24 fevereiro 2010

Panem et Circenses


Passei ontem em frente à Catedral de Brasília, que está em reforma. Os sempre danificados vitrais de Marianne Peretti, inspirados nas alucinações de Dumbo após pedagógica bebedeira com champanhe, estão sendo substituídos. Por outros idênticos, infelizmente. A catedral foi coberta por uma lona branca que, aliada à forma cônica da obra-prima de Niemeyer, deu à construção inegáveis ares circenses. Não resisti.

Foi difícil encontrar na Web um picadeiro fazendo as vezes de altar – o inverso é bem mais comum -, mas achei aos magotes palhaços de sotaina e fano, para bem compor meu "flyer". Minha idéia inicial era providenciar impressões e deixá-las em alguma igreja, ao lado dos santinhos de Santo Expedito, onipresentes em qualquer templo católico que se preze. Contudo, os devotos, já tão habituados a novidades idealizadas pelos padres Marcelo Rossi, Fábio de Mello e outros animadores eclesiásticos, seriam capazes de achar que o flyer é algo sério e irem para o suposto evento, prejudicando quem sabe o andamento das obras.

23 fevereiro 2010

Atleta entra em clínica para curar-se do gosto pelo melhor da vida

Janer Cristaldo


O golfista americano Tiger Woods declarou neste sábado aos jornais que está "profundamente entristecido" por sua "irresponsabilidade e comportamento egoísta". Acrescentou que voltará a jogar golfe, mas que ainda não sabe quando isso vai acontecer. Muito abatido, o atleta pediu desculpas à sua mulher, Elin Nordegren, e aos fãs por ter sido infiel em seu matrimônio e ter maculado a sua imagem perante todo o mundo. Anunciou ainda que voltará para a clínica na qual está realizando tratamento intensivo contra a sua compulsão por sexo. "O que fiz foi inaceitável e eu sou a única pessoa que pode ser culpada", insistiu.

Essa agora! Em pleno século XXI, um homem se penitenciando por ter tido relações com outras mulheres que não a sua e buscando tratamento por gostar de sexo. Como se o gosto pelo bom esporte fosse doença. Parece que ninguém lembra mais de Bill Clinton, que usava uma estagiária para felações rápidas, sem sequer pagá-la do próprio bolso. De John Kennedy, que usufruía dos serviços de uma prostitutinha de Hollywood, Marilyn Monroe. Sem falar das dezenas, talvez centenas, de outras mulheres que teve.

Antes de enfrentar Richard Nixon, em seu primeiro debate na televisão, Kennedy contratou uma garota para uma relação rápida. Saiu-se tão bem na TV que nunca mais dissociou os dois atos. Em todos os debates que se seguiram, a tática política foi a mesma: uma call girl antes e, no lugar do cigarro, Richard Nixon. Consta ainda que, ao receber um dignitário estrangeiro, Kennedy ordenou a seu staff que o entretivesse, enquanto se entregava ao bom folguedo com sua mulher.

Mais ainda: parece que ninguém lembra mais do santo homem Martin Luther King, que além de plagiador de textos alheios – a tese que lhe rendeu o título de Doutor foi denunciada como plágio – usava o dinheiro de suas campanhas em favor da igualdade racial para orgias com profissionais do sexo.

Os Estados Unidos estão mudando. Em março de 2008, o governador de Nova York, Eliot Spitzer, renunciou ao cargo por ter sido flagrado freqüentando prostitutas. Como Tiger Woods, se penitenciou publicamente, ao lado de sua mulher: “Eu renuncio ao cargo de governador. Durante minha vida pública, sempre defendi que todos, seja qual for a função que desempenhem, assumam a responsabilidade por sua conduta. Eu mantenho a crença de que, como seres humanos, nossa maior glória não consiste em nunca cairmos, mas sim em nos levantarmos novamente a cada queda".

Woods ou Spitzer são hoje demonizados. Luther King recebeu o Nobel da paz e até hoje permanece envolto em uma aura de santidade. Spitzer foi acusado de usar dinheiro de campanha para pagar sexo. Nisto, a meu ver, reside a indecência de sua atitude. Não em seu gosto por profissionais. Se as pagasse com dinheiro do próprio bolso, ninguém nada teria a ver com isso. Mas tanto Kennedy quanto Clinton se valiam de seus cargos, pagos com dinheiro público. E as orgias de Luther King também foram pagas com dinheiro público. Se assim foi, não vejo porque pegar no pé de Spitzer. Sua mulher, ao que tudo indica, aceitava os pulos de cerca do marido. Como Hillary aceitou tranqüilamente os de Clinton.

Mas o golfista? Não consta que tenha pago suas mulheres com dinheiro público. Vivemos em uma época em que a monogamia não mais vige. Aliás, nunca vigeu. Se o casal está de acordo, tudo bem. Ninguém tem nada a ver com isso. Se uma das partes não aceita a infidelidade do parceiro, para isso existe o divórcio. O que não consigo entender é procurar uma clínica para livrar-se do “vício” de gostar do bem-bom.

Em algum jornal, em algum momento, li entrevista com três psicoterapeutas que definiam pessoas com uma sexualidade mais exigente como tarados, pervertidos, ninfomaníacos ou depravados. Ser entusiasta do bom esporte passa a constituir algum tipo de patologia do sexo. “Mais conhecida como compulsão sexual, esse transtorno atinge homens e mulheres, sem distinção de idade”. Segundo a sexóloga Maria Cláudia Lordello, o desejo sexual hiperativo acaba resultando em uma inquietude da pessoa. "Isso a impede de fazer outras coisas importantes da vida. Tarefas cotidianas como trabalho, estudo e vida familiar acabam ficando comprometidas, pois ela deixa de realizá-las para fantasiar ou mesmo para vivenciar esses desejos". Ora, a história nos mostra que o tal de desejo sexual hiperativo não perturba necessariamente o trabalho.

Muito já escrevi sobre Giacomo Casanova di Seingalt (1725 - 1798), que passou sua vida correndo atrás de saias, de Veneza a Paris, de Lisboa a Moscou, naqueles dias em que o meio de transporte mais confortável era uma carruagem puxada a cavalos. O outro era apenas o cavalo. Ao longo de sua vida, teria recebido as homenagens de cerca de duas mil mulheres. Quem for procurar o verbete na Internet, vai encontrar referência a 122 ou 123 mulheres. Isso é bobagem, cifra de qualquer moleque contemporâneo.

Aos sessenta anos, Casanova começa a escritura de suas memórias. “Agora que não posso mais viver, sento e escrevo sobre o que vivi”. Sem jamais ter pretendido fazer literatura, Casanova entra na História da Literatura, em função de sua vida aventureira. Freqüentou cortes e bordéis, prisão e caserna, clero e políticos, conventos e salões literários. Quem quiser se debruçar sobre o século XVIII - seja historiador, seja sociólogo, seja mero curioso - terá em Casanova um excelente guia. Em momento algum faz penitência de seu passado. “Cultivar o prazer dos sentidos foi sempre minha principal preocupação; nunca encontrei outra coisa mais importante. Sentindo-me nascido para o belo sexo, sempre o amei e por ele me fiz amar quanto pude. Apreciei também os bons manjares com transporte, e sempre me apaixonaram todos os objetos capazes de me excitar a curiosidade”.

