25 fevereiro 2014

Preto, Pobre e Primeiro Lugar em Medicina na USP

Hoje, fiquei feliz em ver o mérito de Cleidileno Teixeira Silveira reconhecido com sua aprovação em primeiro lugar em Medicina na USP de Ribeirão Preto, conforme reportagem da UOL. Um rapaz que estudou em escola pública e ajudava o pai a vender alho na rua chegou lá. Bem, e agora, turminha das cotas?

Agora nada, porque a política de cotas raciais tem como objetivo criar um curral eleitoral para o PT, e não muda nada o fato de existirem pessoas esforçadas e inteligentes. Aliás, a aprovação desse rapaz cria um problema para o discurso que justifica a adoção dessa política, ao mostrar que o esforço e o mérito não têm raça.

Curiosamente, lendo a reportagem, comenta-se que o enfermeiro decidiu tentar a aprovação em medicina após ver uma prima que tinha sido aprovada em medicina em outra universidade. Vejam que a inveja é humana. O problema é o que fazer com ela. Ele poderia ter se revoltando contra as injustiças da vida e ter se tornado socialista, ingressado no PT, MST.

Bem, aparentemente, os pais dele lhe deram uma boa educação, valores, e ele resolveu trabalhar e se esforçar. Mais que isso, decidiu correr riscos ao pedir demissão de seus dois empregos para estudar. Esse é um caminho difícil e tenho certeza que deve ter havido momentos em que ele se arrependeu de ter pedido demissão dos empregos e teve medo de que todo o seu esforço não fosse recompensado.

O esforço foi recompensado e este enfermeiro deve, muito provavelmente, se tornar um bom médico. Oxalá as pessoas sigam o seu exemplo de busca de suas vocações, do seu esforço e tenham a inteligência para saber os objetivos que devem buscar.

A política de cotas raciais fica ainda mais ridícula quando se pretende beneficiar pessoas ricas desde que sejam “de cor”. Isso é o cúmulo do absurdo. Mais uma vez, o que importa é criar um curral eleitoral para o PT. Esse maldito socialismo, que busca dividir e corromper a sociedade, é uma desgraça mesmo, como diz o Pondé em seu artigo Socialismo é Barbárie:

Para mim, para o país ir para a frente, precisamos de pessoas que “orem” para Deus lhes mostrar o caminho e que tenham esforço pessoal para percorrê-lo. Se tivermos muita gente assim, o país vai para frente; senão decaímos.

24 fevereiro 2014

Uma Conversa com um Black Block

Outro dia, graças a amigos comuns, conheci um Black Block. O rapaz, muito educado, formado em letras, era bastante agradável. Na verdade, ele não era tão inofensivo quanto parecia, pois era um praticante bastante dedicado de artes marciais. Enfim, aproveitei a oportunidade para tentar entender as suas motivações.

Ele me dizia que a estratégia Black Block é uma forma de resistência da população contra o governo e que os adeptos dessa prática não tinham uma posição política definida, havendo gente desde a extrema esquerda passando pelos anarquistas até não sei mais o quê. Disse a mim que objetivo das táticas Black Blocks é desestabilizar o governo.

A minha impressão é que no caso desse rapaz, que parecia bem ajustado, é uma forma residual de rebeldia, um tipo qualquer de afirmação pela qual ele pega a máscara de paintball do irmão e vai brincar com a polícia. De qualquer forma, aproveitei a oportunidade para fazer o meu proselitismo. Perguntei-lhe por que acreditava que o caminho Black Block era o adequado? Ele me disse que todo o resto estava corrompido e que o sistema todo era uma ilusão, tipo Matrix.

Eu lhe respondi que ele tinha razão. O sistema é uma ilusão que é sustentada pelas nossas crenças, portanto, a percepção dele está correta. A Dilma só é presidente porque uma parte considerável da população brasileira acha que ela é por diversas razões. As pessoas acreditam que ela ganhou uma eleição, que a eleição foi justa e que a vontade da maioria precisa ser respeitada. Se alguma dessas crenças for por terra, ela perde legitimidade e para se sustentar teria de depender da força.

Aproveitei para lhe lembrar que este ano é um ano de eleições e que, em tese, é possível uma mudança dentro das regras constitucionais e da forma de governo presidencialista. Ele me disse que não acreditava em eleições. Aproveitei para lhe dizer o que eu acho que é uma eleição. Para mim, uma eleição é uma guerra simbólica entre quadrilhas que disputam o poder. Disse-lhe que se a disputa não for simbólica, ela tem que ser real, ou seja, matando e morrendo.

