02 fevereiro 2013

A Ilha Misteriosa

João e Carlos caminhavam pela ilha a poucos quilômetros da qual naufragara seu barco de pesca, após enfrentar horas de tempestade. Rádio, sinalizadores e celulares foram a pique com ele.

- Creio que seja deserta. - disse João, quebrando o silêncio. Parando de repente, gritou: - Veja! Uma casa sobre aquelas rochas!

Correram até lá. A casa simples, de duas águas e um pequeno alpendre, parecia ser recém construída. Carlos estranhou não haver caminhos próximos ou mesmo pegadas. A porta estava fechada. Carlos espiou pela janela e pode ver, através de um pequeno vão entre as cortinas, que lá não havia móveis, apenas o que parecia ser a maquete de uma construção. Foi o máximo que a penumbra lhe permitiu discernir.

- É a casa de um arquiteto? E os jardins, os caminhos para acessá-la, os móveis, o pano de vidro para aproveitar a vista? – disse Carlos.

- Certamente é habitada. É nova. Ô de casa! – gritou João.

Sentaram na varandinha e esperaram um longo tempo. Nada. João forçou a porta umas vezes e depois tentou arrombá-la. A construção inteira tremeu com suas investidas. Relutante a princípio, Carlos arremessou uma grande pedra contra a janela, mas o vidro não quebrou.

- É uma fortaleza! – espantou-se João.

Prosseguiram a exploração da ilha. Após cruzarem um vale escarpado, acharam uma casa quase idêntica à primeira, um pouco maior, velha e mal acabada. Não possuía porta frontal, apenas uma entrada de serviço nos fundos. Tinha uma chaminé, mas muito estreita para eles passarem.

O sol se pôs e uma fina chuva os fez montar acampamento no alpendre da casa velha. “Por que esta varanda, se não é acessada por porta alguma?”, pensou Carlos.

De manhã, encontraram nas imediações outras casas, todas lacradas, parecidas mas de tamanhos levemente diferentes, uma ligeiramente mais escura, outra com cumeeira não centralizada, as que tinham chaminé não possuíam porta frontal. Percorreram toda a ilha, que era pequena, e não encontraram viva alma. Retornaram à primeira casa. João espiou pela janela.

- Levaram a maquete. A sala está vazia!

- Talvez os responsáveis morem no continente, ou em outra ilha, e venham cá apenas para experiências arquitetônicas.

Não restavam dúvidas de que alguém erguera aquelas construções e que estava por perto - a maquete ter desaparecido da sala o corroborava. E, afinal de contas, as casas não poderiam ser fruto do acaso. Mas Carlos pensou, intrigado: “Por que fazer maquete se todas as casas são muito parecidas? Para um cliente entender o projeto?” Acamparam no alpendre e decidiram que não sairiam de lá até toparem com alguém e obterem explicações e ajuda.

Após uns dias, durante os quais se revezaram para catar cocos e caçar pequenos animais, ficando sempre um a montar guarda na casa, testemunharam algo maravilhoso. Acordaram à noite com ruídos que pareciam vir do vale, ecoando por suas paredes. Algo parecia se arrastar, depois ouviu-se um impacto estrondoso, voltou o arrastamento, novamente o impacto, em uma nítida cadência, o som cada vez mais alto, próximo. Esconderam-se em uma fresta nas rochas a alguns metros da casa, e quase não acreditaram quando viram uma grande mansão de dois andares surgir de repente, tombar em frente ao telheiro da outra e, perante os dois pescadores boquiabertos, na casinha introduzir sua chaminé pela porta frontal, aquela inexpugnável porta! Depois de uns instantes o sobrado endireitou-se, como se centenas de homens o içassem com cordas e polias, e sumiu desajeitadamente por onde surgira.

Impossível descrever o assombro de João e Carlos. Não saíram antes que nascesse o sol e, como se sonhassem acordados – de fato, não conseguiram pregar os olhos um instante sequer -, andaram de um lado pro outro desatinados, sem chão. Carlos, parecendo recobrar um pouco suas faculdades, acercou-se da janela, espiou e caiu para trás:

- Uma maquete!

Inexplicável! Ficaram por lá mais umas noites, protegendo-se das intempéries na toca que encontraram, sem terem coragem de dormir novamente próximos àquela bizarrice em forma de casa. Contudo, espiavam pela janela e viam a maquete um pouco maior a cada dia, até que ela, agora em escala 1:10, saiu sozinha pela porta da frente, ficou um pouco sob o alpendre e depois se arrastou, como um filhote de tartaruga, em direção ao vale.