Teve vida intelectual intensa. Além de suas memórias, que somam dez volumes, traduziu a Ilíada para o italiano. Matemático, escreveu um tratado sobre a duplicação do hexaedro. Paradoxalmente, escreveu também um tratado do pudor e começou a redigir um dicionário de queijos. Escreveu também uma novela utópica, Icosameron. As mulheres, para Casanova, constituíam um estímulo para a produção intelectual. Não fossem elas, teria terminado seus dias como ilustre desconhecido.

Sem precisar ir tão longe no passado, Georges Simenon. Nos anos 80, li uma entrevista concedida pelo escritor belga ao cineasta Federico Fellini, ao Nouvel Observateur, onde admitia ter tido cerca de dez mil mulheres. Isso sem deixar de atender – e como - sua mulher, Denyse Ouimet, que declara: “Nós fazíamos amor todos os dias, antes do café, depois da siesta e antes de dormir”. Consta que atendia ainda a cozinheira.

Este desejo sexual hiperativo – no jargão dos psicoterapeutas - não o impediu de escrever, entre 1920 e 1972, os 431 títulos que lhe são atribuídos, entre livros publicados com o próprio nome e com pseudônimos. Isso sem falar em suas viagens por todos os quadrantes do planetinha. Consta que, em sua melhor forma, Simenon podia trabalhar onze horas corridas em sua máquina de escrever, produzindo 80 páginas por dia. Sem renunciar às “rapidinhas”.

Mas parece que o arrependimento público de Tiger Woods não é exatamente arrependimento. E sim preocupação com seus patrocinadores que – em nome de uma moral hipócrita – ameaçam retirar-lhe o financiamento que o tornou o atleta mais bem pago do mundo.

Bom, aí a situação se torna mais compreensível.

PS - Mal acabo de escrever esta crônica, leio nos jornais que as 3.700 páginas da Histoire de ma Vie, de Casanova, foram descobertas dentro de uma dezena de caixas que haviam sido movidas para uma caixa-forte antes de os Aliados bombardearem a Alemanha em 1945. A Biblioteca Nacional da França pagou 7 milhões de euros pelos manuscritos.

20 fevereiro 2010

Mate uma criança que o ECA garante *

Janer Cristaldo


Vivemos em uma sociedade violenta. Nas grandes cidades, quem sai de casa sempre tem uma certa chance de não voltar. Qualquer atraso de um familiar sempre causa preocupação. Se você tem filhos adolescentes, esta preocupação se multiplica. Se você tem posses, pior ainda: é alvo potencial de seqüestro. Confiar na força que devia fornecer-lhe segurança é inútil. A polícia nunca está no lugar do crime. Chega voando quando se trata de um assalto a banco. Não tem pressa alguma em socorrê-lo quando se trata de ameaça a sua vida ou patrimônio.

Caia na real: você está no mato e sem cachorro. A preservação de sua vida ou de seus bens é uma questão de sorte. Cada dia que você chega são e salvo em casa é lucro. Por enquanto, você está lucrando. Mas nunca se sabe quando a sorte vira.

Não desespere. Se você é jovem, está desempregado e não consegue sustentar-se, tem medo de andar nas ruas e sabe que com a proteção do Estado não pode contar, sempre há uma solução. Se sua vida e seu futuro estão ameaçados, vida por vida melhor salvar a sua. Mate uma criancinha. É investimento dos bons e não tem erro. Você enfrenta uma certa situação desconfortável por um, dois ou três aninhos e, dia seguinte, o Estado lhe garante proteção e sustento pelo resto de seus dias. Se você está enojado de seu bairro ou de sua favela, de suas precárias condições de vida, o Estado lhe oferecerá um outro bairro de sua escolha e o suficiente para viver. Estava cansado de seu nome? Troca-se. Nós nunca temos a chance de escolher nosso nome. Agora, você a tem. Escolha um nome de seu agrado e um novo estilo de vida.

Isso de apostar na mega-sena é coisa de fracassados que vivem de esperanças. E as chances são mínimas. Mate uma criancinha. Ora, dirão certos ingênuos, a criança também tem o direito de viver. Mas você também o tem. E mais do que ninguém. Era você ou ela. E entre ela e você, você escolhe quem? Você mesmo, é claro. Não é nem uma aposta. São favas contadas. Adeus mundo da insegurança, do ter de trabalhar para comer, para ter casa. Já que você teve a audácia de matar – coragem que nem a todos é dada – o Estado o compensará com casa, comida e roupa lavada. Mais trabalho e escola garantidos. Já não dizia um poeta que o mundo é para quem nasce para conquistá-lo? E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.

Encara-te a frio, e encara a frio o que somos...
Se queres matar, mata...
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência! ...
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?


Carros blindados, condomínios fechados, seguranças, sistemas de vigilância, isto tudo até pode ter certa eficácia. Mas não impedem arrastões, roubos, assassinatos. Nada melhor que o aparelho estatal para protegê-lo... quando decide protegê-lo. A melhor proteção é o sumiço. Isto o Estado brasileiro lhe garante, desde que você ouse. O homem que vive em bunkers paga um alto preço pela sua segurança. A segurança do Estado não custa nada, quando o Estado houver por bem garanti-la.

Foi o que descobriu há três anos o jovem E, como a imprensa o chama. Envolvido na morte de um menino de seis anos, descobriu acidentalmente que matando podia salvar sua lavoura. Raramente alguém chega à independência econômica aos 18 anos. O jovem E chegou lá. Bastou juntar alguns amigos e roubar um carro. Depois, surpresa. Um menino ficou pendurado pelo cinto de segurança. Não freie o carro. Continue rodando. A melhor surpresa mesmo virá depois. O Estado lhe fornecerá tudo que é sonho desses pobres diabos desprotegidos sujeitos a chuvas e trovoadas. Três aninhos de cadeia e depois a liberdade dos passarinhos, conforme determina o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Quanto ao menino, não faz nenhuma falta.

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.


E se morresse logo adiante em um acidente? Não traria lucro a ninguém. Provavelmente, só perdas. Já uma criança assassinada, esta sempre rende. Os pais, amigos e próximos vão sofrer e ficarão marcados pela perda da criança por todas suas vidas? O país está chocado? A imprensa pede sua cabeça? Bobagem. Sua cabeça, pelo contrário, agora está definitivamente protegida.

A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que chorem?
Descansa: pouco chorarão...
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco.


Lágrimas sempre secam. As pessoas encharcam um lenço, uma toalha, não vão encharcar um lençol. Uma mortezinha rápida e você está salvo. Não hesite. O generoso Estado brasileiro lhe dá total apoio. Mude sua vida, meu caro. E para melhor.

Mate. Mate logo antes que seja tarde. Mate que o ECA garante.

