29 janeiro 2010

Universidade, a melhor corrupção

Janer Cristaldo


O juiz Ivorí Luis da Silva Scheffer, da 2ª Vara Federal Criminal de Florianópolis, decidiu que descumprir condição de bolsa do CNPq não é crime. E determinou o arquivamento de investigação contra ex-bolsista do CNPq, que não cumpriu o compromisso de retornar ao Brasil e empregar o curso de doutorado concluído no exterior. Segundo o magistrado, que acolheu o parecer do Ministério Público Federal (MPF), a conduta não pode ser considerada crime de estelionato, mas somente inadimplência contratual.

Traduzamos do juridiquês ao português. O juiz está dizendo que dilapidar dinheiro público em proveito próprio não é crime. É uma tese. Todos os professores inadimplentes da UFSC – e são legião – vão adorar. Há uns bons trinta anos, denunciei esta corrupção nos jornais de Santa Catarina. Houve rebuliço na Reitoria, na maçonaria, no PT, a denúncia foi à Receita Federal, à Polícia Federal, ao Ministério Público... e deu em nada.

A mais confortável corrupção hoje – costumo afirmar – é a corrupção universitária. Muito mais ampla e mais permanente que a corrupção no Congresso. Os coitadinhos dos deputados e senadores são denunciados por levar mulheres, amantes e prostitutas para uma ou duas semaninhas no Exterior. Bolsista do CNPq ou Capes fica quatro ou cinco anos nas mais prestigiosas capitais do Ocidente. Se voltar de mãos vazias, tudo bem. Se você tem vocação para a corrupção, deixe de lado a política. Os jornalistas caem em cima. Universidade é muito melhor. Jornalista algum denuncia a universidade.

Para o MPF, o ex-bolsista deve apenas “restituir os valores recebidos ante o descumprimento do compromisso assumido, na medida em que não há na conduta noticiada a configuração de ardil ou meio fraudulento para iludir ou manter em erro a vítima na obtenção de vantagem”. O juiz entendeu que o estelionato se configura, entre outros requisitos, quando a vantagem é obtida por meio que induza ou mantenha a vítima em erro, o que não foi o caso.

Quem é mesmo a vítima? Suponho que o Erário. Isto é, nós, contribuintes. Se de alguma forma pagamos para que alguém faça pesquisas no Exterior, é claro que não estamos pagando para que faça turismo. O ex-bolsista deve restituir os valores recebidos? Não é assim evidente. Já manifestei meu ceticismo aos bons propósitos do CNPq. Se um bolsista, tendo concluído seu doutorado, recebe boa oferta de trabalho no Exterior, qual instância, humana ou divina, o obrigará a ressarcir a União? Terá seus bens executados no Exterior? Será pedida sua extradição? Qualquer destes procedimentos custará bem mais caro que o valor da bolsa.

Já comentei o caso do advogado Cláudio Rollemberg, de quem estão sendo cobrados R$ 608 mil (em valores corrigidos). O advogado foi para a França em 1991 fazer um mestrado em Direito Internacional. Até hoje, 19 anos após a obtenção da bolsa, ainda não conseguiu elaborar um ensaiozinho de 400 ou 500 páginas. Mas não pretende devolver um centavo à União. Só entregará sua tese quando conseguir elaborá-la e estamos conversados. Devo, reconheço, mas não pago. Sua atitude é a mesma dos deputados e senadores, que declararam não saber que não podiam levar mulher, filhos, sogras e amantes para Paris e Miami. Diz que quando assinou o contrato não foi avisado de que poderia ser obrigado a devolver os valores caso não cumprisse as obrigações. "Todo mundo entendia que era gratuito, que era uma questão ideológica".

Escrevi também sobre a pesquisadora Ana Maria dos Santos Carmo, obrigada a devolver R$ 489 mil ao CNPq, por descumprir um compromisso firmado com a instituição. Nada menos que US$ 223 mil, ao câmbio de hoje. A estudante não retornou ao Brasil após concluir seus estudos de pós-doutorado nos Estados Unidos, em química de solos, custeados pelo conselho. Carmo alega a falta de emprego em sua área de trabalho. Até se dispõe a pagar o montante, desde que parcelados em US$ 100 mensais. Em apenas 2.230 meses, a dívida estaria quitada. Ou seja, em pouco mais de 185 anos, os cofres públicos seriam ressarcidos. Proposta generosa, não chega sequer a dois séculos. O CNPq não gostou e sugeriu à moça outro parcelamento, de US$ 860,36 mensais. Não vai levar. Nesses termos, a pesquisadora prefere não pagar.

