilos. Me consta que em uma de suas últimas apresentações, teve de ser posto no palco com um guindaste. Suas pernas não agüentavam a subida. Nessas circunstâncias, creio que eu não iria nem ao bar da esquina.

A ópera foi um gênero popular entre os séculos XVII e XIX. Era o cinema da época, onde se encontravam nobres, burgueses e povão. Tanto que os teatros, se tinham camarotes de luxo, também previam coxias populares, para estudantes e gente do povo, que levavam banquinhos ou assistiam o espetáculo em pé. Como ainda hoje. Aliás, participei disto em Viena. Estávamos, eu e a Baixinha, em um café em Viena, justo face a Wiener Staatsoper. Foi quando ela inventou: e se fôssemos à ópera? É só atravessar a rua. A idéia me pareceu utópica. Como conseguir uma entrada na hora numa ópera em Viena? Tentar não custa nada – insistiu a Baixinha. Atravessamos a rua. A obra era O Rapto no Serralho, de Mozart. Ainda havia ingressos. Mas só os reservados para estudantes, no último poleiro e em pé. Preço equivalente a dois dólares, na época. O café que eu acabara de tomar custou-me cinco.

Passei maus bocados na Staatsoper. Todo mundo em smoking e black tie. Eu, com meu humilde parka, fiel companheiro de todas minhas viagens. Pior ainda: fui despido na chapelaria. Meu parka foi intimado a ficar na entrada. Me senti nu. Enfrentei a multidão de pingüins em manga de camisa. Enfim, não iria alugar um smoking para assistir um espetáculo pelo qual paguei dois dólares. Mas que é desconfortável, é.

Na Europa, as casas de ópera ainda insistem no traje a rigor. É hoje um espetáculo para elites. Mas você não será barrado se entrar com jeans e parka. Uma das poucas coisas que gostei em Nova York foi a nonchalance dos freqüentadores do Metropolitan ou da City Opera. Não lembro de ter visto ninguém emperiquitado. De modo geral, traje esportivo e mesmo jeans e tênis.

Ópera é o espetáculo multimídia por excelência, concebido séculos antes mesmo de que se pensasse não digo em multimídia, mas em mídia. Tem tudo: som, imagem, movimento, canto e música, pintura, teatro, literatura e poesia. O libreto de Don Giovanni é de uma poesia extraordinária. O mesmo diga-se de Carmen. A origem do gênero retrocede aos anos 600, quando surge o cantochão da liturgia cristã-católica ocidental. Uma missa cantada sempre tem um pouco de ópera. Eu, ateu, já me comovi com missas na Stephansdom, em Viena, na Notre Dame e na Madeleine em Paris. E já assisti inclusive uma missa gregoriana no mosteiro São Bento, aqui em São Paulo. Nós, ateus, não somos hostis à grande arte. Ainda que religiosa.

Quanto ao fato de ser pouco divulgada no Brasil, isto se deve em parte que estamos irremediavelmente contaminados pelos bárbaros ruídos ianques. Não é que apenas a ópera não seja divulgada no Brasil. A boa música popular européia também não o é. Quem conhece aqui cantores como Evert Taube, Sven-Bertil Taube, Mikis Theodorakis? Ou mesmo este monumento da canção francesa – que em verdade é belga – Jacques Brel? As letras de Brel me enlevam quase tanto quanto os libretos de Da Ponte. Mas se vou procurar em uma loja os CDs de Brel, aqui em São Paulo, só por milagre vou encontrá-los.

Um outro problema no Brasil é que ópera é uma produção cara. É preciso corpos de ópera em constante treinamento e isto não custa pouco. Justo quando se necessitaria de um auxílio estatal, o Estado está ausente. O Estado só se faz presente para financiar mediocridades, tipo os caetanos e gils da vida, a Máfia do Dendê. Na Europa, dado o grande público, a ópera é bem mais difundida.