* Com escusas ao Pessoa pelas mexidas no poema. Não resisti.

11 fevereiro 2010

Falácias de Juiz Protestante a Serviço do Papa

O texto abaixo, de autoria do escritor de "Como Passar em Provas e Concursos: tudo o que você precisa saber e nunca teve a quem perguntar" e Juiz Federal William Douglas, tem circulado pela internet há alguns meses e caiu ontem em minha caixa de e-mails. Depois de comentá-lo informaram-me que aquelas linhas eram excertos de um texto um pouco mais longo (que pode ser lido aqui). Como a essência é a mesma, não perdi mais de meu precioso tempo a editar meus comentários. Aí vão eles:

"Ação contra crucifixos mostra intolerância
Por William Douglas, Juiz Federal.

A propósito do debate sobre a retirada de símbolos religiosos das repartições públicas, alerto para a interpretação equivocada daqueles que propugnam tal medida. O Estado é laico, isso é o óbvio, mas a laicidade não se expressa na eliminação dos símbolos religiosos, mas na tolerância aos mesmos.”


Estado laico é aquele que não sofre influência ou controle por parte de alguma religião. Democracia não é a ditadura da maioria. 51% da população não podem escravizar os 49% restantes, é certo. Existem cláusulas pétreas, como a liberdade religiosa, respeito a todas as crenças e à descrença. O juiz William cria um espantalho para depois esgrimi-lo. Afirmar que aqueles que são contra crucifixos em paredes de repartições públicas entendem a laicidade como dever de eliminar símbolos religiosos é uma pueril falácia da pressuposição. Paredes nuas da Câmara de Vereadores de uma cidade qualquer significam intolerância religiosa? Se o juiz quiser ter um crucifixo sobre sua mesa, pendurado no pescoço, tudo bem. Mas o poder público não pode estar associado a uma religião específica.

“Em um país que teve formação histórica-cultural (sic) cristã é natural que haja na parede um crucifixo e isso não configura discriminação alguma. Ao contrário, o pensamento deletério e a ser combatido é a intolerância religiosa que se expressa quando alguém desrespeita ou se incomoda com a opção e o sentimento religioso alheio, o que inclui querer eliminar os símbolos religiosos. Nessa toada, como prenuncia o poema "No caminho, com Maiakóvski", o culto e devoção terão que ser feitos em sigilo, sempre sob a ameaça de que alguém poderá se ofender com a religião do próximo.”

No caminho, com Maiakovski...
Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Os núncios de B16, durante a visita do pontífice ao Brasil, tentam fazer com que este Estado laico torne obrigatório o ensino do catolicismo nas escolas, que a Igreja não possa ser processada na justiça trabalhista, que seja transferida ao governo a responsabilidade pela manutenção de todo patrimônio artístico e arquitetônico católico.
E não dizemos nada.
Depois deixamos que violem a laicidade do Estado para este ser identificado por seus símbolos religiosos.
Depois eles consideram a sua religião como a única moralmente aceitável.
E não dizemos nada.
Por fim, colocam um Girolamo Savonarola da vida para governar o país.

Fácil brincar de "Rampa Escorregadia", não?

Aqui temos a famosa falácia “Reductio ad absurdum”: "Se permites que teu filho de cinco anos roube um beijo na bochecha da amiguinha hoje, logo ele irá agarrá-la e, mais tarde, se tornará um maníaco sexual!" Diziam, nos anos 50, coisas assim do futuro do rock’n roll e de seus “adeptos”. O juiz ousa afirmar que se os espaços públicos passarem a ter quatro paredes nuas, em breve um Estado Ateu obrigará as pessoas a rezarem escondidas.

“Nesse passo, eu, protestante e avesso às imagens (é notório o debate entre protestantes e católicos a respeito das imagens esculpidas de Santos), tive a ocasião de ver uma funcionária da Vara Federal onde sou Titular colocar sobre sua mesa uma imagem de Nossa Senhora de Aparecida. Vi tal ato com respeito, vez que cada um escolhe sua linha religiosa. A imagem não me ofendeu, mas sim me alegrou por viver em um país onde há liberdade de culto”

De novo a falácia da Pressuposição. Onde já se viu um Estado laico e democrático exigir que se tire a santinha que alguém colocou em cima da própria mesa de trabalho, ou a Cida sobre a geladeira? Coisa bem diferente seria as escrivaninhas de uma repartição pública terem uma cruz entalhada e os dizeres “In Corde Christi”.

O juiz tenta passar credibilidade por ser protestante. Insinua que poderia até valer-se desse movimento do “Estado Ateu” para eliminar símbolos religiosos do país inteiro, inclusive aquela “Vossa” Senhora Aparecida sobre a geladeira, e lucrar como protestante, avesso à idolatria, crime que, segundo seu deus, deve ser punido com a morte. Mas não! Ele tem credibilidade!

“Quando vejo o crucifixo na sala de audiências não me ofendo por (segundo minha linha religiosa) haver ali uma "imagem esculpida", mas reconheço nele a recordação de nossa natural e abençoada diversidade religiosa. O crucifixo nas Cortes é, por sinal, uma salutar advertência sobre os erros judiciários e os riscos de os magistrados atenderem aos poderosos mais do que à Justiça.”

Ah, porque crucificaram um inocente. Ou porque a maioria pediu sua morte, e isto nos lembra que não devemos fazer as coisas porque a maioria exige. Ou porque a cruz lembra as ordálias e as justas, aqueles sábios julgamentos feitos por Deus.

Certamente, se tirarmos os crucifixos esta nossa justiça exemplar brasileira estará arruinada. Voltaremos à barbárie e políticos e demais salafrários não sofrerão mais punição alguma por seus crimes. E nossos sapientíssimos juízes não serão mais capazes de tomar decisões justas.

“Além disso, se a medida for levada a sério, deveríamos também extinguir todos os feriados religiosos, mudar o nome de milhares de ruas e municípios e, ad reductio absurdum, demolir símbolos e imagens, a exemplo, que identificam muitas das cidades brasileiras, incluindo-se no cotidiano popular de homens e mulheres estratificados em variados segmentos religiosos.”

Dia 12 de outubro é feriado. Para a maioria, é o dia da criança. Os não católicos e muitos católicos lembram-se que é dia da padroeira do Brasil quando ligam a TV. 25 de dezembro já era dia festivo antes do cristianismo, assim como a Páscoa. O Estado deve manter esses dias como feriados, e cada que comemore o que quiser.

Quanto ao nome de ruas, de municípios, o sapientíssimo juiz antecipou-se e classificou o próprio texto como falácia. Reductio ad absurdum! Muito bem, William!

“Ao meu sentir, as pessoas que tentam eliminar os símbolos religiosos têm, elas sim, dificuldade de entender e respeitar a diversidade religiosa. Então, valendo-se de uma interpretação parcial da laicidade do Estado, passam a querer eliminar todo e qualquer símbolo, e por consequência, manifestação de religiosidade. Isso sim é que é intolerância.”

