29 setembro 2010

Brasil não merece uma lágrima

Janer Cristaldo


Domingo que vem é meu dia de protesto cívico. Como faço há já vinte anos, não vou votar. Há quem defenda a idéia de votar no candidato menos pior. Discordo. Menos pior também é pior. Sem falar que me parece absurdo, em regime democrático, ser obrigado a votar. Em todo o Primeiro Mundo, o voto é facultativo. Só nesta América Latina, que vai a reboque da História, é obrigatório.

Obrigatório em termos. Você sempre pode anular seu voto. Mas tem de comparecer às urnas. É o que tenho feito de 1990 para cá. Meu título continua em Florianópolis. No domingo, perto de meio-dia, vou justificar a ausência de meu domicílio eleitoral. E depois vou para meu boteco, aperitivar. Hoje, em São Paulo, pode-se beber em dia de eleições. Quando não se podia, meu garçom me servia um uísque e punha ao lado do copo uma garrafa de guaraná.

Não quero ser radical. Mas diria que qualquer pessoa de bom senso não pode votar nestas eleições. De um lado, a candidata preferencial é uma ex-guerrilheira que participou de um grupo terrorista e até hoje se orgulha disto. O segundo colocado não pode sequer acusá-la de terrorista, pois militou em outro grupo terrorista. Os três candidatos mais cotados são todos de extração marxista. Vinte anos após a queda do Muro de Berlim e do desmoronamento da União Soviética, no Brasil o fundo do ar ainda é vermelho.

O mais patético – para não dizer pateta – dos candidatos é sem dúvida José Serra. Não ousa dizer uma palavrinha contra seu adversário, o patrocinador de Dilma Rousseff. Pelo contrário, o colocou em sua campanha eleitoral. Ao dar-se conta que isto era um tiro no pé, retirou-o de sua publicidade. Mas acabou fazendo pior. Mais adiante, alertou o eleitorado: se vocês querem Lula em 2014, têm de eleger-me agora. Se Dilma vencer, Lula não emplaca. Traduzindo em bom português, o que disse Serra? Disse que sem ele seu adversário não será eleito. Com oposição assim, o PT não precisa de base aliada.

Os políticos viraram bonecos de ventríloquo. Quem fala é o marqueteiro. O candidato repete. Mais ainda: para cúmulo do ridículo, o PSDB contratou para fazer sua campanha um guru indiano sediado nos Estados Unidos. A dez mil dólares por dia. Pode? Recorrer aos serviços de um vigarista estrangeiro para conduzir uma campanha eleitoral? Edir Macedo faria melhor. Ao constatar a mancada, os tucanos mandaram o guru de volta aos States. Teria sido mais barato enviar o Serra para fazer meditação transcendental em um ashram em Poona.

Os tucanos têm em mãos farto material para desmoralizar o PT. Desde o mensalão, dólares na cueca, o assassinato de Celso Daniel, os escândalos da Casa Civil, desde Zé Dirceu a Erenice, os cinco milhões de reais dados de mão beijada a Lulinha, e por aí vai. Não usaram esta munição. Serra, já que vai perder, podia ao menos perder com dignidade. Vai morrer humilhado.

Marina da Silva, sem comentários. Lanterninha, insiste no discurso surrado de meio-ambiente, cultua também Lula e põe-se em cima do muro ante qualquer questão polêmica. É boa alternativa para os petistas que admitem existir corrupção no governo do PT. Votam na morena Marina no primeiro turno e no segundo voltam ao redil. Como não vai ter segundo turno, vão acabar mesmo votando no primeiro no PT.

Almas ingênuas ainda acreditam numa virada. Recebo não poucos e-mails de coronéis de pijama que ainda acreditam em milagre. Coronel, quando veste pijama, vira valente. Quando na ativa, é cachorro que enfia o rabo entre as pernas com medo da voz do dono. Outro que alimenta esperanças é o recórter chapa-branca tucanopapista hidrófobo da Veja. Que tenha suas preferências políticas, vá lá. Que acredite que o PSDB possa levar é ingenuidade atroz. Ou subserviência de jornalista vil. A última chance de Serra seria uma recidiva de linfoma. Mas estamos a uma semana das eleições e a recidiva não ocorreu. Se ocorrer mais tarde, será tarde demais.

Dona Dilma está com todas as chances de ganhar no primeiro turno. Serra que se dê por feliz se não levar capote. Quando um candidato deposita suas esperanças em chegar ao segundo turno, como faz o tucano, é porque já deu as eleições por perdidas. Pior ainda: antes mesmo do primeiro turno, Serra está lançando sua candidatura à Prefeitura de São Paulo. Como pode um eleitor votar em um candidato que já pensa em receber um docinho pela derrota? Pelo jeito, Serra ainda não percebeu que estas eleições significam seu enterro político.

Dias piores esperam o Brasil. Nada de melhor se pode esperar de uma terrorista – que eu saiba, a candidata ainda não se penitenciou de seu passado – dominada pela atrabilis e mandonismo. E que consegue falar um pior português que o Supremo Apedeuta. País inacreditável, este nosso: pelo jeito ainda sentiremos saudades de Lula.

