26 março 2010

Pode um papa renunciar?

Janer Cristaldo


As normas da Igreja “jamais proibiram a denúncia dos abusos de menores às autoridades judiciárias”, disse ao Osservatore Romano o padre Federico Lombardi, manifestando a posição do Vaticano sobre as acusações de acobertamento dos padres estupradores por Sua Santidade Bento XVI. Não proíbem nem poderiam proibir. Não vivemos na Idade Média, quando a Igreja dispunha da Inquisição para silenciar quem quer que a denunciasse.

Ocorre que não é isto o que se discute. O que se discute é porque as autoridades eclesiásticas, o atual papa inclusive, não denunciaram estes abusos às autoridades civis, já que deles tinham conhecimento. Encurralado, o Vaticano sai pela tangente. Para o jornal da Santa Sé, as acusações do New York Times são “uma evidente e ignóbil tentativa de atingir, a todo custo, Bento XVI e seus mais próximos colaboradores”. Mutatis mutandis, é o que diz o Lula da imprensa brasileira. Ora, não é tentativa. São os fatos que apontam para o Sumo Pontífice.

Escrevia eu ontem que quem acoberta dois, acoberta dez, cem ou quantos forem necessários. Não seria de espantar que surgissem, nos próximos dias ou meses, novas denúncias da cumplicidade criminosa de Sua Santidade. Não foi preciso esperar 24 horas. El País noticia, em sua edição de hoje, o caso de abusos sexuais nos Instituto Provolo, de Verona, onde durante trinta anos vários religiosos abusaram de centenas de meninos, desta vez não apenas surdos, mas surdo-mudos.

Surdo-mudo é mais discreto. Mesmo assim, 67 ex-alunos, que agora têm entre 50 e 70 anos, foram violados, às vezes debaixo do altar e no confessionário. As vítimas apontaram para 25 padres e religiosos, dos quais treze ainda estão vivos e sete continuam no Instituto. A denúncia em verdade não é nova. Surgiu pela primeira vez há um ano na revista L’Espresso.

O que há de novo é que a Congregação para a Doutrina da Fé já tem em mãos o processo instruído pela diocese local, segundo as normas do Direito Canônico. Mas, segundo a associação das vítimas, nenhuma delas foi escutada. O único expediente de expulsão foi aberto contra um padre que confessou à revista os abusos que havia cometido.

Me pergunta um leitor se um papa pode renunciar. Pode. Está previsto no Código de Direito Canônico 332 § 2: "Se acontecer que o Romano Pontífice renuncie ao seu múnus, para a validade se requer que a renúncia seja livremente feita e devidamente manifestada, mas não que seja aceita por alguém".

Acontece que um papa jamais renunciará àquilo pelo qual tanto lutou durante toda sua vida. Vide João Paulo II, que morreu estertorando mas não largou o osso, nem mesmo para tratar de sua saúde. Chegou a pedir para morrer – “deixem-me encontrar com o Pai” – mas não renunciou. Um pontificado não é obra do acaso. É fruto de um longo esforço, de muita política, alianças e lutas internas. Não seria de espantar que fosse precisamente o acobertamento dos abusos sexuais em seus dias de cardinalato um dos fatores que levou Bento à cadeira de Pedro.

O que está faltando é indiciar Ratzinger junto à Justiça laica. Como acobertador de abusos sexuais é cúmplice de um crime. Está incurso nos Códigos Penais de qualquer país ocidental. Mas é claro que tribunal algum vai cometer essa indelicadeza com o vice-Deus.

No entanto, a edição on line do semanário alemão Der Spiegel já se pergunta porque este papa ainda está no cargo.

25 março 2010

A qual instância o vice-deus apresentará sua renúncia?

Janer Cristaldo


O cerco se fecha. A edição do New York Times de hoje revela que várias autoridades do Vaticano, entre elas o então cardeal Joseph Ratzinger, encobriram o abuso sexual de 200 crianças surdas por um religioso de Wisconsin, o padre Lawrence Murphy. Em 1996, Ratzinger não respondeu a duas cartas sobre o caso, enviadas pelo arcebispo de Milwaukee, denunciando os crimes.

A notícia repercutiu na primeira página dos mais importantes jornais da Europa, desde o Suddeutsche Zeitung ao Corriere della Sera, passando pelo Libération, Le Monde e El País. Só não encontrei nada no Osservatore Romano, que dá sua primeira página à uma audiência de Sua Santidade dedicada a São Alberto Magno, à celebração da Anunciação na tradição sírio-ocidental, ao encontro entre Obama e Netanyahu e a um plano de desenvolvimento de um bilhão de dólares na Índia.

A affaire envolve também o secretário de Estado do Vaticano, cardeal Tarcisio Bertone, que em fevereiro deste ano afirmava ser necessário que os padres pedófilos “reconheçam suas culpas, já que das provas pode surgir a renovação interior”. Na época das cartas do arcebispo de Milwaukee, Ratzinger presidia a Congregação para a Doutrina da Fé e Bertone era seu vice. Oito meses depois da denúncia, cardeal Bertoni encarregou os bispos de Wisconsin de instruir um processo canônico secreto que teria podido levar ao afastamento do padre Murphy.

Bertone, segundo o NYT, encerrou o processo depois que padre Murphy escreveu pessoalmente ao então cardeal Ratzinger que não deveria ser submetido a processo porque estava arrependido e em precárias condições de saúde: “Quero simplesmente viver aquilo que me resta na dignidade de meu sacerdócio”, escreveu o padre, já perto de sua morte, em 1998.

Então tá! Se estava arrependido, não precisa levar a frente o processo. Não se tratou exatamente, no caso, de uma ação entre amigos. Mas de uma ação entre cardeais. Vai, meu filho, teus pecados te são perdoados.

Esta é a segunda denúncia, em menos de uma semana, a apontar diretamente para o sucessor de Pedro. Sábado passado, Elke Hümmeler, na Baviera, citava 120 relatos de abusos feitos desde que um padre foi transferido em 1980 para trabalhar com crianças em Munique, mesmo sendo suspeito de ter cometido abusos na cidade de Essen. A arquidiciose bávara foi presidida entre 1977 e 1982 por quem? Pelo cardeal Joseph Ratzinger. O sacerdote, em vez de ser denunciado à polícia, foi submetido a sessões de terapia, endossadas pelo atual pontífice.

Quem acoberta dois, acoberta dez, cem ou quantos forem necessários. Não será de espantar que surjam, nos próximos dias ou meses, novas denúncias da cumplicidade criminosa de Sua Santidade.

Ontem ainda, Bento aceitou a demissão de John Magee, bispo irlandês de 74 anos, secretário de três papas e acusado de encobrir casos de pedofilia na diocese de Cloyne. Em carta pastoral, o papa pediu perdão – mas não punição – pelo acontecido.

Magge apresentou sua renúncia ao vice-Deus. Pergunta que se impõe: a quem apresentará a sua o vice-Deus? Ao Big Boss?

23 março 2010

Um homem de mal com o século

Terça-feira, Março 23, 2010

Janer Cristaldo


De amiga muito querida recebi um “hermoso regalito”, La Resistencia, de Ernesto Sábato. Verdade que junto com o livro veio um Steinhaeger elegantemente embalado em um estojo de madeira. Mas destilado não se discute, se bebe. Vou discutir então apenas o discutível.

Publicado em 2006, quando o escritor argentino tinha 95 anos (neste ano completará 99), é o único livro de Sábato que eu ainda não havia lido. Neste ensaio, ao melhor estilo de Montaigne, que toma a si mesmo como centro de suas reflexões, o autor se sente desconfortável no século que percorreu de ponta a ponta. Inconformado com a época em que vive, Sábato manifesta o desejo de uma paralisação do tempo.