A eleição é como um jogo de futebol. As pessoas podem até se machucar, mas não se espera que ninguém morra. Assim como o futebol, é uma forma de disputa ritualizada e organizada em regras e que, no final, a população irá, pelo voto, julgar quem ganhou. Em algum grau é um avanço, pois de que outra forma quadrilhas organizadas poderiam disputar o poder?

Aproveitei para insistir que esse negócio de anular o voto é uma estupidez. O sistema não é perfeito, nem sempre os partidos políticos permitem que bons candidatos concorram, mas qual é a alternativa que temos? Uma guerra real? Acabei me lembrando do Fernando Henrique Cardoso e do esforço de muitos constituintes de 1988 para implantar o parlamentarismo no Brasil.

De fato, esse é um sistema mais flexível, onde manifestações populares podem levar à queda de um gabinete ou à antecipação de eleições parlamentares. No nosso sistema presidencialista imperial, manifestações podem desmoralizar um governante, mas o sistema não tem uma saída para o impasse, pois tirar um presidente via impeachment é uma missão quase impossível. Vendo essas manifestações, começo a simpatizar mais com o parlamentarismo, que talvez seja mais permeável à vontade popular e possa sanar crises, menos na Itália, que em 80 anos acho que teve 79 gabinetes. Enfim, é uma discussão complicada.

Talvez até a tática Black Block em um ano de eleições seja positiva, pois pode criar uma onda que seja capaz de provocar uma mudança política legitimada pelas urnas. E, cá entre nós, fico feliz em ver o povo rejeitando o circo petista da Copa. É animador ver fazer água esse plano maquiavélico do Lula de promoção do prestígio internacional do governo petista e circo para a multidão, mas também me preocupo com uma escalada da violência que não possa se transformar em uma mudança política legitima.

20 fevereiro 2014

O PT e seus Assassinos "De Menor"

Hoje, o Partido dos Trabalhadores, por meio dos seus senadores na Comissão de Constituição e Justiça, derrubou por 8 a 6 a proposta que previa a redução de maioridade penal para 16 anos a depender de recomendação do promotor, julgamento de juiz especializado, e prisão em estabelecimento separado de adultos. Em diversas pesquisas de opinião, cerca de 90% da população brasileira querem que menores assassinos ou praticantes de crimes muito violentos sejam presos além dos três anos previstos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. Como tenho afirmado em vários posts, o PT não é um partido democrático pois não respeita a vontade da população, e isso ficou mais uma vez provado hoje.

Os petistas são aquela gente que quando ganha é democracia e quando perde é ditadura. Eles estão certos até quando estão errados. Vejam o caso do Eduardo Azeredo, que pode vir a ser condenado pelo STF por desvio de recursos públicos para fazer Caixa 2 na campanha para governador de 1998. Ele enfiou o rabinho entre as pernas e saiu hoje pela porta dos fundos da Câmara. Ensaiou dizer que era inocente como o Lula, mas ficou por isso. Os petistas condenados por 11 juízes, dos quais 9 foram indicados por eles, foram presos com postura de prisioneiros políticos com o punho em riste, alguns recusavam-se a renunciar mesmo condenados. Como dizia uma amiga minha, aquilo foi um teatrinho para alguns crentes do partido, só isso. Além disso, tem outra grande utilidade. A partir do momento em que eles admitam os crimes, o Lula fica exposto e passa a ficar claro que ele foi o mandante. Então é negar, negar e negar.

Mas voltando à questão dos menores assassinos ou praticantes de crimes violentos. Bem, hoje o PT fez mais um desserviço a nação. Parece-me que há uma certa coerência no pensamento petista. O PT parece que não quer ver ninguém assumindo responsabilidades pelos seus atos. Os criminosos não devem ser punidos e aqueles que têm mérito não devem ser premiados. Vejam o enfoque do Programa Bolsa Família e das propostas de cotas raciais do partido.

