15 outubro 2010

Perpétua e a Outra

Janer Cristaldo

A vida já é naturalmente complicada. E existem ainda os que adoram complicá-la um pouco mais. Me refiro a esse draminha secundário após o resgate dos 33 mineiros soterrados em Atacama. Durante a tragédia, a mulher de um dos mineiros, Yonni Barrios, descobriu que ele mantinha relações com outra. E queria se encontrar com as duas ao emergir da terra. Marta Salinas Cabello, a Perpétua, decidiu não ir à mina receber o marido. "Estou contente porque ele se salvou, é um milagre de Deus, mas não vou acompanhar o resgate. Ele me pediu, mas acontece que também convidou a outra mulher e eu tenho decência. A questão é clara, ou ela ou eu", disse ela ao Terra alguns dias atrás, enquanto atendia em seu mercado.

Perpétua está magoada. Barrios foi recebido pela Outra, Susana Valenzuela. Seria o único dos 33 soterrados a viver esta condição? Não acredito. Reúna 33 homens. Você não vai encontrar apenas um entre eles que tenha – ou tenha tido - mais de uma mulher. A traição, como costuma chamar-se este comportamento, hoje é mais ou menos regra no mundo contemporâneo. Já vivi seis décadas e se contar nos dedos de minhas mãos os casais fiéis um ao outro, vai sobrar um monte de dedos. Às vezes, há consenso entre ambos. Na maior parte dos casos, Perpétua sabe muito bem o que está acontecendo. Só não quer que isto lhe seja jogado na cara. No fundo, hipocrisia da Perpétua.

Como costuma chamar-se este comportamento, dizia. Porque há nuanças. Quando um parceiro não mente para o outro, não há traição. Assim conduzi minha vida e até hoje continuo reunindo na mesma mesa minhas namoradas. Com também convivi com namorados delas. Hoje, se se reunirem uma trintena de amigos de longa data – se é que alguém consegue reunir trinta amigos – há muitas trocas de camas na mesma mesa. Faz parte da vida. Estamos no Ocidente, não numa teocracia islâmica.

Maridos convivendo amistosamente com ex-parceiros de suas mulheres – e vice-versa – fazem parte de minha vida. Parceiro já é mais difícil, mas também acontece. Isto é civilização. O conceito de corno pertence a um mundo bárbaro e medieval. Estamos no século XXI. Ou quem sabe não estamos todos. Alguns ficaram na época dos chamados crimes de honra.

Tento colocar-me no lugar de Barrios. Após mais de dois meses enterrado a quase um quilômetro da superfície, em meio a escuridão, eu não quereria ver apenas duas. Mas todas. Coisa mais mesquinha! Em vez de alegrar-se por reencontrar o marido vivo, Perpétua reclama da Outra. Apesar de ter dito que se sente contente por vê-lo vivo, a conclusão lógica é que preferiria vê-lo morto a vê-lo vivo, mas partilhando seu afeto com a Valenzuela.

Quando tudo seria bem mais simples se as pessoas não mentissem...

02 outubro 2010

STF extingue título de eleitor

Janer Cristaldo


Enquanto a Justiça Eleitoral gastou quatro milhões de reais com campanhas de esclarecimento sobre o uso de dois documentos nas eleições e com a reimpressão de outras vias pedidas por eleitores, o Supremo Tribunal Federal (STF) derrubou quinta-feira passada a obrigatoriedade de o eleitor levar dois documentos para votar. Amanhã, bastará apresentar um documento oficial com foto.

A decisão surgiu em resposta a uma ação promovida pelo PT, na qual sustentava que a exigência prevista em lei de se levar dois documentos seria uma "burocracia desnecessária" e que dificultaria o exercício do direito ao voto. Ironicamente, a exigência de título eleitoral mais documento de identidade foi exigência do PT, e sancionada por Lula em setembro do ano passado. O partido acabou concluindo que os dois documentos excluiriam parte de seu eleitorado e conseguiu derrubar a exigência... a três dias das eleições.

