05 novembro 2012

A Direita Envergonhada

No Brasil, assim como em outros países, não temos uma direita. De fato, a nossa situação, do ponto de vista do modelo da democracia liberal representativa, é ainda mais grave, pois, aparentemente não temos nem oposição. Aqui quem ousa criticar o governo é a imprensa “burguesa”, mas a batata deles está assando. O único personagem político que me vem à cabeça como alguém de direita seria o Ronaldo Caiado. Se vivêssemos nos Estados Unidos, ele certamente seria um presidenciável pelo Partido Republicado, que gosta de caubóis.

Mas vivemos no Brasil e aqui ser de direita é “coisa feia”. Talvez este incômodo venha de longe, afinal, aparentemente Adam Smith dedica muitas páginas a tentar explicar por que o egoísmo pode ser bom para toda a sociedade graças à chamada mão invisível. A sociedade inglesa, que teve uma história marcada por guerras religiosas e reis tirânicos, viu com simpatia estas ideias de uma sociedade regulada em grande parte por relações de mercado e com um papel secundário para a intervenção do Estado.

O historiador econômico alemão Friedrich List, por outro lado, considera as teorias de Smith cosmopolitas e defende a intervenção do Estado para gerar desenvolvimento econômico. As ideias deste, por sua vez, foram bem acolhidas pelos prussianos que, desde Frederico o Grande, haviam montado uma grande burocracia e as bases de um estado de bem-estar social. De fato, não se pode negar o sucesso do modelo alemão.

Mas, afinal de contas, por que é feio ser de direita? Em uma abordagem freudiana podemos buscar as raízes disto na infância. Afinal, quem nunca teve uma professora casada com algum tecnocrata bem remunerado e que usasse a sua cátedra para destilar uma historiografia uspiana marxista adolescente? O curioso é que tenho alguns amigos e conhecidos de esquerda e um traço comum que vejo neles são os bons casamentos com herdeiros e assemelhados...

Outro dia, lendo uma destas notícias sobre estudos feitos em universidades americanas, achei um resultado interessante. Segundo uma delas, quando pessoas eram expostas a fotos de recolhimento de lixo reciclável e outras coisas politicamente corretas elas, em uma decisão subsequente, se mostravam mais egoístas que outras pessoas do grupo de controle. A explicação dos pesquisadores era que no balanço interno de boas e más ações as imagens contavam como algo bom que podia ser compensado por uma ação mais egoísta.

Imagina, então, um sujeito com um discurso libertário, tipo assim um José Dirceu, que vive a falar mal da burguesia embora em termos de classe social ele mesmo faça parte da classe AA. Mas, a implicação deste negócio é que quanto mais bonito o discurso mais livre pode se sentir o sujeito para fazer coisas egoístas, afinal, ele já faz tanto pregando o bem, não é mesmo?

Outro componente que ajuda a explicar a vergonha de ser de direita é a culpa, afinal, o Brasil é um país desigual e capitalizar sobre esta desigualdade é a especialidade de alguns políticos. Hoje, o investimento dos pais na educação dos filhos é algo que o estado petista busca punir, por exemplo. Se não consegue melhorar a educação pública, se esforça para reduzir as oportunidades dos filhinhos de papai. E os filhinhos de papai se sentem culpados...

Talvez o ideal olímpico seja ser alguém como Lula. Filho de pais miseráveis, fugiu do trabalho e do estudo até conseguir entrar no sindicado, onde encontrou sua vocação... Para um sujeitos destes não deve nem existir culpa. Afinal, não teve educação, não teve oportunidade e, apesar disto, fez tanto bem pelos pobres. Enfim, tudo de mal que alguém assim fizer já está perdoado. Talvez o ideal seja ter um discurso de esquerda e uma prática de direita e discutir a desigualdade no Brasil em um belo jantar em Paris...
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