05 março 2013

Soul Radio

"Após uma eternidade sozinho no nada com seu filho e o Espírito Santo, que são Ele próprio, Deus suscitou uma grande explosão, há quatorze mil milhões de translações terrestres anos."

Se fossem essas as primeiras linhas do Gênesis, a Bíblia teria hoje muito mais credibilidade. Contudo...

Ad Hoc são hipóteses adotadas, na quase totalidade das vezes (porque não é apenas por ser ad hoc que é falsa), com o propósito de salvar uma teoria indefensável pela razão e pelas evidências. Têm DNA compatível com a fé cega, aparecem amiúde quando há embaraço de se admitir que se crê pelo hábito, necessidade, conveniência, esperança, não porque se adotou a hipótese mais lógica, mais sensata. É muitas vezes o contra-ataque de crentes letrados que se viram compelidos, em um primeiro momento, a se render às evidências, por brios intelectuais, para demonstrarem isenção e assim manterem a credibilidade, profissional ou em um meio social, familiar.

Exemplos abundam, quase sempre ligados a "verdades" religiosas cujas fundações estão cedendo. Uma posição pode ter sido razoável, sólida, há duzentos anos e não sê-la hoje. Por mais de três mil anos a passagem de Adão e Eva foi tida como literal pelo clero, pelo povo, por filólogos, luminares, exegetas, estes com o auxílio do próprio Espírito Santo - e de fato não há como conciliar a doutrina do pecado original com o poligenismo (Encíclica Humani Generis). A partir do momento em que foi demonstrado que temos ancestrais comuns aos macacos, tudo sempre foi metáfora, foi o modo que pastores da Idade do Bronze encontraram para reproduzir as verdades cristalinas inspiradas por Deus. Acreditava-se que o mundo havia sido criado há seis milênios e que todas as espécies surgiram de uma vez, desenhadas por Deus. A partir do momento em que foi provado que o universo existe há bilhões de anos e que os animais evoluíram por milhões de anos, tendo os dinossauros se extinguido antes mesmo do surgimento do homem, passou-se a dizer que o tempo de Deus não é o nosso, que seu dia é eras, criacionistas chegaram a afirmar que os animais petrificados haviam sido plantados por Satanás para confundir os crentes.

Cria-se na alma. À medida que os estudos do cérebro avançaram, que os movimentos, as sensações, a memória, a personalidade, os desejos e medos passaram a ser relacionados a determinadas áreas da massa craniana, a equilíbrios químicos, passou-se a afirmar que a massa cinzenta é como um receptor de rádio, sendo a alma um transmissor de ondas. Temos que concordar que os miolos de uns por aí são radinhos que reproduzem a Rádio Vaticano, mas daí a existir alma...

Analogias são necessárias para se explicar algo complexo ou técnico, para se romper bloqueios mentais. Infelizmente, falsas analogias são recurso usual de argumentadores cujas posições a lógica e as evidências não têm muito com que ajudar.

Ao contrário dos rádios que conhecemos, só há uma estação em nossa cachimônia. Para mudar a sintonia, captar ondas de frequência diversa, é necessário ir a um centro espírita e incorporar um dos fantasmas de escritores famosos e imperadores que têm licença de frequentar o espaço após um intensivão de português para principiantes no Nosso Lar (não se psicografa em grego e latim), ou em um terreiro de macumba e incorporar um quilombola ou um deus africano. Compositores de música clássica são barrados porque o pentagrama lembra o demônio e é melhor não brincar com suas transmissões radiofônicas, as quais, diga-se de passagem, pegam melhor em cultos evangélicos. Mas é necessário que o rádio tenha dial, ou seja, que se tenha a tal mediunidade.

Se o rádio tiver um componente danificado, basta trocá-lo para que volte a funcionar normalmente. Se uma área do cérebro for danificada e a substituirmos por outra idêntica, tudo ficará como antes? Argumentar-se-á que o contato com o mundo altera os capacitores e outros componentes do rádio e que, por sua vez, eles abrem caminho para outras facetas da alma ou alteram ela própria, de modo que trocar o capacitor novo por um antigo ou de outra marca limitará a transmissão da alma, ou da nova alma. Na verdade, se brincarmos com os componentes do radinho dos dualistas, a Nona Sinfonia de Beethoven passa a ser tocada com saxofone e bateria, em determinado momento, em outro com guitarras distorcidas, em seguida ela vira o Bonde do Tigrão. E sem alterarmos a emissão. Sabe-se que a memória é gravada fisicamente no cérebro. É, porventura, gravada no fantasminha, no homúnculo que vive em nós? Caso afirmativo, se a apagarmos fisicamente sem danificar o cérebro, o homúnculo consegue reimplantá-la no cérebro ou a alma também se esquecerá para sempre? Certamente a segunda opção.

