07 novembro 2010

Apologista da droga vende bem no Brasil

Janer Cristaldo


Decididamente, eu vivo fora deste insensato mundo. Leio no Estadão que nestas duas primeiras semanas de novembro - com eventos tão díspares como Fórmula 1, Salão do Automóvel, Mostra de Cinema e shows do Black Eyed Peas, Jonas Brothers e Eminem -, São Paulo vai receber 400 mil turistas, o equivalente a toda São José do Rio Preto, que devem movimentar nada menos do que R$ 385 milhões na economia da cidade. É, de longe, o melhor momento para o mercado do turismo paulistano, que já cresceu 30% neste ano.

Que vem fazer em São Paulo esta gente toda? Fórmula 1 e Salão do Automóvel até sei o que é, mas jamais me ocorreria a ir a algum desses eventos. Até hoje não entendi que tipo de ser humano vai a uma corrida de Fórmula 1. Os carros passam voando onde está o espectador, ele vê só um risco à sua frente. Se ficasse em casa, olhando a televisão, poderia ter uma visão geral da corrida.

Quanto a cinema, confesso que ainda curto. Mas uma preguiça abissal me impede de sair de casa. Deve ser coisa da idade. Há muito desisti de ler ficções e cinema também é ficção. Prefiro catar algum filme interessante na televisão nas madrugadas. Com os televisores de última geração, se pode ter bom cinema em casa sem ter de ouvir gente comendo pipoca.

Quanto a Black Eyed Peas, Jonas Brothers e Eminem, não tenho a mínima idéia do que se trata. Me espanta que tenham público em São Paulo. Vivo fora desse mundo. Lembro que há uns vinte anos, uma sobrinha veio do Rio Grande do Sul para ver um show de um tal de U-2. Que é isso? – perguntei. Ela se escandalizou. Eu, jornalista, não sabia o que era o U-2? Não sabia, não. E não sentia falta alguma por não saber.

Sei que são coisas que atraem multidões. É o máximo que sei. Ora, abomino multidões. A multidão máxima que admito é o público de uma ópera. Em verdade, não é bem o que se chama de multidão. E muito menos é uivante. Quando vejo na televisão uma massa de jovens balançando as mãos erguidas, não noto diferença alguma das multidões que saudavam Hitler, Stalin ou Kim Il Sung. Ou o papa. Dá no mesmo. Psicologia de rebanho.

Assim sendo, confesso não entendo essa histeria toda em torno a um cantor septuagenário que está no Brasil, o tal de Paul McCartney. Que se apresenta hoje, em Porto Alegre. Este sei quem é, mas nada me diz. Seguido tenho ácidas discussões com um amigo, para quem os Beatles foram revolucionários. Revolução onde? Meu amigo empunha uma canção de John Lennon:

Imagine que não há paraíso
Isso é fácil se você tentar
Sem inferno abaixo de nós
Acima de nós só o céu
Imagine todas as pessoas
Vivendo pelo hoje

Imagine que não há países
Isso não é difícil de fazer
Nada para matar ou morrer por
E sem religião também
Imagine todas as pessoas
Vivendo pelo hoje


Ora, não venha alguém me dizer que uma letrinha vagabunda dessas provocou alguma revolução. Slogans não provocam revolução alguma, apenas servem para conduzir fanáticos. Não foi a Marselhesa que provocou a Revolução Francesa. O hino serve apenas para excitar ânimos. Revoluções surgem de idéias, de pensamento, não de cançonetas. Não é cantando que não existem infernos (mas paraísos existem) que vamos lutar contra o obscurantismo. Lutar contra religiões exige pensamento, não letrinhas de grupos de rock. Mas é claro que ler um ensaio filosófico cansa mais que cinco minutos de musiquinha.

Imaginar um mundo sem religião é besteirol de adolescente, que ainda não descobriu que a humana estupidez é eterna. Dizem que os Beatles influenciaram minha geração. Se assim foi, eu a ela não pertencia. Sou mais Pedro Raimundo, Inesita Barroso, Miguel Aceves Mejía, Jorge Negrete. Não que tais cantantes tenham me influenciado. Eles me ofereciam música, não ideologia.

Nunca entendi multidões de jovens curtindo canções em língua que não entendem. Qual o percentual desse público que vai ver McCartney entende inglês? Duvido que cinco por cento. Ok, eu gosto de Kalinka, sem entender russo. Gosto do ritmo. Adoro músicas folclóricas, mesmo em línguas que não conheço. Mas folclore nasce de povo. Nada a ver com música mercenária, feita para vender. Jamais veremos multidões fanáticas, com gestos uniformizados, curtindo Kalinka.