O Programa Bolsa Família, diferentemente do Programa Bolsa Escola, tem como foco gerar uma renda mínima, coisa que o Suplicy aprendeu no doutorado nos EUA com a ideia do prêmio Nobel Gary Becker de subornar mães para que cumprissem as obrigações de oferecer oportunidades para os filhos. Como já dizia o ditado, o caminho para o inferno está pavimentado de boas intenções. Esse é o caso do Programa Bolsa Família, que hoje é mais um curral eleitoral petista. Isso ficou evidente no ano passado, quando milhares de pessoas correram desesperadas para as agências da Caixa com o boato do fim do benefício. Na minha opinião, foi apenas um ensaio do uso eleitoreiro desse artifício. Lula é o maior coronel de todos os tempos. Com o Programa Bolsa Família ele atinge diretamente milhões de famílias. Coisa que nenhum coronel jamais conseguiu com suas cestinhas básicas.

Quanto às cotas raciais, a última é a cota de 20% para o serviço público. Serve apenas para formar um curral eleitoral negro para o partido. Quem tiver dúvidas sobre isso, entre no site do PT e veja como a Secretaria da Juventude está arregimentando pessoas com o suposto objetivo de combater a violência contra os jovens negros. Ao que me consta, Secretaria da Juventude serve para arregimentar militantes em qualquer partido.

O negócio é que o curral eleitoral tem que ser dependente e não ter mérito igual ao povo do Bolsa Família, que corre desesperado para lá e para cá após qualquer boato. Dar 20% das vagas do serviço público para negros é o mesmo que criar mais um tipo de discriminação contra a capacidade desses indivíduos. Prefere-se isso a programas como o do Itamaraty, que há anos patrocina com bolsas a dedicação integral de alguns alunos negros para o disputado concurso de diplomata. Essa era uma experiência que merecia ser ampliada, mas vai contra a filosofia do partido, de punir o mérito e premiar os criminosos. Com esse tipo de gente no poder, como este país irá para frente? Não irá.

A solução será encontrar novos culpados pelo atraso brasileiro. Os portugueses de Caio Prado Junior logo terão que ser aposentados, pois já faz quase 200 anos que estamos por nossa conta. O papel dos intelectuais do partido deve ser encontrar o próximo culpado. Pessoalmente, acho que a escravidão foi muito negativa para todo o país, para o negro, para o branco, para a ética do trabalho. Tem-se a tese da elite que não presta, ora europeizada, ora americanizada... Pelo menos hoje a elite política governante está cubanizada. Grande M*. A grande pensadora do PT, a Marilena Chaui, já tem o seu culpado, é a classe média (burguesia), a qual ela odeia, odeia, odeia,...vejam o vídeo:


Em um país sem gente responsável, o próximo culpado será você.

19 fevereiro 2014

Como se comportar nas manifestações de junho da Copa do Mundo

Há alguns anos, antes de estar preso, José Genoíno discutia que o PT deveria estar no poder e também ser oposição. Ninguém levou muito a sério. Nem os petistas, pois era uma tese incrivelmente totalitária, pois na visão do companheiro o PT deveria ocupar todos os espaços e se possível até substituir a sociedade civil. Esse tema é recorrente e agora na Copa do Mundo o PT está preocupado em como controlar as manifestações populares contra o evento. Mais que isso, eles pretendem, se possível, assumir o controle dessas manifestações.

Os Black Blocks recentemente revelaram seu lado assassino... Era uma questão de tempo para quem acompanhava o nível de violência praticado por eles nas manifestações. Entretanto, apesar de violentos, os Black Blocks eram a única coisa que impedia os manifestantes de PT, CUT, MST,... de se apossarem das manifestações populares. A estratégia para se apossar de uma manifestação genuinamente popular é você pegar uns gatos pingados do partido carregando bandeiras e misturá-los com a multidão. Com isso, se tem a impressão que a multidão está levando a bandeira quando na verdade trata-se de mais uma trapaça do partido.

Ano passado, lembro-me de um cidadão que desafiou um bando de petistas que insistiam em se infiltrar na multidão com suas bandeiras e acabou descobrindo que essas bandeiras também funcionam como porretes. Lá ficou ele com a cabeça ensanguentada sendo fotografado pela mídia carniceira, como diriam os Black Blocks.

Acredito que essa lei proposta pelo ministro da Justiça do PT para controlar o terrorismo tenha como objetivo justamente inibir a ação dos Black Blocks ao mesmo tempo em que permite que os chamados movimentos sociais ligados ao partido pratiquem as arruaças que acharem conveniente. Em Brasília, o MST é campeão de provocações. Outro dia, fez um acampamento ao lado do Quartel General do Exército. Fizeram também um ao lado do DNIT e mais recentemente, um ao lado do estádio de Brasília. Os ministérios já estão cansados de ter o expendiente interrrompido por suas invasões relâmpago.