Sua primeira queixa diz respeito à televisão: “A televisão nos tantaliza, ficamos como que cativos dela. Este efeito entre mágico e maléfico é obra, creio, do excesso de luz, uma intensidade de luz que nos prende. Não posso senão recordar o mesmo efeito que produz a luz nos insetos, e ainda nos grandes animais. E então, não só nos custa abandoná-la, como também perdemos a capacidade para olhar e ver o cotidiano”.

De fato, nada mais medíocre que a cultura televisiva. Mas medíocre também é a cultura dos jornais e do universo dos best-sellers. Ninguém é obrigado a ter televisão em casa. E, se tiver, TV tem dois botões: on e off. Ocorre que o aparelhinho nos traz notícias, muitas vezes em tempo real, como também bons filmes e documentários. Conheço não pouca gente que tem TV em casa – entre eles este que vos escreve – e não se deixa prender pela luminosidade da telinha. Jamais troquei a companhia de meus amigos, a boa charla em um bar ou mesmo em minha casa pela luminosidade do vídeo. Jamais ligo televisão quando tenho visitas. Posso oferecer alguma ópera em DVD, mas aí já não é mais televisão.

Claro que a TV nos oferece uma vasta gama de programas estúpidos, a começar pelas novelas e BBBs da vida. Nada mais medíocre que um programa de auditório. Mas não sou obrigado a assisti-los. De minha parte, há muito deixei de ver televisão nacional. Procuro algum filme ou documentário interessante na madrugada, nos canais estrangeiros. Durante o dia, televisão para mim é heresia. A última vez em que a liguei durante o dia foi há nove anos, no 11 de setembro de 2001. Mas os jornais também nos jogam na cara toneladas de lixo. Nem por isso vamos condenar o jornalismo. O lixo é universal e se infiltra por todos os poros do mundo contemporâneo.

Por outro lado, Sábato não se adapta à era informática. “Está mais a nosso alcance um desconhecido com o qual falamos através do computador. (...) É muito significativo que se tenha de buscar um gesto amigo por telefone ou por computador, e não se o encontre em casa, no trabalho, ou na rua, como se fôssemos internos de alguma clínica cercada por grades que nos separa das pessoas a nosso lado. E então, tendo sido privados da proximidade de um abraço ou de uma mesa compartilhada, nos sobraram os meios de comunicação".

Claro que o desconhecido com o qual falamos através do computador está mais a nosso alcance. De meu vizinho, não sei quais são seus gostos, preferências literárias ou musicais. De meu atual vizinho de parede-meia, só fiquei sabendo que é aficionado de música erudita pelos trinados de sua mulher, que é mezzo soprano. Na Internet, com um só clique, posso encontrar quem gosta de Sábato ou de Mozart, de tango ou literatura grega, de Martin Fierro ou de Nietzsche, de culinária francesa ou catalã. (Já encontrei cultores do tango em Rautavaara, aldeia do norte da Finlândia, com 16 mil habitantes). A Internet não veio para isolar, mas para aproximar pessoas.

Nos últimos anos, encontrei e reencontrei não poucos amigos – e até mesmo namoradas - via computador. Pessoas que havia perdido há décadas nas vielas da vida e que gostaria de voltar a ver, só as encontrei graças à rede. Não fosse a Internet, estariam perdidas para sempre no tempo e no espaço.

O computador aproxima pessoas desconhecidas que nutrem afinidades de pensamento. Se leio reflexão que me interesse, posso entrar em contato com o autor no minuto seguinte. E vice-versa. As crônicas que escrevo às vezes são contestadas poucos minutos depois de publicadas. A Internet agiliza as trocas intelectuais. Houve época em que, para ter acesso a um livro de Sábato, tínhamos de ir a Buenos Aires. Hoje, dois ou três cliques e temos toda sua obra em casa. Quando conheci Sábato, nos anos 70, uma comunicação levava pelo menos cinco dias para ir de Porto Alegre a Santos Lugares ou fazer o caminho inverso. Hoje, estivesse Sábato conectado, poderíamos estar conversando em tempo real.

Isso que nem estou falando no livro eletrônico. Hoje, se você vive em uma aldeia desprovida de biblioteca e quer ler Platão ou Homero, desde que tenha telefone e computador, você os recebe em segundos e mais: sem pagar um vintém.

Sábato, que viveu boa parte de sua vida em Santos Lugares, manifesta certa ojeriza às metrópoles. Fala das "multidões de seres humanos que pululam pelas ruas das grandes cidades, sem que ninguém os chame por seus nomes". Pretenderá que alguém em uma multidão conheça por seus nomes os demais integrantes da multidão? Sem falar que disto ele não pode queixar-se. Se alguém enviar uma carta para “Ernesto Sábato, Santos Lugares”, não precisa nem pôr endereço que a carta chega a seu destinatário. Já o anonimato, este é inerente às grandes cidades. Sem falar que tem suas vantagens. Viver em uma pequena comunidade, onde não há anonimato algum, tem um certo charme, mas também pode ser bastante complicado.

A impressão que este último ensaio de Sábato nos deixa é que o autor, se conseguiu atravessar o século passado, não conseguiu aceitá-lo. É homem que se sente mal em sua própria época. É como se se recusasse a aceitar um dos dados de nosso tempo, a estupidez das massas. Ora, o mundo só pode ser aceito como é. Já está lá, em Siglo XX, cambalache, de Discépolo, tango tão caro a Sábato:

Que el mundo fue y será una porquería
ya lo sé...
(¡En el quinientos seis
y en el dos mil también!).
Que siempre ha habido chorros,
maquiavelos y estafaos,
contentos y amargaos,
valores y dublé...
(...)
¡Hoy resulta que es lo mismo
ser derecho que traidor!...
¡Ignorante, sabio o chorro,
generoso o estafador!
¡Todo es igual!
¡Nada es mejor!
¡Lo mismo un burro
que un gran profesor!


De nada adianta sonhar com utopias. De minha parte, procuro eliminar de minha vida esse lado medíocre e me refugio em meu pequeno círculo de amigos, meus livros, minhas óperas, viagens. Em A Gaia Ciência, Nietzsche formula sua teoria do “amor fati”, a aceitação plena da vida: "Não querer nada de diferente do que é, nem no futuro, nem no passado, nem por toda a eternidade. Não só suportar o que é necessário, mas amá-lo".

Discépolo entendeu Nietzsche. Sábato também terá entendido, mas rejeita seu fatalismo. De qualquer forma, sempre um autor que nos faz pensar.

20 março 2010

Cadê a Joana?

Janer Cristaldo


Isso sem falar na crônica sexual dos papas. Comentei a história há quatro anos. A cortesã mais famosa do Vaticano foi certamente Lucrécia Bórgia, amante do pai, o papa Alexandre VI, e também de seu irmão, o cardeal César Bórgia. Rodrigo de Bórgia, como se chamava o pontífice eleito em 1492, graças à compra dos votos dos cardeais, foi quem patrocinou o famoso baile das castanhas, em que sessenta prostitutas nuas dançaram para os cardeais no Vaticano. Foram jogadas castanhas ao chão, e as bailarinas tinham de apanhá-las. Mas não com as mãos, diga-se de passagem. Foram concedidos prêmios aos homens que copulassem com mais mulheres naquela noite memorável.

