25 outubro 2016

Abbott & Cortella: Stand-up Philosophers

A filosofia já esteve perante um sol nascente siciliano, com Pitágoras; sob um pórtico pintado, com o estoico Zenão; sentada em um banquete, com o socrático Sócrates; num barril, com o cínico Diógenes; caminhando, com o estagirita peripatético; e agora, com os patéticos Karnal e Cortella, de pé com um microfone na mão.

Não inventaram a modalidade. O primeiro stand-up philosopher aparece em A História do Mundo, de Mel Brooks. A filosofia stand-up moderna incorporou traços do Bobo da Corte a entreter sua pequena audiência, de Tartufo, do otimista leibniziano Pangloss, do médico Hermes (Zadig), de Falstaff, Polônio e outros pomposos sacos de vento (pompous windbags) shakespereanos, de Dale Carnegie e seus subprodutos. Nos seus ingredientes vemos também consultas a dicionário etimológico – tal palavra não tem o significado corrente mas aquele do radical grego -, apropriação de memes internéticos anônimos, citações do Pensador UOL, piadinhas anônimas de Whatsapp, cadernos de filosofia escolar, conhecimentos científicos, econômicos, geográficos, históricos e artísticos superficiais, muitas datas e muitos nomes, principalmente em alemão, anedotas, frases de efeito, trocadilhos, críticas a conceitos como esquerda e direita, aos exageros da tecnologia. Acrescente um falar pomposo e peculiar que beire o ridículo, e voilá: teremos Abbott (Karnal) e Cortella, os maiores filósofos brasileiros vivos. Às vezes dão shows como “Os Três Filósofos”, quando a eles se junta Felipe Pondé, uma figura respeitável, na minha opinião. Com ressalvas, obviamente. E com Clóvis de Barros, para quem "a moral é aquilo que você não faria de jeito nenhum" e ética é "como devemos agir no sentido de não prejudicar muito a convivência do grupo ao qual pertencemos", fazem a cabeça dos jovens, segundo a revista IstoÉ.

E há o filósofo de Varginha, ou o ET da Virgínia. Um Brancaleone com sua armata de olavetes em busca de Aurocastro, o reino que tomará das garras da Nova Ordem Mundial. Não faz um stand-up mas um sit-down. Os ingredientes incluem tom profético, apelos à autoridade, falácias diversas, rampas escorregadias, palavrões, especialmente aqueles relacionados ao ânus, desqualificação de adversários por não terem lido certo livro que é imprescindível para qualquer aspirante a estudante de filosofia, e muitos outros já descritos na categoria anterior.

A seguir, Cortella e Karnal falam sobre Ética. Cortella:


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Cortella: “Ética é o conjunto de valores e princípios que você e eu usamos para decidir as três grandes questões da vida, que são “quero, devo, posso”. Isso é ética. Quais são os princípios que eu uso? Tem coisa que eu quero mas não devo, tem coisa que eu devo mas não posso, tem coisa que eu posso mas não quero. Quando que você tem paz de espírito? Você tem paz de espírito quando aquilo que você quer é o que você pode e é o que você deve.”


De acordo com o Pai dos Burros, Ética é a parte da Filosofia que estuda os fundamentos da moral. E o Conjunto de regras de conduta.

As três grandes questões da vida não são “quero, devo, posso”, e tampouco as costumeiras "de onde viemos", "para onde vamos" ou "existem deuses", uma vez que ela simplesmente não tem questões, evidentemente. Nós fazemos as indagações, as quais variam ao sabor dos tempos, dos povos e dos indivíduos. Quanto mais medíocres são os primeiros, mais ignaros os segundos e mais se é um pomposo saco de vento, mais estúpidas provavelmente serão suas "grandes questões". No caso de Cortella, uma delas é questionar-se acerca de ele próprio querer ou não querer algo. Já deve ter se cagado nas calças várias vezes. 

Ética não envolve eu querer ou não querer algo, eu poder (ser capaz) ou não poder algo. Apenas se devo ou não devo. Ou melhor: se devo, apenas, uma vez que sempre podemos trocar os verbos: “Devo preservar animais do sofrimento desnecessário” é mais ou menos o mesmo que “não devo impor aos animais sofrimento desnecessário”.