E daí? Irá o CNPq entrar com um processo de cobrança internacional? Vai constituir advogado nalgum Estado americano para executar a devedora? Pedirá aos Estados Unidos a extradição da universitária inadimplente? Leio nos jornais que 300 professores receberam bolsas do CNPq e da Capes para cursar doutorado no exterior e calotearam o governo. Cada um deles custou US$ 200 mil e viajou com o compromisso de retornar ao Brasil. Não voltaram nem devolveram o dinheiro. Um golpe de US$ 60 milhões.

Bolsistas inadimplentes estão ocupando altos cargos no MEC. O secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do Ministério da Educação (MEC), Ricardo Henriques, é um dos 659 ex-bolsistas que estão inadimplentes com a União. A dívida se deve ao custeio de curso de pós-graduação strictu sensu (mestrado ou doutorado) pela Coordenação de Aperfeiçoamento Pessoal de Nível Superior (Capes).

Henriques deixou de ser bolsista da Capes em 1998. Ele ficou na França, por quatro anos, fazendo doutorado de economia na Universidade de Paris, às custas do financiamento do governo. Apesar de ter concluído todas as disciplinas, não chegou a defender a tese, requisito obrigatório exigido pela instituição a todos que recebem a bolsa. De acordo com o MEC, o secretário fez um pedido de prorrogação e deveria apresentar o trabalho final até 2008. Dez anos para fazer uma tesinha.

Mesmo assim, até abril do ano passado, o nome do secretário ainda constava no Cadastro Informativo dos Créditos não Quitados de Órgãos e Entidades Federais (Cadin) devido a essa pendência. Segundo a assessoria de comunicação da Capes, o processo de prorrogação é legal e está em andamento. Assim que eles receberem a última documentação, irão providenciar a regularização de Henriques junto ao Cadin. Gozou da boa culinária francesa, dos demais lazeres que Paris oferece. Voltou de mãos abandonando e tudo bem.

Você quer corromper-se? Desista da política. Rende pouco e é alvo dileto dos jornalistas. Opte pela academia, onde você pode corromper-se à vontade, sem nenhum temor a nenhuma denúncia e sem qualquer sanção.

27 janeiro 2010

Vodu, Candomblé, Pentecostais e Carismáticos

Após engravidar a própria filha enquanto o futuro genro dava duro na carpintaria, descer em forma de pomba sobre o companheiro de trindade a ser banhado pelo primo locustófago, após descer como línguas de fogo sobre os membros da gangue de Ben Pantera, o Espírito Santo ficou em uma espécie de sono letárgico por quase dois milênios, limitando-se a fazer biscates como auxiliar de exegetas e a opinar em concílios, voltando há pouco a operar maravilhas nos evangélicos e carismáticos católicos após os negros de Nova Orleans acharem uma brecha na lei – o Pentecostes de Atos dos Apóstolos - para inserirem nos cultos cristãos a catarse de seus ritos africanos. Houve pequenas mudanças, claro: se nos bons tempos ele descia, hoje o Espírito baixa.

Hoje a missa é considerada desanimada em comparação aos cultos evangélicos. Historicamente, no entanto, os protestantes – em especial os puritanos dos EUA – desejavam uma volta ao cristianismo primitivo, seus hábitos e cultos eram austeros, sisudos, principalmente se comparados aos católicos e seus templos em estilo pagão cujas paredes e abóbadas ornamentadas por esfuziantes esculturas e pinturas sensuais reverberavam notas de pujantes óperas sacras, melodramáticas, onde o ar recendia a incenso, onde o sacerdote coberto por paramentadas sotainas proferia, de costas para a nave, palavras mágicas em latim que ameaçavam, garantiam proteção, transubstanciavam pão em carne de teântropo. Mesmo o pietismo, um movimento surgido na Igreja Luterana onde se buscava uma experiência individual com Deus, vitalista, não era nada festivo. Algo dele influenciou os metodistas e chegou às primeiras igrejas pentecostais americanas. Mas o pentecostalismo não veio do pietismo, daquele lá do séc. XVII, como afirmam alguns católicos carismáticos.

