28 maio 2010

Piedade deseduca

A reportagem de Veja, Salto no escuro é reveladora de quão distante da realidade de ensino está a pedagogia. Aliás, pedagogo falando de ensino ou 'educação' como preferem chamar, é análogo a um padre falando de sexo. Bem... Dada a "atual conjuntura", eu diria a maioria dos padres não pode falar com conhecimento de causa. Mas, este é outro assunto...

Hoje mesmo assisti a um psicólogo (da educação) comentando em palestra sobre o tema inclusão. Sua crítica é conhecida "vivemos numa sociedade 'normatizadora' que reprime a diversidade colocando bloqueios aos que são diferentes, os chamados deficientes (visuais, auditivos, físicos, intelectuais etc.)". O caso é o seguinte: quando este mesmo pessoal se referia ao governo FHC, em tom de crítica, diziam que o simples aumento de matrículas (para agradar o Banco Mundial...) não significava melhoria no ensino, mas agora comemoram quadros como este:


Fonte: portal.mec.gov.br

Então, "companheiros", quem garante que o avanço das matrículas em classes comuns (em detrimento das classes especiais) significa, de fato, uma evolução/melhoria no sentido de incluir o aluno especial com diferentes deficiências a um cotidiano comum? Quer dizer então que agora a análise meramente quantitativa vale e antes, no governo FHC, o 'quantitativismo' era questionável? Dois pesos e duas medidas...

Vejamos, o que é uma normal? Trata-se de um gráfico em forma de sino, como o que segue:


Fonte: www.pesquisapsicologica.pro.br/

No centro da curva se encontra a maioria, isto é normal. O que não se depreende de que o normal é o certo, o bonito, o bom. Isto é juízo de valor. Se estivermos em uma sociedade guerreira, o normal será constituído por um maior agregado de assassinos profissionais, p.ex. Voltando ao caso em pauta, na ponta da direita, segundo critérios de inteligência cognitiva, p.ex., estarão os 'bem dotados' como eram chamados antigamente. E na rabeta da esquerda, os 'excepcionais' (embora o outro extremo também seja...excepcional). Nada de mais. Mas, em se tratando de incluir o grupo de trás ao meio, eles até poderão melhorar seu desempenho, mas dificilmente o farão com sua posição relativa. Na melhor das hipóteses, a curva de normal se arrastará para a direita porque somos desiguais enquanto grupo humano (e o mesmo vale para qualquer espécie animal dependendo do que se quer avaliar).

Agora, duvido que me provem que colocar indivíduos com qualquer tipo de deficiência em classes comuns (com mais de 30 alunos, como é de praxe) signifique uma melhoria. Não funciona, basicamente, porque este tipo de aluno precisa de atendimento especializado e uma maior atenção...Individual. Falando francamente, isto só tem força de argumento nos meios educacionais hodiernos porque se acredita, piamente, na ideologia, nada mais.

Anos atrás quando trabalhei numa escola particular do Morumbi em São Paulo tive dois alunos especiais e para minha surpresa minha coordenadora de área dissera que eu fui o único a entender como o processo (eles adoram esta palavra porque sempre inclui uma promessa...) deve se dar. Minha 'mágica': eu conversava com os alunos e fazia provas adequadas ao seu nível de raciocínio.

Com um deles tive certo sucesso porque seu pai, um sujeito formidável que vinha dialogar comigo com cara de estafado de tanto trabalhar (tinha uma dupla jornada: fora abandonado pela mulher) sustentava três filhos sozinho. Já, o outro aluno dormia direto durante as aulas. Certo dia bati um papo com ele e perguntei o que costumava fazer em casa...

-- Eu gosto de jogar video-game.

-- Bem, até que horas tu faz isto?

-- Até umas duas...

Tá explicado. O maior erro é tratá-los como incapazes e a grossa maioria os discrimina de outra forma, como 'coitadinhos'. Chamei seus pais que nunca vieram falar comigo. Provavelmente também o viam como um pobre coitado que nunca deveria receber limites ou orientação, disciplina enfim.

Cara, sem disciplina não existe ensino. O resto é bobagem. Amor se dá em casa, na escola se dá regra.

E como tê-la em um ambiente caótico de verdadeira luta pela atenção e imposição da disciplina com salas super-lotadas porque as prefeituras investem mais em cargos de confiança, licenças-prêmio para professores efetivos, readaptações para funcionários saudáveis que alegam 'depressão'? Tudo sob uma retórica comum de direitos. Direito para o aluno, direito para os servidores e nesta toada, milhares de municípios brasileiros não têm material humano disponível. A "era dos direitos" veio para acabar com a sociedade. Excesso de nenhum lado é bom.

Quando a matéria da Veja diz sobre o construtivismo que:

Traduzindo e caricaturando: como não faz frio suficiente na Amazônia para congelar os rios, um aluno daquela região pode jamais aprender os mecanismos físicos que produzem esse estado da água apenas por ele não fazer parte de sua realidade. Isso está mais longe de Piaget do que Madonna da castidade.
Estas pedagogias (não tão) modernas servem, antes de mais nada, para o simples imobilismo.

Gosto de trabalhar com cursinhos (pré-vestibulares) e o que aprendi com eles é que o mérito força o sujeito. Se alunos normais podem buscá-lo, especiais também em seu meio, em suas condições. A isto, os pedagogos chamam de "exclusão normatizadora", mas eu entendo como apoio. A socialização por sua vez pode existir sim, mas estimulando suas atividades em meio adequado, o que dista anos-luz de colocá-los em salas de aula onde não terão essa chance e serão constantemente vitimados pelo assédio dos que os vêem como incapazes, ou seja, seus próprios colegas.

24 maio 2010

Coitadinhos dos ateus!

Janer Cristaldo


O ateísmo é a condição natural do ser humano, costumo afirmar. Todos nascemos ateus. Ninguém nasce com a idéia de deus ou deuses na cabeça. Esta idéia é decorrente da educação. Surge na família, na escola, na igreja, na sociedade. Crianças, não temos mecanismos de defesa contra o que nos é enfiado a machado na cabeça. Nos tornamos então crentes. Passamos a temer a morte e deste temor surge a crença na imortalidade, em castigos ou recompensas após o fim do prazo de garantia. Sem a morte, não existiriam religiões.

Uma vez adulto, você tem duas opções. Ou continua ingerindo placebos, ou deles se liberta. A maior parte das gentes prefere os placebos e inclusive vive bem com eles. Outros, mais audazes – ou lúcidos, se quisermos – consideram uma fuga viver dependendo de ilusões post-mortem. Estes somos nós, os ateus. É decisão adulta de quem não suporta viver embalado por mentiras. Nada a ver com aquele ateísmo de infância. Na infância, do mundo nada sabemos.

