09 maio 2013

Deus Existe? Para uns sim. Para outros não.

Não acho que a razão pura (Platão e Descartes) seja suficiente para provar ou disprovar a existência de Deus. Também não acho que nenhum experimento científico (Hume) seja suficiente para provar ou disprovar sua existência, pois um experimento supõe uma teoria e um teste para fazer uma comprovação desta teoria sujeita a uma série de restrições e aproximações. E qualquer que seja o resultado será provisório (Popper).

Outra possibilidade seria a contemplação, meditação, concentração…Diz a tradição budista que Sidartha Gautama teria escolhido um caminho de ascetismo e práticas intensas de meditação na busca da Iluminação ou uma percepção mais direta de Deus. Aparentemente, após alguns anos de intenso treinamento ele teria recebido a graça. Para Gautama, Deus existe mas não foi fácil percebê-lo.

A tradição judaica fala que Moisés teria obtido uma percepção mais direta de Deus em contemplações no deserto. A tradição muçulmana fala que o Anjo Gabriel teria vindo a Maomé também em seu retiro anual em uma caverna no deserto. A tradição cristã fala de um retiro que Cristo teria feito no Deserto, mas de uma forma muito simbólica, sem falar nas práticas em si.

Enfim, pelo menos no caso destas práticas religiosas selecionadas a experiência de Deus seria algo resultado de uma busca, de uma disciplina pessoal,…Existem outras práticas religiosas africanas ou americanas que usam cerimonias (músicas e danças) e drogas para induzir estados alterados de consciência.

A questão é que seja lá o que for que foi alcançado por estas pessoas por meio destas práticas não é algo transmissível. Talvez a presença de uma pessoa que esteja em um estado de consciência alterado seja até inspirador mas não prova para outras pessoas que Deus existe.

Talvez um erro da catequese católica seja a idéia de fé, ou seja, espera-se que os fiéis acreditem em Deus simplesmente porque existem ou existiram pessoas cujas vidas apresentaram sinais desta comunhão com Deus. Talvez seja uma abordagem pragmática, ou seja, a maioria das pessoas dificilmente vai conseguir ter uma experiência de Deus mais profunda e contínua porque ela exigiria muito, portanto, para estes a fé.

A fé parece algo tolo mas é mais usual do que parece. Por exemplo, o Direito, de forma geral, tem fé na capacidade de discernimento do indivíduo e procura responsabilizá-lo por seus atos. A psicologia, por sua vez, não tem tanta fé assim no indivíduo. O coletivismo metodológico também tece-lhe restrições.

De qualquer forma, se uma babá de duas crianças de Manhatan tivesse fé ou pelo menos medo do inferno talvez ela não tivesse matado as duas crianças das quais ela cuidava por se sentir humilhada por sua patroa. Em termos sociais, uma ética religiosa pode ser um importante fator de agregação social e redução da violência.

E, agregação social não é algo trivial. Platão, Aristóteles, os contratualistas, os utilitaristas, os neo-contratualistas gastaram séculos tentando a partir da razão encontrar ou entender as bases da vida em sociedade. E os resultados deixaram muito a desejar. Os idealistas alemães acabaram no nazismo. O marxismo chegou ao stalinismo. Na Argentina, Venezuela, e Chile temos sociedades profundamente divididas pelo peronismo, chavismo e por Pinochet.

Talvez seja melhor que Deus exista. Se alguém conseguir ter uma comunhão com ele, ótimo. Se simplesmente acreditar e em função disto tiver uma vida mais ética, muito bom. Se o medo do inferno impedir de praticar fazer mal aos outros já tá valendo.

Enfim, Deus existe? Para uns sim. Para outros não. E para você?

9 comentários:

Cético disse...

Grandes alegações requerem grandes evidências.

Falando em Popper, se a hipótese (de deus) não é falseável, então não é uma hipótese possível de ser comprovada. Se o ônus da prova de qualquer alegação maluca cabe ao que a fez, não ao que não a comprou, então é mais do que razoável não aceitar as alegações dos crentes, seus testemunhos e "versões" da realidade, é mais do que razoável descrer de deuses, Jeová, Odin, e também do deus bonitinho panteísta zen budista da atualidade.

