10 maio 2012

A Velha Questão das Quotas Raciais

Recentemente, o STF em votação unânime aprovou a constitucionalidade das quotas raciais em universidades federais. O julgamento contou com a presença de Spike Lee, que mais tarde foi recebido por Dilma Roussef. A nossa mandatária aparece sorridente em fotos ao lado do ilustre cineasta estadunidense, que vestia um jogging e um boné dos Yankees, se não em engano.

Nada mais apropriado, afinal, as cotas raciais são uma invenção ianque. As universidades americanas não tinham um vestibular como aqui. Lá a seleção era por currículo, teste de proficiência e cotas. Universidades do Ivy League costumavam selecionar seus alunos entre o filhos de seus doadores, de seus ex-alunos e outras quotas. Aliás, a sociedade americana é mais segregacionista do que a brasileira. Lá existiam e ainda existem bairros raciais. Mesmo dentro das universidades existem organizações que buscam organizar as pessoas por suas origens étnicas, culturais e classe social. Neste contexto, pode até fazer sentido se falar em cotas raciais.

Bem, as quotas já vão completar algumas décadas nos Estados Unidos e não mudaram substancialmente a situação americana. Hoje, a sociedade americana se aproxima da concentração de renda da época da Grande Recessão e a comunidade negra continua com grandes problemas sociais. De fato, na opinião dos autores do livro Wikanomics, a principal tragédia dos negros americanos não foi a escravidão mas a cocaína. Ela foi responsável pela devastação de comunidades inteiras e regressão de indicadores sociais.

No Brasil, desde a época de Fernando Henrique já se falava em cotas e começou-se a aparelhar o Executivo com entidades com objetivo de fazer lobby pela sua implantação. Estas entidades, em articulação com outros órgãos do Executivo pressionaram o Legislativo para aprovar a Lei das Cotas. O Legislativo, que costuma ser um órgão mais sensível à vontade popular, sentiu que a sociedade não tinha consenso para tratar desta questão e decidiu respeitar a vontade popular da maioria em não aprovar uma lei desta natureza.

Diante dessa negativa, o lobby tem avançado no Executivo do Rio de Janeiro, no Ministério da Educação e em mais alguns lugares. Com isto, tivemos sua grande vitória agora, quando 11 juízes "eleitos" pelo presidente da República e referendados pelo Senado decidiram que a Constituição brasileira acolhia a tese das cotas raciais.

Em minha opinião, um STF que tem um juiz que era advogado de José Dirceu e que tomou pau na prova para juiz 3 vezes não goza de muita credibilidade. De fato, um dos arapongas do Demóstenes pegou uma conversa na qual ele comentava que um deles aceitou votar contra o Ficha Limpa em troca da vaga no Supremo Excelso. Outro juiz foi pego pela corregedora nacional da Justiça recebendo generosíssimos pagamentos da União...Tem um outro que vive de licença médica e que tem mania de perseguição. Tem um outra que na arguição do Senado alegou desconhecer aquela legislação pois há muito só tratava de casos trabalhistas....Nesta hora, o importante é ter bons amigos.  Enfim, já tivemos melhores Supremos, sorte das cotas, azar o nosso.

Azar o nosso, porque as cotas não resolvem problemas sociais, não resolvem injustiças históricas...As cotas simplesmente criam uma clientela étnica, uma forma de mobilização sob uma bandeira que interessa a alguns que serão eleitos por ela. Do ponto de vista prático, a cor da pele não diz se alguém merece uma vaga na universidade. Se temos que ter cotas, que sejam cotas sociais. Alunos de escolas públicas, filhos de família de baixa renda...estes deveriam ser os beneficiados.

10 comentários:

zefirosblog disse...

"Se temos que ter cotas, que sejam cotas sociais. Alunos de escolas públicas, filhos de família de baixa renda...estes deveriam ser os beneficiados". Perfeito. Agora, porém, uma vez que a decisão veio em sede de ADI, a única esperança de mudança nesse sentido seria uma reação legislativa - o que também poderia ser questionado por outra ADI... Digo sem sarcasmo, é extretamente delicado entender e afirmar (ao menos na prática) onde termina o equilíbrio dos poderes e onde começa a intervenção.

Outra dificuldade sobre a composição do STF é que mesmo os ministros que por vezes proferem excelentes votos têm origens e indicações complicadas - vide o Min. Celso de Mello (indicado pelo Sarney) e o Min. Marco Aurélio (indicado pelo primo, o Collor)

Francisvaldo Filho disse...