Quando havia comércio de escravos nas Américas, o vodu cruzou o Atlântico com os negros que o praticavam e criou raízes nos EUA (Nova Orleans) e Caribe (Haiti). O vodu original de estilo africano parece ter chegado mais ou menos intacto por lá. Em um ambiente cristão severo, protestante, existiam leis contra a execução de sua música ritmada, mas com escassos resultados. William Seymour, um filho de ex-escravos de Louisiana, promoveu o sincretismo dessa espiritualidade ancestral com o cristianismo, encorajando a música ritmada na igreja como parte da busca pela experiência imediata com o Espírito Santo, assim como a glossolalia*, o transe, a dança - a catarse, enfim - essenciais na espiritualidade daqueles africanos. Horas sem se alimentar, cansaço físico, alucinações decorrentes... Do ponto de vista biológico, as catarses, ritmos e danças fazem o cérebro liberar ocitocina em boa quantidade (hormônio que atinge um pico pouco antes do orgasmo sexual), endorfina e outros hormônios do prazer que podem levar o "usuário" a querer cada vez mais catarses, mais danças, mais música ritmada.

Tal histeria - que antigamente apenas víamos nas igrejas evangélicas americanas freqüentadas por descendentes de africanos -, aquelas pessoas em transe a emitir seus “gemidos inefáveis” (Rm 8, 26), essas coisas semelhantes a rituais de vodu e candomblé só apareceram no cristianismo, portanto, com os negros dos EUA. Hoje vemos caricaturas daquele fervor, que ao menos era autêntico, nos católicos e nos evangélicos brasileiros e de outros grotões subdesenvolvidos. No caso dos Carismáticos Católicos, com seus maneirismos idênticos aos dos evangélicos, o Espírito Santo lhes sugeriu plagiar os “irmãos separados” para evitar a debandada de fiéis, que seria radicalmente maior se na RCC se buscasse o contato com Deus apenas com orações e com o velho e maçante ritual da Missa.

Como devemos olhar os frutos para julgarmos a árvore, segundo o amaldiçoador de figueiras, as antigas cerimônias vodu africanas, plenas de feitiçaria, sacrifícios humanos e orgias sexuais, eram boas e santas porque permitiram a volta na cristandade daquele Espírito Santo que não se via desde o Pentecostes.

*Glossolalia

Romanos 8, 26 e 27: “Outrossim, o Espírito vem em auxílio à nossa fraqueza; porque não sabemos o que devemos pedir, nem orar como convém, mas o Espírito mesmo intercede por nós com gemidos inefáveis. E aquele que perscruta os corações sabe o que deseja o Espírito, o qual intercede pelos santos, segundo Deus.”

Somos fracos e não sabemos orar e o que pedir, por isso o Espírito Santo nos trata como títeres movendo nossos lábios e vibrando nossas cordas vocais para que sejam emitidos burlescos sons estilo “shá-lá-lá-lá-shimanian-nan-lá-lá” (carismáticos costumam fazer a glossolalia com sons que julgam se parecer com algo semita - árabe ou hebraico). Após isso, Deus, burocrático como sempre - não é um com o Espírito Santo? -, ouve os gemidos, os compreende, e atende. Atende, é lógico! A fé move montanhas e placas tectônicas. Eu posso rezar sem fé, mas não se é o próprio Deus que reza a Deus por mim, não? Na verdade, essa oração em línguas pode ser até um pedido para que o Haiti seja arrasado. Não há como saber, uma vez que no versículo seguinte ao disparate destacado acima lemos: “todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são os eleitos, segundo os seus desígnios.” Ou seja: até mesmo o terremoto no Haiti concorre para o bem dos eleitos, por isso o bom deus de Zilda Arns lhe acachapou a cabeça com uma trave de concreto.