Mesmo assim, há um certo público no Brasil para a ópera, um tanto restrito mas não muito pequeno. Quando fui ver a Cavalleria Rusticana, no Theatro São Pedro, quase não havia lugares vagos. E isso que foi encenada por uma orquestra, não de Nova York ou Viena, mas de Guarulhos. (Tive a honra, no dia seguinte, de almoçar com Santuzza, isto é, com a soprano Laura de Souza, que conheci em Santa Maria quando ela, menininha, ainda nem sonhava com a brilhante carreira que faria na Europa).

Aqui, quando surge uma ópera de prestígio, o Teatro Municipal lota. Claro que na Europa há um público bem mais amplo. Viena, Salzburg, Paris, Roma, Berlim, Madri são grandes centros operísticos. Nova York também. Daí uma produção maior e mais caprichada. O advento do DVD estimulou muito a produção de óperas. Agora posso ver, no conforto de meu apartamento, óperas de Mozart mais vezes – dezenas, centenas, milhares de vezes mais, se quiser – do que o próprio Mozart conseguiu ver. Em versões que ele nem sonhou.

Minhas óperas prediletas? Já devo ter contado. São três. Carmen, Don Giovanni e A Flauta Mágica. Tenho várias versões destas três. Cada uma é cada uma. A Carmen mais linda que conheço é a de Francesco Rosi. É filme, não ópera filmada. Isto é, a história não se desenrola em um palco, mas em cidades como Sevilha e Ronda, e na montanha. A dança que Carmen dança para seduzir Don José é um dos mais sublimes - e sensuais - momentos da ópera.

Depois, posso pensar em Nabuco (o "Va pensiero" sempre me faz chorar), Aida, Rigoletto, Cosi fan Tutte, Le Nozze di Figaro, La Traviata, L'Elisir d'Amore, Il Barbiere di Siviglia, Il Trovatore, L'Italiana in Algeri. Dica ao leitor: para guiar-se no mundo da ópera, há um dicionário soberbo, o Kobbé. Já está traduzido no Brasil e foi publicado pela Jorge Zahar.

Falar nisso, em novembro próximo, estarei em La Favorita, em Madri. Com a Primeira-Namorada a tiracolo. É um restaurante onde os garçons são estudantes de música e cantam árias durante a ceia. Caso o leitor queira visitá-lo, ainda que virtualmente, le voilà: http://www.youtube.com/watch?v=Ql-o8KRPOSM.

Vale a viagem.

15 comentários:

Catellius disse...

Grande Janer,

“Para começar eu diria que o normal seria as pessoas gostarem de música erudita.”

Não gosto muito do termo “erudita”, tampouco do “clássica”, que se refere a um período precedido pelo barroco e sucedido pelo romântico. Música clássica é Mozart, Haydn, Glück, Salieri, etc. Música romântica é Beethoven, Brahms, Berlioz, etc.
Eu e um amigo nos referimos a ela como “A Música”, afinal foi, com suas inúmeras variantes, a música por séculos, e incorporava elementos folclóricos, marciais, exóticos. Os estilos atuais são variações de música dançante, com harmonia pobre e sem muita inventividade, notórios pelo autoditatismo, que impede a evolução e torna tudo mais do mesmo, pelo caráter de artesanato e não de arte. Apesar de eu gostar de rock, a harmonia do 1-4-5-1 e quase tudo o que se faz é anjinho de pedra sabão vendido na saída de Ouro Preto. É artesanato.

Catellius disse...

“Não considero que se precise conhecer música a fundo para gostar de ópera.”

Acho que devemos conhecer o “idioma” para entender o que o compositor pretende dizer. Só captei o idioma de Richard Strauss, seus termos, suas alusões, após ouvi-lo algumas vezes. Incrível como hoje sua Elektra, moderna, sangrenta, me parece mais grega do que qualquer música pueril, que a mim chegasse, da época de Agamenon. Já Verdi, por exemplo, é de um idioma muito conhecido. Se nunca escutamos determinada ópera sua e, pelo libretto, vemos que um confronto é iminente entre rivais, esperaremos um (belíssimo, provavelmente) umpá-umpá marcial com o tenor e o barítono sobressaindo do coro e um gran finale com mudança de Ato.