Desta vez a falácia da pressuposição desceu pela rampa escorregadia. Precisamos de uma mão invisível* para segurá-la.

“Os católicos que começaram este país deixaram sua fé cristalizada. Querer extrair tais vestígios afronta o nosso legado histórico.”

Se usarmos esse “raciocínio”, os cristãos afrontaram o legado histórico greco-romano ao destruir as estátuas dos deuses pagãos e fechar as escolas filosóficas. Aquela civilização “começou” a Europa e, por extensão, o Brasil.

De fato, o cristianismo foi uma minoria ruidosa durante o Império Romano. Não queria ser mais uma crença; queria ser a única. Nos séculos seguintes foi aquela árvore gigantesca sob cuja copa nenhuma outra crença podia germinar. A Igreja Católica rosnou muito com a constituição brasileira de 1891, quando foi feita a saudável separação entre Estado e Igreja, do mesmo modo que rosnou com o fim da monarquia. Antes disso, fiéis de outras confissões não podiam sequer construir um templo, como bem sabemos.

Agora o Estado laico, que deve promover a tolerância e a diversidade religiosa – que não eram características “históricas” do catolicismo -, não deve promover uma religião em detrimento de outras, não deve associar-se a nenhuma.

“Em certo sentido, querer sustentar que o Estado é laico para retirar os Santos e Cristos crucificados não deixaria de ser uma modalidade de oportunismo de quem não sabe conviver com a religião dos outros. Todos se recordam do lamentável episódio em que um mau religioso chutou uma imagem de Nossa Senhora. Não é menos agressivo não chutar a Santa mas valer-se do Estado para torná-la uma refugiada, uma proscrita.”

Off-topic: Lembrei-me do “hoax” espalhado por católicos de todo país de que Von Helder havia se convertido ao catolicismo. A perna que usou para chutar o de fato feio boneco (horrível e desgraçado, nas palavras do delicado evangélico) teria necrosado e ele, internado em um hospital dos EUA, teria sido atendido por uma atenciosa enfermeira negra. Após ser curado, teria tentado localizá-la e ouvido da diretoria do hospital que lá jamais trabalhara pessoa com aquelas características (virgem e mãe?). Ele teria entendido então se tratar da própria Cida, e se convertido ao catolicismo. Isto foi repetido à exaustão em público por leigos, padres e até bispos, tendo aparecido no site da Canção Nova, inclusive. Von Helder continua na Universal. Exposto o “hoax”, um bispo disse “ué, ninguém havia desmentido nada...”

“Indo além, tal viés ataca todos os símbolos de todas as religiões, menos uma. Sim, uma: a ‘não religião’, e é aqui que reside meu principal argumento contra a moda de se atacar a presença de símbolos religiosos em locais públicos.
A recusa à existência de Deus não é uma opção neutra, mas uma nova modalidade religiosa.”


Recusa à existência? É como ele chama viver sem deuses?

“Se por um lado temos um ateísmo como posição filosófica onde não se crê na(s) divindade(s), modernamente tem crescido uma vertente antiteísta. Esta nova vertente tem seus profetas, seus livros sagrados e dogmas, faz proselitismo, busca novos crentes (que nessa vertente de fé são os que optam por um credo que crê que não existe Deus algum). Como em todos os credos, há ateus educados e cordatos, e outros nem tanto. Há uma linha intolerante e, como ocorre em todas as religiões iniciantes ou pouco amadurecidas, mostra-se virulenta e desrespeitosa no ataque às demais. Nesse passo, apresenta outra característica de algumas religiões, a arrogância, prepotência e desprezo à capacidade intelectual dos que não seguem o mesmo credo.”

Então a culpa de tudo é dos ateus. Os teístas são 99% da população, mas o 1% que não crê na existência de deus ou deuses conspira contra a pobre maioria oprimida. A minoria organizada criou a polêmica para jogar protestantes contra católicos e depois tomar o poder e proibir até mesmo os imãs de santinhos e Cidas sobre as geladeiras. Os ateus têm até templos secretos, que ninguém nunca viu. Têm um Papa, um comando central que pune hereges que fogem da doutrina ateísta.

Ora, o ateísmo não é organizado, os ateus não se sentem representados por nenhuma instituição ateísta, não há uma hierarquia, dogmas e verdades não questionáveis (e os consequentes hereges) passadas de pai para filho. O juiz tenta colocar algo que é fruto de ceticismo como uma mera crença, taxar assim a descrença de crença, chamar de deus a ausência de deuses. É como dizer que careca é um tipo de corte de cabelo. Muitos crentes, é lógico, pegarão esta mera analogia e dirão que é melhor ter cabelo do que ser careca.

Quando os ateus que tiram o sono do juiz especialista em concursos publicam livros explicando por que não crêem, ainda que sarcasticamente e ridicularizando religiosos, listando os males que a confiança cega em líderes religiosos e verdades reveladas anacrônicas pode trazer, logo são taxados de intolerantes, xiitas, talibãs, fanáticos, que casualmente são nomes dados a religiosos loucos que queimam mesquitas e igrejas, apedrejam mulheres, usam viseira de burro, promovem matanças como a da Noite de São Bartolomeu, jogam aviões contra edifícios. O mesmo vale para o termo “cruzada”. Tais palavras são muito usadas como metáforas, e algumas pessoas tentam fazer sutilmente a ponte para o literal, para tentar falaciosamente colocar todos no mesmo saco. “Não têm base racional para nada”, tentam dizer, “apenas têm uma fé como a nossa. Dawkins não é menos terrorista do que Osama”. Não querem ser criticados, tão somente. Querem o “religião não se discute”!

“O principal profeta dessa religiosidade invertida (mas nem por isso deixando de ser uma manifestação religiosa) é Richard Dawkins, autor do livro " Deus, um Delírio". Ele está envolvido, como qualquer profeta, na profusão de suas ideias, fazendo palestras e livros, concedendo entrevistas e fazendo suas ‘cruzadas’.”

De partidos políticos à campanha de Al Gore contra o aquecimento global, de dietas a estratégias empresariais, tudo é religião então. Sistemas políticos baseados em ideologias, com profecias, divinização do ideólogo, "verdades" não falseáveis, repressão à crítica, são de fato muito parecidos com religião. É o caso do comunismo.

“A Campanha Out é uma proselitista em favor do ateísmo, tem seu símbolo (o "A"escarlate) e produz camisetas, jaquetas, adesivos, e broches vendidos pela loja online, cuja renda se destina à Fundação Richard Dawkins para a Razão e a Ciência (RDFRS).
Algo não muito diferente de outros profetas e credos.”


Dawkins (que na minha opinião é um chato) arrecada dinheiro para uma fundação que promove a razão e a ciência. Então é religião, claro!

“Naturalmente, Dawkins e seus seguidores têm todo o direito de pensarem e professarem qualquer fé ou a falta dela, mas só porque não creem em um Deus, não estão menos sujeitos aos valores, princípios e leis que, se não nos obrigam à fraternidade, ao menos nos impõem a respeitosa tolerância. Não se pode identificar em qualquer símbolo religioso um inimigo nem se tentar cooptar a laicidade do Estado para proteger sua própria linha de pensamento.”

