27 março 2011

A Alemanha e o Titanic

Janer Cristaldo


El País comentou há pouco, em tom despectivo, o livro Deutschland schafft sich ab (A Alemanha se destrói), de Thilo Sarrazin, ex-diretor do Bundesbank e membro do Partido Socialdemocrata Alemão (SPD). Seis meses após seu lançamento, o livro se converteu em um caso editorial sem precedentes e vendeu 1,2 milhão de exemplares em apenas seis meses.

E não por acaso: o autor acusa os imigrantes turcos e alemães de constituírem “o coração do problema”, devido à sua escassa integração e sua dependência massiva das ajudas sociais. Em 2009, às vésperas do 20º aniversário da queda do Muro, dizia Sarrazin:

“A integração requer um esforço por parte de quem quer se integrar. Eu não respeito quem não quer fazer este esforço. Não tenho porque reconhecer aqueles que vivem das ajudas públicas, mas negam a autoridade do Estado que as outorga, não educam seus filhos e produzem constantemente mais meninas com véus. Isto vale para 70% da população turca e 90% da população árabe em Berlim”.

Sarrazin, por afirmar o óbvio, foi acusado de racismo. Foi absolvido da acusação, mas perdeu seu emprego no Bundesbank e está por ser expulso do SPD. Embora interprete o pensamento da maioria dos alemães – prova disto é a espantosa vendagem de seu livro – provocou a ira das esquerdas que herdaram o ódio de Marx à Europa e tentam destruí-la. Se o marxismo falhou nesse intento, quem sabe o Islã tem sucesso.

Para Sarrazin, a “Alemanha tem, desde os últimos 40 anos, uma taxa de nascimento de 1,4 criança por mulher; isto significa que a população alemã se torna cada vez menos a cada geração. A Espanha, apesar de anos de retardamento, tem o mesmo problema com os nascimentos. Ao mesmo tempo, a natalidasde se distribui na Alemanha de maneira irregular nos distintos níveis de educação. Isto significa que os estratos sociais menos instruídos obtém uma maior média de nascimentos, e por esta razão o potencial da Alemanha se anula ainda mais rapidamente que a população. Em terceiro luga, o tipo de imigração que temos não é o adequado para resolver os problemas que nos afetam. Agora necessitamos apenas de trabalhadores qualificados. Se a taxa de nascimento dos imigrantes incultos, procedentes da Turquia e África, segue constantemente em alta, em poucas gerações a Alemanha terá uma maioria de população turca, árabe, africana e muçulmana”.

O que é óbvio. O que o autor está dizendo, no fundo, é que os imigrantes das zonas pobres do mundo ameaçam baixar o nível médio de inteligência de um país tão culto e desenvolvido como a Alemanha, como constata o próprio jornalista de El País. Mas o óbvio não convence o repórter:

- Quando olhamos para a Alemanha, não se vê por nenhum lado que a situação seja tão dramática...

Responde Sarrazin:

- A gente que bebia no bar do Titanic tampouco se dava contas de nada: a orquestra tocava, todo mundo estava bem, e nas primeiras horas ninguém notou o problema. Apesar disto, estavam condenados à morte, porque a água continuava entrando na nave.

Esta preocupação está longe de ser nova. Há mais de três anos, comentei Os últimos dias da Europa, no qual o historiador alemão Walter Laqueur analisa os problemas da imigração africana e muçulmana na França, Alemanha, Reino Unido e Espanha. Para dar uma idéia do livro, vou ater-me ao Estado alemão que, a crer-se no relato do autor, rendeu-se definitivamente à barbárie islâmica.

Os alemães começaram a receber turcos na segunda metade dos anos 50, em virtude de falta de mão-de-obra. Eram os gastarbeiter – trabalhadores convidados – que acabaram sendo hóspedes definitivos. Nos anos 70, a migração prosseguiu. Muitos pediram asilo político, quando em verdade fugiam das condições econômicas de seu país.