Por fim, Ética não tem nada a ver com você ter paz de espírito. O facínora pode cometer os piores crimes e estes não lhe tirarem o sono. Heróis podem perdê-lo diante de um dilema atroz. 

E agora Karnal:






Etienne de la Boétie escreveu um texto, um discurso sobre a Servidão Voluntária, não “um livro”. A peça, realmente preciosa e lapidar, dá pouco mais de 20 páginas.

Amizade não é o tema da obra, mas La Boétie de fato diz que “Não cabe amizade onde há crueldade, onde há deslealdade, onde há injustiça. Quando os maus se reúnem, fazem-no para conspirar, não para travarem amizade. Apoiam-se uns aos outros mas temem-se reciprocramente. Não são amigos, são cúmplices”.

Então refere-se a maus praticando juntos a crueldade, a deslealdade, a injustiça. É mais do que comum pessoas más terem amigos verdadeiros que não sabem de suas ações, ou sabem mas não se envolvem, ou que tentam mudar seu comportamento. O sujeito acima de qualquer suspeita pode ser um celerado que mantém no porão a menina raptada. Outro tem escravos, caça raposas e bate na mulher, mas vai à guerra pelo país e daria a vida por um amigo. Karnal erra feio ao afirmar que só pessoas éticas têm amigos. E é muita presunção dizer “a ideia não é nem minha nem de Aristóteles”. A “fama” de fato lhe subiu à cachola. No seu caso, a mente brilhante se deve aos cabelos que desertaram de sua cabeça.

É de um asnático simplismo seu teste “eficaz e infalível” para descobrir se estamos diante de um amigo: Falar com entusiasmo do próprio sucesso e prestar atenção na sua reação.

Por isso tantos Iagos ganharam a confiança de tantos Otellos, desde que os homens aprenderam a simular. E o teste parte do umbigo, está no singular. Desejo, com ele, confirmar se fulano é MEU amigo. Somos falíveis, ora pois. Não é raro, em sólidas amizades, o sorriso amarelo daquele que, perante o imenso sucesso exposto pelo outro, se confronta momentaneamente com a própria incapacidade de ter chegado lá. Mas se não for algo que almeje – o amigo conta exultante que finalmente chegou a chefe dos escoteiros -, muito dificilmente não dará os parabéns com entusiasmo proporcional àquele com que a notícia lhe foi dada. Se formos muito exigentes com nosso "humano demasiado humano" amigo, acabaremos trocando-o por um cachorro. Cabe à parte plena de sucesso, infelizmente, não alardeá-lo mui estrepitosamente perante os infelizes e inseguros. Que conversem sobre política, futebol, mulheres, filosofia, que debatam as grandes "questões da vida" - inclusive as do Cortella -, que lembrem dos velhos tempos. Pois amigos, no fundo, são aqueles que gostam de se encontrar, de conversar, de beber, aqueles cuja opinião interessa, que na amizade investem pensamento, tempo, energia, cujas "almas" se atraem, pela afinidade, pela curiosidade. São aqueles que já dividiram um quilo de sal, como se diz. Que têm um passado comum, envolto naquela aura de confiança e esperança comuns à juventude. Ou que percebem, após cinco minutos de uma primeira conversa, que já são amigos e o serão enquanto puderem. Tudo isso sem viadagem, obviamente.

Mas se ele AINDA for petista, depois de tudo, depois do Mensalão e do Petrolão, se usar a palavra "Golpe", aí complica... Deve haver algum grau de admiração mútua, poxa...

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Foram dois pequenos trechos. Grãos de areia no Saara. Karnal e Cortella abundam, na internet, em palestras, debates, entrevistas, aulas, discursos. Apesar das informações enciclopédicas, igualmente interessantes se lidas na Barsa, os disparates fluem ininterruptamente, dia e noite, em novos vídeos. Já atingiram a sabedoria há algum tempo. Não precisam e não têm mais tempo de ler, de estudar, de refletir - exceto a careca de Karnal -, agora só falam e suas equipes escrevem (isto é palpite).

E como se não bastasse, sob a lanosa pele de isenção com que se apresentam percebemos sempre a ponta da cauda peluda de seu esquerdismo rançoso (pleonasmo).
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