No caso do acampamento ao lado do estádio de Brasília, fica a dúvida do que eles estariam fazendo. Será que é algum tipo de extorsão com o governo? Será que está faltando dinheiro nas ONGs de fachada que irrigam a estrutura dessa organização sem nenhuma responsabilidade jurídica? Ou será que eles já estão tomando posição para defender o estádio contra as manifestações verdadeiramente populares.

Aliás, como dizia uma velha professora marxista, o MST já deixou de ser movimento há muito tempo. Hoje, é uma organização extremamente disciplinada há um passo de se tornar para-militar. Ela conta que fazia uma pesquisa e a chefe de um acampamento se recusou a recebê-la. Por sorte, ela tinha o telefone do José Stedile que foi passado a mulher da qual se ouvia apenas sim senhor.

Esta semana na Venezuela, a oposição anunciou que faria manifestações contra o governo e o governo respondeu que seus “movimentos sociais” também deveriam ir para a rua ao mesmo tempo em que cidadãos de oposição eram baleados por manifestantes pró-governo. Essa é a democracia bolivariana que inspira os sonhos petistas. Com eles no governo, na oposição e nas ruas. E com o cidadão em casa com medo.

Agora se for se aventurar na rua, leve sua bandeira para que além do dinheiro público você não tenha também sua manifestação roubada e apropriada pelo Partido.

11 fevereiro 2014

Lula manda o STF calar a boca. Ou: o Poder Moderador Petista

Nesta semana, o ex-presidente Lula chamou a atenção dos ministros do Supremo Tribunal Federal para a inconveniência de se manifestarem sobre temas políticos sensíveis. Na opinião desse ilustre cidadão, quem deve se manifestar sobre esse tipo de tema são políticos eleitos. Pois é, apesar do seu enorme prestígio, Lula não é um político eleito no momento. Portanto, a manifestação de Lula, ocorrida em um comício do partido, a meu ver, é uma expressão de uma pretensão do Partido dos Trabalhadores de atuar como um poder moderador.

O Poder Moderador existiu legalmente no Brasil no período do Império, quando cabia à pessoa do Imperador interferir quando houvesse conflitos entre os demais poderes. Na prática, permitia ao Imperador trocar o gabinete quando julgasse conveniente. No século XX, os militares desempenharam essa função, especialmente a partir de 1964. No período do Regime Militar, os chamados Atos Institucionais davam ao chefe do Executivo, um general de Exército escolhido pelo Alto Comando, a prerrogativa de atuar de forma “corretiva” junto aos demais poderes, e repressiva contra ameaças às instituições. Com isso quero dizer que a tradição política brasileira não estranha a existência de um “quarto” poder.

Em termos teóricos, a pretensão do Partido dos Trabalhadores de ser um poder moderador encontra fundamento na teoria marxista gramsciana que, em termos gerais, recomenda políticas maquiavélicas a fim de fortalecer o príncipe-partido e impor sua hegemonia à sociedade. Esse tipo de política tem grande expressão na Venezuela, onde o Congresso “escolheu” se anular, o Judiciário é submisso e o Executivo tem super-poderes. Lá, efetivamente, as decisões são tomadas entre a “cozinha” do ditador e do Partido Socialista Unido da Venezuela. Às demais instituições cabe apenas referendar o que foi decidido.

Será que a teoria de separação de poderes de Montesquieu está superada? Na minha opinião, não. Continuo achando que a revolução mais impressionante ocorrida na história da humanidade até hoje foi a Revolução Americana de 1776, que consagrou esses princípios. Mais que isso, essa revolução submeteu o governo ao povo e afirmou que não havia mais distinção de nascimento entre os cidadãos. Fez tudo isso e derramou relativamente pouco sangue.

O Judiciário, por exemplo, desfruta de diversos privilégios em nome dessa chamada independência. A partir do momento em que um partido passasse a pautar os poderes constitucionais, não teria mais sentido ter um orçamento separado para o Judiciário e o Legislativo, pois não existiria mais uma autonomia a ser preservada. Aliás, nesta semana, foi vexaminosa a atuação do procurador-geral da República de pedir a prisão de um político do PSDB que não foi condenado até o momento nem está interferindo na investigação de um Caixa 2 supostamente havido na eleição de 1993 para o governo de Minas Gerais. A única explicação que encontro para esse pedido é uma tentativa de agradar ao quarto poder petista.

