13 abril 2010

Bispo de Roma em xeque

Janer Cristaldo



Comentei há pouco que quem acoberta um crime, acoberta dois, dez e mesmo cem. Se acoberta um por que não acobertar todos? Surge agora na imprensa o terceiro caso de proteção a um padre pedófilo por parte de Bento XVI. Desta vez com um agravante: cartas trocadas entre o Vaticano e a diocese californiana de Oakland mostram que o papa, preocupado com o "bem da Igreja universal", atrasou, nos anos 80, o afastamento de um padre californiano acusado de pedofilia.

Sexta-feira passada, a agência Associated Press afirmou ter obtido uma carta de 1985, assinada por Ratzinger, na qual o hoje Bento XVI resiste a um pedido de afastamento do padre americano Stephen Kiesle, envolvido em um escândalo de pedofilia em 1978 e acusado de relações sexuais com seis adolescentes entre os 11 e os 13 anos.

Segundo a AP, o Vaticano confirmou que a assinatura é do Bento. A carta, escrita em latim, é parte de uma série de correspondências entre o Vaticano e a diocese de Oakland, que pediu a exoneração de Kiesle em 1981 - o que só ocorreu em 1987. Ou seja, desta vez Ratzinger não pode alegar que não viu as denúncias que lhe foram dirigidas, muito menos que não teve conhecimento dos casos de pedofilia no seio da igreja em que ocupava uma posição de destaque. A situação do papa se agrava. É claro que outros casos de acobertamento surgirão nos próximos meses.

Ainda há pouco, eu escrevia: “O que está faltando é indiciar Ratzinger junto à Justiça laica. Como acobertador de abusos sexuais é cúmplice de um crime. Está incurso nos Códigos Penais de qualquer país ocidental. Mas é claro que tribunal algum vai cometer essa indelicadeza com o vice-Deus”.

Não faltou leitor que objetasse: o papa é chefe de Estado e como tal não pode ser indiciado. Depende. O Vaticano é Estado quando lhe convém. E não é quando não lhe convém. Em 1870, com a unificação da Itália, o papa perdeu seus domínios no país então emergente. Quando Mussolini subiu ao poder, no século seguinte – graças aos bons ofícios do papa Pio IX, quem diria? – o governo italiano firmou com a Santa Sé o Tratado de Latrão, que devolveu à Igreja terreno suficiente para a criação de um Estado minúsculo.

O Vaticano – pasme quem não sabe – é uma concessão do fascismo à Santa Madre. É obra de Mussolini, o ditador que foi executado e pendurado pelos pés em praça pública em Roma. Cabe ainda lembrar – já que muita gente esquece – que Ratzinger militou nas Juventudes Hitlerianas e foi soldado da Wehrmacht ao final da II Guerra Mundial.

Assim sendo, não espanta que, quando se tratou de cooperar com o Tribunal Penal Internacional, a Santa Sé negou ser um Estado para justificar sua recusa. Também nega sua condição de Estado ao apoiar-se na Primeira Emenda da Constituição dos EUA, que protege as ações das instituições religiosas. Mas quando se tratou de reclamar imunidade diplomática nos casos de abuso sexual nos EUA, a Santa Sé reivindicou ser um Estado. Tudo para salvar a pele do papa e dos padres pedófilos.

Minha sugestão de indiciamento de Ratzinger não é de todo gratuita. No Reino Unido, o biólogo Richard Dawkins tentará fazer com que o papa Bento XVI seja preso para responder pelo acobertamento dos escândalos de abuso sexual de crianças por padres católicos. Dawkins, que está se revelando um ateu profissional – isto é, faz de seu ateísmo fonte de renda – pediu para advogados especializados em direitos humanos analisarem se seria possível fazer uma acusação formal contra o papa nas cortes britânicas.

Dawkins e o jornalista britânico Christopher Hitchens contrataram dois advogados para buscar meios de abrir um processo legal contra o papa. Mark Stephens, um dos advogados contratados, disse que há três possíveis abordagens: uma queixa à Corte Penal Internacional, na Holanda; uma ação popular por crimes contra a humanidade ou uma ação civil. Cá entre nós, isto cheira mais a busca de mídia do que santa indignação. Afinal, nem Dawkins nem Hitchens são partes competentes para tal ação.

Claro que dará em nada. Corte alguma, em lugar algum do mundo, pedirá a cabeça do vice-deus. Mas vê-lo indiciado como criminoso comum já é um avanço. Ver um papa refugiado no Vaticano com medo de viajar ante a possibilidade de ser preso pela Interpol é sempre uma idéia prazerosa. A acusação contra as autoridades vaticanas é tão insólita que ninguém parece ainda ter se dado conta que os dias de Alexandre VI são café pequeno diante do que hoje ocorre na Santa Madre.