A verdade não depende de opinião. Se algo existe para mim e não existe para meu próximo, tudo não passa de uma metáfora para "está na minha cabeça porque nisso creio".

A realidade não está nem aí para o que eu acredito ou não acredito.

Uma miríade de alegações das religiões já foi provada falsa. O último baluarte dos crentes é o tal de deus - sabe-se lá que diabos isso signifique, já que cada um o faz à sua imagem e semelhança, a odiar e a amar as mesmas pessoas que ele - e também o tempo que precedeu o Big Bang.

Anônimo disse...

Cético,

Suponha que com base na sua experiência vc saiba algo.

Vc pode falar para outra pessoa o que vc sabe e ela argumentar que vc está errado.

Se vc for uma pessoa de boa vontade e não estiver maluco então é provável que ele não compartilhe da sua visão por ele não ter a sua experiência.


Tbm não é algo da experiência em si mas de como ela toca uma pessoa. Duas pessoas podem passar por experiência semelhantes e serem tocadas de forma diferente.

Sim, a realidade é uma só. Mas será que estamos realmente abertos para ela?

Cético disse...

Anônimo,

A sensação, a experiência, etc. podem ser de fato verdadeiras. Provavelmente os vikings sentiam, "experienciavam" Odin pouco antes da batalha, as vestais tinham também suas "experiências" quando adentravam os mui harmônicos e puros templos à sacrossanta deusa. Assim como o romano comum com suas penates. Se a explicação da experiência e da sensação forem malucas, há que se demonstrar como se chegou a essa conclusão. Se as experiências lhe dão conhecimentos confirmáveis que outros não possuem, então é algo em que se começar a pensar. Mas quase nunca é o caso. As experiências de uns contradizem as dos outros, são por vezes explicadas neurologicamente, etc.

Então dizer que "sabe" algo é apenas uma falácia. Dê um exemplo.

"Se vc for uma pessoa de boa vontade e não estiver maluco então é provável que ele não compartilhe da sua visão por ele não ter a sua experiência."

O mundo está cheio de malucos de boa vontade. Conan Doyle não escreveu um livro provando a existência de fadas? Não "experienciou" sensações místicas com as irmãs Fox?

"Sim, a realidade é uma só. Mas será que estamos realmente abertos para ela?"

A realidade é uma só. Se você "experiencia" coisas sozinho e faz alegações absurdas e não consegue provar, não é razoável que seres sensatos acreditem em você. Simples assim.

Anônimo disse...

Cético,

Em termos físicos, as pessoas são diferentes. Umas são fortes, outras são fracas.

Em termos mentais, também temos diferenças.

Em termos de capacidade afetiva, também temos diferenças.

Estas e outras diferenças explicam porque as pessoas interpretam as mesmas experiências (realidade única) de formas diferentes.

Uma mesma pessoa pode também ter variações de clareza mental dependendo de uma série de fatores.

Portanto, é perfeitamente possível que alguém possa fazer afirmações que não possam ser comprovadas por outras pessoas.

Assim como é perfeitamente possível que pessoas tenham opiniões diferentes e as vezes antagônicas sobre a mesma questão.

Anônimo disse...

Ia tirar uns trechos para realçar, mas os comentários já disseram tudo e só poderia realçar tudo que foi dito.
Vou apenas ressaltar o seguinte:

"A realidade é uma só. Se você "experiencia" coisas sozinho e faz alegações absurdas e não consegue provar, não é razoável que seres sensatos acreditem em você. Simples assim."

Bábaridade!!! Brilhante no úrtimo!!!

As crenças insensatas não são efetivamente crenças, são desejos sobre a realidade. É fácil acreditar no que é conveniente, mas doloroso aceitar aquilo que contraria os maiores anseios.

Em cada comunidade foram criados deuses em conformidade com a mentalidade destas. Deuses diferentes com diferentes pontos de vista, o que faz tonta a afirmação de que são todos o mesmo deus.
As estórias fantásticas das manifestações divinas se adequam a ignorãncia e interesses locais. Com a evolução e a constrangedora constatação de absurdos que atualmente apenas admissíveis em crianças no pré escolar, inventa-se novas hermeneuticas para interpretações adaptadas.