Após algumas falácias da pressuposição, o sábio juiz continua:

“Discutir os símbolos religiosos é mais fácil do que enfrentar a distribuição de renda, a fome, injustiça e a desigualdade social. Talvez mexer com os religiosos seja mais simples, divertido e seguro, mas certamente não mostra a capacidade de escolher prioridades.”

‘Enfrentar a distribuição de renda’... Rio-me! E ele é um juiz, heim?

Então deve ser proibida a construção de museus enquanto um único miserável estiver sem casa, de bibliotecas enquanto houver um único analfabeto no país, e mais: não podemos discutir caos aéreo enquanto houver fome, mesmo que seja na África. A vida de um africano vale menos do que a nossa? Prioridades!

Bah! Como se discutir uma coisa nos impedisse de discutir outras.

“Vale lembrar que católicos, judeus, evangélicos, espíritas e muçulmanos, e bom número de ateus gastam suas energias ajudando os necessitados. Nosso país, salvo raras e desonrosas exceções, é palco de feliz tolerância religiosa.”

Opa, parece então que todos católicos e outros religiosos “gastam suas energias ajudando os necessitados”. No caso de ateus, é um bom número. Bill Gates, Warren Buffet e uns outros discípulos de Dawkins por aí.

“A eliminação dos símbolos religiosos atende aos desejos de uma vertente religiosa perfeitamente identificada, e o Estado não pode optar por uma religião em detrimento de outras.”

Vejamos a linha de raciocínio do juiz: Os ateus são os que querem eliminar todos crucifixos do país. Ateísmo é religião. O Estado não pode optar por uma religião em detrimento de outras – aqui ele se assume hipócrita e considera válido o argumento daqueles que dizem que o Estado não deve optar pelo catolicismo. Logo, os crucifixos devem ser mantidos nas salas de julgamento, nos plenários, na câmara, senado, escolas públicas. Um ás no raciocínio – cacofonia deliberada.

“A solução correta é tolerar e conviver com as diversas manifestações religiosas, incluindo Jesus, Buda, Maomé, Allan Kardec, São Jorge etc., sem que ninguém deva se ofender com isso. Por fim, acaso fosse possível uma opção, não poderia ser pela visão da ‘minoria’ mas da ‘maioria’. O ‘respeito às minorias’ já está razoavelmente assimilado, mas isso não inclui o direito à tirania da minoria.”

Não há nada na lei que justifique que a religião da maioria deva receber um tratamento especial do Estado.

Dúvida cruel: penduramos na parede um Crescente, uma Estrela de David, um gordo careca, uma imagem do Gasparzinho, um crucifixo ou deixamos a parede nua? Um crucifixo, claro! Sem tirania da minoria. Parede nua também é tirania da minoria.

De que minoria, se a “religião” dos ateus tem um símbolo, o tal "A"escarlate? Ah, claro, a minoria de 1% quer a parede nua para depois (rampa escorregadia) colocar seu sagrado “A” escarlate!

“Em suma, espero que deixem este crucifixo, tão católico apostólico romano quanto é, exatamente onde ele está. A laicidade aceita todas as religiões ao invés de persegui-las ou tentar reduzi-las a espaços privados. Eu, protestante e empedernidamente avesso às imagens esculpidas, as verei nas repartições públicas e saudarei aos católicos, que começaram tudo, à liberdade de culto e de religião, à formação histórica desse país e, mais que tudo, ao fato de viver num Estado laico, onde não sou obrigado a me curvar às imagens, mas jamais seria honesto (ou laico, ou cristão, ou jurídico) me incomodar com o fato de elas estarem ali.”

O protestante faz um acordo estratégico com os católicos contra o espantalho que elegeu ser um mal maior, rsrs.
O papa tem que contratar esse “irmão separado”. Só falta papar hóstia!

Maria Cláudia Bucchianeri define bem a presença de símbolos religiosos em órgãos públicos brasileiros:

"A fixação ou manutenção, pelo Estado ou por seus Poderes, de símbolos distintivos de específicas crenças religiosas representa uma inaceitável identificação do ente estatal com determinada convicção de fé, em clara violação à exigência de neutralidade axiológica, em nítida exclusão e diminuição das demais religiões que não foram contempladas com o gesto de apoio estatal e também com patente transgressão à obrigatoriedade imposta aos poderes públicos de adotarem uma conduta de não-ingerência dogmática, esta última a assentar a total incompetência estatal em matéria de fé e a impossibilidade, portanto, do exercício de qualquer juízo de valor (ou de desvalor) a respeito de pensamentos religiosos"

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*Para William Douglas, estas são as provas certíssimas de que seu deus existe: Deus fala com ele enquanto ele lê a Bíblia, usando a sua própria voz (do William). Deus o salvou de cair de bicicleta com a filha de 3 anos. Estava tombando quando uma mão invisível lhe devolveu o equilíbrio. Deus o impediu de despencar de um muro de assustadores 3 metros de altura. Estava caindo e uma mão invisível o colocou de volta no lugar. E ele escreve, no mesmo texto: “Eu sou refratário a pessoas que vêem milagre em tudo. Para mim, primeiro é preciso eliminar toda a chance de eventos naturais, coincidência, acaso etc.” São essas as três comprovações da intervenção direta de Deus na vida desse cético que se pauta pela Navalha de Ockham. Lemos o texto inteiro aqui.

10 fevereiro 2010

Carolina Rediviva e o novo Carandiru

Janer Cristaldo


Nos anos 80, fui convidado pelo governo sueco para uma visita ao país. O convite se devia ao fato de ter traduzido autores suecos ao brasileiro. No programa, fazer palestras em universidades, conversar com escritores e visitar instituições culturais. A visita que mais me surpreendeu foi a que fiz à Carolina Rediviva, a biblioteca de Uppsala, onde li inclusive manuscritos em sueco de José Bonifácio de Andrada e Silva.

Mais conhecido como patriarca da Independência, José Bonifácio não pertencia à atual estirpe de analfabetos que hoje domina a política nacional. Além de estadista e poeta, era naturalista. Em sua viagem à Noruega e Suécia, em 1796, descreveu pela primeira vez e deu nome a quatro espécies minerais novas e oito variedades que se incluíam em espécies já conhecidas. Ah! Em Uppsala tive também a honra de visitar a casa onde nasceu Karin Boye, de quem eu havia traduzido Kalocain.

Guiado pela mulher do diretor da biblioteca, fui introduzido no Santo dos Santos, isto é, a sala onde está a Bíblia de Prata - o Codex Argenteus – assim chamado por ter sido escrito com tinta prateada. É o texto mais conhecido em gótico, língua germânica já extinta. Não chega a ser uma bíblia, mas um evangelário, ou seja, um livro contendo partes dos quatro evangelhos. O nome dos evangelistas e as três primeiras linhas de cada evangelho são ornadas com letras de ouro. É certamente o livro mais raro que já vi em minha vida – e já vi muitos, inclusive a Gramática Castellana de Nebrija. Devo ter passado por quatro ou cinco grades trancadas a sete chaves para chegar até a Bíblia de Prata. Mas não era disto que queria falar.