Catellius disse...

“Quando me perguntam se uma ópera foi bem executada, minha resposta é: ‘não sei’”

Alguém pergunta, depois de uma Tosca com aquele ceguinho:
- O que você acha da execução do Andrea Bocelli?
- Acho demais... Prisão perpétua já está bom!
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“Não conheço música a ponto de saber se os cantores foram sublimes em suas interpretações. Fico apenas no adorei, gostei ou não gostei.”

Faltou o “detestei”, para o caso do Bocelli cantar. Aliás, qual o desafio em cantar sendo cego? Ouve-se gente dizendo: “nossa, ele canta tão bem e é cego...” Beethoven compor surdo é outra coisa....
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“Uma mulher gorda ou velha pode cantar muito bem Carmen. Daí a representá-la, em carne e osso, vai uma longa distância.”

Desde que cante bem, não me importa a sua aparência.
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“sou capaz de rever e rever a versão filmada de Francesco Rosi, com Julia Migenes.”

Só não gosto de ver ópera dublada, que é este caso. Às vezes abrem pouco a boca e sai aquele vozeirão... Incomoda-me sobremaneira

Catellius disse...

“Vou mais longe: Carmen, se não tiver cara de puta, não convence.”

E Micaela deve ser aquele anjo... Aliás, aquela sua ária (Je dis que rien ne m'épouvante) antes de encontrar o José decadente vivendo com contrabandistas é de cortar o coração...
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“Música erudita é como literatura. Você começa lendo autores como Machado e passa a detestar toda a literatura.”

Não adianta, nada escrito hoje se compara aos grandes do passado. Acho que porque havia escolas, mestres, dedicação, ócio. Hoje impera o autodidatismo e o maldito improviso. Sem falar que para existir um Mozart deve-se ter mil compositores bons em um universo fervilhante como a Viena do século XVIII. É preciso uma imensa base de pirâmide para existir um ápice.
Estive lendo alguns contos que não conhecia de Maupassant, e relendo outros, como Bola de Sebo (que o Chico plagiou na sua Geni e o Zepelim) e Yvonne, e fiquei abobado... Garcia Márquez, Saramago e qualquer outro Nobel atual passa a ser emético quando lido após os clássicos (usei o termo errado, eu sei).
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“A ópera foi um gênero popular entre os séculos XVII e XIX. Era o cinema da época...”

O povão levava comida gordurosa e fazia a maior farofa, cantava junto, interrompia uma ária, vaiava, pedia para repetir quando cantava o tenor famoso (a ária do Arlecchino, no Pagliacci, foi repetida incontáveis vezes na estréia). Fãs de um compositor usavam matraca para atrapalhar a ópera do compositor rival, etc. Hoje há uma certa empáfia entre os que gostam de ópera. Têm-se em alta conta apenas por conhecer ou gostar, quando o mérito há em compor, não em gostar. Se algum desavisado aplaude entre movimentos, logo os "conhecedores" fazem "shhhhhht" e meneiam a cabeça, como se estivessem de fato injuriados com a grosseria... Parvoíce!

Catellius disse...

“Uma das poucas coisas que gostei em Nova York foi a nonchalance dos freqüentadores do Metropolitan ou da City Opera. Não lembro de ter visto ninguém emperiquitado.”

Estive lá em janeiro deste e ano e assisti a uma montagem minimalista do Orpheo Ed Euridice (versão italiana; prefiro a francesa) de Glück e constatei exatamente isso. Ponto a favor dos americanos. Gostei também da legenda opcional sobre a cadeira da frente, em alemão, inglês ou espanhol.
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“Ópera é o espetáculo multimídia por excelência...”

Wagner que o diga. Foi o arquiteto do teatro, inventou o fosso da orquestra, inventou a poderosa tuba de Bayreuth, desenhou os cenários, o figurino, escreveu o libretto – excelente, aliás -, e a maravilhosa música, claro.
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“O libreto de Don Giovanni é de uma poesia extraordinária.”