Ser crente é fácil. Basta crer e estamos conversados. Ser ateu é mais complexo. Além de negar a crença em um ser superior, precisamos nos libertar das decorrências dessa crença. Para isso, precisamos conhecer religião melhor do que o crente. Ele não está preocupado em libertar-se de nada. Nós estamos. Em nada espanta que um ateu conheça melhor a Bíblia que um católico. O católico vai atrás do que o padre disse. Nós vamos aos textos. O fato é que hoje nem os padres conhecem a Bíblia. Têm apenas vagas noções do catecismo aprendido nos seminários. Na verdade, nem os papas conhecem muito os textos sacros. Bento XVI, sem ir mais longe, quando fala de religião dá a impressão de não ter lido sequer os Evangelhos.

Ao contrário do que pretendem certos meninos que fazem do ateísmo uma religião, em minha seis décadas de vida jamais me senti discriminado por ser ateu. Há alguns anos, fui violentamente atacado por outros meninos que, se pretendendo católicos, do catolicismo não conheciam sequer os dogmas. Eu, ateu, tive de introduzi-los pacientemente nos meandros do catolicismo. Não por acaso, eram todos discípulos do astrólogo aquele que se pretende cristão, como se cristianismo fosse compatível com astrologia. Diz Isaías, entre outros: “"Já estás cansada com a multidão das tuas consultas! Levantem-se pois, agora os que dissecam os céus e fitam os astros, os que em cada lua nova te predizem o que há de vir sobre ti. Eis que serão como restolho, o fogo os queimará; não poderão livrar-se do poder das chamas; nenhuma brasa restará para se aquentarem, nem fogo para que diante dele se assentem".

Mas não era disto que pretendia falar. Ser atacado por defender determinadas convicções faz parte da vida. Quem quer que pense terá de confrontar-se com quem pensa o contrário. Desde meus primeiros artigos, lá pelos quinze anos, em um modesto jornalzinho do interior, fui atacado por meus adversários. Inclusive por um de meus professores. Quando fazia jornalismo em Porto Alegre, as cartas me xingando – e também as me defendendo – eram tantas, que a coluna dos leitores tornou-se mais interessante que a minha.

Ao longo de meu trabalho, fui chamado, mais ou menos pela ordem, de:

- comunista
- anarquista
- devasso
- imoral
- pachá dos pampas
- porco chauvinista (insulto dos anos Simone de Beauvoir)
- machão
- bicha
- agente do Dops
- agente do SNI (promoção nacional)
- agente da CIA (promoção internacional)
- porco sujo imperialista
- reacionário (disto até hoje me chamam)
- sionista (quando condenei o terrorismo de Arafat)
- anti-semita (quando comentei as prescrições absurdas de Maimônides)
- Robin Hood às avessas: rouba de todos e não dá nada a ninguém
- Savonarola às avessas: nos condena por não pecarmos

E certamente mais algumas gentilezas, que agora não recordo. Nos dias de universidade, enquanto eu depunha no DOPS tentando provar que não era comunista, na universidade era pichado como agente do DOPS. A mais curiosa acusação surgiu há uns três ou quatro anos. Uma leitora, judia ortodoxa, me apodou de católico fanático. Essa conseguiu surpreender-me. Jamais imaginaria que era católico e muito menos fanático.

Perdi amigos e namoradas por tais acusações. Também faz parte da vida. Quem não tem inimigos, não tem amigos. Jamais lamentei tais perdas. Considerei-as normais e segui tranqüilamente meus rumos. Insultos e agressões são rotina na vida de quem escreve. Há dois ou três anos, consegui reunir uma curiosa comunidade de desafetos, a dos ornitólogos. Em função de um singelo artigo que escrevi – “A periculosidade social dos ornitólogos” – fiquei recebendo bicadas dos defensores de pássaros por mais de ano. Paciência.

Recebi, nos últimos dias, uma revoada de mails indignados de um setor que me espanta até mais que a leitora judia. Dos ateus. Todos me xingando, porque afirmei não ter visto discriminação contra ateus no Brasil. Eu, o ateu, o inimigo figadal dos religiosos, tornei-me de repente alvo dos ateus. Perdoem-me os leitores minha falta de modéstia: isso exige algum talento.

Os argumentos são basicamente dois. O primeiro, de pessoas que perderam empregos por se professarem ateus. Confesso que jamais vi isso em minha vida, e meus interlocutores não me apresentam casos concretos. Se você vai a um hospital, é sempre interrogado sobre sua religião. É cuidado que o hospital tem, inclusive para tratar de sua alimentação. Judeu não come porco nem moluscos. Muçulmano come moluscos mas não porco. E por aí vai. Mas jamais tive notícia de empresa que perguntasse pela religião de um candidato a emprego. Se perguntar, tanto faz como tanto fez. Você não responde e pronto. A uma empresa deve interessar a eficiência e não a fé do funcionário. Se prevalece a fé, tome distância dessa empresa.

Verdade que, em décadas passadas – e talvez até hoje – havia universidades e jornais onde você não entrava se não fosse marxista. Mas aqui a religião era outra e implicava você ser ateu. Eram épocas em que as águas eram divididas. Hoje, o mundo está cheio de católicos comunistas.

O segundo argumento é o mais divertido. Recebi não poucos mails de meninos que sentiram discriminados ao perderem uma namorada por se revelarem ateus. Coitadinhos! Como se perder uma namorada fosse critério de discriminação. Quando investimos em uma mulher, estamos fazendo uma aposta. Podemos perder ou ganhar. Ora a moça nos considera feios, ou incompetentes, ou chatos, ou baixinhos, ou altos demais. Pode até não gostar de nós porque somos petistas. Ou não gosta porque não somos petistas. Ou porque somos ateus. Ou porque somos religiosos.

Só o que faltava uma mulher ter a obrigação de gostar do primeiro candidato que se apresenta. Perdi não poucas mulheres em minha vida e nunca me senti discriminado. Não gostou de mim? Ok, é direito dela. Acontece que o mundo está cheio de mulheres. Uma mais amável que a outra. Se uma não nos quer, outra nos adora. E é claro que esta outra está deixando de lado – ou discriminando, como diriam os aprendizes de ateus – dezenas de outros homens.

Pode até acontecer que a musa eleita o considere feio e desinteressante. Para não magoá-lo, a moça alega que você é ateu. Ora, está sendo apenas gentil.

17 maio 2010

Coisa de ianques

Janer Cristaldo


As pessoas têm de aprender a conviver com os "sem-deus" – disse na Folha de São Paulo Daniel Dennet, escritor a quem o jornal confere o título de filósofo. Li pelo menos dois livros do autor e não vi nele filósofo algum. É apenas um pensador que contesta o teísmo, sempre opondo o evolucionismo às crenças religiosas. É mania típica de americano contrapor Darwin à Bíblia. Nunca me ocorreu negar a existência de Deus através da ciência. Para descrer de qualquer deus, basta ler história das religiões. Para descrer do deus cristão, uma leitura atenta da Bíblia é mais do que suficiente.

