10 setembro 2013

A questão da Síria e a política externa covarde e repugnante do PT

Diante do sofrimento de toda uma população e do assassinato covarde de 1.400 pessoas com armas químicas, a posição da política externa do PT é covarde e repugnante. Covarde porque não tem a coragem de assumir que é necessário retirar o ditador Assad do poder e ele não sairá senão por meio da força, e repugnante porque usa desta tragédia para propor a reforma do Conselho de Segurança que lhe dará uma cadeira permanente.

A Síria foi um dos países onde o mundo assistiu a Primavera Árabe há cerca de dois anos, quando milhões de pessoas saíram às ruas exigindo mudanças em seus governos, como no Egito, Síria e Líbia. O ditador Assad, diante da pressão popular, permitiu que a oposição participasse das eleições e aprovou uma nova constituição. A oposição e a maioria da população rejeitaram as reformas e pediram a saída do Ditador. Diante do impasse e do assassinato de civis nas manifestações começou a guerra civil.

O antigo modelo político sírio é o sonho do PT e do Lula. Havia uma Frente Progressista Nacional constituída por partidos nacionalistas e socialistas sírios que indicavam uma lista única que era votada pela população. O Assad é o Lulinha sírio, tendo chegado ao poder em 2000 por meio de referendo para substituir o pai, que governou por trinta anos. Pois é, a tal lista fechada do Assad faz parte das propostas da Reforma Política do Lula, assim como o esforço do Lula para monopolizar a política nacional eliminando a oposição.

Bem, dois anos de guerra civil depois, morreram umas 100.000 pessoas, 1/3 da população fugiu do país, para viver em condições precárias nos vizinhos, que sofrem enormes pressões, enquanto o restante da população vive no fogo cruzado entre o Exército do Ditador e os rebeldes. Diante de todo este sofrimento, a ONU não age porque China e Rússia tem interesses militares, políticos e econômicos na continuação do regime sírio e ambos têm poder de veto no Conselho de Segurança da ONU.

Neste fogo cruzado foram apanhadas 1.400 pessoas em um bombardeio com armas químicas. Este bombardeio ocorreu em um subúrbio dominado por rebeldes e matou mais de 500 crianças. O ditador tem uma fábrica e um bom arsenal de armas químicas, mas apesar disto nega qualquer responsabilidade. Afirma que é uma manipulação dos rebeldes para provocar uma intervenção externa.

Neste quadro, Obama, o primeiro presidente negro dos EUA e prêmio Nobel da Paz, ameaça intervir unilateralmente para punir o Ditador com ataques cirúrgicos que destruam sua capacidade de usar armas químicas. Obama que conseguiu tirar os EUA do Iraque e tenta se retirar do Afeganistão quer mandar tropas para a Síria? Nunca. Mas ele diz que não é possível deixar este ato de barbárie sem uma resposta proporcional. A Rússia disse que ajudaria a Síria se ocorresse um ataque.

E a política externa do Brasil do PT? Apóia uma solução diplomática para um ditador que mata sua própria população e são contrários a uma intervenção militar americana, apesar de saber que ONU nada fará. Não tem nada de humanitário nesta política externa. Ela é covarde, pois permite a continuidade da matança e da guerra civil que causa enormes sofrimentos a toda uma população. E é oportunista por querer usar esta tragédia para ganhar prestígio. Que vergonha para o Brasil ter um governo assim.

2 comentários:

Catellius disse...

Bom texto do Ludwig Krippahl, do site Que Treta!

Sábado, Setembro 07, 2013

Treta da semana: o jejum.

Há quem se oponha a uma intervenção militar na Síria por razões de soberania. O conceito de soberania e o seu fundamento levantam problemas complexos mas, neste caso, penso que há um factor importante que simplifica a questão. A partir do momento em que alguém usa artilharia pesada, tanques e aviões contra civis, deixa de haver um Estado soberano e passa a haver só uma cambada de criminosos. Por isso, rejeito essa objecção.

Outros dizem-se contra uma intervenção por serem contra a guerra. Preferir a paz, evitar a guerra a todo o custo, essas coisas. Eu também prefiro evitar a guerra. Mas depois de cem mil mortos (1) e quase dois milhões de refugiados (2), parece-me que o tempo de prevenir e evitar já passou. A Síria está em guerra. A questão agora é o que fazer quanto a isso.

O uso de armas químicas* deve ser severamente punido. Nem me preocupa muito se terá sido uma das muitas facções anti regime ou uma das, provavelmente também muitas, facções do regime. As armas químicas não servem de muito contra forças militares preparadas mas são perfeitas para matar civis e nem danificam a infraestrutura. Se a comunidade internacional não reprime de forma decisiva este tipo de ataques, em breve vamos ter ditadores por todo o lado a usar disto contra grevistas, manifestantes ou quem lhes apetecer. Parece-me importante que se bombardeie qualquer ditador cujo regime permita estas coisas; muito mais importante do que passar anos a discutir se foi mesmo o Assad quem ordenou estes ataques.

Por estas razões, à partida eu seria a favor de destruir os aviões, blindados e artilharia do regime sírio. Não traria a paz. Muitos milhões de sírios certamente querem que haja paz, mas aquela minoria que tem as armas, sejam pró ou contra o regime, parece consistir só de bestas que querem matar gente. Enquanto não se matarem todos uns aos outros não haverá paz. Ainda assim, restringi-los a combater só com armamento ligeiro seria um passo na direcção certa. Infelizmente, há dois problemas grandes.

Um problema é que não há vontade política para uma intervenção militar a sério. Vão mandar meia dúzia de mísseis e, dada a complexa rede de ódios que impera naquela região, nem é claro se isso irá atenuar ou intensificar o conflito. O outro problema é que a Rússia tem muito interesse em manter o regime de Assad. Não só pela base militar em Tartus, mas também para impedir a construção de um gasoduto entre o Catar e a Turquia, o que prejudicaria o negócio da Gazprom na Europa. O risco de conflito entre duas potências nucleares com interesses comerciais antagónicos e tanto dinheiro em jogo aproxima-me do lado do “que se lixem os sírios”.

Em suma, não faço ideia do que será melhor e ainda bem que não sou eu a decidir.

continua...

Catellius disse...

Continuando...

Perante esta angústia de saber que há dezenas de milhares de pessoas a morrer, milhões de refugiados e nenhuma solução para o problema, o Papa Francisco receitou jejum e orações. Uma espécie de homeopatia das relações internacionais. Não serve de nada aos sírios. Como os católicos esclarecidos insistem regularmente, o deus deles não intervém e o dos sírios certamente já recebeu pedidos suficientes para intervir se estivesse para aí virado. Mas o jejum e as orações sempre aliviam a angústia de quem quer ajudar e assim se convence de que fez alguma coisa. O tal efeito placebo.

O perigo destes tratamentos alternativos é substituírem os outros que têm algum efeito. O jejum e as rezas não fazem mal nenhum. Quem se sentir aliviado com isso pois jejue e reze à vontade. Mas não deixem de acrescentar à sensação de terem ajudado o efeito prático de ajudarem mesmo. Por exemplo, com donativos ao Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (3). Há dois milhões de refugiados sírios, muitos deles crianças, a jejuar mais do que é saudável. Em vez de passarmos fome com eles, preferirão certamente alguma coisa para comer.

* Parece-me estranha a implicação de que os explosivos não são armas químicas. Eu preferia dizer armas tóxicas. Mas para não criar confusão, vergo-me à convenção.

1- Wikipedia, Casualties of the Syrian civil war
2- UNHCR, Syria Regional Refugee Response
3- UNHCR, Donate

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