Uma teoria maluca que elaborei hoje pela manhã: Nova Orleans, há não muito tempo, foi arrasada pelo Katrina. Neste terrível janeiro de 2010 a capital do Haiti foi destruída por um terremoto e a região de Cruzeiro, Cachoeira Paulista e Paraitinga, no leste de São Paulo, foi fortemente castigada pelas chuvas. Em Paraitinga, uma igreja história de uns 200 anos veio abaixo com a força das chuvas. Essa é a região brasileira onde a Renovação Carismática Católica é mais forte. A sede da Canção Nova, por exemplo, fica em Cachoeira Paulista. Será que tudo isso está acontecendo porque Javé resolveu implicar com o Vodu, contrariando os planos do Espírito Santo? No mundo das religiões, tudo é possível!

25 janeiro 2010

Cristo invade cruzeiros

Janer Cristaldo


Final do ano passado, falando da vulgarização das viagens marítimas, comentei o 1º Cruzeiro Católico - Navegando com Nossa Senhora, no qual por até R$ 2.404, peregrinos embarcarão, em fevereiro próximo, para uma viagem de quatro dias no navio Grand Celebration, com capacidade para 1.800 pessoas e 600 tripulantes. Você não embarca em um barco. Embarca em um templo. Claro que logo adiante teremos o 1º Cruzeiro Evangélico, quem sabe o 1º Cruzeiro Neopentescostal. Navegando em nome do Senhor!

Cala-te boca! Antes que este cruzeiro de carolas partisse, um outro já está de volta. Sexta-feira passada, o Vision of the Seas, da Royal Caribbean, atracou em Santos, com um grupo de fiéis organizado pela Renovação Carismática Católica, com direito a padres cantores, cantores religiosos, pregadores DJ's do grupo Electro Cristo e até um profeta moderno, o tal de Ironi Spuldaro. Passageiros desavisados que embarcaram nesta fria, até hoje se arrancam os cabelos.

Diz um publicitário na Folha de São Paulo de ontem: “A gente embarcou no dia 18 no Vision of the Seas, achando que ia se divertir pra caramba. Mas foi o cruzeiro mais chato da minha vida". Mulheres de biquíni na piscina, bebida rolando solta, jogatina liberada no cassino equipado com mesas de carteado, roletas e caça-níqueis. Tudo isso tendo como cenário as praias de Búzios e Ilhabela.

Diz uma empresária: “Quando compramos o pacote, ninguém nos avisou que embarcaríamos no mesmo navio de um tal de cruzeiro católico. Achamos que fosse um cruzeiro normal. Segundo um funcionário público, que também tomou a canoa furada, “ficou estranho demais. Logo que subimos a bordo, estava um calor incrível e resolvemos tomar um banho de piscina. Não deu. Vieram nos avisar que, bem ali, no deck da piscina, seria realizada a primeira missa do cruzeiro. Não nos sentíamos à vontade para ficar em trajes de banho enquanto se falava do corpo e do sangue de Cristo”.

Surprise, leitor! Você pensa ter embarcado em um navio e descobre, já no meio do mar e sem chance de voltar, que embarcou num templo. 850 religiosos pagaram um mínimo de R$ 1.564,00 per capita para fazer a "viagem superior" a bordo do cruzeiro católico.

"Jesus na piscina? Eu sou católica, mas acho que igreja é igreja e navio de lazer é navio de lazer – disse outra empresária –. Misturar as duas coisas é complicado. Eles olhavam feio se a gente estava de biquíni, se estava tomando bebida alcoólica, se falava alto, se jogava, se ria. O cassino ficou vazio. Nem o truco foi perdoado. Parecia que a gente estava invadindo a praia deles".

O Vision tem capacidade para 2.435 passageiros. Ou seja, um terço deles, em nome de suas superstições, se julga no direito de censurar como você veste, o que você bebe, como você fala, se gosta de jogar ou de rir. Segundo a Royal Caribbean, não se tratava de um cruzeiro temático, logo não justificaria um eventual aviso sobre a presença de católicos a bordo. "De fato, existia um grupo numeroso de católicos a bordo, mas foi um grupo como tantos outros que já viajam conosco. Para esse grupo, como é de praxe em virtude da quantidade de pessoas, foram feitas algumas programações especiais, as quais foram realizadas em salas separadas ou até mesmo nos locais públicos do navio, desde que não prejudicassem o andamento normal do cruzeiro".