Dennet fala de aprender a conviver com os sem-deus. Deve ser coisa daquele estranho país, que produziu a bomba, mandou o homem à lua, mandou naves além do sistema solar e continua sendo uma nação onde proliferam religiosos fanáticos. Comentei há dois dias o livro de outro ianque, que afirmava: "O peso de sair do armário já não existe para os jovens gays do Ocidente: tornou-se natural". Deve também ser coisa lá daquele estranho país. Porque cá, entre nós, desde há muito ser homossexual não constitui peso algum.

Segundo Dennet, “ainda há enormes áreas do país onde, se você disser que não acredita em Deus, vai perder seus amigos, seu negócio. Nesse ponto, os ateus estão mais ou menos na mesma posição em que estavam os homossexuais nos anos 1950, ou seja, se você admitir que pertence a esse grupo, sua vida está arruinada”. Se procede a afirmação do “filósofo” – e vamos admitir que proceda – os Estados Unidos, apesar de sua ciência, sua tecnologia, sua riqueza, é hoje país tão intolerante quanto um emirado árabe.

Sou ateu desde meus verdes anos e nunca perdi amigos nem amigas por isso. Até hoje continuo conversando com minha professora de francês dos dias de ginásio, católica devota que até hoje não renegou – pelo que sei – sua fé. Após descrer, continuei mantendo boas relações com os padres que me falavam de Deus e correlatos, e minha descrença nunca afetou nosso diálogo. Verdade que os perdi no tempo e no espaço. Largaram a batina, casaram, tiveram filhos e desapareceram no vasto mundo. Se hoje não conversamos, não é por questão de fé ou descrença. Como se diz, a vida nos separou.

Nunca me senti discriminado por ser ateu e duvido que alguém o seja neste país. Claro que se eu me manifestar como descrente em Deus nalgum culto dos bispos evangélicos, certamente sofreria um violento exorcismo. Fora esta hipótese pra lá de hipotética, por ser ateu nunca perdi amigos nem negócios. Falo em negócios por alusão a Dennet, pois jamais fiz negócios em minha vida.

Perdi amigos e namoradas, isto sim – e mesmo empregos – por não ser marxista. Quem discriminou este ateu que vos escreve foram outros ateus, que professavam um ateísmo fanatizado e virulento. Nos dias de universidade, se eu me interessava por uma colega, bastava uma frase mágica para afastá-la de mim: “ele é de direita”. Ou seja, eu não era marxista. Já estive nu debaixo de uma ducha com uma árdega militante, que me afastou delicadamente com as mãos: “sinto desejo por ti, pena que política e ideologicamente não combinamos”.

Jamais tive uma namorada marxista. Espíritas, católicas e até mesmo budistas, sim. Desde que pequem, nada contra. Pecar é mais fácil do que trair a luta de classes. Aníbal Damasceno Ferreira, um de meus mestres, me dizia: "Tu estás contra toda tua geração". Na época, eu não entendia muito bem a afirmação. Mais tarde, entendi. Eu não era marxista.

Em Florianópolis, quando lá estava se instalando o Diário Catarinense, fui convidado pelo editor a assinar uma coluna. Pediu-me uma crônica, para testá-la na edição zero do jornal. Enviei-a. Na época, Stroessner, o ditador paraguaio, estava doente. Sugeri que as esquerdas rezassem pela saúde de Stroessner. Como também pela de Pinochet. Não que eu fosse defensor incondicional desses senhores. É que, após suas mortes, Castro seria o último ditador do continente. Pra quê? - leitor. Minha crônica circulou pelos terminais e foi vetada pela redação. O editor preferiu não confrontar a comunada. “Tu não podes escrever uma coisa dessas!” – vociferava indignada uma adorável comunista, em plena Beira-Mar. “Mas não é verdade? – ousei objetar. “É. Mas isso não pode ser dito”. Fui demitido por Fidel Alejandro Castro Ruz. E não devo ter sido o único.

Antes mesmo de assumir a coluna, fui ejetado do jornal. Como mais tarde fui ejetado da universidade. Neste caso, as razões não foram ideológicas. Mas fosse eu comunista, até hoje talvez estivesse vegetando em meio aos miasmas ilhéus. Desconheço caso de comunista que tenha sido expulso da academia.

Verdade que, há algumas décadas, ser ateu não recomendava ninguém no Brasil para a Presidência da República. Fernando Henrique que o diga. Candidato a prefeito de São Paulo, em 1985, deve ter perdido não poucos votos, quando vacilou ante a pergunta se acreditava em Deus:

- É uma pergunta típica de quem quer levar uma questão que é íntima para o público, uma pergunta típica de alguém que quer simplesmente usar uma armadilha para saber a convicção pessoal do senador Fernando Henrique, que não está em jogo. Devo dizer ao deputado Boris Casoy que este nosso povo é religioso. Eu respeito a religião do povo e, na medida em que respeito a religião do povo, as várias religiões do povo, automaticamente estou abrindo uma chance para a crença em Deus.

Ficou tão atrapalhado que chamou Casoy de deputado. Interrogado sobre o mesmo assunto, Lula saiu pela tangente. Disse algo mais ou menos assim: não importa se acredito em Deus. O que importa é se Deus acredita em mim. Mesmo hoje, duvido que um Serra ou Dilma, velhos comunossauros, ousem afirmar que não acreditam na divindade.

Os tempos mudaram. Hoje até mesmo divorciada aspira ao trono. Mas isto diz respeito a candidatos ao poder, que precisam satisfazer os baixos instintos do eleitorado. Noves fora esta luta pelo voto, não consigo ver nestes trópicos discriminação nenhuma a ateus. Os candidatos podem ter pruridos de fé quando confrontados com a pergunta. Excesso de zelo. Tanto FHC com Lula, dois ateus notórios, acabaram sendo eleitos.

Pelo jeito, é coisa de ianques.

15 maio 2010

Devem os padres castrar-se?

Janer Cristaldo


Os jornais divulgaram hoje um documento da CNBB contra a ordenação de religiosos homossexuais. A recomendação diz que a Igreja deve ater-se a um documento produzido em 2005, aprovado pela Santa Sé, intitulado "Instrução sobre os critérios de discernimento vocacional acerca de pessoas com tendências homossexuais e da sua admissão ao seminário e às ordens sacras". O texto define que, "embora respeitando profundamente as pessoas em questão, a Igreja não pode admitir ao seminário e às ordens sacras aqueles que praticam a homossexualidade, apresentam tendências homossexuais profundamente radicadas ou apóiam a chamada cultura gay".

Perdoem-me os doutos príncipes da Igreja, mas diria que estão laborando em equívoco. Sacerdotes fazem voto de castidade. A Igreja não pode admitir nas ordens sacras nem mesmo aqueles que praticam a heterossexualidade ou apresentam tendências heterossexuais. Padre tem de ser assexuado.