Os assistentes sociais “mostraram aos turcos como manipular a rede de seguro social, ou seja, como tirar o máximo de ajuda financeira e de outros tipos do Estado e das autoridades locais, dando um mínimo de contribuição ao bem comum”. O mesmo, diga-se de passagem, ocorreu na Dinamarca. Assistentes sociais adoram subdesenvolvidos. Ao contrário dos que imigraram para a França ou Grã-Bretanha, que de alguma forma arranhavam o francês ou o inglês, os turcos não falavam alemão e se isolaram em seus guetos. Seus filhos podiam até ir para as escolas alemãs, mas as filhas não podiam participar de atividades esportivas, excursões com as turmas ou aulas de biologia em que se falasse de sexo. “Insistiam no ensino islâmico na escola e ia aos tribunais para garantir seus direitos. Por fim, conseguiram.

As autoridades alemães contrataram professores de religião, em sua maioria estrangeiros fundamentalistas e que que ou não falavam alemão ou tinham um domínio mínimo do idioma”. Como as autoridades alemães achavam que o ensino religioso devia ser ministrado em alemão, a isto se opuseram as organizações religiosas turcas e o próprio governo da Turquia. “Os tribunais alemães, na dúvida, decidiam em favor dos muçulmanos. Rejeitavam as denúncias de não-muçulmanos com relação ao barulho provocado pelos alto-falantes das mesquitas, que amplificavam as convocações e preces dos muezins”.

As conquistas turcas avançaram. Metin Kaplan, um criminoso turco condenado a quatro anos por incitamento ao assassinato, recebeu da cidade de Colônia mais de duzentos mil euros a título de assistência social. A Milli Goerus, organização turca incrustada na Alemanha, tem como projeto um país que viva segundo as estritas leis do Islã, mesmo que para isso seja preciso fazer certas concessões até que os muçulmanos constituam maioria. O grupo tem em torno de 220 mil militantes e dirige cerca de 270 mesquitas na Alemanha. “Ela visa substituir a ordem secular no país em que vivem por uma outra baseada na sharia – a lei islâmica – , primeiramente naquelas regiões em que os muçulmanos são maioria, ou uma minoria representativa, e posteriormente à medida que seu espaço se expanda”.

Laqueur nos traz relatos insólitos dos bairros de Kreutzberg, Wedding, Neukoelln e outros habitados por turcos. Neles existem bancos, agências de viagem, lojas e consultórios médicos turcos. “Rapazes param as pessoas nas ruas e lhes dizem que, se não são muçulmanas, devem deixar as redondezas. As crianças alemãs têm sido expulsas de playgrounds. Na escola, os não-muçulmanos são pressionados a jejuar durante o ramadan, as garotas não-muçulmanas são coagidas a usar roupas parecidas com as das garotas muçulmanas ou, pelo menos, saias, calças ou camisetas que não sejam consideradas indecentes. Pais de estudantes tiveram conhecimento de que, sejam quais forem as orientações que a escola lhes dê, a mesquita e suas aulas têm sempre a prioridade”.

Ou seja, tá tudo dominado – comentei na ocasião. Os alemães já não mandam mais no próprio país. Seus próprios filhos têm de submeter-se a evitar determinados bairros e aos costumes islâmicos. E a Alemanha continua convidando muçulmanos para seu leito. A Lei de Cidadania de 2000 tornou mais fácil para os turcos obter a cidadania alemã. “Cerca de 160 mil têm se beneficiado anualmente desse direito”. Não bastasse isto, o governo alemão gasta atualmente cem milhões de euros por ano para promover a integração… com o inimigo.

A situação na França, Reino Unido e Espanha não é menos alentadora. Laqueur já aventa a possibilidade de regiões binacionais autônomas na França. Os muçulmanos poderiam fazer concessões com relação à sharia, e as autoridades francesas poderiam desistir do velho modelo republicano, com uma clara divisão entre Igreja e Estado. Em meio a isso, os judeus que se cuidem. Talvez muito em breve sejam forçados a um novo êxodo do velho continente.

Se a Europa, como a conhecemos, afundar, não terá sido por falta de alertas. Enquanto isso, leitor, siga o conselho que não canso de repetir: visite a Europa antes que acabe. Nossos netos não terão essa ventura.