Os Bórgias podiam gostar de orgias, inclusive em família. Lucrécia folgava tanto com seu pai, o papa, como com seu irmão, cardeal. Mas eram orgias entre adultos. Não temos notícias que cometessem ou acobertassem crimes contra crianças.

02 abril 2010

A 63ª volta

Janer Cristaldo


A vida é uma caixinha de surpresas. Em meus dias de criança, sabia da existência de Bagé, Livramento, Dom Pedrito, Santa Maria. Meu ecúmeno – imaginário, pois destas cidades só havia ouvido falar – terminava aí. Nos bailes do Upamaruty e Ponche Verde, soube notícias de um personagem, mais conhecido como Peão Viajado. Ele conhecia Bagé e Livramento e eu o invejava. Tive um tio muito erudito, tio Ângelo, que tinha alguma noção de Europa. “Parece que fica pras bandas de Passo Fundo”. Mais tarde, só bem mais tarde, tive de convir que tinha razão. Ficava mesmo no rumo de Passo Fundo.

Nasci no campo, mas em meio a certo cosmopolitismo. Meu rancho ficava a mais ou menos a meia légua da Linha Divisória entre Brasil e Uruguai. Com meus pais, falava português. Com minha ama, doña Catulina, falava espanhol. Na estrada, em frente a nosso rancho havia um desses marcos divisores de fronteira, em concreto. Até hoje, nos mapas antigos pelo menos, você pode encontrá-lo como Marco dos Moreiras, meu clã. Meu pai costumava colocar-me nos ombros para que eu subisse até o topo do marco. Mandava que eu me virasse para o nascente e dizia: "fala para os homens do Uruguai, meu filho". Depois fazia virar-me para o poente: "fala agora para os homens do Brasil". Nasci entre duas culturas e o primeiro grande poema de minha infância foi o Martín Fierro.

De Porto Alegre, também tinha notícias. Era a capital do Estado, pelo que diziam as professoras. Questão das aulas de geografia, nada mais que isso. Nunca me ocorreu que um dia viveria lá. A bem da verdade, tampouco imaginava que um dia viveria em Dom Pedrito. Era bom nas contas, e meus dias estavam mais ou menos selados como balconista em algum bolicho lá do campo. Ao terminar o quinto ano primário, no Grupo Escolar das Três Vendas, atrelei o tordilho à aranha que nos levava, eu e minha mãe, à escolinha rural, e voltei para encarar meu futuro. Foi quando dona Ivone Garrido, uma professora vinda de Dom Pedrito para aplicar as provas, pulou o alambrado atrás da aranha, quando o tordilho já descia o lançante da coxilha. "Espera, Clotilde, pára, o teu filho é um gênio, tens de mandar esse guri pra cidade".

Fui salvo pelo gongo. O geninho foi pra cidade. Não imaginava, naqueles dias, que um dia subiria rumo ao norte: Florianópolis, Curitiba, São Paulo. Aliás, nem tinha idéia que existisse norte. Norte, para mim, era apenas um ponto cardeal. Dona Ivone me conseguiu hospedagem com uma cunhada sua, também professora, que me preparou para o admissão. Peguei minha bicicleta e rumei ao “povoado”. Dez léguas de carretera, com muito barro e areia. Já falei de minha decepção com a cidade. De tanto ler contos de fadas, eu as imaginava douradas e cheias de torres e castelos. Dom Pedrito era cinzenta e sem torre nem castelo algum. Foi minha primeira viagem. Peguei o vício e depois desta não parei mais. Mais tarde, só bem mais tarde, acabei vivendo nas cidades douradas cheias de torres e castelos. Resfeber, dizem os suecos. Febre de viagens.

Em meus dias de ginásio, invejei quem conhecia Porto Alegre. Havia um certo conflito quando os filhos dos fazendeiros voltavam da “capital”, de seus cursos de Direito ou Medicina. Vinham com carisma e monopolizavam a atenção das gurias. A nós, que não éramos peões viajados, só nos sobrava o restolho. Mas eles nos traziam noções da Heléia. Não dizíamos bunda, em nossos dias de adolescentes. Mas lordo. De lordose, contrabando dos estudantes de medicina. Medíamos a beleza das gurias em milielênios, a capacidade de uma mulher de fazer naufragar mil navios. Contrabando dos estudantes de Direito. Falávamos grego em Dom Pedrito e não sabíamos. Quantos milielênios valia a Regina? A Corinha? A Luludi? A Síssi? Naquele eterno footing na praça General Osório, da era pré-televisiva, distribuíamos notas às meninas que passavam.