Se o leitor quiser uma abordagem ficcional sobre Alexandre VI, pode procurar nas locadoras o belíssimo filme Contos Imorais, de 1974, do cineasta polonês Walerian Borowczyk. Enquanto Savonarola queima na fogueira, por ter denunciado os hábitos libertinos do Vaticano, uma Lucrécia nua (interpretada pela radiante Florence Bellamy), espichada sobre um corrimão do Vaticano, atende ao mesmo tempo o papa e o cardeal, estes devidamente paramentados com as vestes eclesiásticas. Tudo muito sacro e solene.

Isso sem falar no papado de Sérgio III, que inaugurou o período chamado pelos historiadores de pornocracia, como também de "reinado das prostitutas". Mas o melhor da crônica é a história da papisa Joana. Segundo cronistas, no século IX uma mulher teria assumido a curul pontifícia, como sucessora do papa Leão IV, com o nome de João VIII. Originária da Alemanha, vestiu-se de homem e assumiu o nome de João da Inglaterra. Ficou na história como a papisa Joana. Em uma procissão da basílica de São Pedro até Latrão, acometido das dores do parto, o papa caiu do cavalo e fraturou o crânio, tendo morte imediata.

A partir daí, as eleições papais exigiram a verificação do sexo do candidato. Antes da sagração, o eleito era instalado numa cadeira furada, o estercorário. O camerlengo passava então a mão pelo buraco, para examinar os documentos. Em caso positivo, proferia as palavras rituais: habemus papa. Para a Igreja, tanto a papisa quanto o estercorário não passam de lenda, logo esta Igreja que considera como fato a virgindade de Maria e sua assunção aos céus. Si non è vero è ben trovato. Lenda ou fato, vale a imagem.

Falar nisso, está faltando um filme nas telas do Brasil. Ano passado, o cineasta alemão Sönke Wortmann filmou o romance histórico A Papisa Joana, de Donna Woolfolk Cross, publicado em 1996. O filme foi concluído em julho passado e entrou nas telas alemãs em outubro. Cá neste país, sempre apressado em lançar abacaxis politicamente corretos tipo Avatar, sequer se ouve falar do filme de Wortmann.

Para os leitores que quiserem mais informações, avanço alguns títulos. Devo ter mais em minha biblioteca, mas estes já dão uma boa idéia do assunto:

Histoire de l'inquisition au Moyen Âge, de Henry Charles Lea, Paris, Robert Lafont, 2004 - um clássico, o precursor de toda a literatura sobre a Inquisição. 1458 páginas. Recomendo vivamente.

Enciclopedia de los herejes y las herejías, de Leonard George, Barcelona, Ediciones Robinbook, 1998.

La véritable histoire des papes, Jean Mathieux-Rosay, Paris, Jacques Grancher, 1991.

La chair, le diable et le confesseur, de Guy Bechtel, Paris, Librairie Plon, 1994.

The Female Pope, por Rosemary & Darroll Pardoe, Wellingorough, Crucible, 1988. Tradução ao espanhol: El Papa mujer - El misterio de la Papisa Juana, Barcelona, Ediciones Martinez Roca, 1990.

La Papisa Juana, de Emmanuel Royidis, Buenos Aires, Editorial Sudamericana, 1973.

18 março 2010

Só o que grita é pecado

Janer Cristaldo


Não bastasse esse brilhante latinório puxado do fundo do baú, os delicta graviora, monsenhor Charles Scicluna encontrou outra palavrinha para minimizar as acusações de pedofilia feitas aos ministros da Santa Madre. "Cerca de 60% dos casos, tratam-se de atos de efebofilia, isto é, atração física por adolescentes do mesmo sexo. Em 30%, relações heterossexuais e para os 10% restantes, verdadeira pedofilia". Monsenhor parece balizar a gravidade dos delicta graviora por faixa etária. Como se fosse mais ou menos criminoso violar uma criança ou um adolescente. O complacente monsenhor ainda afirma que, em nove anos, os casos do padres acusados de pedofilia são então cerca de 300, sobre "400 mil padres diocesanos e religiosos no mundo. Certo, mas é preciso constatar que o fenômeno não é tão expandido como se pretende fazer crer".

Não é bem o que nos conta a imprensa. A Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana está gastando bilhões de dólares com indenizações às famílias das vítimas. Só em 2008, a Igreja Católica dos Estados Unidos gastou US$ 430 milhões com indenizações por abuso sexual cometido por padres.

Vítimas de abuso sexual cometido por padres em Los Angeles receberam mais de US$ 1,5 bilhão — mais do que qualquer outra diocese dos Estados Unidos já pagou em indenizações. A Arquidiocese de Portland, no Oregon, decretou falência, tornando-se a primeira diocese da Igreja Católica americana a tomar esta medida por causa das acusações de abuso sexual. O pedido de falência teve a intenção de paralisar uma ação de abuso cometido por um padre que estava sendo julgada em Portland. A ação envolvia Maurice Grammond, acusado de molestar mais de 50 garotos na década de 1980. Autores de duas ações envolvendo Grammond pediram uma indenização de mais de US$ 160 milhões.

Isso sem falar nas indenizações que foram negociadas na Irlanda, Alemanha e Áustria. As bolas da vez, agora, são a Suíça – com cerca de sessenta acusações de abusos sexuais – e a Itália, onde está a raiz da infâmia.

Mas que ninguém se surpreenda com estes fatos. Constituem velha tradição da Santa Madre. No século XVII, na mesma Regensburg (Ratisbona) em que o irmão de Sua Santidade regia um coral de meninos submetidos a abusos sexuais, dizia o missionário franciscano Bertoldo: “É bastante freqüente que os bispos tenham filhos, muitos ou poucos”. Um tal de Enrique, bispo de Basiléia, deixou em sua morte vinte rebentos. O bispo de Lüttlich – que, a bem da verdade, acabou sendo destituído – deixou sessenta e um. Cifra de enrubescer o bispo presidente do Paraguai.

As amantes de religiosos chegaram a entrar para a história das artes. Káthe Stolzenfels e Ernestine Mehandel, concubinas do cardeal Alberto II, de Mannheim (Mogúncia, em português) foram imortalizadas por Durero, como as filhas de Lot. Káthe foi ainda homenageada por Grünewald, ao ser retratada como “Santa Catarina no matrimônio místico”. E Lukas Cranach pintou Ernestine como Santa Úrsula e o próprio cardeal como São Martim.

Verdade que alguns padres foram punidos por seus excessos. Mas nem tudo é pecado na Igreja. Alexandre II ensina a seus sacerdotes em 1065: não tratamos nada além dos casos conhecidos e notórios. O que acontece em segredo só Deus sabe, e é ele quem tem de considerá-lo. Ou, como dizia um certo Panizza: o que acontece em segredo não aconteceu. Só o que grita é pecado.

Estes dados, eu os extraio de Das Kreuz mit der Kirche – Eine Sexualgeschichte des Christentums, de Karlheinz Deschner. (Estou lendo a tradução espanhola, Historia Sexual del Cristianismo). São 480 páginas descrevendo a lubricidade de papas, bispos e padres durante os séculos de existência da Igreja Católica. Claro que não posso reproduzi-las, fica a recomendação de leitura. Mas não me furtarei a alguns tópicos.

“A maioria dos religiosos de certa hierarquia – continua Deschner – se sentiam comprometidos. Certo bispo de Fiesole do século XI vivia rodeado de uma tropa de concubinas e filhos. O bispo Iuhell de Dol contraiu matrimônio publicamente e dotou suas filhas com os bens eclesiásticos. Durante o papado de Inocêncio III (1198 – 1216), o arcebispo de Besançon, cujas extorsões haviam levado o clero de sua diocese à mais extrema pobreza, manteve uma relação com uma parente consanguínea, a abadessa de Reaumair-Mont e deixou grávida uma monja, além de deitar-se com a filha de um religioso, como era público e notório. Pela mesma época, costumava celebrar suas orgias o arcebispo de Bordéus, um personagem que se dedicava a saquear todas as igrejas, monastérios e vivendas privadas dos arredores com uma banda de ladrões.