17 março 2011

Máfia do Dendê volta a assaltar cofres públicos

Janer Cristaldo


Na Folha de São Paulo, edição de ontem, Mônica Bergamo publicou uma dessas notícias cujos protagonistas prefeririam não ver na imprensa. A cantora Maria Bethânia conseguiu autorização do Ministério da Cultura para captar R$ 1,3 milhão e criar um blog. A idéia é que o site "O Mundo Precisa de Poesia" traga diariamente um vídeo da cantora interpretando grandes obras.

Não é de hoje que a chamada Máfia do Dendê vem metendo a mão no bolso do contribuinte. Em 2007, o Ministério da Cultura autorizou os produtores do músico baiano Caetano Veloso a usar os benefícios fiscais da Lei Rouanet para bancar os shows de divulgação de seu último CD, o “Zii e Zie”. Caetano transferiu do meu, do seu, do nosso bolso, nada menos que R$ 1,7 milhão, através do programa Bolsa-Gigolôs da Artes, também conhecido como Lei Rouanet.

Na ocasião, Juca Ferreira, o então ministro da Cultura, declarou que a Lei Rouanet não tem nenhum critério estabelecendo que os artistas bem-sucedidos não podem ter seus projetos aprovados. “No ano passado, quando eu intervim para aprovar o show da Maria Bethânia, já tínhamos aprovado projetos da Ivete Sangalo, artista mais bem-sucedida comercialmente em todos os tempos. Não podemos sair discricionariamente decidindo, sem critérios.”

Em 2006, a irmã do irmão já recebera R$ 1,8 milhão. Outra contemplada com a Bolsa-Gigolô das Artes foi a empresa da cantora Ivete Sangalo, que captou R$ 1.950.650,84, para realizar seis shows em Recife, Manaus, Salvador, Florianópolis, Vitória e Brasília. Como disse um jornalista na ocasião, a Princesinha da Axé Music Ivete não ficou bem na foto ao ser pilhada nesta história, logo ela que vivia na cozinha de ACM e passou a ter as benesses do Ministério da Cultura no Governo do PT. Não ficou bem na foto mas levou a grana e isso é o que importa.

Em 2009, foi a vez do ex-ministro Gilberto Gil ser contemplado com R$ 445.362,50 pelo Bolsa-Gigolô das Artes, para a realização do DVD "Gil Luminoso", sobre sua trajetória artística. Eita, Brasil generoso! Neste país, até vaidades pessoais merecem o patrocínio do Estado. Desde que o pavão seja amigo da Corte, é claro.

Na ocasião, disse o secretário-executivo do Ministério, Alfredo Manevy: “O dinheiro público se justifica porque aumenta a possibilidade de atender a quem não tem acesso a esse tipo de show. Não há problema em um artista consagrado receber recursos públicos, desde que isso se converta em benefícios para a população”.

Como se uma ode a si próprio, feita pelo capo baiano, trouxesse algum benefício para a população. Agora Maria Bethania rides again. A sanha dos baianos é insaciável. Milionários, apelam ao bolso dos sofridos contribuintes para alimentarem os seus. Para a criação de 365 vídeos nos quais a irmã do irmão exibiria sua voz mafiosa – perdão, maviosa – foi contratado o cineasta Andrucha Waddington, casado com a atriz Fernanda Torres.

Tutti buona gente! O cineasta considera um equívoco a polêmica em torno da decisão do Ministério da Cultura, que autorizou a irmã do irmão a captar R$ 1,3 milhão para o projeto do blog milionário. "Parece que internet não é um meio válido. Lá no blog, os vídeos vão ser vistos por milhões, e de graça. Preciso trabalhar com uma equipe, com o mesmo padrão de qualidade dos meus filmes".

Desde quando algo que custa R$ 1,3 milhão é de graça? Só no bestunto de parasitas que acham que dinheiro do Estado cresce em árvores. Ontem ainda o Ministério da Cultura pôs as barbas de molho e divulgou nota. Que a aprovação do projeto pela Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (CNIC) "não garante, apenas autoriza a captação de recursos junto à sociedade. Os critérios da CNIC são técnicos e jurídicos; assim, rejeitar um proponente pelo fato de ser famoso, ou não, configuraria óbvia e insustentável discriminação”.

