24 fevereiro 2014

Uma Conversa com um Black Block

Outro dia, graças a amigos comuns, conheci um Black Block. O rapaz, muito educado, formado em letras, era bastante agradável. Na verdade, ele não era tão inofensivo quanto parecia, pois era um praticante bastante dedicado de artes marciais. Enfim, aproveitei a oportunidade para tentar entender as suas motivações.

Ele me dizia que a estratégia Black Block é uma forma de resistência da população contra o governo e que os adeptos dessa prática não tinham uma posição política definida, havendo gente desde a extrema esquerda passando pelos anarquistas até não sei mais o quê. Disse a mim que objetivo das táticas Black Blocks é desestabilizar o governo.

A minha impressão é que no caso desse rapaz, que parecia bem ajustado, é uma forma residual de rebeldia, um tipo qualquer de afirmação pela qual ele pega a máscara de paintball do irmão e vai brincar com a polícia. De qualquer forma, aproveitei a oportunidade para fazer o meu proselitismo. Perguntei-lhe por que acreditava que o caminho Black Block era o adequado? Ele me disse que todo o resto estava corrompido e que o sistema todo era uma ilusão, tipo Matrix.

Eu lhe respondi que ele tinha razão. O sistema é uma ilusão que é sustentada pelas nossas crenças, portanto, a percepção dele está correta. A Dilma só é presidente porque uma parte considerável da população brasileira acha que ela é por diversas razões. As pessoas acreditam que ela ganhou uma eleição, que a eleição foi justa e que a vontade da maioria precisa ser respeitada. Se alguma dessas crenças for por terra, ela perde legitimidade e para se sustentar teria de depender da força.

Aproveitei para lhe lembrar que este ano é um ano de eleições e que, em tese, é possível uma mudança dentro das regras constitucionais e da forma de governo presidencialista. Ele me disse que não acreditava em eleições. Aproveitei para lhe dizer o que eu acho que é uma eleição. Para mim, uma eleição é uma guerra simbólica entre quadrilhas que disputam o poder. Disse-lhe que se a disputa não for simbólica, ela tem que ser real, ou seja, matando e morrendo.

A eleição é como um jogo de futebol. As pessoas podem até se machucar, mas não se espera que ninguém morra. Assim como o futebol, é uma forma de disputa ritualizada e organizada em regras e que, no final, a população irá, pelo voto, julgar quem ganhou. Em algum grau é um avanço, pois de que outra forma quadrilhas organizadas poderiam disputar o poder?

Aproveitei para insistir que esse negócio de anular o voto é uma estupidez. O sistema não é perfeito, nem sempre os partidos políticos permitem que bons candidatos concorram, mas qual é a alternativa que temos? Uma guerra real? Acabei me lembrando do Fernando Henrique Cardoso e do esforço de muitos constituintes de 1988 para implantar o parlamentarismo no Brasil.

De fato, esse é um sistema mais flexível, onde manifestações populares podem levar à queda de um gabinete ou à antecipação de eleições parlamentares. No nosso sistema presidencialista imperial, manifestações podem desmoralizar um governante, mas o sistema não tem uma saída para o impasse, pois tirar um presidente via impeachment é uma missão quase impossível. Vendo essas manifestações, começo a simpatizar mais com o parlamentarismo, que talvez seja mais permeável à vontade popular e possa sanar crises, menos na Itália, que em 80 anos acho que teve 79 gabinetes. Enfim, é uma discussão complicada.

Talvez até a tática Black Block em um ano de eleições seja positiva, pois pode criar uma onda que seja capaz de provocar uma mudança política legitimada pelas urnas. E, cá entre nós, fico feliz em ver o povo rejeitando o circo petista da Copa. É animador ver fazer água esse plano maquiavélico do Lula de promoção do prestígio internacional do governo petista e circo para a multidão, mas também me preocupo com uma escalada da violência que não possa se transformar em uma mudança política legitima.

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