03 março 2011

Bento nega evangelhos

Janer Cristaldo


O primeiro a negar os Evangelhos no que diz respeito à morte do Cristo foi João XXIII. Na Sexta-feira santa de 1959, fez desaparecer da liturgia o adjetivo “pérfidos judeus” e rezou pelos “judeus”. No documento Nostra Aetate, de 1965, isentou os judeus da culpa pela crucificação de Cristo. Que elimine da missa um insulto racial, nada mais justo. Ainda mais quando os judeus contemporâneos nada têm a ver com os atos de seus antepassados. Daí a absolvê-los pelo episódio no monte Calvário,vai uma longa distância.

Lemos na Nostra Aaetate que “o mal praticado na sua paixão não pode ser atribuído indiscriminadamente a todos os judeus que viviam então, nem aos judeus dos nossos tempos”. A mesma bobagem acaba de ser repetida por Bento XVI, no livro Jesus de Nazaré. Desde sua entrada em Jerusalém à Resurreição (348 páginas), que estará à venda em sete idiomas no próximo 10 de março. Ratzinger, repetindo João XXIII, também isenta os judeus das alegações de que foram responsáveis pela morte de Jesus. “Perguntemo-nos, antes de mais nada, quem eram exatamente os acusadores? Quem insistiu em condenar Jesus à morte? Segundo João, se trata simplesmente dos ‘judeus’, mas a expressão deste evangelista não indica o povo de Israel como tal, e menos ainda tem uma intenção racista”.

Sua Santidade está chovendo no molhado. É óbvio que João não fala do povo de Israel. Se falasse, teria escrito o povo de Israel, ora bolas. Ou simplesmente Israel, como era denominado o Estado judeu. Por outro lado, o papa pretende corrigir a versão de Mateus, que atribuiu a pressão para condenar Cristo a “todo o povo”. Segundo Ratzinger, não se trata de um fato histórico porque não é possível que todo o povo expressasse seu rechaço.

Foi obviamente força de expressão do Mateus. Nunca na História um povo inteiro se reuniu para matar um só homem. Seria preciso, no caso, que todo Israel se reunisse em Jerusalém. Sem falar que o evangelho de João não poderia mesmo ter nenhuma intenção racista, já que racismo é categoria contemporânea. Você pode percorrer a bíblia de ponta a ponta e nela não encontrará a palavrinha. Vamos ao texto de João, XI 49-50:

Então, os chefes dos sacerdotes e o fariseus reuniram o Conselho e disseram: "Que faremos? Esse homem realiza muitos sinais. Se o deixarmos assim, todos crerão nele e os romanos virão, destruindo nosso lugar santo e a nação". Um deles, porém, Caifás, que era Sumo Sacerdote naquele ano, disse-lhes: "Vós de nada entendeis. Não compreendeis que é de nosso interesse que um só homem morra pelo povo e não pereça a nação toda? Não dizia isto por si mesmo, mas sendo Sumo Sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus iria morrer pela nação - e não só pela nação, mas também para congregar na unidade todos os filhos de Deus dispersos. Então, a partir desse dia, resolveram matá-lo.

Óbvio está que não foi o povo judeu. Foi pior. Foram os líderes supremos dos judeus que condenaram o Cristo. Ernest Renan, em A Vida de Cristo, vai mais longe. Para Renan, atrás de Caifás há um outro responsável, Hanã, sogro do Sumo Sacerdote. Se o evangelista põe na boca de Caifás as palavras que condenam Jesus à morte é porque se supunha que ele, como Sumo Sacerdote, teria dom de profecia. "Mas essas palavras, quem quer que fosse que as pronunciou, foram o pensamento de todo o partido sacerdotal". E Hanã era o cabeça do partido. "Foi Hanã (ou, se assim o querem, o partido que ele representava) que matou Jesus. Hanã foi o principal ator nesse drama terrível, e muito mais que Caifás, muito mais do que Pilatos, deveria carregar com o peso das maldições da humanidade". Enfim, Hanã ou Caifás, ambos eram judeus e defendiam interesses da hierarquia judaica. Ainda segundo Renan, os sacerdotes viram como derradeira conseqüência daquela agitação "uma agravação do jugo romano e a destruição de suas riquezas e suas honras". Um mês antes da Páscoa, Jesus já fora condenado pelos sacerdotes judeus.

Isto é, pela suprema hierarquia da nação judaica. Povo nunca decide a morte de um homem. Quem decide são seus líderes. Claro que não houve um plebiscito para decidir o destino do crucificado. Para os sacerdotes judeus, Cristo, ao se anunciar como Deus e filho de Deus, era um herege. Para os romanos, politeístas, deus a mais ou deus a menos pouca diferença fazia.

Pilatos dá uma chance ao Cristo. Na ocasião da Páscoa, costumava-se soltar um preso. Pilatos pergunta à turba, que evidentemente não era de romanos: "Qual quereis que vos solte? Barrabás, ou Jesus, chamado o Cristo?" A turba judaica preferiu soltar Barrabás. É estupidez profunda, ignorância histórica abissal, considerar que os romanos foram os responsáveis primeiros pela morte de Cristo. Pilatos tentou salvá-lo. Os judeus não o permitiram.

No evangelho de Marcos, prossegue Ratzinger, se fala de “uma multidão, da massa”, que o evangelista identifica com os seguidores de Barrabás. “Em todo o caso, tampouco isto assinala o povo de Israel como tal”. E aqui vão mais duas bobagens. Os que pediram a cabeça do Cristo até podiam ser seguidores de Barrabás. Mas o texto bíblico, em momento algum, nos diz que Barrabás tivesse seguidores. De qualquer forma, eram judeus. Por outro lado, há doze ocorrências da palavra “massa” na Bíblia. Sempre em referência a massa de pão, de barro ou de frutas. Jamais no sentido de multidão. Há horas venho afirmando que Sua Santidade fez gazeta nas aulas sobre a Bíblia.

Que mais não seja, os judeus foram responsáveis não só pela morte do Cristo. Foram eles que mandaram Paulo para uma prisão em Roma. Entre outras acusações, estava a sua boa amizade com Trófimo, que era não-circuncidado.

Os rabinos de Israel se regozijaram com este novo aceno do Vaticano. Mas nem rabinos, nem papas nem cardeais têm o condão que permite eliminar já não digo fatos da História, mas relatos históricos.

2 comentários:

Anônimo disse...

ESTA É A MAIS PURA VERDADE E É FACTO QUE O PAPA FEZ MESMO GAZETA NOS ESTUDOS QUE DEUS LHE POSSA PERDOAR PORQUE ELE É MAIS UM TEOLOGO DO CONCILIO VATICANO II

André Barros disse...

É isso aí. Eles, os judeus, apenas reagiram diante de uma ameaça, e que ameaça. Por certo morriam de medo de Cristo andando pela região, dizendo e fazendo aquelas coisas todas.

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