Coitadinha da Maria Bethania, tão discriminada na vida. Algumas vozes de capi menores já surgem em defesa da Máfia do Dendê, alegando que renúncia fiscal não é dinheiro público. Como que não é? Renúncia fiscal é imposto que é desviado da União para o bolso dos assaltantes do Erário. Portanto, dinheiro público.

A Internet tem uma vocação para a gratuidade. Os blogs, que surgiram inicialmente como páginas de adolescentes, se revelaram como instrumentos eficazes de expressão e hoje todos os jornais os utilizam. Que um jornalista receba pelo blog que produz, se entende. Ele está exercendo sua profissão. O que não se entende é que uma baiana queira ser financiada pelo contribuinte para tecer loas a si mesmo.

Não bastasse o contribuinte financiar as vaidades de diretores e atores do cinema e teatro nacionais, não bastasse financiar silicone e hormônios para travestis, terá de financiar uma máfia que não têm pudor algum em enfiar a mão em seu bolso.

Que o mundo precise de poesia, se entende. Já Bethânia é perfeitamente descartável. Por muito menos que isso, os Estados Unidos declararam sua independência.

12 março 2011

Astrólogo vira o cocho

Janer Cristaldo


Quando um comunista perde uma boquinha em estatais, logo pipocam os manifestos exigindo sua volta ao cargo. São assinados pelos “manifesteiros” de sempre: Marilena Chauí, Chico Buarque, Leonardo Boff, Emir Sader et caterva. Comunista acha que cargo de confiança ou mesmo emprego em empresa privada é para a eternidade. Olavo de Carvalho não perdeu os reflexos de seus dias no Partido Comunista. Quando foi afastado de suas colunas nos jornais O Globo e Zero Hora e na revista Época, o astrólogo subiu nos tamancos. Denunciou a censura das esquerdas, como se estas publicações fossem de esquerda. Pelo jeito, como velho comunista, considerava ter efetividade em empresas privadas.

O astrólogo foi acometido de recidiva nesta semana. A livraria Cultura, de São Paulo, cancelou sua parceria com seu site. Aiatolavo de novo subiu nos tamancos. “De todas as ofensas, agressões e ações discriminatórias que sofremos ao longo de muitos anos de atividade, essa foi a mais sórdida, a mais canalha, a mais intolerável. Um bom pedido de desculpas é o mínimo que vocês nos devem”. Em trocadilho besta, passou a chamar a livraria de livraria Incultura. Como se calembour fosse argumento.

Para o sedizente filósofo, parcerias são para a eternidade. Se a uma empresa não mais interessa ter seu nome associado a um astrólogo boquirroto, anátema seja. Seus acólitos já falam em censura. Esquecendo que seu guru é o grande censor que promoveu, qual um Torquemada, a maior fogueira de arquivos digitais já acendida no Brasil. Aiatolavo costuma agredir quem dele discorda com uma saraivada de palavrões. É uma técnica eficaz para evitar contestações. Pessoa que se preze não vai discutir com quem usa linguajar de lavadeiras na beira da sanga.

Convidado a colaborar no mídiasemmáscara, em dezembro de 2006 tive uma crônica censurada. Crônica na qual afirmava que Cristo nasceu em Nazaré e não em Belém. Este era o cerne do artigo. Se por isto fui censurado, os papistas do MSM estavam sendo mais ortodoxos que o Vaticano. Pois o nascimento de Cristo em Belém não é dogma. Logo, afirmar que nasceu em Nazaré não é heresia alguma. E mesmo que fosse: por que não poderia eu cometer uma heresia? Afinal não vivemos mais nos tempos da Idade Média, quando os hereges não escapavam da fogueira.

"Artigos com o perfil deste que vc enviou não serão publicados no MSM durante algum tempo - escreveu-me o editor -. Assim que possível, informarei o motivo. Adianto apenas que é uma decisão temporária". Ora, adoro escrever artigos com aquele perfil. Se aceitasse a censura daquele, teria de aceitar a dos demais. Por outro lado, alegar decisão temporária também é ridículo. Por que o artigo não poderia sair hoje, mas amanhã quem sabe?

