15 setembro 2009

Vivamos, nós que estamos vivos!

Passeei ontem pelo Cemitério da Consolação, em São Paulo. É uma galeria de arte - da mais fina arte - a céu aberto, e era precisamente isso o que eu visitava.

Claro que a dor dos parentes congelada nas estátuas de bronze e mármore sobre criptas de cem, cento e cinquenta anos de idade, torna o passeio abalador no bom sentido, sem falar no inusitado silêncio em um bairro movimentado de São Paulo, na ausência de semoventes fora eu, minha filha e uns passarinhos que pareciam cantar repetidamente "es-que-le-to" (que espécie será?), nos ciprestes romanos que conferem um quê de Porta do Hades ao local, no cheiro de cravo de defunto, na vegetação rasteira que, com paciência, vai tomando conta dos túmulos menos visitados, e sem falar em toda aquela pedra, o material "eterno" escolhido pelas efemérides humanas que têm esperança de também ser eternas...

É mais comovente essa vã esperança traduzida nos túmulos e nas ebúrneas figuras desesperadas do que a própria dor sentida pelos entes que ficaram ou pelo destino dos que partiram, já que, afinal, é o destino de tudo o que vive.

Humano, demasiado humano. Passei a achar cemitérios desse tipo, tradicionais, mais bonitos e inspiradores quando neles vi apenas o seu lado humano - que é o único que há. Nada disso se sente no Campo da Esperança, esta porcaria espartana daqui de Brasília, onde só há cerrado, cruzes toscas, fotos esmaecidas e velas, os três últimos o que de pior pode haver em um cemitério - depois do corpo de um conhecido, claro!

Vivamos - e vivamos bem -, nós que estamos vivos...

7 comentários:

Anônimo disse...

É isso aí, Catellius!

A poesia do texto reflete bastante a impressão que um local como este desperta nos visitantes, pelo simbolismo das imagens de vida e morte que há milênios habitam o ser humano. A eloquência silenciosa das esculturas é um verdadeiro convite à contemplação. E, no meio disso tudo, a sua filha, com sua presença, devia cantar um hino à vida, ao sorriso, à elegância, à alegria pura e simples de criança em companhia do papai!

A consciência da transitoriedade é um dos temperos especiais que dão sabor à vida, é uma espécie de pungente dissonância em meio a uma torrente de harmonias na eterna composição da aventura humana.

Mário

André Balsalobre disse...

Olá

Cemitérios antigos são muito bonitos mesmo.

O Campo da Esperança é jeca, como quase tudo o mais em Brasília. É feio (mesmo que fosse bem cuidado, coisa que não é, continuaria sendo feio). Isso é bem típico de Brasília: tudo parece igual. Pra qualquer lado que vc olha, a visão é a mesma.

Apareça

Anselmo Heidrich disse...

Algumas semanas atrás eu fui conhecer o mais famoso cemitério em Fpolis, o do Itacorubi e qual não foi minha surpresa ao ver que há uma área nobre e o resto, do meio pros fundos é um lixão. Na boa, se não é pra fazer bonito, creme logo de uma vez.

zefirosblog disse...

"E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!". Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?"

André disse...

É, o Eterno Retorno. A Gaia Ciência.

Caty disse...

Catellius! Amei ler este post. Liguei-me no teu belo comentário sobre as esculturas do Cemitério da Consolação!
Ele fica em frente à USP, onde eu fiz a minha pós-graduação em Saúde Pública, em 1970. Ele era um dos nossos passeios prediletos exatamente para admirar a arte das esculturas! È um verdadeiro museu de artes.
Gostei demais de recordar ... Obrigada, Catellius! Beijos para você e sua linda família.
Caty

Anônimo disse...

"vivamos, nós que estamos vivos"
catellius

“Viver, simplesmente viver, meu cão faz isso muito bem”
Alberto Cunha Melo

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