06 fevereiro 2013

50 Tons de Cinza

Quando uma criança é pequena precisamos ensinar de forma didática o que é ser mau e o que é ser bom. Então temos a famosa historinha do Lobo Mau, que mostra o que é ser mau. A partir do Lobo Mau podemos fazer analogias com situações da vida real para tentar dar significado a contextos para a criança. E temos uma série de outros contos que tentam mostrar o que é ser bom e o que é ser mau.

À medida que crescemos vamos percebendo que o mundo não é preto e branco e nem as pessoas são inteiramente boas ou más. As pessoas são intrinsecamente falhas, como ilustra a historinha bíblica do pecado original. Como resultado, as suas ações, mesmo aquelas bem intencionadas, também são falhas. Já dizia um velho adágio que o caminho do inferno está calçado de boas intenções.

A partir destas premissas vejamos, por exemplo, a eleição do presidente do Senado, o Renan Calheiros. Ele ganhou a eleição para esta cadeira com mais ou menos 75% dos votos dos senadores. O que isto quer dizer? Será que aqueles que votaram contra o Renan são necessariamente bons? Certamente, podemos contar entre eles o Cristovam, que recentemente propôs a federalização do ensino básico como uma panaceia para melhorar a sua qualidade e acabar com a desigualdade entre os ricos e os pobres, o velho Pedro Simon, que já está cansado de guerra, o Eduardo Suplicy, que em seu doutorado nos Estados Unidos entrou em contato com os ideais de Gary Becker de subornar mães, os quais acabaram sendo a base do Bolsa Escola e depois do Bolsa Família. Enfim, figuras que já estavam boas para se aposentar. Temos um Jarbas Vasconcelos com sua lucidez e sua estória de luta pela democracia no Brasil...

Do lado de Renan temos figuras como o velho Sarney e seu pragmatismo absolutamente amoral. Talvez Sarney tenha feito o pior governo da história deste país quando presidente da República, mas acabou sendo excelente para o fortalecimento do PMDB, o que de certa forma viabilizou o nascimento do PSDB, que seria o partido que mais tarde acabaria com a inflação no país. Ironicamente, os técnicos que montaram o Plano Cruzado para Sarney foram mais ou menos os mesmos que montaram o Plano Real para o Fernando Henrique. A diferença é que FHC teve a liderança e o espírito republicano necessário para fazer os dolorosos ajustes necessários ao Plano, apesar das crises do México, da Rússia e da Ásia.

Outra historinha bíblica é a do Bezerro de Ouro, em que Moisés é surpreendido pela fraqueza do povo em adorá-lo. A reação do profeta foi forte mas, apesar disto, o povo não aprendeu e nunca irá aprender. Faz parte da sua natureza a necessidade de idolatrar. No Brasil, temos a idolatria do Lula e seus apóstolos petistas defensoras dos fracos e da ética. Os fatos desmentiram estas pretensões mas, nem mesmo eles são mais fortes do que a idolatria que desafia a razão. De fato, temos aqueles que poderíamos qualificar como os do PT do B, ou seja, PT da Boquinha e outros menos venais. Há até mesmo aqueles que poderíamos chamar de bons.

Mas o mundo é cinza e de boas intenções a estrada para o inferno está calçada. Lembro-me que há alguns anos, o fala mansa do Palocci era um grande defensor da Reforma Constitucional no Brasil. Outro menos discreto como o Dirceu defendia a criação de um Conselho de Ética para os Jornalistas enquanto que Franklin Martins defende o controle “social” da mídia. Temos ainda aquela velha lenga lenga da Reforma Política na qual o PT insiste na criação do voto de lista fechada. O voto de lista fechada é o voto pacote da net. Se quiser tem que comprar todos os canais senão não assina. Assim, o partido garantiria a eleição daqueles nos quais nem o povo votaria.

