07 fevereiro 2014

Bellona


Em primeiro lugar, tenham um pouco de paciência com este diletante que tateia sem técnica pelos meandros daquilo que sabe apreciar e não fazer.

No vídeo, o esboço da partitura e o áudio a quatro vozes; a música ainda com lacunas, compassos vazios nos quais não coloquei sequer símbolos de pausa. Próximo passo, lapidar a música e dar sentido às vozes. Depois, inserir o texto e fazer os ajustes que a métrica demandar. Então trabalharei a peça para orquestra e coro.

A introdução, mais harmônica, reaparece em fragmentos e no fugato final - há uma pincelada de hino brasileiro nos compassos 49 e 74. A oração a Bellona, deusa da guerra, eu escrevi em português, propositadamente "trash", e meu pai traduziu-a para o latim. Os dois primeiros versos tirei-os do capítulo "O Invejoso", do Zadig de Voltaire. Colei no final do post o capítulo completo. Se não me engano, a tradução é de Mário Quintana.

Oração:

1 - Na paz universal somente o amor faz guerra. É o único tirano a quem não resistimos.
2 - Mas o inimigo apenas dormia. Ele avança sorrateiramente.
3 - Bellona, ajuda-me a vencer esta batalha
4 - afoga meus inimigos em seu próprio sangue
5 - crava minha espada no peito daqueles abjetos
6 - ajuda-me a prender, torturar e matar seus líderes
7 - Conduz-me em segurança para casa

Texto em latim, traduzido por meu pai, Mário Catelli:

1 - Universale in pace solus bellum facet amor. Cui unicus non renitimur tyrannus. (compassos 1 a 56)

2 - Sed hostis solum dormiebat, Nunc dissimulanter procedit. (compassos 57 a 76)

3 - Bellona, adjuva me hanc pugnam vincere (compassos 77 a 91)

4 - Merge inimicos meos in sanguine suo (compassos 92 a 117)

5 - In illorum pectore abiectorum gladium meum defige (compassos 118 a 131) (passagem instrumental de 132 a 142)

6 - Adjuva me duces suos capere, torquere atque occidere (compassos 143 a 213) (volta o texto 3 de 214 a 250)

7 - Me ad domo incolumem duce. (compassos 251 a 305)

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Zadig procurou consolo, na filosofia e na amizade, dos males que lhe causara a sorte. Possuía, num arrabalde de Babilônia, uma casa arranjada com excelente gosto, onde acolhia todas as artes e divertimentos dignos de um homem de bem. De manhã, franqueava a biblioteca a todos os sábios; e a mesa, de noite, à gente de boa companhia. Mas logo viu como são perigosos os primeiros. Explodiu entre eles uma grande querela acerca da lei de Zoroastro que proibia comer grifo.

— Como proibir carne de grifo — diziam uns, — se esse animal não existe?

— Tem de existir — diziam outros, — visto que Zoroastro não quer que o comam.

Zadig procurou harmonizá-los, dizendo:

— Se houver grifos, não os devemos comer; se não os houver, muito menos os comeremos; e assim, de qualquer modo, obedecemos todos a Zoroastro.

Um sábio, que compusera treze volumes sobre os grifos e que, além disso, era grande teurgista, apressou-se em ir acusar Zadig perante um arquimago chamado Yebor, o mais tolo dos caldeus e, portanto, o mais fanático. Esse homem seria capaz de mandar empalar Zadig para maior glória do sol, recitando depois o breviário de Zoroastro no tom mais satisfeito do mundo. O amigo Cador (um amigo vale mais que cem sacerdotes) foi procurar o velho Yebor e disse-lhe:

— Viva o sol e os grifos! guardai-vos de punir Zadig: é um santo; ele tem grifos no terreiro e não os come; e o seu acusador é um herege que ousa sustentar que os coelhos têm a pata fendida e não são imundos.

— Pois bem — disse Yebor, balançando a calva, — cumpre empalar Zadig por ter pensado mal dos grifos, e o outro por ter falado mal dos coelhos.

Cador contornou a questão por intermédio de uma dama de honor a quem fizera um filho e que gozava de muito crédito junto ao colégio dos magos. Ninguém foi empalado, motivo pelo qual muitos doutores começaram a murmurar, vaticinando a decadência da Babilônia. “Do que depende a felicidade! — exclamou Zadig. — Tudo me persegue neste mundo até os seres que não existem”. Amaldiçoou os sábios, e dali por diante só procurou viver em boa companhia.

Reunia em casa os homens mais distintos da Babilônia e as damas mais amáveis; oferecia delicadas ceias, muita vez precedidas de concertos animadas por encantadoras conversações de que soubera banir o empenho de mostrar espírito, que é a mais certa maneira de não o ter e de estragar a sociedade mais brilhante. Nem a escolha dos amigos, nem a dos pratos, era ditada pela vaidade: pois em tudo preferia o ser ao parecer; e com isso atraíra a verdadeira consideração, à qual não aspirava.