Eu escrevia sem nada cobrar e ainda era censurado. Recusei-me a qualquer futura colaboração com o site. Outros colaboradores, por razões semelhantes, também se afastaram do MSM. Entre eles, Anselmo Heidrich e Rodrigo Constantino. Que fez Aiatolavo? Deletou todas minhas crônicas, como também as destes articulistas. É como se a Folha de São Paulo eliminasse de seu acervo todos os artigos que apoiaram o movimento militar de 64. Como se a Veja queimasse todas as reportagens em que saudava Che Guevara como libertador. Bom discípulo de Stalin, Aiatolavo utilizou o expediente de eliminar da História personagens ou pensamentos divergentes.

O MSM se tornou um site monocórdio, sambinha de uma nota só. Ou melhor, de três notas: o combate à conspiração homossexual para dominar o mundo, a denúncia obsessiva do Foro de São Paulo e do PT, partido que pretende comunizar o Brasil. Os artigos doentios de Júlio Severo demonstram uma carência que não ousa dizer seu nome. Quanto ao Foro de São Paulo – Woodstock saudosista de apparatchiks derrotados com a queda do Muro e o desmoronamento da União Soviética – não passa de um circo anódino montado para relembrar sonhos frustrados. O PT, por sua vez, se um dia teve como propósito transformar o Brasil em republiqueta soviética, embriagou-se com o poder e hoje não quer nada com revolução. Virou partido de direita, que quer apenas preservar suas boquinhas.

O MSM passou a lutar contra moinhos de vento. Inventa bandeiras para fingir que tem causa. Tornou-se tão monótono quanto os jornais de esquerda pós-64, nos quais bastava ler apenas um artigo para deduzir os demais. Desesperado, o astrólogo escreveu:

"O artigo 208 do Código Penal pune com detenção e multa os atos de ‘escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa’ e ‘vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso’. Os srs. Rodrigo Constantino, Janer Cristaldo e Anselmo Heydrich já cometeram esse crime tantas vezes, que o simples fato de eu me contentar em xingar esses bandidinhos, em vez de denunciá-los à polícia, deveria ser considerado um exagero de caridade. Com bandido não se discute. Lugar de criminoso é na cadeia. Admito, porém, que não é a caridade, e sim a mera distância geográfica, que me impede de tomar contra os referidos as providências judiciais cabíveis".

Além de censor, fanfarrão. De colaboradores convidados ao site, passamos à condição de criminosos. Em 2008, Rodrigo Constantino escreveu:

“Fico constrangido e ao mesmo tempo com muita pena do "filósofo". Ele deve estar mesmo em pânico para ter de apelar desse jeito. Logo ele, que xinga tudo e todos, que não respeita a crença de ninguém. Mas fica a pergunta: os não-crentes podem processar os crentes quando estes chamam de idiotas todos os ateus? Quando um crente jura que o ateu vai passar a eternidade no inferno, ele pode ser processado por danos morais? Se Olavo "vilipendiar publicamente objeto de culto religioso" de uma seita diferente, como a cientologia, ele vai se entregar à polícia? Olavo quer me colocar na cadeia por questionar a sua crença religiosa. Para ele, sou um bandido, um criminoso, pois questiono suas crenças. Como eu disse, o sonho dele era viver na Idade Média, e me mandar para a roda ou fogueira. Ainda bem que tivemos o Iluminismo para colocar uma focinheira em tipos como este. Conservadores fanáticos não odeiam o Estado coisa alguma, nem querem reduzir seu poder. Querem apenas se apossar dele, e ai de quem divergir de suas crenças!”

Confuso, o astrólogo não gosta que o chamem de astrólogo:

"Quanto à insistência obsessiva desses canalhas em me chamar de ‘astrólogo’, com a ênfase que a palavra tem quando associada a tipos como Walter Mercado, é fácil notar que nenhum dos três jamais examinou criticamente e nem mesmo citou de passagem qualquer escrito meu sobre a questão da astrologia. [...] O intuito deliberado de falsificar para melhor difamar não poderia ser mais evidente, e a eventual desculpa de que foi ofensa proferida impensadamente no calor da discussão já está impugnada antecipadamente pelo número de vezes que a ofensa se repetiu".