Ocorre que a natureza fala mais alto e os coitados não conseguem fugir às tentações do século. Em minha adolescência, militando na JEC, convivi muito com padres. Ou melhor, eles conviveram conosco, jovens. Todos largaram a batina. O convívio dos padres com gente moça foi funesto para o sacerdócio. Como me dizia um deles: se batina fosse bronze, que badaladas!

Havia os hipócritas, é claro. Tive uma namorada gaúcha cujo confessor a aconselhava afastar-se de mim, o ateu. Reencontrei-a alguns anos mais tarde. Me contou que o casto padre acabou por levá-la em uma viagem pelos Alpes austríacos e suíços. Com o dinheiro da paróquia, é claro. Ela aceitou o convite. Naquele momento, a moça morreu para mim. Quem se relaciona com corruptos também participa da corrupção.

Tive outra amiga que se especializou em seduzir padres. Era seu esporte dileto. Encontrou certa vez um padre virgem, em seus quarenta anos. O homem andava tão perturbado que, quando ela ia à missa para paquerá-lo, chegava a derrubar do sagrado caneco o sagrado sangue de Cristo. O sonho dela, segundo me confidenciou, era um bispo. A vida nos afastou e não sei se chegou lá.

Devem os padres ser castrados? – me pergunta um leitor. Orígenes, por exemplo, levou ao pé da letra o bíblico preceito de Mateus: “Se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e lança-o de ti; pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que seja todo o teu corpo lançado no inferno. E, se a tua mão direita te faz tropeçar, corta-a e lança-a de ti; pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que vá todo o teu corpo para o inferno”.

Ainda é Mateus quem diz: "Porque há eunucos que nasceram assim; e há eunucos que pelos homens foram feitos tais; e outros há que a si mesmos se fizeram eunucos por causa do reino dos céus. Quem pode aceitar isso, aceite-o".

Por analogia, Orígenes cortou os dídimos. Escandalizavam muito, ao que parece. Eu não seria tão radical. Mas uma castração seria, sem dúvida alguma, um poderoso reforço ao voto de castidade.

Se na bula papal Cum pro nostri temporali munere, de 1589, Sisto V aprovou formalmente o recrutamento de castrati para o coro da Basílica de S. Pedro, para deleite dos cardeais, por que não poderiam os padres castrar-se para maior glória de Deus?

08 maio 2010

Veja quer criar tribo

Janer Cristaldo


A última edição de Veja traz uma reportagem de capa que, no fundo, é uma apologia do homossexualismo, intitulada “Ser jovem e ser gay”. Uma coisa é o que uma reportagem diz. Outra, a que deixa no ar. Não, Veja não diz que homossexualismo é o único comportamento desejável. Mas vende a idéia de que ser homossexual é ser jovem, ser lindo, ser inteligente, ser moderno. É como se homossexualidade fosse algo que distingue as pessoas, separando-as dos heterossexuais.

No fundo, um preconceito às avessas. Ser homo ou ser hetero não deveria definir ninguém. Sexualidade é questão de foro íntimo e ninguém tem nada a ver com isso. No fundo, a reportagem parece ter como objetivo promover o livro The New Gay Teenager (O Novo Adolescente Gay), de mais um desses psicólogos ianques, Ritch Savin-Williams, que pretende ter descoberto a América: "O peso de sair do armário já não existe para os jovens gays do Ocidente: tornou-se natural".

Ora, há décadas os homossexuais saíram do armário. Os redatores, parece que acometidos de um wishful thinking, exageram: “A idade em que um jovem acredita que definiu sua preferência sexual tem caído. Uma pesquisa feita pelas universidades estaduais do Rio de Janeiro (Uerj) e de Campinas (Unicamp) tem os números: aos 18 anos, 95% dos jovens já se declararam gays. A maior parte, aos 16”. Ora, ninguém vai acreditar, em sã consciência, que apenas 5% dos universitários – se é que a pesquisa abrange apenas universitários – sejam heteros. E se o universo pesquisado vai além da universidade, mais inverossímil ainda é a estatística.

A reportagem insiste em mostrar meninos e meninas, todos jovens, sarados, lindos e bem tratados, como protótipos de homossexuais. Ser homossexual parece ser apanágio da juventude. Nenhum é efeminado, nenhuma é masculinizada. Nas fotos, não vemos nenhum adulto ou idoso. Certo, a reportagem se restringe aos jovens. Mas entre os jovens homossexuais, há também jovens feios, gordos, mal vestidos, pobres – e mesmo esses exemplares caricaturais, rapazes cheios de ademanes femininos e mulheres que mais parecem caminhoneiros. Estes não são contemplados pela reportagem. No universo homossexual pesquisado pela revista, tudo é beleza, graça, saúde, riqueza, simpatia. Um ideal a ser perseguido.

Tenho mais de seis décadas de vida. Embora me sinta espiritualmente jovem, pertenço a uma faixa etária que não mais pode ser chamada de jovem. Minha juventude, diria que ficou quarenta anos atrás. Ora, naqueles dias convivi serenamente com homossexuais, em uma cidadezinha de treze mil habitantes, nos cafundós da Campanha gaúcha, onde ser homossexual era perfeitamente normal. Tanto que Dom Pedrito foi – salvo prova em contrário – a primeira cidade brasileira a eleger um prefeito homossexual. Fiz todo meu ginásio ao lado de três colegas que nada queriam com mulheres e os tratávamos sem espanto algum. Mais ainda, o colégio era católico. Não faltará quem objete: et pour cause. É possível. Mas nunca ouvi falar de casos de pedofilia no Ginásio Nossa Senhora do Patrocínio.

Rui Bastide, o alcaide, não fazia segredo algum de sua homossexualidade. Final dos anos 50, há quase meio século, portanto. Naquela cidadezinha da fronteira gaúcha, nos confins da fronteira seca entre Brasil e Uruguai, então com 13 mil habitantes, tive minhas primeiras lições de tolerância. Líder político local, sempre da oposição, voz de estentor, bom de voto e temível nos debates, Bastide jamais escondeu suas preferências por jovens efebos. Nem por isso deixava de contar com o apreço dos pedritenses.

Alto, apolíneo no porte, dionisíaco na vida, Rui Bastide foi eleito e reeleito vereador várias vezes e chegou a ser prefeito da cidade. Nos anos 70, teve seus direitos políticos cassados, por um ato único do presidente Garrastazu Médici. Honrado com a deferência, comemorou o ato com foguetes. Comentário indiferente na cidade: "O Brasil vai perder muito com esta cassação". Na época, não se falava em gays, tampouco havia associações de gays e lésbicas. "Já procurei até médico" - confessou-me um dia Bastide -. "Mas que vou fazer? É a minha natureza." Em tempo: Brasil era um negrão que fazia jus aos favores do futuro alcaide.

Sua detenção pelos militares virou folclore. O vereador estava prestando seus serviços ao Brasil, quando batem na porta de seu apartamento. Ainda pelado, entreabriu a porta. Três militares o procuravam, um oficial e dois soldados, de metralhadoras em punho.