“No século XIII, o papa Inocêncio III diz que os sacerdotes são mais imorais que os leigos; Honório III assegura que estão corrompidos e conduzem os povos à perdição; Alexandre IV afirma que as gentes, em lugar de serem corrigidas pelos religiosos, são completamente corrompidas por eles. Os clérigos apodrecem como gado no esterco, outra preciosa sentença papal do século XIII. A meados do mesmo século, o dominicano e mais tarde cardeal Hugo de Saint Cher diria na conclusão do Concílio de Lyon, em 1251: amigos meus, fomos de grande proveito para esta cidade. Quando chegamos, só encontramos três ou quatro prostíbulos; no momento da partida, só deixamos um. Mas este abarca de um extremo ao outro da cidade”.

Isto é só uma diminuta mostragem. Como disse, o livro de Deschner se estende por 480 páginas, cada uma repleta de abusos e desmandos por parte da hierarquia católica. Com o tempo e com a exigência mais severa de celibato, os padres se resguardaram de seus assaltos às mulheres. E se dedicaram à parte mais indefesa do rebanho, as criancinhas.

Nada de novo sob o sol. O que estamos vendo, nas atuais denúncias de pedofilia nos jornais, é apenas a parte emersa do iceberg. Só o que grita é pecado.

14 março 2010

Três pais nossos e lava a boca!

Janer Cristaldo


Surpresa ao ler ontem, na edição do El País, esta manchete:

EL FISCAL VATICANO PARA LA PEDOFILIA
RECONOCE 3.000 CASOS EN OCHO AÑOS


Minha surpresa não reside no fato de uma autoridade do Vaticano reconhecer 3.000 casos de pedofilia. Tampouco na safadeza do fiscal vaticano, que reduz a oito anos o universo de busca. Só na Irlanda, seriam 25 mil os abusos sexuais de crianças pobres nas escolas católicas, durante quase 70 anos. Isso sem falar de outros milhares na Alemanha e Estados Unidos. Não, isto não me surpreendeu. O que me causou espécie foi ver El País falar em pedofília. Pelo jeito, pela força dos fatos, entrou uma nova palavra no espanhol de Castilla, la Vieja.

A palavra não consta do dicionário da Real Academia, muito menos do Maria Moliner. Para definir o que chamamos de pedofilia, os espanhóis sempre usaram pederastia. Palavra que, para nós, tem outra conotação. O fiscal do Vaticano em questão é monsenhor Charles Scicluna, entrevistado pelo diário Avvenire, da Conferência Episcopal Italiana. "Promotor de justiça" da Congregação para a Doutrina da Fé, monsenhor não gosta muito da palavra pedofilia. Prefere falar em delicta graviora, os delitos que a Igreja católica considera absolutamente os mais graves, isto é: contra a Eucaristia, contra a santidade do sacramento da Penitencia e o delito contra o sexto mandamento ("Não cometerás atos impuros") por parte de um clérigo com um menor de 18 anos. Delicta graviora soa melhor que pedofilia. Mais elegante.

No que vai um grosso sofisma. O entrevistador, que certamente jamais leu a Bíblia, não lembrou a monsenhor que este “não cometerás atos impuros” não existe no Livro. Você pode revirá-lo de ponta a ponta e não o encontrará. É coisa de catecismo. Na Bíblia, existe no máximo o “não adulterarás”, o que é bastante distinto. O insigne promotor de justiça da Congregação para a Doutrina da Fé, pelo jeito, não tem muita familiaridade com os textos sagrados. Por outro lado, nem no catecismo – que deve ter sido a fonte de monsenhor – se fala de atos com um menor de 18 anos. Ato impuro é ato impuro, seja com maior, seja com menor.

As declarações de monsenhor surgem nestes dias em que as denúncias de pedofilia estão se aproximando perigosamente do santo dos santos, o Vaticano. No início deste mês,surgiu na Alemanha notícia envolvendo nada menos que o padre Georg Ratzinger, regente do coral da catedral de Regensburg (Ratisbona). Ratzinger, isto lembra algo ao leitor? Pois bem, é o irmão do outro, o Joseph Ratzinger. Vulgo Bento XVI.

Descobriu-se recentemente que os meninos-cantores da catedral de Regensburgo eram pasto dos padres que os educavam, entre 1958 a 1973. E padre Georg, o irmão do Bento, dirigiu o coral da catedral de 1964 a 1994. Claro que, como Lula, ele não sabia de nada. Quinze anos de abuso e nada transpirou junto ao regente do coral.

Fosse só isto, seria pouco. Recentes denúncias implicam o irmão do irmão, isto é, o próprio Bento. Um sacerdote alemão obrigou um menor de onze anos a praticar-lhe sexo oral e foi transferido de Essen a Baviera quando Ratzinger – o Joseph, isto é, o atual papa – que foi bispo de Munique entre 1978 e 1981, era o responsável pelo traslado dos curas. Na Baviera, o padre pedófilo foi posto a trabalhar sem interrupção na comunidade e nunca foi denunciado à justiça civil, muito menos afastado de seu cargo, pois continua exercendo o sacerdócio.

Para monsenhor Scicluna, o promotor de justiça do Vaticano, as acusações que pretendem que o papa tenha contribuído a abafar os abusos sexuais são “falsas e caluniosas”. Curiosa coincidência. É o mesmo que diz Lula e o PT a respeito das denúncias do mensalão e demais corrupções do PT.

Mas a imprensa está exagerando. Uma felaçãozinha aqui, outra acolá, não é coisa que não tenha conserto. Leiamos este relato de Peter Rueth, um ex-coroinha em um lar para crianças dirigido pelos salvatorianos perto da cidade de Paderborn, no noroeste da Alemanha, noticiado pelo Der Spiegel:

“Certa manhã, quando ele estava sozinho no vestiário comigo, um padre fechou a porta para ouvir minha confissão antes da missa. Ele disse: apenas um espírito puro pode servir a Deus. Eu tive que me sentar em uma cadeira. Então o padre me vendou com sua estola e amarrou minhas mãos com outra peça, dizendo que tinha que fazer isso porque supostamente não se deve ver a outra pessoa durante a confissão. Ele me pediu para falar sobre meus pecados, e quando confessei, ele me disse que, como punição, eu devia abrir minha boca para que ele pudesse colocar uma esponja embebida em vinagre, como a esponja que foi oferecida ao Senhor na cruz.”

Após o sexo oral que se seguiu, o menino foi instruído a recitar o Pai Nosso três vezes e então lavar sua boca. Nada que um bom ato de contrição não resolva.

13 março 2010

FSP quer transformar chargista em santo

Janer Cristaldo


É um absurdo, é claro, que alguém entre na casa de alguém e mate duas pessoas. Mais absurdo ainda quando o assassinato não decorre de uma tentativa de assalto. Ou seja, matou porque queria matar, não porque queria roubar. Falo do chargista irrevente que tinha como personagens um erotômano e uma secretária ninfomaníaca.