Sou fã do Lorenzo da Ponte!
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“Uma missa cantada sempre tem um pouco de ópera.”

Principalmente as missas mais recentes, de Beethoven (solemnis), Cherubini (réquiem), Rossini(stabat mater) e de Verdi – o seu mais-do-que-operístico réquiem. E Dvorak (requiem), Fauré(requiem), etc.

Catellius disse...

“Nós, ateus, não somos hostis à grande arte. Ainda que religiosa.”

Eu escrevi, recentemente:
‘Muitos consideram o Vaticano um bom exemplo de inspiração divina, do quão alto o homem pode ir motivado pela fé no verdadeiro deus. Ora, na Renascença, o mesmo artista que pintava uma madona ou um menino Jesus poderia pintar, enquanto a outra obra secava, uma Afrodite e um menino Hércules lutando contra serpentes. Para ambos temas às vezes eram os próprios papas os clientes, que encomendavam obras sacras para as igrejas e profanas para seus palácios. Tudo que um artista precisa é de técnica, demanda, competição, remuneração e até mesmo de um pouco de inspiração e talento.
Os devotos veem mais santidade em um lugar como a Basílica de São Pedro do que em uma capelinha miserável no interior do Piauí com rachaduras nas paredes e ar cheirando a ricota velha, ainda que para eles o pão transubstanciado em carne no interior do Piauí não deveria ser menos Cristo do que aquele transubstanciado perante o Papa B16. Mas o que a presença física do próprio Cristo pode contra Bernini, Bramante e Michelangelo? Nada! A aura "santa" que se sente no Vaticano sente-se também no Louvre, embora no primeiro caso a fé potencialize a sensação e crie aquela estupefação pretendida por Leão X.’

Um abraço!
Catelli

Catellius disse...

Sou fanático por Berlioz!

Sua também operística missa de requiem é colossal!

É de emocionar sua não muito conhecida Missa Solemnis, que depois teve seus trechos rapinados para obras como o Requiem e a Sinfonia Fantástica.

Damnation de Faust (principalmente na verão de Davis com Nicolai Gedda) é espetacular, e tem uma ária que é de uma profundidade e de uma beleza de tirar o fôlego: "Nature Immense". Mas tem que ser cantada por Gedda. A poesia é do próprio Berlioz.

O texto:

Nature immense, impénétrable et fière!
Toi seule donnes trêve à mon ennui sans fin!
Sur ton sein tout-puissant je sens moins ma misère,
Je retrouve ma force et je crois vivre enfin.
Oui, soufflez ouragans, criez, forêts profondes,
Croulez rochers, torrents précipitez vos ondes!
A vos bruits souverains, ma voix aime à s’unir.
Forêts, rochers, torrents, je vous adore! mondes
Qui scintillez, vers vous s’élance le désir
D’un cœur trop vaste et d’une âme altérée
D’un bonheur qui la fuit.


Não achei com o Nicolai Gedda no youtube. Procurem por lá e acharão um genérico. Escrevam: berlioz nature immense faust


Les Troyen também é excelente!

Janer disse...

Meu caro Catelli,

grato pelo comentário. Mas vou discordar de um item. Ouvir é uma coisa. Ver é outra. O problema está no ver. Há uma grande diferença entre uma Netrebko ou uma Migenes e uma Montserrat Caballé interpretando a Carmen. Essas divas, afinal, ganham fortunas. Se trabalham também com o corpo, podiam ter certo pudor e mais cuidados com o corpo. Um Pavarotti com 175 quilos é um absurdo. Há tratamentos médicos para isso. Ele acabou perdendo 30, mas devido a um câncer. Eu, que não sou cantor nem ator, acho que começaria a esconder-me em casa se chegasse a 130.