- O senhor é o Rui Bastide? - perguntou o oficial.
- Sou.
- Então o senhor está convidado a comparecer às dependências do 14º Regimento de Cavalaria.
- Acho que vou declinar do gentil convite - respondeu Bastide. - Ocorre que não é bem um convite. O senhor terá de ir. Agora e como está.
- Então me levem - disse o Rui - abrindo a porta e os braços, em plena glória de sua nudez.

"Os soldadinhos enrubesceram - me contava o Rui -, não sabiam para onde apontar as metralhadoras. Aí, me deram tempo. Tomei banho, me perfumei, me despedi do Brasil, não sabia quanto tempo ia ficar preso".

Pelo jeito, a prisão foi produtiva. Em vez de xingar a ditadura, Rui encenou um balé, onde bravos lanceiros do Ponche Verde, envergando diáfanas bombachas brancas, executavam impecáveis pas de deux enquanto cantavam uma ode ao 14º RC: "Querido Exército..."

A trajetória do Rui, a meu ver, está à espera de um bom cineasta. Em passadas andanças pela Europa, em vários países relatei este caso. Vi alemães, franceses, espanhóis perplexos, admitindo que em suas comunidades, por mais abertas que fossem aos novos tempos, não haveria lugar para um prefeito gay. (Era em época anterior aos prefeitos homossexuais de Paris e Berlim). Fala-se muito hoje em abrir o jogo, sair do armário, assumir-se. Tais expressões eram desconhecidas em Dom Pedrito. Se alguém era homossexual, ninguém tinha nada a ver com isso e estamos conversados.

Há fatos que na infância nos marcam a memória e só depois de muito viver lhes conferimos a verdadeira dimensão. Ocorreu no Upamaruty, distrito rural de Livramento, na fronteira com o Uruguai, onde vivi meus dias de guri. Torrão de gente rude, onde qualquer adulto tinha de cuidar-se com a língua. Lá na Linha Divisória - como era mais conhecida a região - uma palavra mal empregada, ou mal entendida, podia custar uma vida. Lá, conheci Seu Alvarino.

Fora trazido da cidade, como cozinheiro do Peixoto, um bolicheiro local. Negro, enorme, espadaúdo, durante o dia cuidava da cozinha e das coisas do Peixoto. Nas tardes de domingo, cumpridas suas tarefas caseiras, vestia uma blusinha de rendas cor-de-rosa, punha sua mais rodada saia longa e sentava na porta do bolicho, munido de agulhas e novelos. A gauchada ia chegando, boleando a perna e atando os cavalos no alambrado. Em meio àquela gente armada, revólveres e facões pendendo da guaiaca, seu Alvarino, indiferente às charlas e ruídos de esporas, permanecia absorto em seu crochê, como se ali estivesse tricotando desde o início dos tempos.

Jamais ouvi qualquer piada a respeito das prendas domésticas de Seu Alvarino. Também, pudera! Seria uma empreitada um tanto arriscada dirigir qualquer comentário desairoso àquele par de munhecas. Seria homossexual? Ou o travestir-se seria apenas uma prosopopéia que o acometia aos domingos? Fosse como fosse, se gostava de usar saias e fazer crochê, isto era algo que só a ele dizia respeito.

Havia também na cidade um regente de orquestra, notoriamente homossexual, que tinha filhos e netos e era muito querido pelos pedritenses. Dizia-se que seus netos brincavam de roda em torno a ele cantando: vovô é bicha, vovô é bicha. Lenda, talvez. Mas mostrava o clima da cidade.

Que alguém seja definido por sua visão de mundo, entende-se. Fulano é comunista, beltrano é católico, sicrano é ateu. Ou por sua condição social: este é pobre, aquele é rico, aquele outro é classe média. Costumamos também definir uma pessoa por sua nacionalidade ou Estado. Jean é francês, o Hans é alemão, o João é brasileiro. Juca é gaúcho, o Zé é mineiro. Que alguém seja definido por sua opção sexual, isto é algo que não entendo.

Veja, ao que tudo indica, está querendo criar uma tribo. Mais um pouco e teremos um partido político. Aliás, já há candidatos à corrupção disputando o dito voto gay. A expressão “sair do armário” não é inocente. Por que alguém tem de sair do armário? Pra começar, armário não é exatamente o melhor local para se fazer sexo. Um quarto é mais adequado. E o que acontece entre as quatro paredes de um quarto não diz respeito a ninguém que esteja fora do quarto.

03 maio 2010

Burka conturba Europa

Janer Cristaldo


Continua a briga da burka na Europa. Antes de ir adiante, melhor explicar o que é burka. É aquele véu – se é que se pode chamar de véu – que envelopa a mulher da cabeça aos pés, usado basicamente no Afeganistão. Nem os olhos ficam a descoberto, mas atrás de uma espécie de grade. A moça fica mais parecendo um saco de batatas. Pelo que sei, os demais países muçulmanos não o impõem às mulheres. Há outros tipos de véus. O nikab, que deixa apenas os olhos à mostra. O hiyab, que deixa o rosto livre. O shayla, um lenço comprido e retangular colocado em torno à cabeça, usado na zona do Golfo Pérsico. E o chador, veste que cobre o corpo todo mas deixa o rosto livre. Jornalista que ache que é indumentária árabe é o que não falta. Não é. É veste iraniana.

Semana passada, a Bélgica aprovou por unanimidade na Câmara Baixa a ilegalização de toda vestimenta que oculte o rosto das muçulmanas, por considerar que este tipo de véu significa uma condição de escravidão. “Somos o primeiro país a fazer saltar o ferrolho que submeteu muitas mulheres à escravidão e esperamos ser seguidos pela França, Suíça, Itália, Países Baixos e outros países que pensam”, disse o deputado Denis Ducarme.

Ficariam proibidos a burka e o nikab, embora o texto aprovado não aluda explicitamente a nenhum destes véus. Apenas determina que as mulheres que se apresentam em espaços públicos com o rosto coberto ou dissimulado, total ou parcialmente, de forma que não sejam identificáveis, serão sancionadas com uma multa entre 15 e 25 euros e/ou com uma pena de reclusão de um a sete dias. Ficam liberados os cascos de motociclistas e disfarces de carnaval. A lei precisa ainda passar pelo Senado. É o que nos conta El País.

A França foi o primeiro país a seguir os belgas. Leio no Figaro que o governo pensa em punir com 150 euros de multa o porte do véu integral e com um ano de prisão e 15 mil euros de multa o fato de obrigar uma mulher a usá-lo. O projeto foi apresentado pela ministra da Justiça Michèle Alliot-Marie e deve ser examinado pelo Conselho de Ministros no próximo dia 19.