Enfim, os petistas continuam com discurso de que o julgamento do Mensalão foi injusto. Considerando que oito ou nove dos onze ministros do Supremo foram indicados pelo PT, aposto que veremos muito mais injustiças nos julgamentos de políticos que não sejam do Partido dos Trabalhadores. E se, por um acaso, essas injustiças não vierem, é porque os juízes gozam do privilégio da estabilidade cuja legitimidade vem da teoria da separação dos poderes. Concluindo, vejo nessa declaração do Lula um indicador de uma grave pretensão do partido, uma ameaça a nossa democracia, que deve ser combatida nas urnas negando ao partido um quarto mandato consecutivo para a presidência da República.

07 fevereiro 2014

Bellona


Em primeiro lugar, tenham um pouco de paciência com este diletante que tateia sem técnica pelos meandros daquilo que sabe apreciar e não fazer.

No vídeo, o esboço da partitura e o áudio a quatro vozes; a música ainda com lacunas, compassos vazios nos quais não coloquei sequer símbolos de pausa. Próximo passo, lapidar a música e dar sentido às vozes. Depois, inserir o texto e fazer os ajustes que a métrica demandar. Então trabalharei a peça para orquestra e coro.

A introdução, mais harmônica, reaparece em fragmentos e no fugato final - há uma pincelada de hino brasileiro nos compassos 49 e 74. A oração a Bellona, deusa da guerra, eu escrevi em português, propositadamente "trash", e meu pai traduziu-a para o latim. Os dois primeiros versos tirei-os do capítulo "O Invejoso", do Zadig de Voltaire. Colei no final do post o capítulo completo. Se não me engano, a tradução é de Mário Quintana.

Oração:

1 - Na paz universal somente o amor faz guerra. É o único tirano a quem não resistimos.
2 - Mas o inimigo apenas dormia. Ele avança sorrateiramente.
3 - Bellona, ajuda-me a vencer esta batalha
4 - afoga meus inimigos em seu próprio sangue
5 - crava minha espada no peito daqueles abjetos
6 - ajuda-me a prender, torturar e matar seus líderes
7 - Conduz-me em segurança para casa

Texto em latim, traduzido por meu pai, Mário Catelli:

1 - Universale in pace solus bellum facet amor. Cui unicus non renitimur tyrannus. (compassos 1 a 56)

2 - Sed hostis solum dormiebat, Nunc dissimulanter procedit. (compassos 57 a 76)

3 - Bellona, adjuva me hanc pugnam vincere (compassos 77 a 91)

4 - Merge inimicos meos in sanguine suo (compassos 92 a 117)

5 - In illorum pectore abiectorum gladium meum defige (compassos 118 a 131) (passagem instrumental de 132 a 142)

6 - Adjuva me duces suos capere, torquere atque occidere (compassos 143 a 213) (volta o texto 3 de 214 a 250)

7 - Me ad domo incolumem duce. (compassos 251 a 305)

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Zadig procurou consolo, na filosofia e na amizade, dos males que lhe causara a sorte. Possuía, num arrabalde de Babilônia, uma casa arranjada com excelente gosto, onde acolhia todas as artes e divertimentos dignos de um homem de bem. De manhã, franqueava a biblioteca a todos os sábios; e a mesa, de noite, à gente de boa companhia. Mas logo viu como são perigosos os primeiros. Explodiu entre eles uma grande querela acerca da lei de Zoroastro que proibia comer grifo.

— Como proibir carne de grifo — diziam uns, — se esse animal não existe?

— Tem de existir — diziam outros, — visto que Zoroastro não quer que o comam.

Zadig procurou harmonizá-los, dizendo:

— Se houver grifos, não os devemos comer; se não os houver, muito menos os comeremos; e assim, de qualquer modo, obedecemos todos a Zoroastro.

Um sábio, que compusera treze volumes sobre os grifos e que, além disso, era grande teurgista, apressou-se em ir acusar Zadig perante um arquimago chamado Yebor, o mais tolo dos caldeus e, portanto, o mais fanático. Esse homem seria capaz de mandar empalar Zadig para maior glória do sol, recitando depois o breviário de Zoroastro no tom mais satisfeito do mundo. O amigo Cador (um amigo vale mais que cem sacerdotes) foi procurar o velho Yebor e disse-lhe:

— Viva o sol e os grifos! guardai-vos de punir Zadig: é um santo; ele tem grifos no terreiro e não os come; e o seu acusador é um herege que ousa sustentar que os coelhos têm a pata fendida e não são imundos.