E na experiência em que se ensinou uma tarefa para um rato, gravou-se as conexões mentais ligadas à memória recente em um chip e depois bloqueou-se a área do cérebro em que elas ocorreram para em seguida implantar-se o circuito eletrônico, acionando-se surpreendentemente a memória do aprendizado (link)? E quando se enviou os dados do chip pela internet e, a milhares de quilômetros do experimento original, inseriu-se as informações recebidas em outro chip, que foi implantado em um outro rato, que executou a tarefa como se fosse sua própria experiência (última Veja, Guardian e outros)? É questão de tempo até que estes avanços interfiram diretamente na vida do homem. Ora, somos, em parte, nossas memórias. Como harmonizar essas experiências com ratos e o conceito de alma? Como crer em um homúnculo imaterial que vive dentro de nós, que, se possui memória, não consegue reimplantá-la no cérebro em que foi apagada - algo que já se pode fazer com um mero chip? Como crer em alma quando tudo o que somos pode cada vez mais ser explicado fisicamente?

E como a hipótese lida com os casos de cérebros divididos (link Wikipedia – link Youtube), em que há duas consciências independentes?

Se melhorarmos a “recepção” de macacos com transplante de partes de cérebro de homens “desencarnados”, cujas almas já estão junto de seu deus, no inferno, aguardando julgamento ou no Nosso Lar de Chico Xavier, os símios passarão a ter alma ou sempre a possuíram, quiçá por terem sido criados à imagem e semelhança de Hanuman, o deus-macaco hindu, mas apenas nunca tiveram um rádio à altura?

Enfim, pelo modelo do radinho, ao longo de nossa vida nossa alma não aprende nada, já que o aprendizado se dá fisicamente, no receptor, por conexões. Desde a primeira infância melhora-se o acesso à rede de neurônios, aprende-se incontáveis coisas, obrigatoriamente esquece-se de muitas outras, nossas decisões morais são baseadas na experiência, na memória portanto, no aprendizado, inclusive emocional. A personalidade se forma assim, além das predisposições genéticas. Para quê serve a alma, nesta vida? Como se medirá seu mérito e demérito depois de desencarnada, já que estará pura, por jamais ter fixado qualquer experiência? E outro problema: não podemos gozar eternamente no paraíso enquanto nossos filhos padecem horrores no inferno, então de duas uma: ou deixamos de ser nós mesmos perdendo a memória no Rio Letes, que está no Hades ou no Purgatório de Dante, ou virando um monstrinho amoral do quilate de Deus e achando tudo bem feito, porque, afinal, eles "escolheram" estar longe do Pai. Em qualquer um dos casos deixamos de ser nós mesmos e, consequentemente, não somos nós os imortais mas uma outra consciência. Ou não existe punição e recompensa. Aí Deus é o inútil que aparenta ser, porque além de não interferir neste mundo, como constatamos, não atua no "outro".

Não subestimemos a capacidade dos crentes elásticos de empunharem novas hipóteses ad hoc, novas analogias como se fossem prova de algo. No futuro seremos, quem sabe, proxies de uma alma não atuante que incorporará nossos méritos e deméritos, que ficará mais brilhante ou mais enegrecida de acordo com nossas ações, e que será imortal como todos sempre desejamos ser. Na verdade, a crença na alma imortal se extinguirá caso se conquiste a imortalidade física, mediante o fim da decrepitude e por backups de cérebro e órgãos reimplantáveis após acidentes ou doenças. Aí os crentes relaxariam, pois já teriam conquistado aquilo que, no fundo, é um desejo não um argumento, uma esperança não uma posição racional. E quem sabe depois veriam que a imortalidade estaria mais próxima de uma maldição, sentir-se-iam talvez como os Struldbrugs das Viagens de Gulliver, cometeriam suicídio. Sabemos, por experiência, que o prazer está ligado à finitude, à efemeridade, é assim na contemplação de um pôr do sol, na graciosidade da primeira infância de nossos filhos, com nossas ingênuas conquistas juvenis, com um chope animado entre amigos, em uma noite romântica com a esposa, numa viagem que nem sempre podemos fazer. A vida é preciosa porque é efêmera.

Entre Jesus e Epicuro, fico com este, que disse, três séculos antes do sedizente "Único Caminho": "A morte não é nada para nós, pois, quando existimos, não existe a morte, e quando existe a morte, não existimos mais." Epicuro sim venceu a morte, com sabedoria. O "çábio" judeu apenas alimentou vãs e antigas ilusões...