Claro que, apenas ouvindo uma ópera, os quilos não importam. O problema é assistir uma encenação. Nada tenho contra gordos. Eu conheci e conheço pessoas obesas pelas quais tive e tenho muito apreço. O caso mais surpreendente ocorreu nas Canárias, não lembro agora se em Santa Cruz de Tenerife ou Las Palmas de Gran Canaria. O personagem estaria um pouco além dos 130 quilos. Sua barriga lembrava o Teide, o vulcão de Tenerife. Era um arabista de renome e sua pedra de toque era - pasma! - o Martín Fierro. Quando vi quatro jovens universitárias com as cabeças recostadas naquele Teide proeminente, percebi que o homem não é carne, mas espírito.

Mas ele não se apresentava em cena como um Don Giovanni, é claro. Extrapolando um pouco: não se concebe um 007 velho e gordo. Certos papéis exigem um certo physique du rôle.

André Balsalobre disse...

Eu também não gostaria de ver cantores e cantoras imensos. Melhor só ouvi-los.

“Não conheço música a ponto de saber se os cantores foram sublimes em suas interpretações. Fico apenas no adorei, gostei ou não gostei.”

Nem eu. Concordo.

Gosto de música clássica instrumental. Quando começam a cantar, seja ópera ou outro gênero, não gosto muito. De ópera, gosto das de Mozart, algumas de Verdi e Rossini e só. Todo o resto, esses famosos todos, a lista é enorme, gente que até ouvi bastante no passado, pra mim não passa de ruído sonolento. Tirando umas aberturas e trechos instrumentais de Wagner, mas só esses, os instrumentais.

Acho que aquilo de que mais gosto mesmo são os livros, com ou sem música ambiente.

Bom final de semana pra vcs

Catellius disse...

Bom, Janer e André,

Se Birgit Nilsson ou Maria Callas estivessem vivas e, obesas e decrépitas, encarnassem pela última vez o papel da heroína que as consagrou, a primeira como Isolde ou Brünnhild, a segunda como Lucia ou Norma, eu correria a assisti-las e duvido que não ficaria profundamente emocionado.

Entre duas cantoras de igual qualidade vocal, claro que prefiro aquela cuja aparência mais se adequa ao papel, independentemente de a heroína gorda e decrépita ser um ícone como as duas acima.

Anônimo disse...

Caro Catellius
tah todo mundo cansado dessa discussão de erudito popular e q tudo é farinha do mesmo saco.
velho, guarde o seu pseudo-potencial discursivo para seus alunos e saiba q se a música tem funcionado 1-4-5-1 ela tem evoluído em outros parâmetros, tecnológicos por exemplo(não estou defendendo todo tipo de música e reconheço a existência da música de comércio, que utiliza padrões mais do que clichês) mas não creio ser esta a discussão proposta pelo autor do artigo.
E desde quando ópera tem que ter apenas vocal bom, trata-se sim de um trabalho audiovisual, onde um interfere diretamente na performance do outro...enfim

Anônimo disse...

“Música erudita é como literatura. Você começa lendo autores como Machado e passa a detestar toda a literatura.”

Só alguém muito bobo passaria a detestar toda a literatura (imagino que, com isso, você se referia a literatura posterior) após ler Machado de Assis.

Considero muita coisa escrita hoje ("hoje" é um termo muito vago, vou me situar no século XX, afinal o XXI acabou de começar) comparável (usando o termo mesquinho a contragosto, já que acho mais do que infértil esse exercício de comparação "a troco de nada") ao que de melhor se produziu no passado.

Me entristece saber que um dos meus autores prediletos (Machado de Assis) caia com tanta freqüência no meio desse tipo de discurso convencido e vaidoso.

Vocês têm idéia de quem seja, por exemplo, João Cabral de Melo Neto? João Guimarães Rosa? Graciliano Ramos? São todos autores brasileiros do nosso incrivelmente produtivo século XX( e olha que só estou citando os meus favoritos). E da música tenho certeza que poderia dizer o mesmo.