— Pois bem — disse Yebor, balançando a calva, — cumpre empalar Zadig por ter pensado mal dos grifos, e o outro por ter falado mal dos coelhos.

Cador contornou a questão por intermédio de uma dama de honor a quem fizera um filho e que gozava de muito crédito junto ao colégio dos magos. Ninguém foi empalado, motivo pelo qual muitos doutores começaram a murmurar, vaticinando a decadência da Babilônia. “Do que depende a felicidade! — exclamou Zadig. — Tudo me persegue neste mundo até os seres que não existem”. Amaldiçoou os sábios, e dali por diante só procurou viver em boa companhia.

Reunia em casa os homens mais distintos da Babilônia e as damas mais amáveis; oferecia delicadas ceias, muita vez precedidas de concertos animadas por encantadoras conversações de que soubera banir o empenho de mostrar espírito, que é a mais certa maneira de não o ter e de estragar a sociedade mais brilhante. Nem a escolha dos amigos, nem a dos pratos, era ditada pela vaidade: pois em tudo preferia o ser ao parecer; e com isso atraíra a verdadeira consideração, à qual não aspirava.

Defronte à sua casa morava Arimaze, personagem cuja mesquinha alma se lhe via pintada na grosseira fisionomia. Vivia corroído de fel e inchado de orgulho; e, para cúmulo, era um aborrecido “espirituoso”. Não tendo jamais alcançado sucesso na sociedade, vingava-se falando mal dela. Opulento como era, tinha dificuldade em reunir alguns aduladores nos seus salões. Importunava-o o rumor dos carros que paravam à noite diante da casa de Zadig, e ainda mais o irritava o rumor de seus louvores. Ia algumas vezes visitar Zadig e sentava-se à mesa sem ser convidado: corrompia então toda a alegria da sociedade, como dizem que as harpias envenenam a carne em que tocam. Aconteceu-lhe uma vez oferecer uma festa a certa dama que, em vez de aceitá-la, foi cear em casa de Zadig. Doutra feita, estando ambos em palácio, abordaram um ministro, que convidou Zadig para cear, sem estender o convite a Arimaze. Os mais implacáveis ódios não têm comumente raízes mais importantes. Esse homem, a quem chamavam o Invejoso, planejou perder Zadig, porque a este chamavam o Feliz. A oportunidade de fazer mal depara-se cem vezes por dia, e a de fazer bem uma vez por ano, diz Zoroastro.

O Invejoso foi ter com Zadig, que passeava no jardim em companhia de dois amigos e uma dama, a quem muita vez dizia coisas galantes, sem maior intenção que lhes dizer. Conversavam sobre a guerra que o rei acabava de ganhar ao príncipe de Hircânia, seu vassalo. Zadig, que se assinalara, pela coragem, nessa curta guerra, louvava muito o rei e ainda mais a dama. Tomou as suas tabuinhas, e escreveu quatro versos de improviso, dando-os a ler à sua bela companheira. Os amigos pediram que lhos lesse; mas a modéstia o impediu, ou antes, um bem compreendido amor-próprio. Sabia que versos improvisados só prestam para aquela em cuja honra são compostos: quebrou em duas a tabuinha onde acabava de escrever e lançou as duas metades numa moita de rosas onde em vão os outros as procuraram Como principiasse a garoar entraram em casa. O invejoso, tendo ficado no jardim tanto procurou que encontrou uma das metades. Fora rompida de tal modo que cada metade de linha formava sentido e até mesmo um verso de menor medida; mas, por um acaso ainda mais estranho, o conjunto desses quatro pequenos versos também completava um sentido que continha as mais terríveis injúrias contra o rei. Lia-se, pois:

Pelo crime brutal
Venceu o soberano,
Na paz universal
É o único tirano.