Irrevente mas não muito. Com sua morte, descobrimos que Glauco teria uma face simpática. Foi fundador de uma igreja, o Céu de Maria, que seguia a doutrina do Santo Daime, aquela lavagem que até um suíno pensaria duas vezes antes de ingerir, se é que suínos pensam. De repente, não mais que de repente, fundar uma igreja enobrece um currículo. O Santo Daime – já escrevi - é um culto sem pé nem cabeça, criado por um seringueiro da Amazônia, cujas cerimônias consistem na ingestão da ayahuasca, beberagem feita de um cipó, que produz vômitos e diarréias, as chamadas “peias”. A nova empulhação cultua o Cristo, a Virgem… e a floresta amazônica, ecologia oblige. Pelo jeito, as tais de peias não eram muito convincentes a ponto de por si só arrebanhar acólitos. O Santo Daime então adaptou-se.

A Folha de São Paulo, onde Glauco assinava suas tiras, já trouxe uma reportagem das mais significativas sobre a nova religião – ou coisa que o valha. O Santo Daime assumiu elementos de hinduísmo, umbanda e hare krishna. Deus para todos os gostos. Aqui pertinho de São Paulo, em Nazaré Paulista, a escola espiritual tem dois gurus, um tal de Sri Prem Baba, o mestre da cerimônia, que pelo jeito é tupiniquim com nome indiano para melhor enganar. Mais o guru Sri Hans Raj Maharaji, que vive na Índia, mas já apita no Santo Daime. Mais o sedizente mestre Raimundo Irineu Serra, seringueiro brasileiro neto de escravos, que morreu em 1971, e teria sido o fundador da doutrina do Santo Daime.

Na zona sul de São Paulo – continua a reportagem – no Centro Espírita Sete Pedreiras, a miscigenação de crenças se repete, com orixás da umbanda, santos católicos e retratos de daimistas posicionados em lugares estratégicos do terreiro. A fusão resulta na umbandaime, que promove a mistura entre a doutrina do daime com a religião afro-brasileira. Para o antropólogo Edward MacRae, da Universidade Federal da Bahia, assim como outras religiões o Santo Daime também tem a propriedade de aglutinar elementos de outras crenças, como umbanda, traços indígenas, cristãos, afro e esotéricos, ocidentais ou orientais. Mais um pouco de criatividade vocabular e teremos o catodaime, o krishnadaime, o budaime. O fenômeno já existe, só falta batizá-lo.

Sincretismo, direis! Nada de novo sob o sol. O cristianismo apoderou-se do Livro dos judeus, temperou-o com elementos da mitologia grega e do paganismo e voilà: temos uma nova religião. Nada se cria, tudo se copia. Mesma vigarice dos tais de Osho, Maharishi Yogi, Sathya Sai Baba, Dalai Lama e outros escroques que servem coquetéis de hinduísmo, budismo e cristianismo para enganar Oriente e Ocidente. Nestes dias de globalização, o Santo Daime quis globalizar-se e abriu um grande leque de opções, para consumo dos pobres de espírito.

Já tem até budista e hare krishna tomando chá de cipó. Para a monja tibetana Ani Sherab, o chá “oferece mais clareza para expressar e reconhecer a verdade. Com o daime, recebo muitas bênçãos e ensinamentos dos budas”. Líderes das comunidade hare krishna desaprovam o daime, mas não negam que alguns membros consumam o chá. Para o professor de português Pandita, 51, Krishna se revela de formas diferentes. “O daime pode ser uma delas.”

Glauco, vítima de uma violência estúpida, assassinado por um seguidor da igreja que fundou, a tal de Céu de Maria, está sendo exibido pela Folha como um humanista, fundador de uma religião. Ora, fundadores de igrejas são também tanto Edir Macedo ou R. R. Soares, que fizeram fortuna como gigolôs do Absoluto. Como também a bispa Sônia e o apóstolo Estevam Hernandes. Que curtiram cadeia nos Estados Unidos por passar dólares escondidos em uma Bíblia. O que não deixa de ser emblemático: o livro sagrado sempre rendeu bons dividendos.

Humorista e fundador de uma igreja. Só o que faltava! A Folha, pelo jeito, está querendo fabricar um santo. Ora, pelo que me consta, isto é atribuição do Vaticano.

08 março 2010

Plágio, uma próspera indústria

Janer Cristaldo


Em janeiro de 2008, da tradutora Denise Bottman, recebi esta denúncia de uma verdadeira indústria do plágio:

Talvez o sr. tenha tomado conhecimento pela imprensa de um certo início de movimentação entre tradutores contra a apropriação indébita de traduções muito consagradas, feitas por grandes intelectuais brasileiros e portugueses, de grandes obras da literatura universal. Um levantamento inicial mostra que mais ou menos 30 obras da grande literatura universal, que haviam sido publicadas na coleção da Abril Cultural, foram reeditadas pela editora Nova Cultural com a substituição dos nomes dos tradutores originais, aparecendo em lugar deles ou nomes de fantasia ou nomes de gente de carne e osso. Essa quantidade de obras corresponde a mais de 65% dos títulos traduzidos da coleção "obras-primas" da editora Nova Cultural, e portanto parece indicar que não se trata de casos isolados, e sim de uma prática deliberada e sistemática adotada pela referida editora.

O que parece se configurar, portanto, é que a editora de maior visibilidade no país (que muitas pessoas ainda associam à Editora Abril e à extinta Abril Cultural) tomou para si um patrimônio tradutório do país (pois nossa formação cultural, num país que depende tremendamente do acervo de obras traduzidas para o português, se constrói também e maciçamente sobre essa atividade - basta ver o caso de suas traduções de T. S. Eliot, que tantas gerações influenciou e continua a influenciar no Brasil!) e, por razões ignoradas, mas com certeza escusas e que não vêm agora ao caso, eliminou, suprimiu, enterrou e está contribuindo ativamente para o esquecimento da contribuição desses intelectuais da primeira metade do século passado à constituição de um acervo das grandes obras mundiais em tradução para o português. Assim temos que Oscar Mendes, Octávio Mendes Cajado, Mário Quintana, Lígia Junqueira, Hernâni Donato (este ainda entre nós), Sílvio Meira, Brenno Silveira, foram eliminados, suprimidos, tirados fora, aniquilados, exterminados, dos créditos de tradução.

Pelo andar da carruagem, dentro em breve Rachel de Queiroz, Carlos Drummond, Cecília Meirelles, Manoel Bandeira também serão banidos dos créditos das traduções... mesmo que isso não ocorra, de qualquer forma o sumiço já perpetrado é mais do que suficiente para despertar uma imensa indignação entre quem preza a parca tradição cultural deste país, construída tão a duras penas. (...) Por isso dirigimo-nos ao sr., para pedir apoio a esse protesto.

Atenciosamente,
Denise Bottman

Recebo hoje novas da Denise, através de um bom amigo de Florianópolis. Reportagem de Nahima Maciel, publicada originalmente no Correio Braziliense e replicada no Diário Catarinense, edição deste sábado, nos conta que a tradutora está sendo processada pela editora Landmark, que entrou com pedido na 4ª Vara Cível de São Paulo para retirar o blog do ar:

Palavras replicadas
TRADUTORA É PROCESSADA POR EDITORA AO CRIAR
BLOG PARA DENUNCIAR CASOS DE PLÁGIO NO BRASIL


Em junho do ano passado, a tradutora Denise Bottman constatou, perplexa, o plágio de traduções praticado sem pudores por algumas editoras brasileiras. Uma denúncia em jornal paulistano citava pelo menos duas empresas – Martin Claret e Nova Cultural – como verdadeiras fábricas de desova de traduções adulteradas nas livrarias do país.