Defronte à sua casa morava Arimaze, personagem cuja mesquinha alma se lhe via pintada na grosseira fisionomia. Vivia corroído de fel e inchado de orgulho; e, para cúmulo, era um aborrecido “espirituoso”. Não tendo jamais alcançado sucesso na sociedade, vingava-se falando mal dela. Opulento como era, tinha dificuldade em reunir alguns aduladores nos seus salões. Importunava-o o rumor dos carros que paravam à noite diante da casa de Zadig, e ainda mais o irritava o rumor de seus louvores. Ia algumas vezes visitar Zadig e sentava-se à mesa sem ser convidado: corrompia então toda a alegria da sociedade, como dizem que as harpias envenenam a carne em que tocam. Aconteceu-lhe uma vez oferecer uma festa a certa dama que, em vez de aceitá-la, foi cear em casa de Zadig. Doutra feita, estando ambos em palácio, abordaram um ministro, que convidou Zadig para cear, sem estender o convite a Arimaze. Os mais implacáveis ódios não têm comumente raízes mais importantes. Esse homem, a quem chamavam o Invejoso, planejou perder Zadig, porque a este chamavam o Feliz. A oportunidade de fazer mal depara-se cem vezes por dia, e a de fazer bem uma vez por ano, diz Zoroastro.

O Invejoso foi ter com Zadig, que passeava no jardim em companhia de dois amigos e uma dama, a quem muita vez dizia coisas galantes, sem maior intenção que lhes dizer. Conversavam sobre a guerra que o rei acabava de ganhar ao príncipe de Hircânia, seu vassalo. Zadig, que se assinalara, pela coragem, nessa curta guerra, louvava muito o rei e ainda mais a dama. Tomou as suas tabuinhas, e escreveu quatro versos de improviso, dando-os a ler à sua bela companheira. Os amigos pediram que lhos lesse; mas a modéstia o impediu, ou antes, um bem compreendido amor-próprio. Sabia que versos improvisados só prestam para aquela em cuja honra são compostos: quebrou em duas a tabuinha onde acabava de escrever e lançou as duas metades numa moita de rosas onde em vão os outros as procuraram Como principiasse a garoar entraram em casa. O invejoso, tendo ficado no jardim tanto procurou que encontrou uma das metades. Fora rompida de tal modo que cada metade de linha formava sentido e até mesmo um verso de menor medida; mas, por um acaso ainda mais estranho, o conjunto desses quatro pequenos versos também completava um sentido que continha as mais terríveis injúrias contra o rei. Lia-se, pois:

Pelo crime brutal
Venceu o soberano,
Na paz universal
É o único tirano.


O invejoso sentiu-se feliz pela primeira vez na vida. Tinha entre as mãos com que perder a um homem virtuoso a digno. Cheio de cruel alegria, fez chegar ao rei aquela sátira escrita por mão de Zadig; puseram-no em prisão, a ele, aos seus dois amigos e à dama. Em breve foi concluído o processo sem que se dignassem inquiri-lo. Quando foi ouvir a sentença, encontrou de passagem o invejoso, o qual lhe disse que os seus versos não valiam nada. Zadig não tinha pretensões a bom poeta; mas exasperava-se de ser condenado por crime de lesa-majestade e ver que retinham em prisão uma bela dama e dois amigos, por causa de um atentado que ele não cometera. Não lhe permitiram que falasse, porque as suas tábuas falavam o bastante. Tal era a lei de Babilônia. Mandaram-no, pois, ao suplício, através de uma multidão de curiosos, nenhum dos quais ousava lamentá-lo, e que se precipitavam para examinar-lhe o rosto e ver se ele morria de boa cara. Apenas seus parentes estavam aflitos, pois não herdavam nada. Três quartos de seus bens eram confiscados em proveito do rei, e o último quarto em proveito do invejoso.

Enquanto ele se preparava para a morte, o papagaio do rei voou do seu balcão e foi pousar no jardim de Zadig, sobre uma moita de rosas. De uma árvore vizinha, tombara ali um pêssego, sacudido pelo vento, indo aplastar-se contra um pedaço de tábua de escrever, a que ficara colado. O pássaro carregou o pêssego e a tabuinha, depondo-os sobre os joelho do monarca. O príncipe, curioso, leu no fragmento umas palavras que não formavam sentido e que pareciam finais de versos. Ele amava a poesia, e sempre há algum recurso com príncipes que gostam de versos: a aventura do papagaio deu-lhe que pensar. A rainha, que se lembrava do que vinha escrito na tábua de Zadig, mandou buscá-la. Confrontaram os dois pedaços, que se ajustavam perfeitamente surgiram tão os versos tais quais Zadig os escrevera:

Pelo crime brutal era assolada a terra.
Venceu o soberano, e libertos nos vimos.
Na paz universal somente o amor faz guerra:
É o único tirano a quem não resistimos.

O rei ordenou em seguida que trouxessem Zadig à sua presença e retirassem da prisão seus dois amigos e a bela dama. Zadig lançou-se de rosto contra o solo aos pés do rei e da rainha: pediu-lhes humildemente perdão de haver feito maus versos; falou com tanta graça, espírito e razão que o rei e a rainha manifestaram desejo de tornar a vê-lo. Voltou, e agradou ainda mais. Deram-lhe todos os bens do invejoso que o acusara injustamente, mas Zadig lhos restituiu, e o invejoso só se comoveu com o prazer de não perder seus haveres. Dia a dia aumentava a estima do rei. Convidava Zadig para todas as suas festas e consultava-o em todos os seus negócios. A rainha começou então a olhá-lo com uma complacência que podia tornar-se perigosa para si mesma, para o rei seu augusto esposo, para Zadig e para o reino. Zadig principiava a crer que não é nada difícil ser feliz.

2 comentários:

Chico disse...

como compositor vc dá um bom pintor

O+cioso disse...

catequitus é um pato

nada, caminha e voa
escreve, pinta e compõe

faz tudo mal, kkkkkk

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