Os brasileiros têm números demais, impossíveis de reter na memória. Há o RG, o CPF, passaporte, título eleitoral, só aqui você tem de lembrar pelo menos quatro números de sete ou oito algarismos. Isso sem falar em números de telefone, contas de banco e senhas na Internet. Quando todo cidadão poderia ter - telefones, contas e senhas à parte - apenas um número para efeitos civis. Que serviria para identificar-se, votar, viajar, dirigir. Há mais de quatro décadas os suecos já haviam descoberto isto.

Quando vivi em Estocolmo, para o Estado eu era o cidadão nº 4707029916. As seis primeiras cifras indicam a data de nascimento. O número pertence a um homem, pois as três cifras seguintes são ímpares. Para uma mulher, teríamos, por exemplo, 864. A última cifra é dada por um computador e estabelece a univocidade do número pessoal. Relatei estes fatos em meu primeiro livro, O Paraíso Sexual Democrata, publicado há quase trinta anos. Até aí, tudo muito prático. Ocorre que o cidadão é interrogado sobre seu número pessoal, em quase todas as circunstâncias de sua vida. Ao se matricular na universidade, comprar a crédito, solicitar auxílios sociais, internar-se em hospital, pagar multas de trânsito, casar ou divorciar-se, está alimentando um banco de dados. Isto acaba invadindo a privacidade de cada um. Mas quem não deve não teme.

O Senado Federal aprovou, em 1996, lei de autoria do senador Pedro Simon, que instituía um número único para cada cidadão brasileiro, composto de letras e algarismos. Com a nova regra, seriam extintos todos os atuais cartórios de registro civil. Tudo seria centralizado num único cartório, responsável pelo Cadastro Nacional de Registro Civil. Em abril de 97, Fernando Henrique Cardoso sancionou o projeto. Esta lei, que de certa forma regulamenta o imperativo categórico kantiano, devia entrar em vigor cinco anos depois, ou seja, em 2002. Não entrou.

Durante as deliberações do STF sobre a exigência de um ou dois documentos, uma barbeiragem do tanso candidato tucano. Na quarta-feira passada, quando a votação estava em 7 a 0 a favor da derrubada da obrigatoriedade, segundo reportagem da Folha de São Paulo, José Serra telefonou para Gilmar Mendes. Pelo jeito, o tucano também confiava que a obrigatoriedade de dois documentos levaria a um grande número de abstenções no domingo, o que diminuiria o número de votos do PT em regiões como o Nordeste. Logo após o telefonema, Gilmar Mendes interrompeu a votação, pedindo vistas do processo. Serra goza de uma reputação de impoluto. Se assim age como candidato, imagine o que não faria como presidente.

Como a votação já estava decidida, qualquer voto de Mendes seria inútil. Mas ao pedir vistas, o ministro poderia postergar a decisão para depois do 03 de outubro. Como a manobra foi denunciada pelos repórteres da Folha, o ministro abriu seu voto bonitinho na quinta-feira.

Tanto Mendes como Serra juram de mãos juntas que tal telefonema não ocorreu. Ora, a acusação é grave. Envolve um membro de uma das mais altas cortes do país e um candidato à Primeira Magistratura. A solução é óbvia: processar os repórteres por calúnia. Nada mais fácil para um ministro que em vez de puxar um revólver puxa processos do coldre.

Mas ninguém vai processar ninguém. Por uma razão também óbvia. Existe algo que se chama quebra de sigilo telefônico. É evidente que os repórteres não estão usando da imaginação. A Folha tem opção preferencial por Serra e esta denúncia só prejudica sua candidatura. Se, acuados por um processo, os jornalistas pedissem quebra de sigilo telefônico, teríamos a desmoralização definitiva do ministro e do candidato. Isto é, Serra há muito está desmoralizado. Mas Mendes ficaria num beco sem saída, ante o qual só lhe restaria apresentar renúncia, se vergonha ainda lhe restasse na cara.

Assim sendo, fica tudo como dantes no quartel de Abrantes. O dito pelo não dito. Os repórteres confirmam o telefonema. Ministro e candidato negam. Enfim, amanhã assistiremos à morte política do tucano. Se as eleições não se decidirem no primeiro turno, apenas terá sua agonia prolongada.

Não sei se os leitores notaram, mas o Supremo Tribunal Federal simplesmente extinguiu o título de eleitor.
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