02 março 2018

As Novas Virtudes

Texto de C. Mouro

A exaltação ostensiva de porcarias, do fácil, do feio, do sujo, do fraco, do pobre, do pulha, é consequência da inveja, uma vingança contra a virtude. Uma estúpida desforra por parte daqueles que em si somente reconhecem o vício, e então se unem para exaltá-lo, ansiosos por fazerem da opinião mais visível a “verdade” consensual. Querem uma "realidade" artificial na qual se sintam mais confortáveis.

Considero que ainda se está na fase binária da razão e assim tudo é julgado por "antagonismos justificadores", de forma que o feio existe porque há o belo, e o admirável só pode existir porque existe o desprezível. Há então a necessidade de inventar antagonismos postiços, na tentativa de elevar vícios à categoria de virtude. É um mecanismo mental de auto-alimentação ou, mais propriamente, de auto-alienação mútua.

Não é fácil criar algo belo, não está ao alcance de qualquer um. Então se exalta ostensivamente o lixo para relegar o belo, o difícil, o forte, o reto, o orgulhoso, o admirável a uma avaliação menor, numa oposição artificial pretensamente esclarecedora. As dicotomias, maniqueísmos e simetrias diversas ainda são usadas para se fabricar polarizações facilitadoras para inculcação. Os tolos apreciam a facilidade das polarizações, para definirem-se perante plateias através do mínimo comum.

É absurdo, mas de fato a larga maioria humana se interessa mais pela opinião alheia sobre si do que pela própria. Sinto-me forçado a homenagear Schopenhauer ao citá-lo nessa sua constatação sobre o desejo de honra (opinião alheia favorável).

Claro que tudo é vaidade e esta constatação é milenar. A vaidade é o desejo pela opinião alheia favorável e é ela que faz da tal espiral do silêncio uma estratégia infalível para conduzir rebanhos humanos.

Acredito que a fabricação de valores anti-natureza (algo bem apontado por Nietzsche, que aproveito para homenagear) foi a forma de oferecer a um povo, cada vez mais explorado por seus governantes, uma compensação moral pelas perdas materiais que lhe seriam impostas.

Assim uma ideologia justificou, no fantasioso futuro sem data e incerto que prometia, as novas virtudes, fáceis de simular e ostentar, que fariam das antigas virtudes, difíceis, os novos vícios.
Tal oferta imediatamente seduziu tudo que não prestava e, ante a ostentação de tão confortável "asinus asinum fricat", acabou por seduzir até parcelas ansiosas não tanto pelos novos valores, mas exatamente pelo "asius asinum fricat". Daí o convívio irracional com as contradições. Afinal a verdade e o interesse, ao entrarem em conflito, induzem à opção pela "realidade irreal"; o absurdo como expressão da "convivência entre contrários".

Assim, o orgulho sincero foi considerado um vício, defeito ou pecado, por ostentar satisfação consigo mesmo, enquanto outros dele não poderiam desfrutar. A humildade, que por definição só pode expressar falsidade ou resignação, se tornou uma virtude a ser simulada como ostentação de virtude, razão para orgulho (no caso postiço). Não há como subverter a realidade, pois ela se manifesta menos perceptível, mas estará lá.

Pela mesma “ilógica” a riqueza foi amaldiçoada e a pobreza elevada à virtude individual. Porém somente para ostentação, já que intimamente não há razão para a fácil pobreza ser considerada uma virtude do indivíduo.

A fragilidade, a servidão, a fraqueza, o mal viver e etc. igualmente foram feitos virtudes novas oferecidas como vingança contra as velhas.

Assim se deu com os valores preconizados pela ideologia da anti-natureza.


Cabanel: Nascimento de Vênus. Arte tida como decadente pelos
cubistas, abstracionistas, dadaístas, críticos de arte, catedráticos, etc.

Cabanel: Nascimento de Vênus. Detalhe

Picasso: Mulher com Colar. "Arte" "genial", um consenso entre os de "gosto superior".

Por fim, até as artes foram contaminadas, e meros rabiscos feios e ao alcance das habilidades de qualquer animal se tornaram "obras de arte". Assim se deu com lixos ditos esculturas e mesmo com grunhidos e palavras soltas e acordes desconexos.

Porém se já não há mais "juízes em Berlim", ao menos é certo que ainda existem muitos com verdadeiros talentos e que os exercitam sem constrangimento. Isso é realmente confortante.

2 comentários:

C. Mouro disse...

Grande Catellius.

Confesso que por vezes sinto certa saudade dos bons tempos com bons debates. Desde 1996 eu me enriqueci com os muitos debetes que presenciei, os meus inclusos. Já de algum tempo não percebo interesse nos bons debates dos bons tempos da internet que tanto aprimoravam os conhecimentos e as idéias sobre muitas questões. Eu melhorei muito, cresci muito com o que descobri nas "andanças" interneticas.
Talvez seja por falha minha, mas vejo que não há mais interesse em se descobrir idéias boas ou criticar as ruins. Talvez seja apenas a minha saturação que turve a minha visão.

Descobri pessoas admiráveis e também deploráveis, mas se as deploráveis não me surpreendiam, as admiráveis me causaram encanto (sem viadagem).

É isso aí. Aprecio as pessoas de grandes talentos, admiroa-as profundamente e isso me faz sentir bem.

Um forte abraço.

C. Mouro disse...

Que show a(s) imagens, excluida a terceira.

Imagino o quanto de prazer não dar ver o original ou uma boa cópia.

Representar o belo ou o real em uma tela é algo trabalhoso, talvez isso os torne pouco atraentes. Como eu disse, tem tudo a ver com a estorinha da raposa e as uvas: "coisa feia" e arte mesmo é borrar umas telas, colar garrafas pet ou unir materias como se esculturas fossem.

Eu apreciava os contos, muitos deles e penso que eram meios de fazer as crianças pensarem precocemente, mesmo sem perceberem. Uma pena que as fabulas não mais façam parte da infância. Eram magistralmente deliciosas.

Uma mera fábula, como da raposa e as uvas expõe as entranhas humanas mais do que centenas ou milhares de pagínas poderiam. Lógico, as fábulas exigiam da imaginação e da reflexão.

C. Mouro

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