8 comentários:

Anônimo disse...

céticos de merda

querem que acreditemos neles e, no entanto, não acreditam em nada!

Anônimo disse...

Catateticus,

Veja bem, existem mil tipos de pessoas e assim existem mil tipos de religião.

Cada um destes tipos vai intepretar a religião conforme sua capacidade.

Para uns, o medo do inferno é algo saudável.

Para outros, acreditar que Deus os ama funciona para aumentar a auto-estima.

E por aí vai.

E temos aqueles que usam a religião como instrumento de perversão sexual e dominação...

Enfim, o problema não está na religião mas no mau uso que muitas vezes é feito dela...

Então vê se desencana e muda o foco. Veja se tenta entender que existem muitas teologias....

Teologia da libertação, da prosperidade,...

Tem para todos os gostos e para todo tipo de gente então porque tanta implicância?

Anônimo disse...

há quatorze mil milhões de translações terrestres


Como, se a terra existe há pouco mais de 4 bilhões de anos?

Aha! Esse é o Catatéticus...

André Luiz Marques disse...

Se fosse depender do teu texto pra entender hipótese ad hoc ia ficar difícil. Que rolo que vc faz.

O cérebro não prova que a alma não existe. Essa é a maior burrice que eu já vi. kkk

Vá estudar Bíblia e entender o que ela significa ao invés de ficar blasfemando como um energúmeno só pra chocar, como fazem os adolescentes.

Evolução das Espécies é mais carochinha do que o conto da Branca de Neve. É só uma teoria. E cada vez menos sustentável pelas evidências.

E ceticismo está a favor do criacionismo. Veja o vídeo Duvidar para Crer. http://criacionistaconsciente.blogspot.com.br/2010/06/duvidar-para-crer-parte-1-de-3.html

Catellius disse...

Anônimo 2,

Não tratei de religião. Talvez quando falei em inferno. A questão é sobre a alma e a analogia do radinho que os dualistas passaram a usar quando os conhecimentos acerca do cérebro tornaram inútil nosso fantasminha interior.

Anônimo 3,

É verdade. Substitua "translações terrestres" por "anos".

Catellius disse...

"Evolução das Espécies é mais carochinha do que o conto da Branca de Neve. É só uma teoria. E cada vez menos sustentável pelas evidências."

Caro André,

Vírus e bactérias não evoluem. Deus cria espécies novas todos os dias, para aprendermos a não criar antibióticos e vacinas. Para aprendermos a não desafiar seus desígnios, que são de causar males ao homem para que pedinche por ajuda, para que engula sua soberba humana e fique mais próximo da humildade divina...

Eduardo Silva disse...

Acredito ser possível que os vírus tenham chegado à Terra a bordo de um cometa, de um asteróide ou até como um detrito ou poeira cósmica. Essa possibilidade vem de encontro às idéias dos panspermistas, que defendem que as formas primordiais de vida na Terra vieram do espaço.

Nesse caso, os vírus seriam verdadeiros "ETs" que estão convivendo conosco há muitos milhões de anos. Essa opção poderia explicar porque esses seres não seguem a configuração celular de vida que é usada na Terra; sua configuração de vida seria própria do seu mundo de origem; razão pela qual ela é completamente diferente daquela existente no mundo Terra.

Ainda dentro desse raciocínio, poderíamos imaginar que os vírus tenham migrado para o planeta Terra com a finalidade de evoluir dando lógica assim a existência entre nós de duas populações viróticas diferentes – uma menos evoluída causadora de infecções e, outra, mais evoluída constituída de vírus inócuos que funcionariam como instrumento para a Força.

E para dar peso e validade a esse nosso raciocínio, me apoio em ninguém mais do que Luiz de Mattos – o grande Mestre espiritualista que afirmava:

[...] Ao planeta Terra tudo vem de fora e vive fora dele, fornecido pelos outros planetas que o rodeiam, em obediência às leis naturais e imutáveis do progresso [...] (no livro Pela Verdade - a ação do espírito sobre a matéria).

zefirosblog disse...

"So, we have seen that bad things, like good things, don't happen any more often than they ought to by chance. The universe has no mind, no feelings and no personality, so it doesn't do things in order to hurt or please you. Bad things happen because THINGS happen. Wheter they are bad or good from our point of view doesn't influence how likely it is that they will happen. Some people find it hard to accept this. They'd prefer to think that sinners get their comeuppance, that virtue is rewarded. Unfortunately, the universe doesn't care what people prefer".

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