Uppsala é uma cidade universitária e tem hoje 185 mil habitantes. Não lembro quantos teria na época, mas a cifra deve ser mais ou menos a mesma. Minha guia tinha uma queixa. Que o governo liberava verbas para aumentar as dependências da biblioteca, mas era avaro no que dizia respeito ao acervo. Quantos livros tem aqui? – perguntei. Nosso acervo é pequeno – me respondeu a moça, desolada -. Temos apenas quatro milhões de exemplares.

Foi inaugurada ontem nesta urbe a emblemática Biblioteca de São Paulo, onde antes foi o presídio Carandiru, ao custo de R$ 12,5 milhões. São Paulo, considerada a terceira maior cidade do mundo, tem uma população – intramuros - de 10,5 milhões de habitantes. Aqui vivem mais gentes que em toda a Suécia, que hoje conta com 9,2 milhões de almas. A gloriosa biblioteca paulistana, inaugurada com muita pompa, tem um acervo de... 30 mil livros. 133 vezes menos do que a Carolina Rediviva, da pequena Uppsala, de apenas 185 mil habitantes.

Fosse só isso... Mas não é. Lá onde foi o Carandiru surge uma nova concepção de biblioteca. Disse ontem o secretário municipal de Cultura, João Sayad, em entrevista à Folha de São Paulo:

- Queríamos um lugar que dessacralizasse a imagem da biblioteca e fosse atraente para o público não leitor. Não seguiremos uma orientação acadêmica. Vamos destacar os livros que aparecem nas listas dos mais vendidos na mídia. Pedi para que fosse organizada como livraria, mais do que como biblioteca. Até os funcionários vão se comportar como vendedores. Será uma megastore cultural.

O que merece algumas considerações. Para começar, biblioteca é lugar para quem lê. Que vai fazer o público não leitor numa biblioteca? Público não leitor que vá às favas, aos estádios, aos shows de rock, ora bolas. Que vá assistir Lost, novela das oito, Big Brother. Biblioteca não é lugar para quem não lê.

Continuando, biblioteca tem por vocação ser um acervo de livros que não se encontram nas livrarias. Os mais vendidos que a mídia oferece são sempre subliteratura, lixo impresso em letra de forma. Se é para oferecer ao público autores como Dan Brown, Paulo Coelho, Danielle Steel, Stephenie Meyer e Zíbia Gasparetto, os paulistanos estariam melhor servidos com o Carandiru.

Não menos curiosa é a concepção de biblioteca da diretora Magda Montenegro:

- Este lugar vai fazer sucesso porque não é soturno e não vai ter bibliotecário pedindo silêncio. É um espaço acolhedor, colorido.

Pelo jeito, a preocupação da bibliotecária não é atrair leitores, mas formar leitores.

- Vamos promover intensamente atividades culturais, com oficinas de grafite, contação de histórias e muita programação infantil. Preocupamo-nos muito com a criança, porque queremos formar leitores. Mas não vamos nos esquecer dos outros frequentadores. Já estamos planejando, por exemplo, fazer um baile da terceira idade dentro da biblioteca. Isso é possível porque não estamos falando de uma biblioteca com aquela imagem antiga, toda escura, com todo mundo em silêncio... Será uma biblioteca aberta, onde todos vão poder entrar.

Ah, a timidez de nossos administradores! Ontem ainda, eu comentava a timidez do senador Cristovam Buarque, que propunha duas horas de cinema nacional obrigatório na rede escolar. Por que não mais duas horas de teatro nacional, mais duas de música nacional, mais duas de televisão nacional? Se a dona Magda – pessoa que lida com livros e fala em “contação” de histórias – quer bailes para terceira idade, por que não baladas para jovens? Que tal samba? Ou funk? Ou forró? Seriam poderosos chamativos.

Estamos em ano de Copa. Seria talvez um grande atrativo para captar leitores a instalação de telões para a transmissão dos jogos. E se silêncio não importa em uma biblioteca, que tal matinês aos sábados para a petizada? E por que não shows de rock? Nada melhor que uma boa banda como pano de fundo para induzir os jovens a ler Dostoievski ou Platão, Agostinho ou Renan.

Que mais não seja, se existe a “contação” de histórias, para que livros? Tudo pelo social. Vamos dar emprego bem remunerado a esses ridículos funâmbulos, que começam a invadir bares e hospitais sem que ninguém os chame, para a “contação” de histórias. O leitor que me perdoe, mas isso de “contação” me deixou indignado. Como dizia Gide, no dia em que deixar de indignar-me, é sinal de que estou envelhecendo. Ainda sou jovem.

Quando se designa uma analfabeta funcional como diretora de biblioteca, a cultura do país já está em UTI.

07 fevereiro 2010

Em repúdio ao pequeno homem

Janer Cristaldo


O mundo está cheio de pessoas lindas. Mas as abomináveis são legião. Entre estas, as que acham que sabem porque ouviram dizer. Que não lêem livros nem jornais, mas recebem informações por televisão. E que, por ver televisão, acham que entendem o mundo.

Tropeço às vezes com essa gente. Cara, quem és tu para contestar o Sílvio Santos? O Sílvio Santos tem um grande público. A ti, ninguém conhece. Que tens contra o Lula? Tu não ganharias eleição nem pra síndico. O Lula tem sucesso. Já é candidato a Nobel. Qual é tua bronca com o Paulo Coelho? O Paulo vende milhões de livros em dezenas de línguas, tu não consegues vender teus livros nem no Brasil. Que autoridade tens para contestar o papa? O papa é o líder da cristandade, e tu não consegues liderar nem mesmo teus vizinhos de condomínio.

Com estes interlocutores, não adianta argumentar. Se o Sílvio Santos tem sucesso, se o Lula tem sucesso, se o Paulo Coelho tem sucesso, se o papa tem sucesso e você não tem sucesso, então você não vale nada. É a idolatria das celebridades. O pior é que agora, com os tais de Big Brothers, surgem celebridades do nada. Alguém é célebre porque a televisão decidiu que é célebre e estamos conversados.

Em função deste culto do sucesso, perdi inclusive um amigo, empresário de muitos milhões de dólares. Eu lhe enviava diariamente minhas crônicas. Até o dia em que me pediu: “podes me enviar qualquer crônica, menos aquelas sobre o Lula e o PT. Lula é homem bem sucedido”. Ok! Mas se tenho de censurar-me, não envio mais nenhuma. E assim terminou nosso amor.

Estes espécimes foram muito bem definidos no século passado por um judeu da Ucrânia. É o Kleinen Mann, de Wilhelm Reich. Ou o Zé Ninguém, como foi traduzido no Brasil: “O homem pequeno é aquele que não reconhece sua pequenez e teme reconhecê-la; que procura mascarar a sua tacanhez e estreiteza de vistas com ilusões de força e grandeza, força e grandezas alheias. Que se orgulha de seus grandes generais mas não de si próprio. Que admira as idéias que não teve, mas jamais as que teve. Que acredita mais arraigadamente nas coisas que menos entende, e que não acredita no que quer que lhe pareça fácil de assimilar”.

