04 janeiro 2013

O Milagre de Foot Grain



O minúsculo grânulo de rocha ígnea cuja fotografia apreciamos acima é muito especial, protagonista de um verdadeiro prodígio. Sua forma não tem igual em todo universo. Com comprimento de aproximadamente meio milímetro, lembra um pouco um pé humano, devido em parte a manchas brancas intermitentes de sílica e feldspato, o que levou à alcunha "Foot Grain" pela qual tem sido chamado. Foi descoberto após um evento extraordinário, com probabilidade virtualmente nula de ocorrer, ou melhor: uma em um trilhão.

Em Pismo Beach, Califórnia, o japonês Arima-no Miko, vendado, andou às cegas pela praia em uma área demarcada de 1000 m², inseriu a mão na areia e isolou, após esfregar o polegar e o indicador, justamente o Foot Grain. Exatamente ele! O cálculo da probabilidade foi feito levando-se em conta a quantidade de dez grãos por mm² e uma profundidade de 10 cm. Perante uma multidão emocionada, o precioso grãozinho foi transferido para a Igreja de São Paulo Apóstolo, também em Pismo Beach, onde hoje pode ser venerado através de potentes lentes de aumento e projetores. Cópias em tamanho ampliado já estão sendo vendidas em lojas da vizinhança, assim como camisetas com os dizeres "one in a trillion = miracle". Curas têm sido atribuídas à pedra miraculosa, hoje mais famosa do que o meteorito da Caaba, um ganhador da loteria afirmou ter segurado uma réplica do diorito, enquanto escolhia os números. Como não podia deixar de ser, céticos argumentam que Foot Grain não era conhecido antes do episódio, sequer tinha nome próprio, que não há nada de especial em sua composição geológica, que só se parece com um pé de um único ângulo e com muita boa vontade, que não havia a intenção de sorteá-lo exatamente ele, e que o escolhido poderia ter sido um outro grão qualquer e que a coisa toda era um completo desvario.




Fotografia de Foot Grain com outros grãos de areia tirada por Mark A. Wilson, do Departamento de Geologia do Wooster College.

O caso chamou a atenção do mundo, mas às vezes esquecemos que o simples fato de estarmos aqui é um milagre muito mais impressionante do que o do grão de areia. Se a Terra não estivesse à distância que está do Sol, se a colisão com um planeta chamado Theia ou sucessivos e intensos terremotos não tivessem inclinado seu eixo de rotação, o que propiciou as estações do ano, se não houvesse Lua, se há 65 milhões de anos um meteoro não tivesse caído por aqui e extinguido os dinossauros, após o quê tiveram oportunidade de evoluir para símios os pequenos mamíferos que de fendas e tocas viam passar as colossais patorras daqueles predadores pecilotérmicos, se tudo não tivesse ocorrido precisamente do jeito que ocorreu, hoje as coisas não seriam exatamente como são. Aqui seria Marte ou outro planeta do Sistema Solar que está em outra órbita, que tem outro tamanho e que não tem vida, e obviamente ninguém estaria escrevendo estas pérolas e ninguém as estaria lendo (quanto a isto, pouco mudaria). A probabilidade de tudo ter acontecido do jeitinho que aconteceu é, para inventar um número "exosférico", de uma em milhões de decilhões, ou seja: Milagre! Deus existe! E sem falarmos que cada uma das sete bilhões de pessoas do planeta nasceu vencedora, é o miraculoso fruto do espermatozoide ganhador de uma disputa acirradíssima no útero materno, mais concorrida do que qualquer mega-sena, contra 300 milhões de concorrentes. Não estou contando com os dias inférteis da mulher e com os "girinos" desperdiçados, às vezes com chances nulas de encontrar pela frente algo diverso de uma membrana de látex (entre outras possibilidades). Há quem argumente (adivinhem quem) que se fosse qualquer outro espermatozoide a fecundar o óvulo, consideraríamos milagre do mesmo modo, porque analisamos os fatos após terem ocorrido.