O invejoso sentiu-se feliz pela primeira vez na vida. Tinha entre as mãos com que perder a um homem virtuoso a digno. Cheio de cruel alegria, fez chegar ao rei aquela sátira escrita por mão de Zadig; puseram-no em prisão, a ele, aos seus dois amigos e à dama. Em breve foi concluído o processo sem que se dignassem inquiri-lo. Quando foi ouvir a sentença, encontrou de passagem o invejoso, o qual lhe disse que os seus versos não valiam nada. Zadig não tinha pretensões a bom poeta; mas exasperava-se de ser condenado por crime de lesa-majestade e ver que retinham em prisão uma bela dama e dois amigos, por causa de um atentado que ele não cometera. Não lhe permitiram que falasse, porque as suas tábuas falavam o bastante. Tal era a lei de Babilônia. Mandaram-no, pois, ao suplício, através de uma multidão de curiosos, nenhum dos quais ousava lamentá-lo, e que se precipitavam para examinar-lhe o rosto e ver se ele morria de boa cara. Apenas seus parentes estavam aflitos, pois não herdavam nada. Três quartos de seus bens eram confiscados em proveito do rei, e o último quarto em proveito do invejoso.

Enquanto ele se preparava para a morte, o papagaio do rei voou do seu balcão e foi pousar no jardim de Zadig, sobre uma moita de rosas. De uma árvore vizinha, tombara ali um pêssego, sacudido pelo vento, indo aplastar-se contra um pedaço de tábua de escrever, a que ficara colado. O pássaro carregou o pêssego e a tabuinha, depondo-os sobre os joelho do monarca. O príncipe, curioso, leu no fragmento umas palavras que não formavam sentido e que pareciam finais de versos. Ele amava a poesia, e sempre há algum recurso com príncipes que gostam de versos: a aventura do papagaio deu-lhe que pensar. A rainha, que se lembrava do que vinha escrito na tábua de Zadig, mandou buscá-la. Confrontaram os dois pedaços, que se ajustavam perfeitamente surgiram tão os versos tais quais Zadig os escrevera:

Pelo crime brutal era assolada a terra.
Venceu o soberano, e libertos nos vimos.
Na paz universal somente o amor faz guerra:
É o único tirano a quem não resistimos.

O rei ordenou em seguida que trouxessem Zadig à sua presença e retirassem da prisão seus dois amigos e a bela dama. Zadig lançou-se de rosto contra o solo aos pés do rei e da rainha: pediu-lhes humildemente perdão de haver feito maus versos; falou com tanta graça, espírito e razão que o rei e a rainha manifestaram desejo de tornar a vê-lo. Voltou, e agradou ainda mais. Deram-lhe todos os bens do invejoso que o acusara injustamente, mas Zadig lhos restituiu, e o invejoso só se comoveu com o prazer de não perder seus haveres. Dia a dia aumentava a estima do rei. Convidava Zadig para todas as suas festas e consultava-o em todos os seus negócios. A rainha começou então a olhá-lo com uma complacência que podia tornar-se perigosa para si mesma, para o rei seu augusto esposo, para Zadig e para o reino. Zadig principiava a crer que não é nada difícil ser feliz.

06 fevereiro 2014

Paisagem com montanhas

Pintei esse quadro na semana passada. A imprimatura e céu na quarta-feira, duas sessões de 3 horas no sábado e uma de 4 horas no domingo. Ao som de Der Barbier Von Bagdad, de Cornelius, Missa a São José, de Zelenka, Fedora, de Giordano, O Rapto do Serralho, de Mozart, e outras óperas. Pintura acrílica sobre tela de 80 x 30 cm.

Em uma das sessões as crianças me fizeram companhia pintando personagens Monster High.

O acrílico tem a vantagem de secar imediatamente. Não é preciso, portanto, esperar dias para se iniciar uma camada independente - quando não se deseja um efeito muito borrado. Por outro lado, a pintura fica às vezes um pouco dura. No óleo, as mudanças de cor podem ser mais suaves, e a gama de cores muito maior porque sempre há um resto de tinta na palheta passível de ser misturado com uma nova. No acrílico temos que fazer as misturas sempre do zero.

Senti falta de alguma cena mitológica, em segundo plano; um centauro, uma Dafne metamorfozeando-se em loureiro. Mas não quis me arriscar a estragar o que já estava bom - sinal de mediocridade. Mas tentarei superar esse tipo de medo em breve.
Visão geral

Detalhe das montanhas, ao centro


Detalhe das casas e das rochas em primeiro plano

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Update em 11/02/2014
Emoldurei a pintura e fiz pequenas alterações: uma amazona e galhos secos à direita. Aqui está:


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