Enfim, seria efetivamente ótimo se houvessem deuses e sobretudo deuses que anuem com nossa visão ou subjetividade, dando a esta um cunho divinamente objetivo, já que o arbitrio divino é a máxima sabedoria, pelo menos nos deuses modernos, os deuses morais que arbitram conceitos e comportamentos sobre o certo e errado e sugerem que sejam seguidos pelos reles humanos para que sejam salvos num pós morte incerto, ou mesmo que alcancem milagres igualmente incertos, seja lá o comportamento que for do fiel. Até mesmo infiéis são aquinhoados com milagres da providência divina enquanto fiéis penam em provações até o fim de seus dias. Ou seja, mesmo dando livre arbítrio o deus deixa sua receita de salvação através de profetas e assim exige que se acredite nas palavras de homens. Claro que nem mesmo os crentes na divindade seguem a risca as recomendações salvadoras; fato que demonstra certa desconfiança e evidencia que a crença tem por motivação o mero desejo. Acreditassem com fé e jamais descumpririam as determinações divinas. Contudo, ao contrário, se dão a interpretações convenientes da tal palavra divina e violam recomendações objetivas. É lógico que subconscientemente sabem que a crença nem mesmo é uma crença, mas apenas um desejo de crer. Desejo que pode ser deixado de lado ante outros desejos mais convenientes. Essa conveniencia é que faz o fanático que de tanto desejar que haja verdade na crença que teme que a crítica a possa enfraquecer em seus pares. Como a crença se fortalece no apoio comunitário, imagina-lo sendo abalado e com possibilidade de extinção cria o fanatismo que se enche de ódio contra meras críticas a pretensa verdade tão conveniente e o fanático ataca verbal e fisicamente sem opor argumento algum mas apenas demonstrando o quanto odeia aqueles que possam levar descrença ao seu grupo de apoio.

Abs
C. Mouro

Até imaginei que veria aqui as análises do brilhante catellius (um abração)

Catellius disse...

Nobre Mouro,

Há quanto tempo, heim?
Faço minhas as palavras do Cético, e as suas.

Acrescento ainda:

É humilhante reconhecer, para uns, grandiosidade e genialidade em seres humanos, mesmo nos mortos. Pensar que mesmo os pináculos da espécie são pequenos perante "aquele" que é perfeito deve dar algum conforto para suas almas medíocres. Então dizem que Deus usou os gênios em seus planos, e tudo o que alcançaram veio do altíssimo - a ele toda honra e toda glória. Nos planos de Deus, o que pensa assim também é grande, mesmo sendo apenas pai e gari - tão grande quanto Einstein.

Usa-se, assim, a palavra "talento" para se eximir da culpa de não ser bom o bastante, muitas vezes por preguiça mesmo. Para desmerecer as qualidades e esforços do próximo. "Deus lhes deu talento". Pronto. São seus planos.

Sabemos que a contratação de consultores no instabilíssimo mercado de ações serve, muitas vezes, para se livrar da responsabilidade pelas decisões tomadas, para poder colocar a culpa em alguém quando os clientes e o chefe ficarem furiosos. Essa é, muitas vezes, a função oculta do especialista em bolsa. "Chamamos um expert", diz aquele que se explica aos investidores. No caso dos crentes, tomam suas decisões rezando, abrindo a Bíblia a esmo, como quem consulta o I Ching (bibliomancia), conversam com o padre, o expert, para ficarem bem consigo mesmos e com os outros, para não terem de assumir as responsabilidades pelas suas decisões estúpidas. Quando tudo dá errado, por incompetência própria, se pensa "pelo menos fiz o que Deus mandou".


Essa história de planos de Deus deveria sepultar as orações. Principalmente aquelas em que se fala "seja feita vossa vontade". Mas não é sempre assim? O sujeito lá em cima pode ser chanteageado, ter o coração amolecido e mudar de planos por causa de orações? Se atendeu as orações, era tudo seu plano desde o princípio ou mudou de idéia? O melhor seria agirem como Epíteto e só se preocuparem com aquilo que depende deles.

