20 outubro 2012

O Julgamento do Mensalão

Qual a importância do julgamento do Mensalão para o Brasil? Acho que esta é a pergunta que muitas pessoas se fazem. Vamos tentar fazer um balanço e tentar ver alguns desdobramentos.

Primeiro, temos a opinião do jornalista imortal Merval Pereira. Para ele, o Mensalão em si aprofundou a corrupção no governo Lula na medida em que o presidente se viu obrigado a fazer mais concessões para evitar o impeachment. Muitos dizem que Sarney foi um dos que mais se esforçaram para evitar a abertura de julgamento do presidente por improbidade no Congresso. Mais tarde, Lula teve a oportunidade de retribuir o favor quando, com um telefonema para o senador Delcídio Amaral, evitou a abertura do processo de cassação contra Sarney pelos atos secretos ilegais praticados no Senado.

O PT mudou muito, sem dúvida. Aparentemente, havia um PT de Plínio de Arruda Sampaio e de Florestan Fernandes que foi sendo substituído por um PT de Lula, seus companheiros e ex-guerrilheiros inimigos do Regime Militar, como José Dirceu e José Genoíno. Como já disse o velho poeta comunista Ferreira Gullar, estes que escolheram o caminho da luta armada contra o regime militar sujeitaram todos da Esquerda à perseguição dos militares.

Mas, provavelmente, foi a junção desses sindicalistas com estes ex-guerrilheiros que criou o ambiente propício para o Mensalão. No Brasil, seguindo o argumento do historiador Daniel Airão, a historiografia brasileira tende a supor que aqueles que lutaram contra o Regime Militar sejam democratas, quando na verdade muitos deles tinham outros planos para o país. A própria insistência do ex-ministro e ex-guerrilheiro Franklin Martins em tentar destruir alguns grupos midiáticos e substituí-los por rádios e TVs controladas por ONGs mostra bem o compromisso destes com a democracia. Para gente como ele, democracia é quando eles ganham e ditadura é quando eles perdem.

Hoje, com o julgamento do Mensalão, temos a oportunidade de ver o que há de melhor e o que há de pior no país, a começar pelos ministros do Supremo. Temos desde Toffoli, cujo mérito estava em ter sido advogado de Dirceu, Lula e do PT, tendo sido incapaz de ser aprovado em um concurso para juiz, passando por Lewandowski e sua noticiada amizade pela esposa do ex-presidente Lula e por seu super-salário no período em que esteve no Tribunal de Justiça de São Paulo.

A maioria dos outros ministros tem laços estreitos com o PT, mas talvez não tão próximos da corrente paulista do Campo Majoritário que virou “Construindo um novo Brasil”. Esta corrente de Lula e Dirceu é quem dá as cartas no partido. O maior projeto atual desta corrente é eleger Haddad como prefeito de São Paulo. Nesta disputa eleitoral podemos ver todo o ranço e o modus operandi deste grupo. Primeiro, eles atropelaram a candidata natural que teria sido a Marta Suplicy para colocar alguém mais dócil e dependente, como já havia sido feito no caso da própria Dilma que tem uma lealdade canina com Lula. Eles sabem que permitir o surgimento de lideranças naturais só pode enfraquecer o seu poder e, enquanto puderem, eles não o permitirão. O PT do Campo Majoritário não é um partido democrático aberto à disputa, ao debate e que permite o surgimento de lideranças naturais. Ele é um partido que tem dono.

Marina Silva, que poderia ter disputado a indicação para presidente da República, bem o sabe. É a partir deste quadro que se pode entender a lógica do Mensalão como um projeto de poder de determinado grupo que se coloca como dono de um partido e acima da leis do nosso país. Este grupo só tem como objetivo a conservação do poder e as instituições democráticas são um empecilho em seu caminho.

Em relação à pergunta, qual a importância do julgamento do Mensalão para o Brasil, como ficamos? Arrisco a dizer que se Haddad perder em São Paulo e a cúpula do Campo Majoritário for condenada, talvez isto enfraqueça a influência de Lula sobre o partido permitindo que outros grupos não paulistas tenham mais influência. Por outro lado, se Haddad vencer e a presidente Dilma indultar os réus, pode se estar confirmando a influência e domínio deste grupo sobre o PT e sobre o Brasil.

Quem viver verá.

5 comentários:

Mensalão foi golpe disse...

Os governos de esquerda no Brasil – Getúlio, Jango, Lula – não podem terminar seus mandatos, né Jorge Capitalista? Fracassado o governo Lula, se cumpriria o prognóstico de um ministro da ditadura: “Um dia o PT vai ter que ganhar, vai fracassar, aí vamos poder dirigir o país com tranquilidade”. Mas não foi o que aconteceu. Foi o melhor governo que o Brasil já teve.

Anônimo disse...

Caro Mensalão,

Curioso vc falar que Getúlio era de esquerda...Weber dizia que o que caracteriza o líder carismático é o favor dos céus. Lula viveu uma bonança incrível entre 2005 e 2008...uma das maiores já vistas. De fato, certa vez ele viajou para o Oriente Médio e choveu quando ele chegou, o que não acontecia há anos. O Lula é o governante carismático por definição. Não que ele não seja inteligente. Ele é mas o seu diferencial foi o favor dos céus e ele pode acabar. Veja a Dilma, muito melhor presidente que ele e está suando a camisa para ter as taxas de crescimento que ocorreram no governo dele.

zefirosblog disse...

Ótimo texto.

Quanto ao indulto, acho difícil (ainda que em terrae brasilis nada mais espante). Indultando seus colegas, a presidente sofreria, além do natural desgaste político, as consequências da extensão desses efeitos que poderiam beneficiar milhares de outros condenados.

Ademais, eu diria que isso poderia sujeitá-la a responder processo por crime de responsabilidade, uma vez que violada claramente a probidade (prevista da Lei dos Crimes de Responsabilidade), bem como a impessoalidade do art. 37 da CF.

Vamos ver o que acontece...

Anônimo disse...

Pergunta pertinente: O sábio Jorge Velho é o velho Heitor Abranches? O estilo e a clareza das ideias são parecidos pra chuchu.

Anônimo disse...

Excelente texto!

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