Daí a acreditar no papa, em Hitler ou Stalin, basta um pequeno passo. Estas gentes, eu as conheço desde minha adolescência. Quando em Dom Pedrito, lá pelos meus 14 ou 15 anos, me insurgi contra a Igreja Católica. Um sacerdote de Bagé, franzino e inquisitorial, veio às pressas para tentar trazer o herege em potencial de volta ao rebanho. Discutimos um dia todo, com várias jarras de água e um almoço de permeio. A cada preceito de fé que eu contestava, padre Fermino Dalcin me jogava no rosto a acusação: "Arrogância. Orgulho intelectual. Quem és tu para contestar, aqui em Dom Pedrito, o que autoridades decidiram em Roma?"

Era algo pesado para um piá de uns quinze anos. É o famoso argumento da autoridade: quem você pensa que é? Eu só tinha como defesa descrer do que não conseguia entender. Mas resisti e consegui, ainda adolescente, libertar-me do deus judaico-cristão. Agostinho ou Tomás de Aquino que se lixassem. Eu estava escorado na lógica e na razão, e não há fé que sobreviva à lógica e a razão. Como cachorro que sacode o corpo para secar-se, sacudi minha alma e procurei, nos anos seguintes, livrar-me da craca ética que vinha grudada ao cadáver do deus cristão. Esta é, a meu ver, a grande função da leitura, libertar o homem de mitos e superstições.

Continua Reich: “Tu mesmo te desprezas, Zé Ninguém. Dizes: ‘quem sou eu para ter opinião própria, para decidir sobre minha própria vida e ter o mundo como meu?’ E tens razão: quem és tu para reclamar direitos sobre tua vida? Deixa-me dizer-te.

“Diferes dos grandes homens que verdadeiramente o são apenas num ponto: todo grande homem foi um dia um Zé Ninguém que desenvolveu apenas uma outra qualidade: a de reconhecer as áreas em que havia limitações e estreiteza em seu modo de pensar e agir. O grande homem é pois aquele que reconhece quando e em que é pequeno”.

Não tenho preocupação alguma com o tal de sucesso. Sucesso é uma soma de equívocos. Lula, Paulo Coelho, o papa, para mim não valem um ceitil. Meus valores são outros. Para mim, Coelho continua sendo um medíocre e Lula um analfabeto. Qualquer crônica que escrevo tem muito mais informação e profundidade que toda a obra do Coelho. Que, aliás, não tem profundidade alguma. É rasa. Quanto ao pastor alemão, pelo que leio de seus pronunciamentos, pelo jeito nem leu a Bíblia. Até já me coloquei à disposição dele para algumas aulinhas de recuperação em catecismo. Ou talvez a tenha lido. Mas sua função de bedel do Vaticano o impede de falar o que conhece.

Respeito quem tem cultura. Meus heróis não vendem milhões de exemplares nem têm milhões de leitores. Enfim, até podem ter. Mas através dos séculos e não do dia para a noite. Cultura, sei que a tenho. E inteligência também. Se não as tivesse, talvez fosse bestseller. No dia em que tiver cem mil leitores, me perguntarei o que estou fazendo de errado.

Respeito quem lê. Cultivo autores como Ernest Renan, Mircea Eliade, Karen Armstrong, Le Goff, Jean Delumeau, Jean Soler, Georges Minois, Michel Onfray, Karlheinz Deschner. Me fascina a capacidade de trabalho e de síntese destes autores. Eu os invejo e diante deles me sinto diminuto. Não que eu só respeite historiadores de religião. Entre meus diletos, estão Platão, Cervantes, Swift, Dostoievski, Nietzsche, Voltaire, Orwell, Pessoa, Hernández. Fora da literatura, tenho profundo respeito por Alexandre, Fernão de Magalhães, Harvey, Galileu, Giordano Bruno, Schliemann, Champollion. E muitos outros. Ante estes, me sinto pequeno.

Mas não diante de um bispo de Roma, que professa superstições milenares, nas quais talvez nem acredite, mas que tem de assumir como bom funcionário da Igreja. Pode valer alguma coisa pessoa que por obrigação profissional tem de acreditar na virgindade da Maria, na ressurreição do judeu aquele, no deus assassino do Velho Testamento? Os crentes que me desculpem, mas pessoa assim não vale um vintém furado.

Há quem me julgue egocêntrico. Nada disto. Meu ego é apenas um pouquinho maior que o do Lula ou o do Paulo Coelho. Eles têm sucesso. Lula é visto hoje como um dos grandes dirigentes do planetinha. É que a imprensa internacional não tem notícias de suas corrupções e incoerências. Coelho é talvez um dos escritores que mais vendem no mundo. Não me interessa. Meus valores são outros. Para mim, Coelho continua sendo um medíocre e Lula um analfabeto. Qualquer crônica que escrevo tem muito mais informação e profundidade que toda a obra do Coelho. Que, aliás, não tem profundidade alguma. É rasa.

Este homenzinho é também o professor universitário que endeusa Marx, Brecht, Freud, Lukács, Brecht, Sartre ou Lacan. Só porque tiveram algum sucesso histórico ou literário. É o mesmo que cultua Machado de Assis, Euclides da Cunha, Erico Verissimo, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, sem jamais tê-los lido, só porque em algum momento os tais de críticos os entronizaram como grandes escritores. Este homenzinho não é encontradiço apenas nos bares. Eles pontificam tanto na universidade como na imprensa, tanto no poder como na Academia de Letras. Sem ir mais longe, vide o Sarney.

É o mesmo homenzinho que lota estádios de futebol e shows de rock, que chora ao assistir Titanic ou O Filho do Brasil, que locupleta templos evangélicos e o bolso dos pastores, que assiste a novela das oito e lambe vitrines nos shoppings, que troca de carro todos os anos e vai comprar TV de plasma para assistir a Copa. É o homem-massa de Ortega y Gasset. Aquele que, “sendo bárbaro e estúpido, quer impor sua barbárie e estupidez como norma máxima da sociedade. (...) O homem-massa é o homem cuja vida carece de projeto e caminha ao acaso. Por isso não constrói nada, ainda que suas possibilidades, seus poderes sejam enormes. E este tipo de homem decide em nosso tempo.”

Este eterno pequeno homem, que adora tanto o Lula como o papa, tanto Sílvio Santos como Paulo Coelho, é o mesmo que um dia adorou Hitler, Stalin ou Pol Pot como deuses. O homem mais amado de sua época não foi Cristo. No dia de sua morte, seus discípulos deram no pé. O homem mais amado na história foi Adolf Schicklgruber, que hoje conhecemos como Hitler. Procure fotos da época. Verá o olhar extasiado de milhares de alemães contemplando o deus vivo quando desfilava. Quando Joseph Vissarionovitch Djugatchivili morreu, houve quem não acreditasse na notícia. Porque um deus não pode morrer. Ah, o Joseph Vissarionovitch Djugatchivili é aquele que ficou conhecido como Stalin, o de aço.