Constantino constata:

- Mas vejamos o que o próprio Olavo disse numa entrevista, quando Roberta Tórtora perguntou como a astrologia contribuiu para sua formação:

"Muito. Não existe possibilidade alguma de entendimento de qualquer civilização antiga sem o conhecimento da Astrologia. O modelo de visão do mundo baseado nos ciclos planetários e nas esferas esteve em vigor durante milênios e isto continua a estar, de certo modo, no ‘inconsciente’ das pessoas. Apesar de algumas deficiências no modelo astrológico, foi ele quem estruturou a humanidade pelo menos a partir do império egípcio-babilônico, o que significa, no mínimo, cinco mil anos de história. A Astrologia é um elemento obrigatório, por isto quem não a estudou, não estudou nada, é um analfabeto, um estúpido."

O astrólogo que se ofende quando o chamam de astrólogo, considera analfabeto quem não conhece astrologia. Quando comecei a escrever no MSM, não sabia que o astrólogo era astrólogo. Se soubesse, ficaria com um pé atrás. Fui saber mais tarde, quando comentei o projeto do senador Artur da Távola, que visava regulamentar a vigarice. Recebi mail furioso de um leitor: como é que você critica a astrologia, logo num site dirigido por um astrólogo e mestre-astrólogo, que já escreveu quatro livros sobre astrologia?

Se escreveu, os livros sumiram da História. Aiatolavo, ao que tudo indica, censurou a si mesmo. O astrólogo vive hoje na Virgínia, EUA, sabe-se lá como. De suas croniquetas no Diário do Comércio – jornal ligado a Afif Domingos – não há de ser. Muito menos de mapas astrais. Furioso, o astrólogo ex-muçulmano e ex-comunista - lança agora seus insultos a uma livraria que patrocinava seu panfleto. Se ontem a livraria era um órgão difusor de cultura, de repente virou autora de agressão “sórdida, a mais canalha, a mais intolerável”.

Se as trajetórias dos astros são previsíveis, o mesmo não se pode dizer da dos astrólogos. Mudam conforme os patrocínios. Aiatolavo virou o cocho.

03 março 2011

Bento nega evangelhos

Janer Cristaldo


O primeiro a negar os Evangelhos no que diz respeito à morte do Cristo foi João XXIII. Na Sexta-feira santa de 1959, fez desaparecer da liturgia o adjetivo “pérfidos judeus” e rezou pelos “judeus”. No documento Nostra Aetate, de 1965, isentou os judeus da culpa pela crucificação de Cristo. Que elimine da missa um insulto racial, nada mais justo. Ainda mais quando os judeus contemporâneos nada têm a ver com os atos de seus antepassados. Daí a absolvê-los pelo episódio no monte Calvário,vai uma longa distância.

Lemos na Nostra Aaetate que “o mal praticado na sua paixão não pode ser atribuído indiscriminadamente a todos os judeus que viviam então, nem aos judeus dos nossos tempos”. A mesma bobagem acaba de ser repetida por Bento XVI, no livro Jesus de Nazaré. Desde sua entrada em Jerusalém à Resurreição (348 páginas), que estará à venda em sete idiomas no próximo 10 de março. Ratzinger, repetindo João XXIII, também isenta os judeus das alegações de que foram responsáveis pela morte de Jesus. “Perguntemo-nos, antes de mais nada, quem eram exatamente os acusadores? Quem insistiu em condenar Jesus à morte? Segundo João, se trata simplesmente dos ‘judeus’, mas a expressão deste evangelista não indica o povo de Israel como tal, e menos ainda tem uma intenção racista”.

Sua Santidade está chovendo no molhado. É óbvio que João não fala do povo de Israel. Se falasse, teria escrito o povo de Israel, ora bolas. Ou simplesmente Israel, como era denominado o Estado judeu. Por outro lado, o papa pretende corrigir a versão de Mateus, que atribuiu a pressão para condenar Cristo a “todo o povo”. Segundo Ratzinger, não se trata de um fato histórico porque não é possível que todo o povo expressasse seu rechaço.

