08 janeiro 2014

Não tem jeito, o PT vai ganhar

Curiosamente, conversando com as pessoas, o que mais ouço é “Não tem jeito, não tem opção, o PT vai ganhar”. Por um lado, as pessoas reconhecem que o PT governa mal, mas ainda assim não conseguem enxergar uma alternativa. Fico intrigado, pois até 2002, o PT votou contra todas as reformas que tentavam controlar a inflação e organizar as finanças do Estado. Era um partido pequeno, irresponsável, não tinha experiência administrativa significativa e ganhou. Tinha algumas pessoas interessantes, mas elas já eram. O Cristovam vazou, o Suplicy esclerosou, a Marina deu no pé, o Palocci, que foi um bom ministro da Fazenda, foi destruído, e o Celso Daniel foi assassinado. Sobrou o terceiro time, como admitiu outro dia o próprio Gilbertinho em entrevista para a Piauí; e sobrou também o Lindinho.

O PT não é tão bom assim. A melhor análise que já vi do PT foi do brilhante Demétrio Magnoli, que "psicanalisou" o partido. Para ele, a queda do Muro de Berlim fez muito mal para o PT, pois eliminou a referência do socialismo real que havia evoluído em uma crítica ao stalinismo. O resultado disso é que para o PT o socialismo real se tornou uma fantasia idealizada. Vejam o caso do comissário Tarso e outros que mal disfarçam suas taras em liderar as multidões para fazer uma constituinte revolucionária, como escreveu em um artigo outro dia.

O PT é ruim porque o pessoal que faz parte dele é problemático. Temos uma galera da Teologia da Libertação, com uma leitura do Evangelho a partir de Marx; temos os sindicalistas, que em geral têm aqueles problemas amplamente conhecidos que são a picaretagem e a falta de gosto pelo trabalho; e, por último, aquele bando de desajustados que sonha em implantar uma ditadura qualquer em que eles mandem. Ah, não podemos esquecer daquele pessoal de classe média que papagaia umas coisas politicamente corretas e, por último, mas não menos importantes, os funcionários públicos, sedentos de privilégios e sem muita vontade de produzir. Quase esqueci dos estudantes. No tempo em que o Genoíno ainda tinha senso de humor, ele brincava que na época de estudante ele trabalhava muito na organização enquanto o Dirceu "passava o rodo". O próprio Dirceu admitiu em entrevista que se iniciou na vida pública ao propor uma greve na PUC-SP para forçar os padres a fazer turmas mistas. É complicado imaginar que a origem disso tudo pode ser o tesão do Dirceu.

Mas acho que, no fundo, o que sustenta o PT é a culpa e a preguiça. Os funcionários públicos têm medo de votar em qualquer outro, pois poderia ser exigente e a classe média morre de culpa de ter um padrão de consumo americanizado em um país miserável. Talvez aqui tenhamos uma divisão que mencionei em outro artigo: os espertos e os otários. Estes têm sentimento de culpa mas são preguiçosos e mentirosos. Os espertos não têm sentimento de culpa mas, ironicamente, sabem manipular os outros que têm, pois possuem traços de psicopatas; e os otários gostam de ser manipulados, pois fazem o que gostariam sem ter de assumir a responsabilidade pelos seus atos.

Talvez o problema seja esse. O PT não é forte, mas nós, como povo, somos muito fracos. É um gigante adormecido. Preferimos acreditar na salvação gratuita pelo Estado e não na ética do trabalho feito dia após dia. Parece que afinal Weber tinha alguma razão. A ética do trabalho protestante faz diferença, enquanto a passividade diante da providência do Estado operada pela interseção do Partido dos Trabalhadores talvez esteja mais de acordo com a mentalidade brasileira.

2 comentários:

zefirosblog disse...

Resta o pessimismo, penso eu. É a única perspectiva realista que podemos ter por ora.

A propósito, hoje reli "Que Mérito Há", do Catellius. Esses desaparecimentos dele são chatos. Poste alguma coisa, Catelli, assim podemos ter certeza que YHWH não te arrebatou para satisfazer alguma piada cósmica...

Catellius disse...

Graaaande Raphael!

Obrigado por achar chatos meus desaparecimentos, rsrs.

Poderia dar mil desculpas, entre elas que tenho tido muito trabalho, que me mudei de casa, mas, na verdade, é falta de assunto e um certo enfado com economia, eleições, copa, olimpíadas, congestionamentos, poluição, ecologia, pobreza, riqueza, corrupção, mensaleiros, justiça, facebook (não tenho), política, religião, passeatas, rolezinhos, comunismo, capitalismo. E se não sinto que o que tenho para escrever é interessante, nem que seja para mim mesmo, nem começo a escrever (apesar de eu ter muitos textos desinteressantes, rsrs). Bom, quanto a isso fico com o velho Schop (como diz o Mouro). Até mesmo pessoas normais (mas com uma visão realista do mundo) podem escrever bons textos, dignos de serem lidos, porque poderão concentrar e organizar o que pensam sobre certos assuntos, do modo que às vezes nem mesmo os sábios são capazes de fazer ao vivo e a cores, em uma mesa de bar, por exemplo. Para ele, é melhor ler um livro do Rodrigo Constantino do que ter uma conversa de boteco com Nietzsche, rsrs. A emoção, neste caso, será de estar frente a frente com o luminar alemão, não de ter apreendido alguma coisa de profundo da conversa, em geral pouco organizada e superficial. É o que vemos muitas vezes em debates, conversas e entrevistas envolvendo gênios.

Tenho lido muito os clássicos greco-romanos. Às vezes, a constatação de que os problemas que tinham eram basicamente os mesmos que temos hoje em dia me dá um misto de alívio e apatia. Mas sei que a sensação é passageira.
Nem de longe significa que esteja pouco empolgado com a vida, rsrs. Tenho trabalhado bem, saído com amigos e familiares, lido muito, ouvido ópera, pintado, aproveitado bem a nova casa, minha mulher e filhos.

É isso aí...

Forte abraço!!!

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