22 maio 2012

Pinturas e Trio para Cordas


Montei hoje o vídeo acima com esboços e pinturas que fiz há um bom tempo, ao som de uma composição recente. Abaixo, considerações sobre algumas das obras. Em meio a tantos temas religiosos é importante informar que me tornei ateu tardiamente, depois dos trinta anos, quando comecei a me interessar por filosofia e decidi pensar sobre aquilo em que eu acreditava.

Cristo e a Samaritana
Pintei essa tela inspirado em algumas paisagens da Palestina, às quais dei um tom idílico que na verdade não têm, estéreis que são suas terras, grosseiras que são suas construções recentes. Segundo João, 4,6, "Jesus, fatigado da viagem, sentou-se à beira do poço". Não deveria estar de pé, portanto. Mas, se fosse um cavalheiro - provavelmente não era - teria levantado quando a samaritana surgiu. Jesus usa um turbante árabe e é baixinho, o que faz sentido, dada sua megalomania de achar que era um deus.


Otello ou "Ecco il Leone"
Na versão de Arrigo Boito, libretista do Otello de Verdi, Iago aponta para o mouro desfalecido e escarnece: "Eis o Leão". Segura o fatídico lenço de Desdêmona. O verde ciúme contamina já as bases do general. Sua roupa branca simboliza a inocência (estupidez, na verdade). O piso xadrez, o jogo ardiloso do vilão, os pilares, já rubros, são o prenúncio do banho de sangue que se dará em breve. Ao fundo, a nau dos embaixadores venezianos atraca em Chipre.


O Jovem Nero
Crayon sobre papel. O imperador romano é retratado aqui com as três cores primárias simbolizando: azul - a frieza de sua personalidade; vermelho - o sangue de suas vítimas, que o cobre, qual manto; amarelo - o incêndio de Roma. Na época não sabia que, segundo os historiadores mais confiáveis, provavelmente não foi ele o culpado.


Cenas de Mukawir
Pintei-a em setembro de 1992 por encomenda do Ministério do Turismo e Antiguidades da Jordânia.


Templo Escavado na Rocha
Não há como negar a referência à Petra e seus templos escavados na rocha, na Jordânia. Mas a extrema simetria, os ciprestes, a composição em forma de mandala, as piras mortuárias e a cruz reluzente no tímpano equilátero demonstram a paixão que eu tinha na época pelos simbolistas, em especial Arnold Böcklin.


Mádaba
Pintei-a em novembro de 1992 por encomenda do Patriarcado de Jerusalém em Amã - Jordânia. Em primeiro plano, as ruínas da Igreja da Virgem, em Mádaba, e, ao fundo, a igreja atual. A intenção foi demonstrar a continuidade do cristianismo na Terra Santa, hoje tomada por judeus e muçulmanos. Uma reprodução com cores lamentavelmente mortas foi usada como capa do livro Modern Christianity in the Holy Land, do jordaniano Hanna Kildani.


Fátima e o Gênio
Crayon sobre madeira ilustrando uma antiga historieta árabe. O cenário é inspirado em uma casa próxima a Bab Touma, em Damasco, na Síria.

12 comentários:

Anônimo disse...

Talentoso quando cria.
Escritor medíocre quando não crê.

Anônimo disse...

dá pra ver pela pintura de 2012, bem pior que as outras.

Anônimo disse...

Tipo... Putz, escrevo mal e ninguém lê meu blog. Mas me admirem, tb sou pintor e musico. Se ninguém elogiar o Catelius vai começar a fazer malabarismo no sinal. Kkkk

zefirosblog disse...

Belíssimas, Catellius!


Sobre algumas das pinturas terem cunho religioso, lembrei dos ateus que vão a missas tridentinas apenas por apreciarem a liturgia ou então de como uma catedral gótica pode nos parecer bela. Ou seja, não é empecilho, Cristo e a Samaritana ficou muito boa.

Maurício disse...

Muito legal! E eu não esperava outra coisa! :)
Abs.

M.B.C. disse...

Sobre o Trio:
A harmonia e o ritmo ficaram muito expressivos. Se você quiser trabalhar o final um pouco mais, pode criar um trecho no estilo "coda".

Antônio Fonseca disse...

As paisagens são boazinhas. Já as figuras humanas são meio duras.

Quanto à música de fundo, o final ficou um pouco abrupto. Deves melhorá-lo. As longas tríades parecem impossíveis para uma viola. Deves adaptar a música à realidade.
Trabalha a dinâmica também.

Catellius disse...

Raphael,

Valeu!
Não tenho problema em apreciar o que é bonito. Daí a achar que o objeto do culto deve ser verdadeiro porque motivou o artista, é absurdo. E os belos templos hindus, budistas, astecas, gregos, romanos? E os palácios, castelos, pinturas mitológicas?
Um ateu que se recusa a entrar em uma igreja se assemelha a um evangélico que não pisa em igreja católica. Dá a impressão de ser um crente como os outros.

Abraços!

Catellius disse...

Anônimo 1,

"Escritor medíocre quando não crê."

E Saramago, por que "ganhou" talento então?

Anônimo 2,

"Se ninguém elogiar o Catelius vai começar a fazer malabarismo no sinal. Kkkk"

Boa, hehe!

Antônio Fonseca,

Tudo bem, então para você não é um trio. É um quarteto. As tríades da viola são executadas por um segundo violino e uma viola. Bom assim?

Blogildo disse...

O que seria da arte sem o cristianismo ? Não é, Catellius? Só vim devolver a moeda. Abraço !
Onildo

Unknown disse...

Luta que partiu. Tu pinta bem!,

patricia m. disse...

O que seria da arte sem o cristianismo ? Não é, Catellius? Só vim devolver a moeda. Abraço !
Onildo

PS: faco minhas as palavras do Onildo! Tudo bem por ai?

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