Os Beatles fizeram fortuna com seus apelos comerciais. Claro que não escapei de ouvir suas canções, mas elas nada me disseram. O grande legado de Paul McCartney e John Lennon, a meu ver, é a apologia das drogas. Era uma bandeira respeitável nos anos 70. Os Beatles foram os grandes agentes do LSD, cocaína, maconha e congêneres. Hoje, algumas mentes brilhantes estão concluindo que quem consome drogas financia o tráfico e o crime. No entanto, continuam lotando estádios em homenagem aos apologistas da droga.

Tenho boas amigas, de minha geração, que vão ver o beatle macróbio. A elas, minhas desculpas. Mas não posso deixar de dizer o que penso. Terá McCartney estádios lotados, hoje, na Inglaterra? Duvido. Veio ao país dos botocudos faturar os restos de prestígio que lhe resta.

Mais ou menos como aqueles chefs franceses, cujos restaurantes em Paris vivem às moscas. Mas encontram uma clientela ingênua para vender seus peixes caríssimos no Brasil.

03 novembro 2010

Lei cria nova doença

Janer Cristaldo


Quem não ouviu falar da tal de TPM, a famigerada tensão pré-menstrual? Todos já ouvimos falar. Mas se o leitor tem minha idade – isto é, uns sessenta anos – deve ter observado que sua mãe jamais teve TPM, muito menos suas tias ou avós. Nos dias de meus ancestrais, as mulheres sofriam de cólicas. Agora, padecem de TPM. Outra doença contemporânea, que não existia em meus dias de juventude, é o tal de transtorno de déficit de atenção com hiperatividade, mais conhecida como TDAH. Busco na rede os sintomas relacionados à hiperatividade.

• ficar remexendo as mãos e/ou os pés quando sentado;
• não permanecer sentado por muito tempo;
• pular, correr excessivamente em situações inadequadas;
• sensação interna de inquietude;
• ser barulhento em atividades lúdicas;
• ser muito agitado;
• falar em demasia e sem pensar no que vai dizer;
• responder às perguntas antes de concluídas;
• ter dificuldade de esperar sua vez;
• intrometer-se em conversas ou jogos dos outros.

Ou seja, uns bons 90% ou mais das crianças padecem de TDAH. Ser irrequieto já é sintoma da doença. Ora, qual criança não é irrequieta? Ainda hoje, fui almoçar em um restaurante repleto de crianças com TDAH. Para se diagnosticar um caso de TDAH – dizem os médicos - é necessário que a pessoa em questão apresente pelo menos seis dos sintomas de desatenção e/ou seis dos sintomas de hiperatividade; além disso os sintomas devem manifestar-se em pelo menos dois ambientes diferentes e por um período superior a seis meses. Qual criança não manifesta seis desses sintomas?

Mais ainda: segundo estes senhores, as crianças portadoras do transtorno, aplicam menor quantidade de esforços e despendem menor quantidade de tempo para realizar tarefas desagrádaveis e enfadonhas. Ou seja, o que é virtude, habilidade, passa a ser doença. Para que serve o TDAH? Para os laboratórios venderem uma substância chamada metilfenidato.

Quanto mais doenças são criadas, mais os laboratórios empurram suas drogas. Os americanos estão criando mais uma, a síndrome de alienação parental, a SAP. O mundo contemporâneo está cheio de pais separados e divorciados, não é verdade? Excelente mercado para uma nova doença e novos medicamentos.

Leio no Estadão entrevista com a psicóloga Maria Dolores Toloi, que há 15 anos trabalha como assistente de perícias psicológicas no Tribunal de Justiça de São Paulo. "No grau mais leve, o guardião, normalmente a mãe, faz comentários críticos sobre qualquer coisa que a criança fale sobre o pai. Ou então diz que vai ficar sozinha e triste quando ela for visitá-lo", Com o tempo, a convivência com o pai passa a ter um custo emocional tão alto que a criança diz não querer mais vê-lo.

Em muitos casos, diz Maria Dolores, o alienador se aproveita da distância para doutrinar a criança contra o outro genitor, chegando até a implantar memórias de fatos que nunca aconteceram. "Quando a criança entra nesse jogo e passa a participar da campanha de difamação, está instalada a Síndrome da Alienação Parental (SAP)".