Desde então, Denise empreendeu uma extensa pesquisa e já chegou a 14 editoras que praticam plágio e atuam no mercado editorial sem grandes impedimentos. A pesquisa gerou o blog www.naogostodeplagio.blogspot.com, no qual Denise lista títulos com traduções plagiadas e as editoras responsáveis por sua publicação. O site incomodou tanto que a Landmark, uma das citadas no blog, processou a pesquisadora e entrou com pedido na 4ª Vara Cível de São Paulo para tirar o blog do ar. O pedido, no entanto, não foi atendido pelo juiz responsável pelo caso. “A Editora Landmark propôs a ação competente em face da blogueira Denise Bottman por entender que as denúncias por ela apresentadas encontram-se totalmente desgarradas da realidade fática, razão pela qual não existe qualquer cabimento quanto à acusação de plágio. Acrescenta-se que a existência ou não de plágio, por se tratar de crime, somente pode ser reconhecido na esfera judicial”, diz Alberto J. Marchi Macedo, advogado da Landmark. No blog, a tradutora apresenta provas de plágio na tradução de Persuasão (Jane Austen) e O Morro dos Ventos Uivantes (Emily Brontë), publicadas pela Landmark em 2007.

Essa agora! Uma editora, cujo acervo se nutre de plágios, quer censurar uma tradutora que denuncia seus plágios. Pelo jeito, a cultura do plágio está tão arraigada no Brasil, que editores já consideram o plágio um direito adquirido.

A pesquisa de Denise - continua a reportagem - é motivada por uma prática realizada há anos, sorrateiramente, no mercado editorial brasileiro e raramente questionada ou impedida. “Isso é um saque ao patrimônio literário. Bem ou mal, o Brasil é um país que até hoje depende muito de tradução na área do conhecimento e da literatura. A grande abertura do país para o mundo foi no começo do século 20, quando Monteiro Lobato e Francisco Alves começaram a traduzir as coisas. Quem traduzia na época era Rachel de Queiroz, Manuel Bandeira”, conta Denise. E são essas traduções mais antigas as preferidas dos plágios.

O método é sempre o mesmo. Mantém-se a estrutura da tradução e muda-se uma ou outra palavra antes que o texto seja publicado sob pseudônimo ou assinado por um tradutor desconhecido. No ano passado, o plágio praticado pela editora Martin Claret virou caso policial depois que o Ministério Público Estadual de São Paulo pediu para a polícia instaurar inquérito para investigar o crime. A Lei nº 9.610 confere direitos autorais ao tradutor e, segundo o Código Penal, o crime prevê de três meses a quatro anos de prisão. O inquérito da Martin Claret foi arquivado e os livros continuam nas livrarias. Entre as obras plagiadas estão uma tradução de O Lobo e o Mar (Jack London), feita por Monteiro Lobato em 1934 e assinada por um certo Pietro Nassetti, e uma versão de Orgulho e Preconceito (Jane Austen), vertida para o português por Maria Francisca Ferreira de Lima e atribuída pela Martin Claret a Jean Melville. Advogada da editora e única a falar sobre o caso, Maria Luiza Egea diz que a empresa está trabalhando em mudanças no catálogo. “A editora contratou novos tradutores para alguns títulos que havia publicado, para atender a interesses comerciais”, garante.

E por aí vai. O blog de Denise Bottman lista nada menos que 115 títulos plagiados. Segundo a tradutora, além da Martin Claret, Nova Cultural, Hemus e Ediouro, há uma lista que inclui a Rideel, Cedic, Best-Seller e outras. De onde concluímos que boa parte do acervo literário nacional provém da indústria do plágio. Mas, como escrevi à tradutora na ocasião, o buraco ainda é mais embaixo.

Seria interessante também pesquisarmos a fundo essa prática inominável para sabermos quais são as qualificações de Rachel de Queiroz em sueco, para traduzir Verner von Heidenstam, ou em russo para traduzir Dostoievski. (Salvo prova em contrário, o primeiro tradutor no Brasil a traduzir diretamente do sueco foi este que vos escreve). Onde Drummond de Andrade estudou norueguês para traduzir Knut Hamsun? Desde quando Cecília Meirelles conhecia suficientemente bengali para traduzir Rabindranath Tagore? Onde Manoel Bandeira estudou persa para traduzir Omar Khayyam?

E, cá entre nós, apesar de meu profundo apreço pelo Mário Quintana: teria o poeta da Rua da Praia inglês suficiente para traduzir Lord Jim, de Conrad? Ou francês suficiente para traduzir Proust? Esta pergunta se justifica já a partir de como Quintana traduziu o título do segundo tomo de À la Recherche du temps perdu, no caso, À l'Ombre des jeunes filles en fleurs. Quintana traduziu por À Sombra das Raparigas em Flor. Rapariga pode designar jovem, moça virgem. Mas no Brasil sempre teve uma acepção pejorativa. Já no português de Portugal, essa conotação inexiste. Aparentemente, o poeta andou cotejando alguma edição portuguesa de Proust.

Ora, não vejo maiores diferenças em plagiar de uma tradução portuguesa e plagiar de uma tradução do russo ou sueco ao francês ou inglês. Bottman está fazendo um trabalho admirável ao denunciar esta próspera indústria que se nutre do roubo do trabalho intelectual alheio. Não é de espantar que os prósperos executivos da indústria do plágio queiram silenciá-la.

Mas, se a tradutora mergulhar mais fundo neste mar de plágios, verá que nem a elite literária do país escapa do crime.

05 março 2010

Ateus serão salvos, católicos não.

Durante quase toda a história humana o mundo foi um lugar bestial. Adorava-se toda sorte de deuses, amaldiçoava-se os genitores, roubava-se até doces de crianças, homens raptavam as mulheres dos vizinhos, estes assassinavam aqueles em troco, os familiares das vítimas vingavam-se nos dos algozes, a criança escondida de olhar aterrado, única sobrevivente, crescia jurando eliminar todos desafetos. O que os movia não era o amor pelos iguais – por estes não vertiam uma lágrima -, mas o ardor pela desforra. As esposas de uns fornicavam com os maridos das outras, todos mentiam sempre (bastaria deduzir que o oposto do que era dito era a verdade, mas eram estúpidos), entregava-se à luxúria mais abjeta nas ruas em plena luz do dia, como fazem os cães, homens com homens, mulheres com mulheres, humanos com animais. E o pior – é-me penoso escrevê-lo: comia-se animais de patas fendidas que não ruminavam e misturava-se no mesmo tecido fios de lã e linho.

Não sabiam os torpes mortais que havia um único Deus, ciumento (disse-o ele próprio), que a tudo assistia de seu trono quando o céu não estava nublado e se arrependia (disse-o ele próprio) de tê-los criado, embora fosse incapaz de errar. A despeito de não existirem quaisquer leis para determinar o que era certo e o que era errado e estabelecer punições para cada crime, Deus castigou severamente Caim quando este assassinou ¼ da humanidade com uma única cajadada – algo de fazer inveja a Calígula, que gostaria que o povo tivesse um único pescoço, para cortá-lo -, e afogou a humanidade inteira exceto a família de Noé, incluindo depravados bebês de colo, para erradicar o mal na Terra, empresa para a qual seu engenho e onipotência se revelaram inúteis, como sabemos, uma vez que o mal se instalou novamente após Noé amaldiçoar o neto Canaã porque o pai deste viu aquele pelado e borracho sem o cobrir.

