07 fevereiro 2011

Europa já aceita excisão do clitóris

Janer Cristaldo


Quando escrevi sobre excisão do clitóris e infibulação da vagina, nos anos 70, houve quem pensasse que eu delirava. A imprensa brasileira desconhecia tais práticas. Eu delas tinha notícia porque vivia em Paris, onde surgiam as primeiras denúncias. É espantoso, diga-se de passagem, que a denúncia de tal abominação milenar só tenha tomado corpo em meados do século passado.

Hoje, qualquer leitor minimamente informado sabe do que se trata. O costume bárbaro é praticado em uma trintena de países, numa faixa transversal da África, que coincide com o Sahel, mas se expande de sul a norte, do Egito até a Tanzânia. Embora não seja coisa exclusiva do Islã, é particularmente praticada nos países muçulmanos. A turma do politicamente correto, em nome da muito safada noção de “diversidade cultural”, tenta amenizar o horror, falando em circuncisão feminina. Como não há maiores objeções à circuncisão de homens, a prática não seria tão horrenda.

Ocorre que a circuncisão, além de ter suas motivações higiênicas, não mutila ninguém, enquanto que a excisão do clitóris e infibulação da vagina mutilam a mulher e a impedem de usufruir plenamente de sua sexualidade. É o que chamo de ginecofobia, o medo ancestral do macho ante o potencial sexual da mulher.

Trocando os queijos de bolso: nestes dias em que almas ingênuas falam na hipótese de uma transformação democrática no Egito, vontade de rir é o que não me falta. Há alguns anos, o New York Times nos informava que uma menina de 13 anos, em uma comunidade rural do Egito, foi levada a um consultório médico para ser submetida à excisão do clitóris. Acabou morrendo. Mas isto não irritou ninguém. O que irritou foi o fechamento da clínica pelo governo. "Eles não vão nos impedir!", gritou o dono de uma casa de chá na rua principal da cidade.

Segundo o jornal, há séculos as meninas egípcias, geralmente entre os 7 e 13 anos de idade, vêm sendo submetidas ao procedimento. Em 2005, uma pesquisa mostrou que 96% dos milhares de mulheres casadas, divorciadas e viúvas entrevistadas disseram ter passado pela excisão. Onde se viu democracia em um país que castra suas mulheres?

O costume é coercitivo. Meninas que, por milagre, tenham escapado à pratica infame, acabam pedindo para serem mutiladas. Ou são excluídas de suas etnias. Segundo a etíope Berhane Ras-Work, diretora do Comitê Interafricano, esse mecanismo funcionou por séculos até o ponto de as próprias mulheres passarem a considerá-lo admissível, "como meio para serem aceitas perante suas comunidades e elegíveis por seus esposos. Os governos africanos o permitem, o ignoram ou não dão lhe importância suficiente".

Com a crescente migração de árabes e africanos para o Ocidente, o costume também migrou para a Europa, Estados Unidos e Canadá. Calcula-se hoje em 500 mil o número de mulheres com clitóris extirpado na Europa e estima-se que 180 mil correm o risco de serem mutiladas a cada ano. Médicos italianos, sempre em nome da famigerada diversidade cultural, chegaram a propor uma medida conciliatória. As meninas sofreriam uma pequena incisão, que pelo menos provocasse sangue - para satisfação dos bárbaros – e estamos conversados. A brilhante idéia não foi aceita, nem pela comunidade médica nem pelos bárbaros sedentos de sangue.

Segundo o diretor-geral da Organização Internacional de Migrações (OIM), William Lacy Swing, a sobrevivência da mutilação é particularmente forte nas comunidades de imigrantes, onde tradicionalmente só as mulheres operadas têm a esperança de fazer um "bom casamento". Abandonar essa prática, por outro lado, pode supor a desonra para suas famílias. Ocorre que no Ocidente mutilação física é crime. Mas imigrante árabe ou africano pouco se importa com o que o Ocidente considera crime. O que importa é a honra do macho.

Celebrou-se ontem o Dia Mundial da Tolerância Zero contra a Mutilação Genital Feminina. Castas almas acham que o problema pode ser eliminado na Europa nos próximos anos. Santa ingenuidade! Os europeus já a toleram, ou teríamos 500 mil imigrantes no cárcere. É o tipo de crime fácil de elucidar, o criminoso sempre está ao lado da vítima. Ora, não estou vendo 500 mil imigrantes no cárcere.

A Europa, ao que tudo indica, já integrou à sua cultura a prática dos bárbaros.

4 comentários:

Felipe disse...

"nestes dias em que almas ingênuas falam na hipótese de uma transformação democrática no Egito, vontade de rir é o que não me falta"
[Um homem cheio de si é sempre vazio]

Francisco Ricardo Cavalcante disse...

"logo", partindo dessa lógica estúpida, se Darwin tivesse ficado cheio de si após a publicação da Origem das Espécies, "logo" ele seria, ou teria passado a ser, um homem vazio... uma frasezinha pronta, de efeito, mas de fato vazia de sentido.

Francisco Ricardo Cavalcante disse...

refiro-me ao comentário idiota do Felipe, não ao ótimo texto do blog

Anônimo disse...

Um menbro do clero anglicano já revelou a aplicação da sharia entre os britanicos islãos. Em Paris uma jovem foi estuprada e queimada por outro jovem por ñ usar o veu. E foi apoiado pela sua comunidade. Este povo ñ quer se integrar, eles querem viver no ocidente como vivem em seus países de origem. Qual será a proxima? Deve de ser a proibição de circulação de revistas femininas que sempre falam de clitoris, sexo, orgasmo em meio a receita de bolos e penteados de cabelo. Esta pratica chega a ser surreal, em nossa cultura, que valoriza a satisfação sexual do ser humano. Mas isto ñ comove este povo, eles ñ se ocidentalizaram, como se esperava, e nem pouco irão. seu objetivo é expandirem-se culturalmente e numericamente, e daí fazerem a revolução. A democracia é um erro. Este post se relaciona ao "alemanha e o titanic". Comentei lá, e agora aqui.
lucio escreveu

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