Ora, quando pais se separam é porque algum conflito houve. Que troquem acusações é uma decorrência lógica. Que a criança ouça estas acusações, também, afinal ela faz parte do conflito. Mas se uma criança tem um pai bêbado ou assassino e mãe diz ao filho que seu pai é bêbado ou assassino, voilà: temos mais um cliente para os laboratórios.

No Brasil, a nova “doença” virou lei. Desde agosto passado, vige uma nova norma que pune os que impedem a convivência de crianças e adolescentes com um dos genitores. Segundo o Estadão, 80% dos filhos de casamentos desfeitos enfrentam a situação em diferentes níveis. Quer dizer, se você é mãe e quer afastar sua cria da convivência de um pai bandido, ladrão ou estuprador da própria filha, você está sujeita a uma punição.

Segundo o juiz Marco Aurélio Costa, da Segunda Vara da Família do Foro Central de São Paulo, já é possível notar um cuidado no discurso das mães para não dar margem a acusações de alienação parental. "Já existe no ar a perspectiva de que isso pode ser punido. Nesse ponto a lei foi muito útil." Isto gera um mercado de sonho para psiquiatras, psicólogos e psicanalistas. Segundo a psicóloga Maria Dolores, uma avaliação psicológica, para ser bem feita, demora cinco sessões. Multiplique estas cinco sessões pelo número de crianças oriundas de casais desfeitos e não teremos mais psicólogos desempregados no Brasil.

Quem denuncia este embuste é a psicóloga Analicia Martins de Souza. Segundo Analicia, a SAP foi um termo criado em 1985 pelo psiquiatra americano Richard Gardner para retratar o conjunto de seqüelas que podem afetar crianças vítimas de alienação parental. Embora exista a possibilidade de a SAP ser incluída na nova edição do Manual de Diagnóstico e Estatística de Transtornos Mentais (DSM-5), que está sendo revisado para publicação em maio de 2013, a idéia de que ela possa ser considerada uma patologia é polêmica entre os profissionais de saúde mental.

Autora do livro Síndrome da Alienação Parental. Um Novo Tema nos Juízos de Família, a psicóloga considera que a teoria de Gardner tem escasso valor científico. Ainda assim, diz ela, serviu de base para a legislação brasileira.

“As associações de pais separados começaram a difundir a teoria de Gardner logo após a aprovação da guarda compartilhada. Mas não chegou ao Brasil toda a polêmica que existe no exterior sobre a existência ou não da síndrome. Gardner criou uma patologia, uma teoria de escasso valor científico que, de uma hora para outra, virou lei. O campo da psicologia foi alijado da discussão. Não se consultaram pesquisadores que há anos estudam questões relacionadas ao divórcio e à guarda de filhos”.

Um americano arrota e seu arroto vira lei no Brasil. Para onde aponta a nova lei? Analicia responde:

“As mães guardiãs passam a ser vistas como alienadoras; elas e seus filhos, como portadores de transtorno mental. Não nego o exagero de alguns genitores, mas poucos são os casos em que há de fato patologia. O que era exceção vira regra. Isso faz voltar a idéia superada de que filhos de pais separados são portadores de distúrbios. Além disso, há forte campanha para incluir a SAP no DSM-5. Esse manual é referência na produção de novos medicamentos”.

Segundo nossos legisladores, todo filho de casal separado é tecnicamente doente. Os terapeutas têm agora um farto e novo mercado a explorar. Os laboratórios também.

01 novembro 2010

Consummatum est

Janer Cristaldo


Foi uma segunda-feira sem novidades. As primeiras páginas dos jornais estavam previstas há meses. Eleita a primeira mulher presidente da República, dizem as manchetes. Pode ser. Mas vejo a coisa por outro lado. Vinte anos depois da queda do Muro, da dissolução da União Soviética e do desmoronamento do comunismo, foi eleito o primeiro presidente da República marxista. Pois, pelo que sei, dona Dilma nunca renegou publicamente sua filosofia de juventude. Pelo contrário, orgulha-se discretamente de ter lutado para transformar o Brasil numa republiqueta soviética.

