28 abril 2012

Bestas cegas creem fazer o mal em nome do bem


 A Proposta de Emenda Constitucional nº3/2011 pretende modificar o Artigo 49, V, da Constituição:

Art. 49. É da competência exclusiva do Congresso Nacional:

V - sustar os atos normativos dos demais Poderes que exorbitem do poder regulamentar ou dos limites de delegação legislativa;


E armou-se o circo.

Janer Cristaldo, Reinaldo Azevedo, sites evangélicos, católicos, Revista VEJA online. A mobilização foi geral. Em comum, acreditam que se a emenda for efetivada, todas decisões do STF poderão ser vetadas por Tiririca e seus colegas de picadeiro. Uns se indignaram e outros exultaram, estes porque, aliviados, julgam que suas ideias fixas religiosas estarão a salvo do supercongresso em que se transformou o STF.

Janer Cristaldo escreveu: "Ou seja, última instância já era. Quando decisão de última instância contrariar grupos religiosos, alguma PEC há de se achar para mandar a última instância para o lugar de penúltima. (...) A PEC já foi aprovada no CCJ e agora vai para o plenário da Câmara para votação. Vai ser divertido. Imagine as sentenças de pavões como Marco Aurélio de Mello ou Joaquim Barbosa sendo revisadas por Tiririca."

Reinaldo Azevedo bateu palmas para a decisão, reconhecendo sua periculosidade. Espera que agora o Congresso, em cuja sabedoria ele deposita a salvaguarda do pacotão católico pelo qual trocou sua credibilidade há alguns anos, poderá cassar qualquer decisão do que chamou “supercongresso”. Escreveu, o blogueiro: “É claro que é arriscado! É claro que não sou exatamente um entusiasta da ideia. Mas não podemos ter um supercongresso formado por 11 pessoas, especialmente quando uma cláusula pétrea da Constituição, como é Artigo 5º, é tratada como uma mera formalidade e quando, confessadamente, estamos sujeitos a ‘sentimentos’.”

Lemos no site da revista VEJA: "A PEC tornou-se prioridade da frente parlamentar evangélica desde que o STF decidiu permitir o aborto de fetos anencéfalos. (...) 'Precisamos colocar um fim nesse ativismo, nesse governo de juízes. Isso já aconteceu na questão das algemas, da união estável de homossexuais, da fidelidade partidária, da definição dos números de vereadores e agora no aborto de anencéfalos', afirma Campos."

A pressão pela votação da PEC foi iniciativa de um deputado e pastor evangélico motivado pelas recentes decisões polêmicas do judiciário relativas ao aborto e à união civil de homossexuais, e teve apoio massivo das bancadas evangélica e católica pelo mesmo motivo.

Essa PEC não tem nada a ver com as decisões jurisdicionais do Poder Judiciário, apenas com as normativas.

De fato, as manchetes induzem ao erro por não discriminarem quais "atos" seriam (CCJ aprova proposta que permite ao Congresso vetar atos do Judiciário). Até mesmo jornalistas experientes enganaram-se, ajudados pela mobilização dos deputados cristãos, aqueles sábios legisladores, representantes (d)eméritos de um dos poderes desta República, que não entenderam pelo visto o alcance desta singela PEC.

Ou seja: Esses deputados são parvos no úrtimo por não entenderem o próprio ofício e agirem como umas bestas cegas, e sua mobilização patética acabou confundindo a sociedade, pelo jeito.

O lado grave da história: Os deputados que militaram pela aprovação da PEC realmente acreditam que estão submetendo o judiciário ao controle do legislativo, e com a consciência limpa de seus nobres ideais.

26 abril 2012

Rock não é cultura?


Caro Janer, aqui vão dois comentários sobre seu post "ROQUEIRO VIRA PATRONO DE FEIRA DO LIVRO NO RS"‏


"Comentei, nas últimas crônicas, as relações espúrias entre cultura e show business. De tanto os jornais noticiarem shows de rock em suas páginas dedicadas à cultura, rock acabou virando manifestação de cultura."

Sou um ardoroso aficionado da música feita entre 1600 e 1950 - especialmente ópera -, de pintura, escultura, filosofia, história, literatura, arquitetura. Não me sinto melhor do que os outros por isso. Mérito há em construir o Partenon, em lutar nas Termópilas, em compor Le Prophète, em Cabanel pintar seu Nascimento de Vênus. Reconheço que há mérito em tocar a Apassionata ao piano, em criar cenários para uma ópera. Há quem leia Nietzsche, aquela metralhadora de verdades, e passe a se sentir coautor de seus textos, porque os entendeu e mudaram sua visão de mundo. Ora, o mérito é de Nietzsche, apenas. Entendê-lo é "obrigação" de Homo-sapiens.

O propósito da vida é aquele que lhe damos, ao contrário do que creem os religiosos. Um homem não querer ter contato com aquilo que seus colegas de espécie produziram de melhor é triste, do meu ponto de vista, mas legítimo. Seu propósito de vida pode ser procriar, ir à igreja e ver novelas. Eu, por meu turno, não sou obrigado a assistir televisão e ler suplementos de jornais. Posso passar o dia a trabalhar escutando a música de meu gosto, ler o que desejo, ir a um concerto, viajar para visitar ruínas, fruir de tudo o que me convém e é lícito. Sou livre para selecionar amigos com gostos semelhantes.

Embora prefira música clássica, não vejo qualquer problema em Beatles e Bob Marley aparecerem em um suplemento cultural de jornal. Deveriam apenas estar no suplemento "cultura popular", para os patrulheiros da "verdadeira cultura" não ficarem ofendidos? No true scotsman puts sugar in his porridge...

Os Beatles representam bem a cultura de seu tempo: a psicodelia mesclada a sons exóticos, indianos, a irreverência à la Monty Python, os trompetes algo pomposos que remetem à família real, (puerilmente a Händel e Purcell), além da conexão com os americanos blues, country e o próprio rock. Criaram melodias que identificam bem a cultura daquela época. Ora, se prefiro música clássica, então os Beatles não são cultura? Se prefiro Wagner e os germânicos, então Verdi e os italianos não são cultura? Cultura é aquilo de que mais gosto?

Podemos rugir e espernear, apelar à etimologia às vezes, mas a palavra é o uso corrente que se faz dela. Cultura não é apenas minha concepção de cultura. Não posso chamar alguém de idiota e depois lhe explicar que a palavra "na verdade" designa alguém ensimesmado ou o diabo.


"O espantoso nesta decisão é que os deputados fluminenses adotaram, como patrimônio cultural nacional, um ritmo criado pelos negros americanos nos anos 60. Neste sentido, o rock é muito mais patrimônio cultural do que o funk. Ocorre que o funk é de negros. Patrimônio cultural seja."

O funk carioca, apesar do nome, não tem nada a ver com o funk americano (veja aí o Mandrill, Janer, um típico funk ianque). E o rock tem origem negra, apesar de os brancos terem "tomado posse" e de serem maioria em ritmos mais pesados como o heavy metal. Os brancos também se apoderaram de outros ritmos. Gershwin e depois Glenn Miller, Benny Goodman e outros "apropriaram-se" do jazz; Elvis, Beatles e outros brancos tomaram conta do Rock de Chuck Berry, negro, influenciado por ritmos negros como o blues e o rhythm and blues.

Para lerem o post do Janer, cliquem aqui.
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