Machado de Assis era um autor que possuía grande conhecimento e cultura. Por isso nas obras dele é possível contemplar referências a literatura latina, grega, etc. Ele fazia isso muito bem, pois sabia em que terreno estava pisando. Isso me dá chance de fazer uma observação importante: assim como Machado fazia referências a Tito Lívio e Vergílio em sua obra, também assim muitos o fazem. É o caso do Chico Buarque que o Sr. Catellius citou tão desdenhosamente. Ele não plagiou coisíssima nenhuma. Isso é uma pratica e recurso da arte que no meio acadêmico de literatura costuma-se chamar de “Intertextualidade”.

A partir desse seu comentário, vou sair por aí dizendo que Terêncio foi um plagiador, já que as suas peças eram inspiradas nas comédias novas gregas. Vou falar que Shakespeare não tinha criatividade alguma e que Vergílio copiou Homero e que Camões copiou Vergílio. Estamos todos nos copiando o tempo todo. Deixa o Chico Buarque buscar referências onde bem quiser, porque ele é mais do que qualificado para isso.

E mais uma coisa: Machado de Assis era autodidata.

Nada é mais limitado do que esse termo “os clássicos”.

Eu poderia gastar muito tempo e caracteres para dizer tudo que penso sobre essa forma completamente obtusa e infeliz de lidar com a arte (e aqui me atenho à literatura, já que de música não entendo grandes coisas), mas ia ficar a eternidade por aqui..enfim...pensem melhor sobre isso tudo.

(tou anônima porque não tenho blog)

Anônimo disse...

“Música erudita é como literatura. Você começa lendo autores como Machado e passa a detestar toda a literatura.”

Só alguém muito bobo passaria a detestar toda a literatura (imagino que, com isso, você se referia a literatura posterior) após ler Machado de Assis.

Considero muita coisa escrita hoje ("hoje" é um termo muito vago, vou me situar no século XX, afinal o XXI acabou de começar) comparável (usando o termo mesquinho a contragosto, já que acho mais do que infértil esse exercício de comparação "a troco de nada") ao que de melhor se produziu no passado.

Me entristece saber que um dos meus autores prediletos (Machado de Assis) caia com tanta freqüência no meio desse tipo de discurso convencido e vaidoso.

Vocês têm idéia de quem seja, por exemplo, João Cabral de Melo Neto? João Guimarães Rosa? Graciliano Ramos? São todos autores brasileiros do nosso incrivelmente produtivo século XX( e olha que só estou citando os meus favoritos). E da música tenho certeza que poderia dizer o mesmo.

Machado de Assis era um autor que possuía grande conhecimento e cultura. Por isso nas obras dele é possível contemplar referências a literatura latina, grega, etc. Ele fazia isso muito bem, pois sabia em que terreno estava pisando. Isso me dá chance de fazer uma observação importante: assim como Machado fazia referências a Tito Lívio e Vergílio em sua obra, também assim muitos o fazem. É o caso do Chico Buarque que o Sr. Catellius citou tão desdenhosamente. Ele não plagiou coisíssima nenhuma. Isso é uma pratica e recurso da arte que no meio acadêmico de literatura costuma-se chamar de “Intertextualidade”.

Anônimo disse...

A partir desse seu comentário, vou sair por aí dizendo que Terêncio foi um plagiador, já que as suas peças eram inspiradas nas comédias novas gregas. Vou falar que Shakespeare não tinha criatividade alguma e que Vergílio copiou Homero e que Camões copiou Vergílio. Estamos todos nos copiando o tempo todo. Deixa o Chico Buarque buscar referências onde bem quiser, porque ele é mais do que qualificado para isso.

E mais uma coisa: Machado de Assis era autodidata.

Nada é mais limitado do que esse termo “os clássicos”.

Eu poderia gastar muito tempo e caracteres para dizer tudo que penso sobre essa forma completamente obtusa e infeliz de lidar com a arte (e aqui me atenho à literatura, já que de música não entendo grandes coisas), mas ia ficar a eternidade por aqui..enfim...pensem melhor sobre isso tudo.

Anônimo disse...

droga, postei duas vezes

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