Bernard Kouchner, o chefe da diplomacia, declarou hoje que a França estará exposta a críticas no mundo todo se aprovar o projeto. "Haverá certamente países na Europa que irão protestar, a Dinamarca, os Países Baixos, etc., como também um certo número de países muçulmanos, por exemplo o Paquistão e a Turquia, onde nós seremos criticados. Haverá também um país, a Arábia Saudita, que dirá: em seus países, vocês têm o direito de fazer o que quiserem, mas aqui tenho o direito de fazer o que quero, por exemplo, o de não permitir às mulheres que dirijam”.

Intolerância religiosa, alegam os muçulmanos, tentando atingir a Europa em um ponto que lhe é bastante sensível. Ora, não se trata disto. Assim fosse, teriam de ser proibidos o quipá dos judeus e o turbante dos sikhs. O problema é identificação. Como pode um professor identificar em um exame uma aluna cujo rosto está coberto? Ou como pode um guarda de trânsito identificar uma mulher com uma burka? Sem falar que num continente que vive sob a ameaça do terrorismo muçulmano, tais vestes facilitam a vida de quem quer que queira explodir bombas.

Na Itália, há alguns anos, mulás pretenderam que inclusive nas fotos de carteira de identidade as muçulmanas portassem véu. Ora, como identificar um rosto velado? É que para um árabe soa estranha esta expressão, "identidade feminina". Onde se viu mulher com identidade?

Outro problema, a imposição do véu pelo macho muçulmano. Se o véu fosse algo facultativo, penso que a Europa não veria maiores problemas em seu uso. Imposto, é escravidão. E duvido que uma mulher, por mais religiosa que seja, goste de usar véus. O rosto é o que mais define uma pessoa. Entendo que uma leprosa prefira cobrir seu rosto. Mas as árabes não são leprosas.

Me ocorre episódio que vivi em Zeralda, cidade-satélite de Argel, destinada a estrangeiros. Meu quarto era cuidado por uma bérbere baixinha e linda, de divinos olhos azuis. E com uma minissaia estonteante. Certa noite, ao voltar para o hotel, cruzei com uma mulher embuçada, que me fuzilou com dois olhos de um azul mediterrâneo e profundo.

Era ela, de volta a seu triste e cinzento universo muçulmano.

02 maio 2010

A grande mistificação do século passado (II)

Janer Cristaldo


Muitos outros embates tive com esta raça de vigaristas. Ainda jovem, fiz um concurso para secretário de escola. Na hora do exame biométrico, entrei na fila errada, caí na dos concursados para delegados de polícia. Fui examinado por um psicanalista. Não por acaso, um dos que estavam no debate sobre Bergman. Sentado em uma cadeira solene, do outro lado da mesa me analisava com olhar percuciente. Eu, numa cadeirinha de réu. Comecei a rir.

- Por que o senhor está rindo?
- Estou rindo porque o senhor, do alto dessa curul, está me observando nesta humilde cadeirinha.

Não sei se ele entendeu a curul, mas senti que não gostou.

- O senhor está rindo de nervoso.
- Vai ver que é, Dr! O senhor é psicanalista. Eu, provavelmente um neurótico qualquer.
- O senhor tem algo contra a psicanálise? – perguntou-me.

Tinha e muito. Havia lido bastante na época sobre o assunto e fui debulhando meus argumentos. Ele não disse nada e dispensou-me. Algumas semanas depois recebi uma comunicação. Devia submeter-me a uma junta psiquiátrica. Se não aceitava a psicanálise, certamente era um perigoso meliante.

Compareci ao exame. Não consigo esquecer da cena. Três doutores, sentados sempre em cadeiras solenes, me olhavam do alto. Eu, numa cadeirinha de réu. Precisava do emprego, respondi como eles gostavam. Fiquei sem saber se fui condenado ou não pelos Torquemadas. Antes da sentença, consegui emprego em jornal e nem me preocupei com o laudo.

Mais adiante, novo confronto. Escrevi que ser psicanalista dispensava curso universitário. Mais ainda, dispensava qualquer curso. Qualquer analfabeto, se quisesse, podia colocar placa de psicanalista em uma sala e sair clinicando. Na época, em São Paulo, após o curso de cinco anos, ao preço de dez ou quinze mil cruzeiros por mês, pessoas sem o pré-requisito do curso de medicina podiam exercer a profissão de psicanalista. Enquanto 38 alunos faziam o curso, outros cem esperavam na fila. O que constituía uma espécie de subvigarice, já que lei alguma regulamentava a profissão.

A guilda reagiu com fúria. Um psiquiatra, lembro que chamado Ronaldo Moreira Brum, me acusou nos jornais de nada entender de medicina – como se psicanálise fosse medicina. Ok! Doutor. De medicina nada entendo. Mas entendo de Direito. E psicanalista não é profissão regulamentada. Portanto, qualquer um pode exercê-la. A propósito, tem muito engenheiro e economista desempregado no Brasil, que puseram plaquinha de psicanalista em seus escritórios para ganhar seu pão.

Uma psicóloga e jornalista, Ivete Brandalise, resolveu enfiar sua colher na sopa. Escreveu que devia existir uma lei que regulamentasse a profissão de psicanalista. Que ela, psicóloga, tinha uma lei que regulamentava a sua. Ora, a dita lei era um trenzinho da alegria, no qual embarcaram todos os licenciados em Filosofia. De filósofos, vaga e suspeita ocupação, viraram psicólogos. Ora, lei tem número e data. Desafiei a Brandalise, e também o Dr. Ronaldo, a me citar o número e a data da lei que regulamentava a profissão. Nunca tive resposta.

A cada semana, começava minha crônica: “Enquanto o Dr. Ronaldo não nos fornece o número e a data da famosa lei que regulamenta a profissão de psicanalista...” Nunca forneceu. Soube mais tarde que propôs, em uma reunião da Amrigs (Associação dos Médicos do Rio Grande do Sul), que a entidade me processasse por calúnia. Ou talvez difamação, já não lembro. Prudentemente, a Amrigs decidiu que não iria dar atenção a “um jornalista em busca de sensacionalismo”.

Se bem que, devo confessar, tive notícias de um psicanalista sensato. Em minhas andanças noturnas, conheci uma mulher esplendorosa. Algumas semanas depois, sem mais nem menos, ela bateu à porta de meu humilde tugúrio. Recém-acordado, perplexo e sem acreditar no que via, perguntei ao que vinha.

- Meu psicanalista me liberou para te visitar.

Entra. E passa meu endereço ao doutor. Que mande mais clientes. E que prescreva a dose. Ou seja, mesmo no universo da psicanálise parece existir alguma lucidez. É a chispa da ferradura quando bate na calçada.

Este debate sobre a psicanálise, para mim já estava resolvido há um bom meio século. Me espanta que seja hoje retomado na culta França. Ou supostamente culta. Retomar a discussão me soa como tentar saber se Ury Geller – alguém ainda lembra? – entortava ou não colheres. Há muito defendo a idéia de que os jornais deviam ter uma espécie de supervisor de uns 80 anos, com pelo menos meio século de redação, que conheça bastante bem a história de seu tempo, para que os redatores mais jovens não achem que é novidade o que em verdade é antigo. Volto ao livro dos Pinckney.