- Deveras impressionante! Então ninguém as construiu. As casas são vivas, reproduzem-se, são levemente diferentes umas das outras. – empolgou-se Carlos, ainda assustado, contudo. – Envelhecem e ficam mal acabadas, como aquele “macho” que vimos no vale.

- Que estupidez – replicou João. – Um arquiteto com formação em mecatrônica as construiu, as programou para se replicarem. Deve estar escondido por aí. Deve ter um plano.

- Por que alpendre nos “machos”, se não possuem porta frontal? Havia reparado, inclusive, em nossa excursão pelo vale, que as “fêmeas” têm como que uma cicatriz de chaminé na cumeeira. Por que projetar tais elementos inúteis?

João passou semanas gritando a plenos pulmões para que o arquiteto aparecesse, enquanto Carlos explorava a ilha. Encontrou, em umas cavernas do vale, restos petrificados de casas bem diferentes daquelas que se viam erguidas na ilha, pedaços de outras em um charco próximo que possuíam algo idêntico a um motor de popa junto à porta dos fundos. Quando Carlos mostrava suas descobertas a João, este, irritado, o criticava por não ajudá-lo a procurar pelo arquiteto. Depois, convencido de que este era invisível, passou a acreditar que além de criar as casas comandava a ilha, de modo que passou a lhe pedir em voz alta por chuva quando fazia muito calor, por comida quando tinha fome. Às vezes era atendido, às vezes não, principalmente quando era exigente e muito específico. Mas sempre, em agradecimento, deixava peixes e frutas sobre grandes pedras que empilhara conforme ordens que o próprio arquiteto lhe dera em sonhos.

Um dia João escorregou do alto de suas pedras, quando tentava aumentar a pilha, despencou no chão, rasgou a perna e bateu a cabeça. Carlos cuidou do amigo, passou nos ferimentos sal marinho que isolara em piscinas de evaporação, protegeu-os com panos limpos, deu-lhe água e comida.

Quando se sentiu novamente disposto, João foi à sua pilha de pedras agradecer ao arquiteto por ter tratado de seus ferimentos. Carlos, entendendo que o outro precisava do amiguinho imaginário para sobreviver naquela ilha sem sentido no meio do nada, prosseguiu tentando entendê-la e com pesar deixou de lado seu desvairado companheiro, que agora sonhava com o dia em que o arquiteto cumpriria sua promessa de o levar para o Palácio de Versalhes invisível que se erguia majestoso sobre as nuvens...

Quem achou esta alegoria esquisita é porque não assistiu à 6ª temporada de Lost...

8 comentários:

Anônimo disse...

Gostei. Achei muito bom o tom de suspense durante todo tempo e um final criativo e intrigante...
Abraço,
Marcos.

zefirosblog disse...

Excelente alegoria...

Catellius disse...

Obrigado, Marcos e Raphael.

A ideia veio de um debate que tive com o Blogildo em março de 2007.

Ele escreveu:

"Por exemplo, se um sujeito está numa ilha deserta e repentinamente, após alguns dias de busca por ajuda, encontra uma casa moderna e equipada com tudo o que há de mais sofisticado para uma confortável vida doméstica, ele terá a curiosidade de saber quem construiu a casa, se alguém mora ali e o objetivo de quem a construiu. Acho pouco provável que a pessoa atribua isso a uma sucessão de ‘acasos felizes’."

Eu escrevi:

Se a casa se reproduzir e der à luz uma outra casa muito parecida, poderemos pensar justamente isto. Igualmente, para fazer uma baleia não é preciso um deus. Bastam duas baleias, he he. Quanto à primeira baleia, vou dar um exemplo para você, que adora analogias e simbolismos. Melhor, vou criar um exemplo “dialético”.