Curiosamente, não foram os bons do PT os maiores adversários destas teses sinistras e pouco democráticas. Foram justamente os bandidos do PMDB e de outros partidos aqueles que souberam enxergar sob este manto de cordeiro. Afinal, nada como um bom canalha para reconhecer outro. Desta forma, e servindo aos seus interesses mais egoístas, o PMDB buscou preservar sua base de poder, o Brasil. E, assim, a meu ver, serviram a democracia. É, seria muito difícil explicar para uma criança que o lobo mau às vezes pode ser bom e os bons em sua fraqueza e ilusões podem servir o mal. Não é qualquer um que entende que por trás de grandes ideais e boas intenções justificam-se grandes atrocidades.

02 fevereiro 2013

A Ilha Misteriosa

João e Carlos caminhavam pela ilha a poucos quilômetros da qual naufragara seu barco de pesca, após enfrentar horas de tempestade. Rádio, sinalizadores e celulares foram a pique com ele.

- Creio que seja deserta. - disse João, quebrando o silêncio. Parando de repente, gritou: - Veja! Uma casa sobre aquelas rochas!

Correram até lá. A casa simples, de duas águas e um pequeno alpendre, parecia ser recém construída. Carlos estranhou não haver caminhos próximos ou mesmo pegadas. A porta estava fechada. Carlos espiou pela janela e pode ver, através de um pequeno vão entre as cortinas, que lá não havia móveis, apenas o que parecia ser a maquete de uma construção. Foi o máximo que a penumbra lhe permitiu discernir.

- É a casa de um arquiteto? E os jardins, os caminhos para acessá-la, os móveis, o pano de vidro para aproveitar a vista? – disse Carlos.

- Certamente é habitada. É nova. Ô de casa! – gritou João.

Sentaram na varandinha e esperaram um longo tempo. Nada. João forçou a porta umas vezes e depois tentou arrombá-la. A construção inteira tremeu com suas investidas. Relutante a princípio, Carlos arremessou uma grande pedra contra a janela, mas o vidro não quebrou.

- É uma fortaleza! – espantou-se João.

Prosseguiram a exploração da ilha. Após cruzarem um vale escarpado, acharam uma casa quase idêntica à primeira, um pouco maior, velha e mal acabada. Não possuía porta frontal, apenas uma entrada de serviço nos fundos. Tinha uma chaminé, mas muito estreita para eles passarem.

O sol se pôs e uma fina chuva os fez montar acampamento no alpendre da casa velha. “Por que esta varanda, se não é acessada por porta alguma?”, pensou Carlos.

De manhã, encontraram nas imediações outras casas, todas lacradas, parecidas mas de tamanhos levemente diferentes, uma ligeiramente mais escura, outra com cumeeira não centralizada, as que tinham chaminé não possuíam porta frontal. Percorreram toda a ilha, que era pequena, e não encontraram viva alma. Retornaram à primeira casa. João espiou pela janela.

- Levaram a maquete. A sala está vazia!

- Talvez os responsáveis morem no continente, ou em outra ilha, e venham cá apenas para experiências arquitetônicas.

Não restavam dúvidas de que alguém erguera aquelas construções e que estava por perto - a maquete ter desaparecido da sala o corroborava. E, afinal de contas, as casas não poderiam ser fruto do acaso. Mas Carlos pensou, intrigado: “Por que fazer maquete se todas as casas são muito parecidas? Para um cliente entender o projeto?” Acamparam no alpendre e decidiram que não sairiam de lá até toparem com alguém e obterem explicações e ajuda.