Meu correio é inundado diariamente por mails de almas ingênuas que contam os dias que faltam para findar o governo Lula. São bobalhões que ainda não se deram conta de que o inimaginável acabará acontecendo: ainda vamos sentir saudades do Supremo Apedeuta. Há uma direita histérica no Brasil, liderada pelo astrólogo Aiatolavo de Carvalho e seus acólitos, que via em Lula uma ameaça comunista. Ora, Lula nunca teve ideologia. Só se apegou a um ismo, um único ismo, o oportunismo. Se alguma virtude teve, foi jogar na lata do lixo os propósitos socialistas do PT.

Mas Dilma tem ideologia. É atrabiliária e vai mostrar as garras. O PNDH-4 aí está, esperando aprovação de uma bandeira sempre cara aos velhos comunistas, a censura de imprensa. Alguns Estados, apressadinhos, ao arrepio da Constituição, já criaram seus conselhos de controle da mídia. O tal de plano legisla em todas as áreas, é quase uma nova Constituição. Parece ter sido elaborado por um analfabeto em termos de legislação. Mas apenas aparentemente. Em verdade, é obra de alguém que, por muito entender de leis, não as respeita.

Antes mesmo de tomar posse, Dilma já está acenando com a reabilitação de um corrupto envolvido no escândalo da máfia do lixo, em Ribeirão Preto. Que teve de renunciar ao ministério da Fazenda por ter violado o sigilo bancário de um humilde caseiro. Por seus feitos, ao que tudo indica, Palocci será contemplado com um ministério.

Imaginei que a fatura, neste 2010, seria liquidada no primeiro turno. Não foi. O que só prolongou a agonia tucana. Serra não ousou atacar Lula nem poderia. São farinha do mesmo saco. Não houve oposição nestas eleições. Ambos os candidatos reivindicavam a continuidade do governo Lula. A tal ponto que Serra, supostamente oposição, grudou um bonequinho de Lula em sua campanha. Houve dois partidos, é verdade: o do sim e o do sim senhor. Dilma prometia manter a Bolsa-Família, Serra prometia um décimo-terceiro salário para a bolsa. O PSDB sequer ousou em propor um governo distinto ao de Lula. Criou a infeliz expressão “pós-Lula”. Ora, se é para dar continuidade ao governo de Lula, melhor então votar em quem Lula indica. Este foi o recado que Serra passou aos eleitores.

Os tucanos amanheceram, nesta segunda-feira, contando mortos e feridos. ”Não é um adeus, é um até logo”, disse Serra após sua derrota. Santa ingenuidade. Serra saiu politicamente morto deste pleito. Tem 68 anos e o máximo que pode esperar é uma secretaria de Alckmin como prêmio-consolação. Tinha dezenas de trunfos em mão para enfrentar o PT. O assassinato de Celso Daniel, o mensalão, dinheiro nas cuecas, quebras de sigilo fiscal e bancário, nepotismo, proteção às falcatruas de Sarney, em suma, corrupção foi o que não faltou para denunciar. Serra preferiu manter um silêncio obsequioso. Se usasse as armas que tinha em mãos, mesmo que perdesse, cairia em pé. Não as usou. Sai aviltado do pleito.

Dilma mentiu descaradamente durante toda a campanha. Há três anos se pronunciava a favor do aborto, publicamente. De repente, virou defensora da vida. Não teve sequer a hombridade de dizer que mudara de idéia. Preferiu entoar o mantra dileto do PT: são boatos e calúnias. Marxista convicta, divulgou fotos de um encontro com o papa e deixou-se fotografar fazendo o sinal da cruz. Serra não deixou por menos, saiu a beijar terços. Só faltou aos candidatos papar hóstias. O Brasil engoliu prazerosamente as mentiras da candidata.

Leitores mais antigos devem lembrar quando o PT, em seus anos irados, denunciava o regime assistencialista das sociais-democracias européias. Hoje, o PT fez sua presidenta graças ao regime assistencialista que instalou no país. A vitória de Dilma se deve fundamentalmente ao Nordeste que não trabalha e vive das esmolas do Estado. As mesmas esmolas que Lula denunciava, quando eram dadas por Fernando Henrique. Os tucanos não podem queixar-se. Prepararam o ninho para os chupins.

Consummatum est. Teremos pelo menos mais oito anos de lulismo e populismo pela frente. Quanto a mim, estou vacinado. Se sobrevivi a oito anos de Lula, acho que sobrevivo a Dilma. O duro vai ser ver aquele rosto emético nas primeiras páginas dos jornais nos próximos anos. Duro também é ver uma remanescente das tiranias comunistas assumir o poder, vinte anos após a queda do Muro.

Isto é Brasil.
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