Antes do século XV a.C., incontáveis tentativas de se estabelecer uma moral, uma lei, fracassaram na China, Índia, Egito e Mesopotâmia. O Código de Hamurabi, por exemplo, jamais foi colocado em prática, pois os legisladores não possuíam autoridade divina. Foi, na verdade, fruto de sua soberba, pois se julgavam capazes de organizar as gentes sob leis morais sem o auxílio do Deus Único. Já tinham tentado, unidos, construir a Torre de Babel, para tornarem célebres seus nomes, conforme está escrito, mas Deus, a quem aborrecia os empreendedores, disse, com as seguintes palavras: “‘Eis que são um só povo, disse ele, e falam uma só língua: se começam assim, nada futuramente os impedirá de executarem todos os seus empreendimentos. Vamos: desçamos para lhes confundir a linguagem, de sorte que já não se compreendam um ao outro.”

Cansado de tanta iniqüidade e soberba entre suas criaturas, e de puni-las sem citar o artigo da lei que violavam, Javé deu-lhes, por meio de Moisés, o decálogo, que não eram dez mas dezenas de mandamentos. Ensinou-lhes, entre outras coisas, a adorá-lo mas nunca em altares feitos de pedras talhadas, a não fazer estátuas, não matar, não roubar, não levantar falso testemunho, a honrar os pais, a não cobiçar os bens do próximo.

Mas a espécie humana ainda era refém do pecado de Adão e Eva, os quais, paradoxalmente, só adquiriram malícia após pecarem e por conseguinte não pecaram de fato, e as leis mosaicas de nada adiantaram contra a marca passada de geração para geração que ele produziu. Deus entendeu ser imperativo enviar o filho, que ninguém conhecia, para que as bestas-feras humanas o destroçassem, como bem vimos no filme de Mel Gibson - era a única maneira de tirar os pecados do mundo, pensou. O motivo pelo qual não enviou o filho para ser morto na época de Noé, não nos é dado saber. Quiçá porque Pôncio Pilatos, Herodes, Judas e outros personagens dos evangelhos não haviam nascido ainda. O Filho de Deus mudou a lei divina vigente e, hipocritamente, disse nada ter mudado, que "passará o céu e a terra, antes que desapareça um jota, um traço da lei.”

Nos dois mil anos que se seguiram à vinda do Messias, o mundo continuou entregue à completa selvageria: trevas medievais, conquistadores sanguinários, saques, estupros, hordas de bárbaros, cruzadas, ordálias, justas, inquisições, guerras santas, perseguições e torturas, crimes de todos os tipos. Como que acordando de um longo delírio, Deus, de cuja permissão uma simples folha outonal precisava para se desprender da árvore, voltou atrás de sua antiga decisão e permitiu que os homens mesmos formulassem suas leis não divinas e as aplicassem, separassem o estado da religião, criassem direitos humanos universais, inéditos crimes de guerra, o sufrágio universal, o respeito às diferenças, a liberdade de credo, lutassem contra a escravidão e as castas, definissem ser errado apedrejar adúlteras e perseguir homossexuais, queimar feiticeiras e hereges, etc.

O mundo continuou selvagem, mas muito melhor do que na época em que Deus ditava as regras a seus representantes terrenos. O criador, finalmente, ficou feliz com suas criaturas, orgulhoso de Sócrates, Epicuro, Nietzsche, Bentham, Jefferson e outros luminares, arrependeu-se do arrependimento de tê-las inventado e percebeu, após tanto tempo, com um sorriso melancólico perdido entre os cachos brancos da barba, que estava sobrando na sua própria obra, para além de carregar infinitos crimes monstruosos nas costas, e então condenou-se a si mesmo à morte, à não existência. Foi o fim dos milagres grandiosos, dos mares se abrindo, das chuvas de rochas, dos anjos da morte a ceifar vidas de primogênitos. Os fiéis órfãos insistem em que não morreu, como Elvis, e que a prova de que ainda está por aí é sua própria criação, uma vaga alcançada em um estacionamento concorrido, uma unha encravada curada, um cancro que regrediu.

Foi melhor assim. Se valessem até hoje todos os mandamentos ditados a Moisés e se o legislador e o juiz ainda fossem vivos, nós ateus seríamos salvos enquanto a maior parte dos cristãos, nomeadamente os católicos, iria para o inferno. Façamos o teste!

Êxodo, 20

1.Então Deus pronunciou todas estas palavras:
2.“Eu sou o Senhor teu Deus, que te fez sair do Egito, da casa da servidão.


CATÓLICOS E ATEUS: Isto independe de crença.

3.Não terás outros deuses diante de minha face.

CATÓLICOS: Têm o Pai, o Espírito Santo, Jesus, Maria (embora digam venerá-la), Santos (semideuses).
ATEUS: Não têm outros deuses (não têm nenhum, mas isto é um mero detalhe)

4.Não farás para ti escultura, nem figura alguma do que está em cima, nos céus, ou embaixo, sobre a terra, ou nas águas, debaixo da terra.

CATÓLICOS: Esculturas de divindades estão entre as coisas preferidas pelos católicos.
ATEUS: Fazem esculturas artísticas e de homens notáveis.

5.Não te prostrarás diante delas e não lhes prestarás culto. Eu sou o Senhor, teu Deus, um Deus zeloso que vingo a iniqüidade dos pais nos filhos, nos netos e nos bisnetos daqueles que me odeiam,
6.mas uso de misericórdia até a milésima geração com aqueles que me amam e guardam os meus mandamentos.


CATÓLICOS: Prostram-se diante delas. Prestam-lhes culto.
ATEUS: Não prestam culto a esculturas artísticas e tampouco a representações de figuras históricas. Os comunistas que se dizem ateus – pelo menos por aqui comunistas são quase sempre católicos - têm seus ídolos e devotam a eles um fervor religioso.

7.“Não pronunciarás o nome de Javé, teu Deus, em prova de falsidade, porque o Senhor não deixa impune aquele que pronuncia o seu nome em favor do erro.

CATÓLICOS: Quanto mais piedoso um devoto, mais usa o nome de Deus por qualquer bobagem.
ATEUS: Ateus não pronunciam o nome de Javé em prova de falsidade, nem ficam usando o seu nome em vão. A maioria – na qual não me incluo – sequer pensa em deuses.

8.Lembra-te de santificar o dia de sábado.
9.Trabalharás durante seis dias, e farás toda a tua obra.


CATÓLICOS: Santificavam o domingo, e olhe lá. Agora nem isso.
ATEUS: Como os católicos, não santificam dia algum.

10.Mas no sétimo dia, que é um repouso em honra do Senhor, teu Deus, não farás trabalho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu servo, nem tua serva, nem teu animal, nem o estrangeiro que está dentro de teus muros.
11.Porque em seis dias o Senhor fez o céu, a terra, o mar e tudo o que contêm, e repousou no sétimo dia; e por isso. o Senhor abençoou o dia de sábado e o consagrou.


CATÓLICOS E ATEUS: Trabalham no sábado, se for preciso, e apertam botões de elevadores, mesmo os kosher.

12.Honra teu pai e tua mãe, para que teus dias se prolonguem sobre a terra que te dá o Senhor, teu Deus.

CATÓLICOS E ATEUS: Boa parte dos católicos e ateus age conforme o mandamento.

13.Não matarás.

CATÓLICOS E ATEUS: Boa parte dos católicos e ateus age conforme o mandamento.

14.Não cometerás adultério

CATÓLICOS E ATEUS: Boa parte dos católicos e ateus age conforme o mandamento.

15.Não furtarás.

CATÓLICOS E ATEUS: Boa parte dos católicos e ateus age conforme o mandamento.

16.Não levantarás falso testemunho contra teu próximo.

CATÓLICOS E ATEUS: Boa parte dos católicos e ateus age conforme o mandamento.