Este homúnculo, em minha mesa não senta.

04 fevereiro 2010

Cursos Superiores Obrigatórios

Fora medicina, engenharia civil e outras atividades difíceis de fiscalizar ou cujos especialistas tenham vidas humanas nas mãos, penso que todo curso superior deveria ser facultativo, afinal há inúmeras formas de se filtrar um bom profissional, como concursos, provas e o próprio mercado de trabalho. Provavelmente os bons profissionais de qualquer campo continuariam tendo curso superior, e as empresas que contratam sem concurso, analisando currículos, poderiam exigir curso superior, boa aparência, ou o que quisessem.

Um bom efeito colateral seria a diminuição de sabão ideológico usado na lavagem cerebral de calouros deslumbrados com dinossauros comunistas, professores de faculdades que apenas geram mais professores da matéria e dão canudos aos alunos, como sociologia, filosofia e história. Por incrível que pareça, quanto mais desnecessário é um curso, maior o número de socialistas e afiliados à UNE. Estudantes de medicina e engenharias antiamericanos, anti-Israel, esquerdistas? Não tão comuns quanto de filosofia, letras, jornalismo, arquitetura, sociologia, história, biblioteconomia. As faculdades e universidades se veriam livres do aluno que deseja apenas um curso superior. Julgo que restariam aqueles que desejam aprender. O Provão continuaria a existir e deveria ser aperfeiçoado.

Alguns casos:

Concursos Públicos: Se um apedeuta como o Lula passar por todas as fases de um disputadíssimo concurso para Procurador da República ou Juiz do TRT, por que diabos não pode ter interrompido os estudos no primário? Se o seu português é impecável e conhece as leis, regimento interno, etc., qual o problema mesmo? Os ensinos fundamental e médio continuariam a ser obrigatórios para menores. Mas certificados de conclusão dessas etapas tampouco deveriam ser cobrados em concursos públicos ou para alguém advogar, por exemplo.

Arquitetura: as grandes incorporadoras contratam escritórios com bom portfólio, não profissionais com diploma, que se encontram às toneladas, rodando bolsinha em cada esquina. Mesmo no projeto de casas, as prefeituras só aprovam uma edificação que esteja dentro das normas, do gabarito, afastamentos obrigatórios. Qualquer um poderia projetar, se quisesse, desde que estivesse registrado no CREA. Seria passível de ser multado pelo órgão e de ter sua licença cassada. Em matéria de estética e funcionalidade, diploma não serve para absolutamente nada.

Direito: Se um apedeuta como o Lula passar na prova da OAB, qual problema em advogar, mesmo não tendo sequer o segundo grau? Que ele se registre, pague as taxas e defenda seus clientes. Muitos destes provavelmente não escolherão um inexperiente para defendê-los. Os profissionais que tiverem anos de experiência em algum grande escritório de advocacia, possivelmente conhecerão os trâmites burocráticos, as leis, as brechas, saberão redigir, argumentar.

Contabilidade: Funcionários de uma empresa não podem recolher os impostos e pronto?

Jornalismo: Só aqui no grotão se exigia curso superior para jornalista. Um médico não podia escrever diariamente sobre medicina em um jornal. Isto mudou recentemente.

Engenharia civil e outras: Obrigatório. Não existe fiscal que confira ferragens de centenas de pilares em uma obra, traço do concreto, profundidade de uma fundação. Auditorias acontecem após desastres. Confia-se em um engenheiro. Vidas dependem diretamente de seus conhecimentos.

Medicina: Obrigatório. Por motivos equivalentes.

Filosofia, Letras, História, Música: Sem comentários.

Artes: Deveria ser obrigatório até mesmo para a macaca Kate, que interpretou o chimpanzé Xico em uma novela das sete da Globo. Acho que ela não teria muitos problemas em se formar com louvor.

Curso Superior de Teologia: Deveria ser obrigatório, com duração de 20 anos, afinal se está lidando com almas, e os milênios que muitos poderão passar no inferno são uma ameaça mais grave do que uma Casa de Deus com vigas mal dimensionadas cair na cabeça dos fiéis. Deveria haver uma residência de no mínimo 10 anos e um celibato obrigatório. O exercício ilegal da profissão deveria acarretar em prisão e multa.

Hoje o curso é barato e com pouca carga horária. Uma vergonha! O Curso Superior de Teologia do DF, cuja mensalidade é de irrisórios R$ 21,00, foi criado em 1986 pelo cardeal José Freire Falcão, e tem o seguinte programa:

Área Teológica

- Antropologia Teológica I, II e III;
- Cristologia I e II;
- Eclesiologia;
- Introdução à Teologia;
- Liturgia Fundamental;
- Liturgia Temporal;
- Mariologia;
- Missiologia.
- Moral Especial;
- Moral Fundamental I e II;
- O Pensamento Teológico Contemporâneo;
- Sacramentos I e II;
- Teologia Fundamental;
- Teologia Pastoral;
- Trindade;
- Patrologia I e II;
- Pneumatologia;

Área Bíblica

- Apocalípse;
- Atos dos Apóstolos;
- Cartas Paulinas;
- Evangelho de João;
- Evangelho de Lucas;
- Evangelho de Marcos e Mateus;
- Introdução Geral à Bíblia;
- Livros Históricos;
- Livros Sapienciais;
- Pentateuco;
- Profetas I e II.

Área Filosófica

- Antropologia Filosófica;
- Ética Filosófica;
- Filosofia Contemporânea;
- Filosofia da Religião;
- Introdução à Filosofia.

Área Complementar

- Catequética I e II;
- Doutrina Social da Igreja;
- Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso;
- Estágio Pastoral I e II;
- Evangelização na América Latina;
- Fundamentos Pedagógicos.
- História da Igreja I e II;
- Metodologia Científica;
- Religiosidade Popular e Seitas;

Disciplinas Optativas

- Comunicação e Expressão I e II;
- Direito Canônico I, II e III;
- Ensino Religioso I e II;
- Fenômenos do Espiritismo;
- Filosofia Tomista;
- Grego Bíblico I e II
- Hebraico
- Introdução à Música Litúrgica
- Técnicas de Comunicação;
- Teologia da Vida Espiritual I e II.

CARGA HORÁRIA

1.620 horas-aula (deveria ser 16200 horas, no mínimo, e residência)

EXIGÊNCIAS PARA INSCRIÇÃO

Carteira de Identidade;

Uma foto 3x4 (recente);

Pagamento da taxa de inscrição, no valor de R$ 35,00 (trinta e cinco reais).


MENSALIDADE

O valor mensal por crédito é R$21,00 (vinte e um reais).

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Se houvesse um curso superior para estelionatários – do tipo que vendem terreno no céu e jamais entregam - e fosse obrigatório, garanto que não conviveríamos com tantos desses por aí. Fica aqui minha sugestão.
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