Infelizmente, talvez seja natural que haja crença em deuses.. Mosquitos e baratas também são naturais, não? A descrença generalizada hereditária não teria muito mérito. Deve se chegar a ela filosoficamente. Toda unanimidade é burra, segundo o NR, não?

Talvez a crença seja o melhor para velhos, mulheres e crianças. Os primeiros "embranqueceram" o coração junto com os cabelos, estão acovardados com a morte iminente, estão confortáveis em suas posições, temem mudanças (José Ingenieros bem o disse). As segundas têm o coração mole e são inseguras, ansiosas, emocionais. As últimas são retardados mentais que evoluirão para adultos capazes, na melhor das hipóteses. Mas na fase em que estão, de amiguinhos imaginários, uma dose de maniqueismo se ajusta bem a suas cabecinhas limitadas.

Mas um homem adulto dobrar seus joelhos viris perante santinhos é deprimente.

Abraços.
Ps. É chato escrever com tablet...

Catellius disse...

“Nunca mais rosnei a delambida oração a S. Luiz Gonzaga, nem dobrei o meu joelho viril diante de imagem benta que usasse aureola na nuca”

Eça de Queiros. “A Relíquia.”

Catellius disse...

Outras características:

A velha X diz: Deus é tudo. Jesus é tudo. O cristianismo é tudo. Minha amiga Y é uma cristã exemplar. Eu não sou nada.

Deixa-se ver, pela comunidade, coberta de crucifixos e de outros indícios inequívocos de que seja uma cristã da cabeça aos pés.

Enquanto isso, a velha Y diz: Deus é tudo. Jesus é tudo. O cristianismo é tudo. Minha amiga X é uma cristã exemplar. Eu não sou nada.

Deixa-se ver, pela comunidade, coberta de crucifixos e de outros indícios inequívocos de que seja uma cristã da cabeça aos pés.

Assim, pode-se pegar emprestadas todas as glórias celestiais, antecipadamente, e ainda se passar por humilde.

Anônimo disse...

"Pensar que mesmo os pináculos da espécie são pequenos perante "aquele" que é perfeito deve dar algum conforto para suas almas medíocres."

E o que segue também é nota dez!

Infelizmente ao sujeito não basta crer, ele precisa da crença alheia manifesta para se convencer. No fim das contas tudo é interesse por fantasia.
Uma boa olhada e percebe-se que ideologias, que prometem a salvação no futuro incerto, falam a interesses e não à razão. Assim, a companhia combate o constrangimento, daí o ódio dos fanáticos, afinal se atormentam com a possibilidade de seu meio de apoio (a comunidade) perder a crença, já que ele mesmo percebe a fraqueza de evidências e o temor de perder companhia para os criticos os tornam violentos e avessos a qualquer crítica. Temem perder a fé tanto quanto que seus apoios tb a percam.

Enfim, se as crenças fossem sinceras não haveria interesse em enfia-las goela abaixo de ninguém.

Veja só, ideologias criam valores sem valor algum exatamente para afagar os inconformados consigo mesmos. Ostentar humildade é uma forma de se exibir moralmente valioso, ou seja "tem pessoas que são humildes por ostentação" (não lembro do autor). Ou seja as idologias criam valores fáceis de serem exibidos e propagandeiam negativamente os valores reais. Assim, a fraqueza é a preferida dos deuses e dos "salvadores", a pobreza se torna um valor do indivíduo, a ignorância (deus pega os sabios na sua sabedoria e os pobres é que heradarão o reino dos céus)
...Efim, seria ótimo que a2queles que crêem não tivessem a ambição de imporem suas crenças aos descrentes. Eles se pavoneiam em suas crenças, e atacar o descrente é como se provando mais firmeza na crença. Isso é a mente binária em ação que funciona através de antagonismos.
Aliás o bom Schop bem o percebeu quando sentenciou que para algumas pessoas tudo se resolve assim: chá ou café? ...É isso.

Perfeito:
"Assim, pode-se pegar emprestadas todas as glórias celestiais, antecipadamente, e ainda se passar por humilde."

Abração

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