“Segundo o próprio Freud, ninguém tem o direito de criticar a psicanálise. Pelo simples fato de pôr em dúvida os métodos psicanalíticos, a opinião do céptico não merece confiança. Em Freud, lê-se: “Ao céptico se diz que a análise não requer fé; que ele pode ser tão crítico e desconfiado quanto queira; que, em absoluto, não se considera sua atitude como resultante de seu raciocínio, pois não tem condições de formar sobre o assunto apreciação digna de crédito...”

Dogma absoluto, no melhor estilo dos dogmas da Santa Madre. Quem não crê, não tem autoridade alguma para falar sobre o assunto.

“Paradoxalmente, e isto espelha a psicanálise em geral, não é indispensável ter sido analisado ou possuir raciocínio fidedigno para elogiar Freud e seu trabalho; homenagens à psicanálise são sempre aceitas, ainda que seus autores não tenham conhecimento, ou experiência do assunto. Com essa atitude farisaica, Freud e seus discípulos não dão lugar à investigação por métodos científicos, pois o cientista, por sua própria necessidade de testar a validade das teorias, revelar-se-ia suspeito e incapaz de julga com precisão”.

Não há chance alguma para quem discorda. Disse Dr.Freud: “... dando interpretações a um paciente, nós o tratamos sob a famosa fórmula de cara ou coroa. Isto é, se o paciente concorda conosco, a interpretação está certa. Mas se ele nos contradiz, isto é apenas sinal de sua resistência, o que novamente prova estarmos certos”.

Os Pinckney fazem uma distinção entre psiquiatria e psicanálise. Para os autores, a psiquiatria é um ramo da medicina dedicado à causa, diagnóstico e tratamento da doença mental. Esta abrange todas as formas de distúrbios do cérebro e sistema nervoso. O verdadeiro psiquiatra não exclui doenças orgânicas ou físicas, nem exclui a possibilidade de a doença mental resultar de etiologia física, química ou biológica. O psicanalista, pelo contrário, recusa-se a reconhecer qualquer desvio de saúde senão o que ele convenientemente rotula de neurose e, além disso, recusa-se a atender quem manifeste o mais remoto sintoma de doença verdadeira.

“Assim é que, há pouco mais de cinqüenta anos, um homem doente e solitário – um homem que não suportava que outros o fitassem; um homem que tinha sentimentos anormais em relação à própria mãe, a expensas da esposa; um homem que vicariamente se comprazia em sórdidas histórias sexuais – lançou uma doutrina para justificar suas próprias anormalidades”.

Michel Onfray não está dizendo nada de novo. Há muito a psicanálise foi desmistificada.

01 maio 2010

A grande mistificação do século passado (I)

Janer Cristaldo


Desde meus verdes anos, considerei a psicanálise uma solene vigarice. E Freud, um talentoso vigarista. Mas de que vale um universitário gaúcho contestar uma sumidade vienense? De nada. Segundo dogma estabelecido por seu criador, quem contesta a psicanálise está precisando de psicanálise. Ou seja, estamos diante de uma religião tão dogmática quanto o catolicismo.

A psicanálise, mal surgiu, foi violentamente contestada. Em Gog, Papini via Freud como um médico fracassado com pendores literários. Incapaz para a medicina, Freud dedicou-se à ficção. Assim nasceu a psicanálise. Surgiu agora na França, obra de filósofo que confirma minha posição de 40 anos atrás. Trata-se de Le crépuscule d’une idole. L’affabulation freudienne, de Michel Onfray, que trata Freud como um impostor. Se um intelectual francês faz esta afirmação, é claro que tem muito mais autoridade que um gaúcho de Dom Pedrito. Mas Onfray, é bom antecipar, nada tem original. Antes de entrar na discussão, relato minhas retrições à psicanálise. Não, não li toda a obra de Freud. Li apenas O Futuro de uma Ilusão, quando o pensador dos bosques de Viena dá uma no prego, após dar 250 na ferradura. Minha desconfiança com a nova religião decorre de meus contatos com psicanalistas.

Ao chegar em Porto Alegre, tropecei com um fenômeno do qual jamais ouvira falar em Dom Pedrito, a psicanálise. Defendo a idéia de que há embustes que só conseguem enganar intelectuais, jamais enganam o homem simples. Em Porto Alegre, capital intelectualizada, com universidades e farta massa cinzenta, os psicanalistas tinham um excelente mercado para vender seus peixes podres.

Em meados dos anos 70, na Reitoria da UFRGS, tive a chance de xingar a raça. Gritos e Sussurros, de Ingmar Bergman, era analisado por um crítico de cinema e dois psicanalistas. Como eu estava voltando da Suécia, fui convidado por um terceiro psicanalista para o debate. Porto Alegre, naqueles idos, vivia uma circunstância peculiar: sem produzir filmes, tinha uma crítica de cinema ativíssima. Luis Carlos Merten, o crítico, abriu os debates, com voz empostada: "Dois são os instintos básicos da humanidade: sexo e fome. Como não existe fome na Suécia, os suecos fazem um cinema de sexo".

Sem discutir a veracidade histórica da afirmação (no final do século XIX, Estocolmo era uma das cidades mais pobres e sujas da Europa), considerei que no Brasil ninguém passava fome. Vivíamos em plena época das pornochanchadas e o cinema nacional girava em torno a sexo. Merten mudou de assunto e passou a falar de Bergman, o "cineasta da alma".

Discordei. A meu ver, Bergman era o cineasta das neuroses sexuais. Em sua filmografia, o relacionamento físico entre os personagens é sempre sofrido, doloroso, traumatizante. (Quem não lembra o episódio dos cacos de vidro introduzidos na vagina, em Gritos e Sussurros?). Não por acaso, o cineasta estava em seu quinto casamento. Homem que não se acerta com uma mulher - afirmei - não se acerta com cinco nem com vinte e cinco. Mal terminei a frase, fui interrompido por um dos psicanalistas: "Não podemos invadir a privacidade de Bergman, que está vivo. Falemos de sua mãe, que já morreu".

O debate continuou por outros rumos. Em uma das cenas, a personagem principal, interpretada por Liv Ullmann, após jantar com o marido, pergunta-lhe se quer café ou se vai dormir. Interpretação do segundo psicanalista: "Café ou cama. Temos uma manifestação típica de sexualidade oral". Observei aos participantes da mesa que pretendia convidá-los para um cafezinho após o debate. Como arriscava ser mal interpretado, desistia da idéia. O debate foi rico em pérolas do mesmo jaez. Registro mais uma.