Após uns dias, durante os quais se revezaram para catar cocos e caçar pequenos animais, ficando sempre um a montar guarda na casa, testemunharam algo maravilhoso. Acordaram à noite com ruídos que pareciam vir do vale, ecoando por suas paredes. Algo parecia se arrastar, depois ouviu-se um impacto estrondoso, voltou o arrastamento, novamente o impacto, em uma nítida cadência, o som cada vez mais alto, próximo. Esconderam-se em uma fresta nas rochas a alguns metros da casa, e quase não acreditaram quando viram uma grande mansão de dois andares surgir de repente, tombar em frente ao telheiro da outra e, perante os dois pescadores boquiabertos, na casinha introduzir sua chaminé pela porta frontal, aquela inexpugnável porta! Depois de uns instantes o sobrado endireitou-se, como se centenas de homens o içassem com cordas e polias, e sumiu desajeitadamente por onde surgira.

Impossível descrever o assombro de João e Carlos. Não saíram antes que nascesse o sol e, como se sonhassem acordados – de fato, não conseguiram pregar os olhos um instante sequer -, andaram de um lado pro outro desatinados, sem chão. Carlos, parecendo recobrar um pouco suas faculdades, acercou-se da janela, espiou e caiu para trás:

- Uma maquete!

Inexplicável! Ficaram por lá mais umas noites, protegendo-se das intempéries na toca que encontraram, sem terem coragem de dormir novamente próximos àquela bizarrice em forma de casa. Contudo, espiavam pela janela e viam a maquete um pouco maior a cada dia, até que ela, agora em escala 1:10, saiu sozinha pela porta da frente, ficou um pouco sob o alpendre e depois se arrastou, como um filhote de tartaruga, em direção ao vale.

- Deveras impressionante! Então ninguém as construiu. As casas são vivas, reproduzem-se, são levemente diferentes umas das outras. – empolgou-se Carlos, ainda assustado, contudo. – Envelhecem e ficam mal acabadas, como aquele “macho” que vimos no vale.

- Que estupidez – replicou João. – Um arquiteto com formação em mecatrônica as construiu, as programou para se replicarem. Deve estar escondido por aí. Deve ter um plano.

- Por que alpendre nos “machos”, se não possuem porta frontal? Havia reparado, inclusive, em nossa excursão pelo vale, que as “fêmeas” têm como que uma cicatriz de chaminé na cumeeira. Por que projetar tais elementos inúteis?

João passou semanas gritando a plenos pulmões para que o arquiteto aparecesse, enquanto Carlos explorava a ilha. Encontrou, em umas cavernas do vale, restos petrificados de casas bem diferentes daquelas que se viam erguidas na ilha, pedaços de outras em um charco próximo que possuíam algo idêntico a um motor de popa junto à porta dos fundos. Quando Carlos mostrava suas descobertas a João, este, irritado, o criticava por não ajudá-lo a procurar pelo arquiteto. Depois, convencido de que este era invisível, passou a acreditar que além de criar as casas comandava a ilha, de modo que passou a lhe pedir em voz alta por chuva quando fazia muito calor, por comida quando tinha fome. Às vezes era atendido, às vezes não, principalmente quando era exigente e muito específico. Mas sempre, em agradecimento, deixava peixes e frutas sobre grandes pedras que empilhara conforme ordens que o próprio arquiteto lhe dera em sonhos.

Um dia João escorregou do alto de suas pedras, quando tentava aumentar a pilha, despencou no chão, rasgou a perna e bateu a cabeça. Carlos cuidou do amigo, passou nos ferimentos sal marinho que isolara em piscinas de evaporação, protegeu-os com panos limpos, deu-lhe água e comida.

Quando se sentiu novamente disposto, João foi à sua pilha de pedras agradecer ao arquiteto por ter tratado de seus ferimentos. Carlos, entendendo que o outro precisava do amiguinho imaginário para sobreviver naquela ilha sem sentido no meio do nada, prosseguiu tentando entendê-la e com pesar deixou de lado seu desvairado companheiro, que agora sonhava com o dia em que o arquiteto cumpriria sua promessa de o levar para o Palácio de Versalhes invisível que se erguia majestoso sobre as nuvens...

Quem achou esta alegoria esquisita é porque não assistiu à 6ª temporada de Lost...
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