Há milagres não tão espetaculares mas com a peculiaridade de terem data prevista e repetições amiudadas. A mega-sena, por exemplo, citada no parágrafo anterior. Segundo os estatísticos, para cada jogo a probabilidade é de aproximadamente 1 em 50 milhões. Na verdade, a chance é maior (o que torna o milagre menor), uma vez que as bolas armazenam em uma memória quântica - muito bem explicada no filme "Quem Somos Nós" (What the Bleep Do We Know!?) e nas experiências de Masaru Emoto -, os números decimais em algarismos arábicos, repelindo combinações em sequência, progressões perfeitas aritméticas, principalmente com diferença comum de uma dezena, e números que saíram na edição anterior. Contudo, dígitos que saíram muitas vezes, como o 5, imprimem-se também quanticamente na mente dos milhões de apostadores e mesmo na dos auditores presentes no sorteio, aumentando a probabilidade de saírem novamente.

Como não podia deixar de ser, céticos argumentam que, pela lei dos grandes números, sempre nos depararemos com eventos incomuns, que teremos provavelmente 3 ganhadores quando 150 milhões de apostas forem feitas, e que nos resultados nunca se viu números em sequência ou progressões aritméticas como 10, 20, 30, 40, 50 e 60, porque o número de edições da mega-sena é pequeno em relação às milhões de possibilidades. São 105 sorteios no ano, então seriam necessários 500 mil anos com dois sorteios semanais para que talvez víssemos sair um resultado como 01, 02, 03, 04, 05 e 06. Dizem que as bolinhas não sabem qual número está impresso nelas, não são vivas e sequer consciência possuem, além de não possuírem controle sobre seu corpo esférico, e a probabilidade de saírem dígitos em sequência é a mesma de sair qualquer outra combinação. Os céticos, cada vez mais em descrédito nesta sociedade de verdades plurais, podem até ser especialistas em ciência física, mas certamente não o são em ciência metafísica quântica. Parecem desconhecer, por exemplo, a sincronicidade, provada, por meio do próprio testemunho, por Carl Gustav Jung nos anos vinte do século passado. Invocam a Lei de Littlewood, um cientista obscuro, de menos prestígio que o psicólogo suíço, segundo a qual uma coisa acontece por segundo, em um mês acontecem um milhão de coisas, para quem é ativo por oito horas diárias, e, definindo-se milagre como um evento com probabilidade de uma em um milhão de ocorrer, todo mês presenciamos um milagre. Com tal irônica falácia tentam tirar a poesia do mundo, o milagre de nosso dia a dia (por que apenas mensal?), a nossa razão de viver. Fugindo um pouco do assunto, a respeito da mega-sena, dizem ainda que é um imposto sobre a estupidez, que loterias oficiais são um jeito que governos usam, desde antes de Cristo, para aumentar a arrecadação sobre a massa ignara sem apelar para impopulares impostos formais, porque as chances de ganhar tendem a zero e o governo sempre ficará com a maioria do dinheiro.

Eventos como o encontro miraculoso de Foot Grain calarão por hora a boca dessa malta de estraga-prazeres. Aguardemos o momento em que mostrarão de novo suas garrinhas envenenadas!

6 comentários:

Arima-no Miko disse...

Arima-no Miko: príncipe imperial japonês nascido em 640 d.C. A história é antiga. kkkk

De resto, gostei. Pugnacitas está parecendo o The Onion. Ou a Desciclopedia.

Anônimo disse...

Meio bagunçado. O que a mega-sena tem haver com a pedra???

Catellius disse...

O que tem a ver? Estatísticas. Coisas improváveis acontecem o tempo todo e o simples fato de eu escolher um grão de areia na praia é, do ponto de vista do grão escolhido, altamente improvável. Acertar 6 dezenas na mega-sena é, para quem ganhou, um milagre, já que a chance é de uma em 50 milhões, mas toda semana alguém ganha porque são feitas dezenas de milhões de apostas.

zefirosblog disse...

São pessoas de espírito vazio. Dizem-se céticos, mas não entendem o óbvio diante de seus olhos. Afinal, nem mesmo é preciso ter fé, qualquer pessoa razoável percebe que algo assim, tão improvável, não pode acontecer por acaso.

Pobres descrentes, eles precisam de nós para trazer algum bom senso a suas mentes...

Anônimo disse...

O ceticismo salva vc da ignorancia. Desenvolva mais o pensamento critico e menos a imaginação.

Catellius disse...

Sim, o texto é uma grande ironia. É óbvio que eu estou do lado dos céticos!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...