Meu professor de História, professor Varílio Meneghetti, nos falava de Queóps, Quéfren e Miquerinos. Para mim eram realidades que pertenciam a um outro planeta. Nunca me ocorreu que um dia as veria de perto. Tampouco que entraria na tumba de Tutankamon e o veria em seu sarcófago. Professor Hugo Macedo, de Geografia, nos falava de mares, desertos e montanhas. Ora, de geografia eu só conhecia a planura monótona da pampa, entremeada pelo vago dar-de-ombros das coxilhas, e não tinha idéia alguma do que fosse mar. Mar, só fui conhecer lá pelos 18 ou 19. Mais tarde, só bem mais tarde, singraria o Atlântico e o Pacífico, o Mediterrâneo e o Egeu, o Negro e o do Norte, o Tirreno, o Adriático e o Báltico.

Ver o mar pela primeira vez é sempre um acontecimento na vida de um homem do campo. Dá uma coisa por dentro, parece que o peito vai explodir. Tampouco jamais imaginei que um dia vagaria pelos desertos, mares e montanhas, dos quais professor Hugo nos trazia notícias, mas jamais teve a chance de ver de perto. Nas montanhas de El Hoggar, contemplando um nascer de sol esplendoroso além do Tridente, evoquei professor Hugo.

Professor Hélio Sarubbi nos falava do pêndulo de Foucault. Nunca imaginei que veria a Terra girar, no Panthéon, em Paris. Professor Darcy, de latim, nos falava do Coliseu, catacumbas e Foro Romano. Para mim, pertenciam ao território da lenda. Nem sonhava que um dia meus pés pisariam aquela poeira milenar.

Maria Veiga me ensinou francês. Eu não tinha idéia alguma porque aprendia francês naquelas bibocas, mas me agradava falar outra língua. Era como se saísse de mim mesmo. Só entendi o sentido daquele ensino no dia em que defendi uma tese em Paris. Quando entrei na sala Bourjac, na Sorbonne, meu primeiro pensamento foi para a Maria.

Uma vez conhecido o mar, surge a pergunta: que há do lado de lá? É a mesma que me fazia quando meu pai me ordenava olhar para a República Oriental. Terá sido esta pergunta que moveu os primeiros nautas, que não hesitaram em lançar-se às águas, mesmo imaginando que do outro lado havia monstros ou um abismo. Nasci em época em que se sabia bastante bem o que havia do outro lado. Mesmo assim, foi com uma sensação de milagre e deslumbramento que um dia vi a ponte sobre o Tejo aproximar-se de minha nau. Senti-me um Colombo às avessas. Não conseguia acreditar que, dentro de algumas horas, estaria pisando as terras vetustas do Velho Continente. Europa, durante minha juventude, só existia nas aulas do professor Hugo e do professor Meneghetti e na imaginação desvairada de tio Ângelo. Lá pras bandas de Passo Fundo.

Cumpro hoje a 63ª volta em torno ao sol, viajando neste planetinha do qual já conheço algumas partes. Das coxilhas, sangas e canhadas, às rias, oueds e fjordes. Do bar do Santinho ao Deux Magots. Da capelinha das Três Vendas à Notre Dame. Do Cerro da Tala ao Mont Blanc. Da sanguinha de Upamaruty às margens do Sena. Não está mal para quem nasceu nas grotas.

Não posso queixar-me. O bom deus dos ateus foi generoso comigo. Me ocorre nesta noite um momento de Don Ramón del Valle-Inclán. Discorrendo sobre sua vida aventurosa, o escritor galego falava de um de seus amores. “Hicimos siete homenajes a Venus”. E arrematou: “Y repetimos la sétima”.

Nunca fui de comemorar estas passagens. À medida que as voltas se encurtam, tenho sentido certa vontade de celebrar. Não o que vivi, mas o que resta por viver. Que já não é muito. Mais uns dez anos de vida útil estão de bom tamanho. A idéia de morrer centenário e caquético me horroriza. A hora não é de pé no freio, mas no acelerador.

Solavancos não faltaram. Alguns bruscos, outros nem tanto. Mas a carroça continua andando. Rumo ao fim da estrada. Celebro hoje a data com a Primeira-Namorada, a bona-chira regada com o sangue das uvas. Como Don Ramón, penso repetir nos próximos dias a comemoração da 63ª. Parece pouco, mas cada volta dá cerca de um bilhão de quilômetros. Por ano.

Tempus fugit. Hay que vivir!
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