A - Veja a língua alemã, seus dativos e genitivos, seus substantivos compostos, a complexidade que se presta tanto à filosofia. Obviamente ela deve ter sido criada por alguém. Este alguém só pode ser Deus.
B - Ninguém criou o idioma alemão, ele evoluiu. Adaptou-se ao tempo, às circunstâncias, à tecnologia. Por exemplo, muitas palavras têm raízes latinas...
A - Economia divina. O latim também foi criado por Deus.
B - ...muitas palavras são onomatopéias, o que demonstra que os homens no passado praticamente imitavam sons de animais, do trovão. "Barke" parece o latido do cachorro, "Bär" parece o som do urso. Em inglês temos Bee, Owl, flash, etc.
A – O sons dos animais e o nome que damos aos animais têm relação, claro. Os animais também foram criados por Deus.
B – Mas a língua germânica já foi bem mais simples, basta que analisemos escritos antigos.
A – Bom, tudo é fé. Você tem fé nos escritos antigos e eu prefiro ver como o alemão é uma língua complexa e bem ordenada, com leis coerentes e inteligentes, e ver que em tudo isso há uma mão superior. Ela não poderia ter sido moldada aos poucos, sem um plano diretor primordial.

Blogildo, pegue uma caixa e coloque imãs imaginários quadrados, aleatoriamente. Cada imã possui seis lados e seis pólos diferentes (sei que isto não existe). Cada pólo consegue se conectar a um único lado de outro imã. Muito bem, dentro da caixa está tudo desordenado. Agora feche e sacuda-a por dias a fio. Os pólos que por acaso se unirem não se separarão mais. Após um tempo abra a caixa. Surpreendentemente verá um bloco organizado, ortogonal, que parecerá ter sido arranjado por uma mente inteligente. As ligações químicas acontecem de um modo semelhante.

E por aí vai...

Diácono Remédios disse...

Essa de pôr as casas a copular, só mesmo por anedota. Vejamos: casa é feminino. Então, da cópula de dois elementos femininos nasce qualquer coisa. Pois.
Como diria qualquer TJ que se preze, "a Deus nada é impossível". Até casas copularem umas com as outras. Ora, isso é homossexualidade. E a ICAR não alinha nisso, embora acabe por abençoar, um dia destes, o casamento homossexual. Não tarda nada, temos as casas na prostituição.
Valha-nos o arquitecto supremo!

arquitecto supremo disse...

É óbvio que ninguém projectou a casa, tudo resultou de um arranjo meramente circunstancial de átomos, de acordo com as leis naturais.

Milba disse...

Em cabeça que casas "copulam" pode-se até fazer o "arquiteto" ser "enfiado" por uma casa. Deveria fazer como os pastutos: Quando querem credibilidade dizem que são "formados em piscôlogia" e não em "terrorlogia' que é a especialidade dos pastifes.
Em Angra dos Reis no RJ, pastutos-pastifes "formados em piscologia" fazem fiéis-crentes fazer culto de "pregação" na beira de um rio, quando chega um carregamento de drogas no local.
Tudo sai "abençoado" e "louvado". Os pastutos ricos e adolescentes sendo assassinados para encher os cultos dos PASTIFES.

Catellius disse...

"Quando querem credibilidade dizem que são "formados em piscôlogia'"

Muito bem. São as tais credenciais. O Ufólogo ninguém leva a sério, Então ele se forma em física em uma faculdade qualquer, faz mestrado algures, doutorado no exterior e voilá: agora fala as mesmas asneiras com a legenda "doutor em física". O mesmo acontece com teólogos, homeopatas, etc.

Blogildo disse...

Verissimo ficaria orgulhoso da historinha. Hehehehe! Você me conhece e sabe que isso não é exatamente um elogio.
Adoro histórias sem moral e sem sentido, Catellius. É sério. Richard Dawkins falando de extra-terrestres é dessa lavra. Como diz a moçada: "Muito comédia".
Eu fiquei no exemplo de uma casa. Estou sendo o mais solipsista possível. Você nunca viu uma casa se reproduzir. Da mesma forma que eu nunca vi Deus. Mas o curioso é que você. que acredita em casas vivas que se reproduzem (em algum lugar os irmãos Grimm devem estar rindo a valer), é mais esperto que uma testemunha de Jeová que acredita que casas não se reproduzem sozinhas. Cada um com sua religião, né.
Ah! Deixe a língua de Goethe em paz, vai. Não tem nada a ver.

A história dos imãs é outra muito boa. Você ignora que há alguém colocando os "imãs imaginários" na caixa. Ignora que alguém forneceu a caixa. Ignora que alguém fechou a caixa e por aí vai a ignorância. Ah, Catellius, a paralaxe - essa danada!

Abraço, cara!
Saudades desses papos. Pena (e não vai nenhuma ironia aqui) que não tenho mais tanto tempo para esses papos. Gosto dessa coisa de argumento e contra argumento. Afia o intelecto.

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