A imagem ficou racista
preto soh tem quantidade de peao e branco tem rei rainha bisco cavalo e torre

Catellius disse...

Francisvaldo Filho (seu pai perpetuou o nome, heim?),

O artigo é de Jorge Velho, um amigo que passa a fazer parte do blog, e eu selecionei a imagem.

Sim, os não beneficiados por cotas sofrerão uma seleção mais agressiva do que negros, pardos e deficientes. Não quer dizer que estes serão profissionais ruins, pois há a nota mínima e muitos cursos serão mais disputados, mesmo entre cotistas, do que na época em que fiz vestibular, há 22 anos.

E um branco pobre, por exemplo neto de imigrantes polacos, pagará o pato, o tal preço da escravidão, na qual seus ancestrais não tiveram participação, para um negro classe média ou rica ingressar na universidade - sim, serão estes os principais beneficiados, os que já entrariam normalmente se estudassem um pouco mais. O branco rico e inteligente que não conseguir entrar em uma universidade pública, irá para uma privada, que com o tempo subirá no ranking do ensino superior, ou ele irá estudar no exterior.

A questão é que:

- Não é justo.
- Estimula o racismo, por classificar as pessoas pela cor da pele.

Antônio Fonseca disse...

Desempenho de cotistas fica acima da média
17 de julho de 2010

Mariana Mandelli - O Estado de S.Paulo

Estudos realizados pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e pela Universidade de Campinas (Unicamp) mostraram que o desempenho médio dos alunos que entraram na faculdade graças ao sistema de cotas é superior ao resultado alcançado pelos demais estudantes.

O primeiro levantamento sobre o tema, feito na Uerj em 2003, indicou que 49% dos cotistas foram aprovados em todas as disciplinas no primeiro semestre do ano, contra 47% dos estudantes que ingressaram pelo sistema regular.

No início de 2010, a universidade divulgou novo estudo, que constatou que, desde que foram instituídas as cotas, o índice de reprovações e a taxa de evasão totais permaneceram menores entre os beneficiados por políticas afirmativas.

A Unicamp, ao avaliar o desempenho dos alunos no ano de 2005, constatou que a média dos cotistas foi melhor que a dos demais colegas em 31 dos 56 cursos. Entre os cursos que os cotistas se destacaram estava o de Medicina, um dos mais concorridos - a média dos que vieram de escola pública ficou em 7,9; a dos demais foi de 7,6.

A mesma comparação, feita um ano depois, aumentou a vantagem: os egressos de escolas pública tiveram média melhor em 34 cursos. A principal dificuldade do grupo estava em disciplinas que envolvem matemática.

Antônio Fonseca disse...

Catellius

Como que é? Afro-descendentes são peões enquanto Brancos são reis, damas, torres e cavalos? Leu o texto? Os cotistas estudam mais e aproveitam a oportunidade.

Anônimo disse...

Há alguns anos na UnB havia um rapaz negro na pós-graduação de Antropologia, se não me engano, que foi reprovado. Ele acusou o professor de discriminá-lo por ser homossexual...No final, ele foi aprovado.

MPC disse...

O Demétrio Magnoli tratou muito bem do assunto. Vi no Youtube umas quatro ou cinco discussões a respeito, com excelente participação dele. Vale a pena assistir a todas!

Embora esteja bastante longe do Magnoli, que é profi, o Jabor também foi feliz ao criticar as cotas: http://www.youtube.com/watch?v=Y5Jjke0PbVI hehe

Abs

Marcelão disse...

Eu não gosto do pressuposto das cotas raciais: para que existam, é necessário que haja um conceito de raça, o que serve de base para o racismo.
Também prefiro as cotas sociais

Anônimo disse...

Caros,

A ilustração é apropriada. Negros, sem dúvida, podem também ser bispos, cavalos e rainhas. Se aceitam se submeter às cotas, contudo, transformam-se por escolha própria em peões.

:)

Anônimo disse...

Se alguém atentar para a matéria do desempenho dos alunos cotistas da Unicamp verá que não são cotistas raciais mas cotistas de escolas públicas. Realmente, faz sentido, afinal alguém de escola pública que passe na Unicamp ou é mais inteligente ou é mais esforçado. Temos um problema nesta estatística que é a questão das escolas militares, de um Pedro II que são públicos mas são melhores que a maioria dos privados...

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