Da platéia, alguém perguntou por que razões Liv Ullmann usava duas alianças no mesmo dedo. Interpretou um dos analistas: "Agressão instintiva ao marido, desejo de viuvez antecipada. Ou ainda, uma projeção homossexual na mãe. Ela vê na mãe os princípios masculino e feminino e usa os dois símbolos no dedo". Lavei a alma naquela noite: o douto analista ignorava que na Suécia as mulheres costumavam usar ambas as alianças, a própria e a do marido.

Se a história terminasse aqui, até que não seria grave. Ao sair da Reitoria, fui abordado pelo Sérgio Messias, o psicanalista que me convidara para o debate: "Por que aquela agressão pessoal ao Meneghini? Tens algo contra ele?" Referia-se àquele que insistia em falar da mãe do Bergman. Ora, não me parecia ter agredido ninguém. E muito menos o tal de Meneghini, que via pela primeira vez em minha vida. "Acontece que ele também está na quinta esposa. E como sempre as leva para morar com a mãe, parece que também não está dando certo". Atirei no que vi, acertei no que não vi.
Naquele dia, adquiri a firme convicção de que psicanálise era vigarice. Volto a Onfray.

Tenho vários livros de Onfray em minha biblioteca, entre eles o Traité d'athéologie, edição de 2005, onde o autor faz sua apologia do ateísmo. Interessante, mas nada de novo. Mais importante é o menos conhecido é o Histoire de l’atheísme, de Georges Minois, publicado em 1998. Em suma, nesta sua nova obra, Le crépuscule d’une idole, Onfray ataca o ídolo em que teria se convertido Freud e a vigarice que constitui a psicanálise. Era o que eu dizia nos anos 70. Pena que era gaúcho e não galo.

Não tenho o livro ainda em mãos. Vou então me ater a um resumo publicado pelo Estadão. Segundo o artigo, o livro acusa o pai da psicanálise de ser mentiroso, fracassado e defensor de regimes totalitários. Segundo o autor, a psicanálise é comparável a uma religião e sua capacidade de curar as pessoas é semelhante a da homeopatia. Freud teria tranformado seus próprios "instintos e necessidades fisiológicas" em uma doutrina com pretensão de ser universal. Mas, para Onfray, a psicanálise seria "uma disciplina verdadeira e justa no que diz respeito a Freud e ninguém mais". Onfray diz que Freud fracassou na cura de pacientes que ele mesmo atendeu, mas ocultou ou alterou suas histórias clínicas para dar a impressão de que o tratamento havia sido bem sucedido. Ele afirma, por exemplo, que Sergei Konstantinovitch, indicado por Freud como "o homem dos lobos", continuou fazendo psicanálise mais de meio século depois de ter sido supostamente curado por Freud. E diz que Bertha Pappenheim, conhecida como "Anna O." e apresentada por Freud como um caso em que o tratamento contra histeria e alucinações funcionou, continuou tendo recaídas.

"A psicanálise cura tanto quanto a homeopatia, o magnetismo, a radiestesia, a massagem do arco do pé ou o exorcismo feito por um sacerdote, quanto nenhuma oração diante da Gruta de Lourdes”, afirmou Onfray, em debate promovido pelo Nouvel Observateur. "Sabemos que o efeito do placebo constitui 30% da cura de um medicamento", acrescentou. "Por que a psicanálise escaparia desta lógica?"
Quem lê isto neste ano da graça de 2010, pode até pensar que Onfray descobriu a América. Não descobriu. Estas denúncias são antigas, datam de mais de 40 anos atrás.

Em 1965, os cientistas americanos Edward e Cathey Pinckney publicaram The Fallacy of Freud and Psychoanalysis, traduzida em 1970 no Brasil como Psicanálise, a Mistificação do Século, pela Edigraf, que reduzia Freud à condição de vigarista. No Brasil, Silva Mello publicou, em 1967, um gordo ensaio de 536 páginas, intitulado Ilusões da Psicanálise, publicado pela Civilização Brasileira. Estes livros repercutiam denúncias anteriores da grande vigarice do século XX. Voltarei ao livro dos Pinckney. Antes disto, mais um pouco da síntese feita pelo Estadão sobre o ensaio de Onfray.

“Além de questionar o método de Freud, Onfray criticou sua personalidade e o apresenta como alguém que foi capaz de cobrar o equivalente ao que seriam hoje US$ 600 por uma sessão, e incapaz de tratar dos pobres. O filósofo francês diz que acredita que Freud tinha preconceito contra homossexuais e com um interesse especial em temas como abuso sexual, complexo de Édipo e incesto, e que dormia com a cunhada. Em termos ideológicos, Onfray defende a tese de que Freud flertou com o fascismo e diz que em 1933, ele escreveu uma dedicatória elogiosa para Benito Mussolini: "Com as respeitosas saudações de um veterano que reconhece na pessoa do dirigente um herói da cultura." Ele afirma que o criador da psicanálise procurou se alinhar com o chanceler Engelbert Dollfuss, que instaurou o "austrofascismo" no país, e também às exigências do regime nazista”.

Claro que tais acusações gerariam ondas de ódio da parte dos escroques que vivem da psicanálise. A historiadora e psicanalista Elisabeth Roudinesco afirmou em artigo no Le Nouvel Observateur que o novo texto de Onfray está cheio de erros e rumores. Roudinesco acusou Onfray de ter tirado as coisas do contexto e afirmou que Freud de maneira alguma apoiou o fascismo e nunca fez apologia dos regimes autoritários. "Quando sabemos que oito milhões de pessoas na França tratam-se com terapias derivadas da psicanálise, está claro que no livro e nas palavras do autor há uma vontade de causar danos", disse.

Quer dizer: se oito milhões de franceses garantem o bem-estar dos psicanalistas franceses, Freud deve ter razão. É um argumento curioso. Soa mais ou menos como: se um bilhão de pessoas acredita no Cristo, vai ver que deus existe. Se milhões de pessoas acreditaram no comunismo, vai ver que Stalin era um santo.

Kristeva, outra vigarista que vive da boa-fé dos simples, defendeu a psicanálise como um mecanismo capaz de tratar de problemas como a histeria, o complexo de Édipo ou comportamento anoréxico ou bulímico, entre outros. "Onfray nos insulta quando diz que a psicanálise não cura", escreveu o psiquiatra e psicanalista Serge Hefez. “O que fazemos todos nós em nossos consultórios, centros de terapia familiar, conjugal, nossos hospitais (...) senão ajudar o sujeito a se converter em ator de sua própria história?"

Por este converter o sujeito em ator de sua própria história, os psicanalistas cobram uma fortuna. E não há prazo fixo para o sujeito se converter em ator. Desde que tenha como pagar, passa toda sua vida se convertendo em sujeito de sua própria história. A reação contra o livro de Onfray mostra o desagrado de uma guilda que vê ameaçados seus gordos lucros com a indigência mental da classe média. Porque quem faz psicanálise é a classe média. Pobre não pode pagar. E rico não tem maiores angústias.

Continuo amanhã.
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