De minha parte, tanto faz como tanto fez. Desde há muito não deposito esperança nenhuma neste Brasil. Quando um presidente que acoberta crimes durante dois mandatos tem ainda 80% de aprovação do eleitorado, nada mais se pode fazer. Lasciate ogni speranza voi che entrate!

Vou cuidar de meu jardim. Tratar de bem viver os dias que me restam. E o Brasil que se lixe. Povinho que elege Lula ou Dilma não merece sequer uma lágrima.

12 setembro 2010

Liberdade & Segurança





Former Alaska Governor Sarah Palin has called a Florida preacher's plan to burn Korans on the anniversary of 9/11 "insensitive and an unnecessary provocation – much like building a mosque at Ground Zero."



Eu não queimo livros. Não queimaria nem o Minha Luta de Hitler. A melhor maneira de destruir uma idéia contida neles é lê-los e criticá-la. Acho estúpido, mas não posso admitir que se diga que não se pode queimá-los. Agora tiro o chapéu para BHO que parece ter persuadido o pastor. Bem, talvez seja ingenuidade minha e quem pode, realmente ter saído ganhando nesta é o guia de uma igrejinha pouco conhecida. Não sei. Só sei que estes fundamentalistas islâmicos já nos encurralaram. Com certeza eu não tenho o perfil de um político hábil para lidar com isto, não tenho mesmo. Cansa, isto cansa. O que será daqui a pouco? Vão proibir que TVs exibam mulheres com véus islâmicos?
Sei que vão achar o exemplo forçado, mas eu sou contra o aborto enquanto que sou a favor do direito de mulheres abortarem. Sou moralmente contra sua prática incondicional, mas sou favorável à decisão pessoal de se abortar. Se eu consigo ver algo assim como possível, porque não a queima de papel?
Sei que vai parecer extremamente infantil de minha parte, mas quem pensam que são para cagarem lei por aqui? Sim, por aqui, no mundo livre. É desenho animado que não pode citar Maomé, é charge condenada, é escritor banido do convívio público, cineasta assassinado etc. Eu sei, sei, sei que é isso mesmo que eles querem: a provocação que legitime suas ações. Tenho consciência clara disto, mas eles não vão simplesmente parar. E não vão parar também por ações de estado. Refiro-me a ações militares... O que vai mudar é nossa tecnologia de segurança que, tomando consciência de meu wishful thinking, irá avançar. Mas, o fundamental ainda não mudou: o comportamento. Aqui há um pequeno ensaio de para onde e como as coisas deveriam se encaminhar.
Veja que se cede nisto, ao impor uma sanção governamental (o que não foi feito, bem entendido), o passo para proibir a instalação de uma mesquita está dado. E daí, todas outras proibições às inconveniências serão legítimos.
Queimar o Corão em público é provocação do pastor, mas é seu direito provocar. São ambigüidades da democracia, assim como é direito queimar a bandeira deles lá, das estrelas e listras.
O que fariam os muçulmanos se milhões queimassem o Corão? Se as dezenas de milhões lá que portam armas? Se mais milhões aqui no Brasil e alhures? Nada. Eles podem sim nos ameaçar quando há um ou outro, daí faz diferença. Se o mundo ocidental, em peso, aderisse a um gesto de protesto não faria a mesma diferença, pois não haveria mais o foco específico para atacar. Seriam vários e ficaria tudo igual como antes do manifesto, tudo igualmente descentralizado. Imaginemos um vizinho incômodo, truculento e apenas um de nós vai solicitar que diminua seu volume e apanha no rosto. Agora, imagine a rua inteira. É simplismo de minha parte, mas ninguém me tira da cabeça que a mudança de hábitos urbanos, com menos transeuntes nas ruas deve ter realimentado o ciclo de delinqüência responsável pelo aumento da criminalidade. É o fenômeno do ‘carona’ em que todos nós desejamos que alguém faça algo, mas nenhum de nós dá o primeiro passo. Resultado lógico é que nada muda.
Reitero BHO agiu como deveria sim. Eu faria o mesmo, exceto se em protesto público achasse que conseguiria mobilizar milhões contra suas ameaças, tal como fizeram os espanhóis contra o ETA, como fizeram os sérvios contra a OTAN colocando chapéus e bonés com alvos pintados. Imagine a vigilância constante sobre mesquitas e sua definição como locais públicos, logo sujeitos a regra comum onde não poderão mais ensinar o ódio ao ocidente, nem traçar ações contra seus próximos alvos. Isto pode não impedi-los de procurar outros locais para confabular, mas com bem mais dificuldade ao ter que se esconder, perdendo tempo e eficácia. Lembremos que a KKK perdeu muito terreno quando, justamente, suas ações, rituais e códigos foram tornados públicos e caíram no conhecimento popular. Os inimigos estão ali, sabemos quem são e como pensam e agem, só restando desnudá-los e difundir detalhes alheios à maioria das pessoas, leigas que são na gênese do ódio. Já tornaram a vida da maioria de nós um inferno, agora só resta fazermos com que se sintam da mesma forma.[1]
A ofensa ainda não foi banalizada. Quando for, o sagrado e o proibido desencantam, perdendo sua força.


[1] Obviamente que não me refiro aos ataques, mas ao medo incutido.


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