Foi obviamente força de expressão do Mateus. Nunca na História um povo inteiro se reuniu para matar um só homem. Seria preciso, no caso, que todo Israel se reunisse em Jerusalém. Sem falar que o evangelho de João não poderia mesmo ter nenhuma intenção racista, já que racismo é categoria contemporânea. Você pode percorrer a bíblia de ponta a ponta e nela não encontrará a palavrinha. Vamos ao texto de João, XI 49-50:

Então, os chefes dos sacerdotes e o fariseus reuniram o Conselho e disseram: "Que faremos? Esse homem realiza muitos sinais. Se o deixarmos assim, todos crerão nele e os romanos virão, destruindo nosso lugar santo e a nação". Um deles, porém, Caifás, que era Sumo Sacerdote naquele ano, disse-lhes: "Vós de nada entendeis. Não compreendeis que é de nosso interesse que um só homem morra pelo povo e não pereça a nação toda? Não dizia isto por si mesmo, mas sendo Sumo Sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus iria morrer pela nação - e não só pela nação, mas também para congregar na unidade todos os filhos de Deus dispersos. Então, a partir desse dia, resolveram matá-lo.

Óbvio está que não foi o povo judeu. Foi pior. Foram os líderes supremos dos judeus que condenaram o Cristo. Ernest Renan, em A Vida de Cristo, vai mais longe. Para Renan, atrás de Caifás há um outro responsável, Hanã, sogro do Sumo Sacerdote. Se o evangelista põe na boca de Caifás as palavras que condenam Jesus à morte é porque se supunha que ele, como Sumo Sacerdote, teria dom de profecia. "Mas essas palavras, quem quer que fosse que as pronunciou, foram o pensamento de todo o partido sacerdotal". E Hanã era o cabeça do partido. "Foi Hanã (ou, se assim o querem, o partido que ele representava) que matou Jesus. Hanã foi o principal ator nesse drama terrível, e muito mais que Caifás, muito mais do que Pilatos, deveria carregar com o peso das maldições da humanidade". Enfim, Hanã ou Caifás, ambos eram judeus e defendiam interesses da hierarquia judaica. Ainda segundo Renan, os sacerdotes viram como derradeira conseqüência daquela agitação "uma agravação do jugo romano e a destruição de suas riquezas e suas honras". Um mês antes da Páscoa, Jesus já fora condenado pelos sacerdotes judeus.

Isto é, pela suprema hierarquia da nação judaica. Povo nunca decide a morte de um homem. Quem decide são seus líderes. Claro que não houve um plebiscito para decidir o destino do crucificado. Para os sacerdotes judeus, Cristo, ao se anunciar como Deus e filho de Deus, era um herege. Para os romanos, politeístas, deus a mais ou deus a menos pouca diferença fazia.

Pilatos dá uma chance ao Cristo. Na ocasião da Páscoa, costumava-se soltar um preso. Pilatos pergunta à turba, que evidentemente não era de romanos: "Qual quereis que vos solte? Barrabás, ou Jesus, chamado o Cristo?" A turba judaica preferiu soltar Barrabás. É estupidez profunda, ignorância histórica abissal, considerar que os romanos foram os responsáveis primeiros pela morte de Cristo. Pilatos tentou salvá-lo. Os judeus não o permitiram.

No evangelho de Marcos, prossegue Ratzinger, se fala de “uma multidão, da massa”, que o evangelista identifica com os seguidores de Barrabás. “Em todo o caso, tampouco isto assinala o povo de Israel como tal”. E aqui vão mais duas bobagens. Os que pediram a cabeça do Cristo até podiam ser seguidores de Barrabás. Mas o texto bíblico, em momento algum, nos diz que Barrabás tivesse seguidores. De qualquer forma, eram judeus. Por outro lado, há doze ocorrências da palavra “massa” na Bíblia. Sempre em referência a massa de pão, de barro ou de frutas. Jamais no sentido de multidão. Há horas venho afirmando que Sua Santidade fez gazeta nas aulas sobre a Bíblia.

Que mais não seja, os judeus foram responsáveis não só pela morte do Cristo. Foram eles que mandaram Paulo para uma prisão em Roma. Entre outras acusações, estava a sua boa amizade com Trófimo, que era não-circuncidado.

Os rabinos de Israel se regozijaram com este novo aceno do Vaticano. Mas nem rabinos, nem papas nem cardeais têm o condão que permite eliminar já não digo fatos da História, mas relatos históricos.
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