17.Não cobiçarás a casa do teu próximo; não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem seu escravo, nem sua escrava, nem seu boi, nem seu jumento, nem nada do que lhe pertence.

CATÓLICOS E ATEUS: Boa parte dos católicos e ateus age conforme o mandamento.

(...) 23.Não fareis deuses de prata, nem deuses de ouro para pôr ao meu lado.

CATÓLICOS: Reprovados.
ATEUS: Ateus não fazem deuses nem de prata nem de ouro nem de platina nem de adamantium.

24.Tu me levantarás um altar de terra, sobre o qual oferecerás teus holocaustos e teus sacrifícios pacíficos, tuas ovelhas e teus bois. Em todo lugar onde eu fizer recordar o meu nome, virei a ti para te abençoar.

CATÓLICOS e ATEUS: Nunca fizeram isso. Matam esses bichanos para comê-los.

25.Se me levantares um altar de pedra, não o construirás de pedras talhadas, pois levantando o cinzel sobre a pedra, tê-la-ás profanado.

CATÓLICOS: Católicos constroem altares com pedras talhadas. Templos bonitos espalhados mundo afora, construídos na melhor das intenções, mas que desagradam sobremaneira seu deus.
ATEUS: Ateus não levantam altares, mas SE levantassem um altar de pedra, não o construiriam com pedras talhadas.

26.Não subirás ao meu altar por degraus, para que se não descubra a tua nudez.”

CATÓLICOS: Os altares católicos são acessados por degraus, amiúde.
ATEUS: Ateus não têm altares.

E seguem outros mandamentos, desnecessário transcrevê-los por aqui.

Itens avaliados: 16
CATÓLICOS: Pontuação: 6 em 16 = 37,5% = INFERNO!
ATEUS: Pontuação: 12 em 16 = 75% = PARAÍSO! Com direito a anjinhos com harpa e tudo!

01 março 2010

Zoológicos de pobres fascinam turistas

Janer Cristaldo


Desde meus primeiros dias de Europa, nos anos 70, observei prática que nunca entendi, a atração dos europeus pelas favelas do Rio. Jamais visitei uma favela e jamais me ocorreria visitá-las. Da miséria e do tráfico só quero distância. Mas já vi alemães, suecos e franceses encantados com uma visita aos morros. Em Veja, leio entrevista com a antropóloga Bianca Freire-Medeiros, autora do livro Gringo na Laje - Produção, Circulação e Consumo da Favela Turística. Segundo a pesquisadora, a violência é o que mais seduz os turistas. "Ela é um atrativo. O filme Cidade de Deus, por exemplo, vende a imagem de que a favela é um lugar extremamente violento, de alto risco: os turistas querem ir lá motivados por isso", diz Bianca.

Grossa bobagem. A atração pelas favelas antecede em muito o filme. Atração não só por favela, como por tudo que é pobre e miserável no Brasil. Certa vez, nos anos 70, fui a um terreiro de umbanda. Mais precisamente, no Belfort Roxo, uma das mais conflagradas zonas do Rio de Janeiro. Obviamente, não fui por conta própria. Fui a convite de um diplomata francês. Que acreditava piamente que aquelas malucas girando sobre si mesmas estavam possuídas por alguma entidade. Curiosamente, entramos no terreiro com as bênçãos de um bispo católico.

Segundo a reportagem, o turismo em favela começou com a ECO 92, quando se passou a levar estrangeiros à Rocinha - pessoas ligadas em ecologia e interessadas em alternativas ao turismo de massa. É possível. Mas a atração fatal dos europeus do norte pelas favelas em muito antecede 92. Disse europeus do norte. Espanhóis e portugueses não são tão naïves, a ponto de sair a viajar para ver miséria.

Para a antropóloga, o turista busca situações de risco. Quer ver gente armada. “Mas, na maior parte das vezes, o turista não vê ninguém armado, porque as agências procuram evitar os locais de venda de drogas, que são menos seguros. Ninguém passa na "boca", por exemplo. Vale dizer que, para o turista, isso não faz muita diferença. Para ele, basta saber que há pessoas armadas na favela e que ele está numa situação de risco, para que haja excitação”.

Mais outra bobagem de pesquisador de gabinete. No Afeganistão, na Palestina, na Chechênia, armas e situações de risco é o que não falta. Mas europeus não fazem turismo por lá. Europeus gostam mesmo é da miséria dos trópicos. E turismo rende grana. Os turistas da miséria sabem que as armas dos traficantes estão lá para protegê-los. Afinal, não vão matar a galinha de ovos de ouro. Não é o mesmo na Palestina ou Afeganistão, onde há uma perigosa animosidade contra ocidentais.

Em meio a tantas bobagens, a antropóloga diz algo inteligente. É a chispa da ferradura quando bate na calçada, como diria Agripino Grieco. “Acho que a grande questão é explicar a transformação da pobreza em atração: os turistas estão em busca de uma situação de precariedade que eles desconhecem”. Bingo! Nunca fiz pesquisas científicas sobre essa atração mórbida, mas tenho quase certeza de que o turista europeu ou americano, ao contemplar uma favela, se regozija: feliz de mim que não vivo nestas condições.

A meu modo, até que gosto de favelas. Mas de outras favelas. Se você viajar pela Costa Amalfitana, na Itália, verá a mesma estrutura urbana do Rio em Positano, Amalfi, Ravello, Capri. Casas subindo morro acima. Mas casas de quem tem alto poder aquisitivo. Os ricos, na Itália, não foram idiotas como os ricos brasileiros. Subiram o morro antes que os miseráveis o tomassem. Uma outra cidade que tem esta mesma estrutura é Fira, na ilha de Santorini, na Grécia. Mas... é um dos recantos mais lindos do mundo. Nada de tráfico, quadrilhas armadas, miséria. Apenas beleza (de sufocar), magia, luxo, exotismo. Sobe-se até Fira com mulas. Os cariocas estão planejando teleféricos para facilitar a visita aos redutos de traficantes. Ora, mula é muito mais barato. E tem mais charme.

“Todo turista sabe que pode ser acusado de fazer algo de mau gosto, de participar de um zoológico de pobre. Mas, entre aqueles que entrevistei, não houve um que tenha saído insatisfeito do passeio” – diz a antropóloga. Claro que não. Visitar zoológico de pobre revigora a alma de um europeu. Um francês tem em Paris algo análogo à favela, e subindo um morro, Montmartre. É a Goutte d’Or, reduto de árabes logo abaixo da basílica de Sacré-Coeur. Parisiense evita a Goutte d’Or. À medida em que a mancha árabe se expande, cai o preço do metro quadrado. Miséria só tem charme ailleurs. Là-bas, como se diz por lá.

Segundo a antropóloga, “há coisas que não podem faltar. Não pode faltar a laje, onde os turistas tiram foto da paisagem e ouvem um discurso explicativo, coisas como "Ali embaixo, você vê a escola americana, que custa tão caro, e isso mostra como esse país é desigual. A laje é um momento pedagógico, impactante para o turista, que dali vê um oceano de casas, com o mar azul ao fundo."

Laje por laje, prefiro as de Santorini. Ou Positano. Quanto a oceano de casas, prefiro um oceano de águas. Tampouco viajo para contemplar do alto a finada luta de classes. Os turistas de zoológicos de pobres parecem não se dar conta de que, ao visitar favelas, estão financiando – e legalmente – os redutos de traficantes.

No fundo, o que em francês se chama de mauvaise conscience. Má consciência. Como isto é coisa que jamais alimentei, prefiro as favelas do Tirreno ou do Egeu.
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