Leitor me envia notícias de um cruzeiro gospel, realização da Record Trips by CVC, fundada em parceria com a agência de viagens Record Trips e a operadora CVC. Trata-se do CVC Imperatriz. O evento tem duração de três dias (de 17 a 20 de março) e contará com a participação de grandes cantores da música gospel: Regis Danese, Soraya Moraes, Mara Maravilha, Robinson Monteiro, Jamily e o tenor Marcio José. Jamais ouvi falar destes senhores e senhoras. Mas, pelo jeito, há quem os curta.

Depois que a CVC monopolizou os cruzeiros e impôs sua sigla aos transatlânticos, embarcar em um deles se tornou um risco. Os templos, não satisfeitos com invadir os continentes, estão tomando conta dos mares. Quando você toma um navio, você está tentando se evadir das coisas da cidade. De repente, sem que você esperasse, um monte de padres e outro monte de malucos tomam conta da piscina.

Coisas nossas. A CVC, desde há muito, virou sinônimo de viagens para panacas.

20 janeiro 2010

Remake de Pocahontas



Lemos no excelente blog Que Treta!: "Há uns dias fui ver o remake da Pocahontas que o James Cameron realizou. Está bem divertido. Talvez para evitar problemas de copyright com a Disney, ele mudou os nomes dos personagens, usou peles-azuis em vez de peles-vermelhas e naves em vez de barcos. Mas manteve-se fiel à história. A Avó Salgueiro estava tal e qual."

Também tenho minhas comparações:

Star Wars e Os Três Mosqueteiros

O episódio IV de Star Wars, o clássico, possui muitos ingredientes análogos a Os Três Mosqueteiros de Dumas.
O aprendiz D’Artagnan (Luke Skywalker) aspira ser mosqueteiro (jedi), monta um cavalo velho amarelo (uma nave velha) e acaba recrutado para servir a rainha (Princesa Leia) com o auxílio dos inteligentes e gaiatos Athos e Aramis (Hans Solo), do bruto Portos (Chewbacca) e dos histriões porém prestativos escudeiros Bazin, Planchet, Mousqueton e Grimaud (C-3PO e R2-D2).
Luta contra Rochefort, o homem da cicatriz (Darth Vader, cujo rosto é desfigurado), braço direito do Cardeal de Richelieu (Imperador Palpatine). Rochefort torna-se amigo de D’Artagnan (na seqüência de Os Três Mosqueteiros) e expira em seus braços, como Darth Vader, que morre nos braços de Luke.
A história de Dumas não peca pelo maniqueísmo, e o protagonista acaba se vendendo para o Cardeal em troca de um posto de capitão. Isto após Richelieu autorizar (involuntariamente) Milady, a sedutora vilã, a assassinar Constance Bonacieux, adúltera amante de D’Artagnan, casada com o velhaco Sr. Bonacieux...


Rei Leão e Hamlet.

O pai é morto por um tirano que usurpa o trono. O filho foge mas o fantasma do pai conta o que aconteceu de fato e o compele a retornar para reclamar a coroa e se vingar. Possui dois amigos, Rosencrantz e Guildenstern, o facócero e o suricato.

Temos ainda AI e Pinóquio, O Patinho Feio e Sabrina, e várias outras.

O Superman (Returns) e Crônicas de Narnia aludem claramente à Paixão de Cristo. Em Matrix há referências ao Jesus da Nova Aliança (o messias Neo, novo), a João Batista (o profeta Morpheus, que reconhece o messias), à ressurreição, à predestinação, à busca pela Terra Prometida (Zion), à trindade (Trinity).

No caso do Superman, ele é flagelado pelos sequazes de Luthor, salva a humanidade e, muito fraco, abre os braços no espaço como se estivesse crucificado. É levado ao hospital e ressuscita. Quem primeiro testemunha a cama vazia (sepultura vazia) é uma mulher piedosa, que chora santas lágrimas... O leão gay de Narnia morre pelo menino pecador e ressuscita para combater o mal.

Quando o personagem tem a possibilidade de ressuscitar, como a Trinity, o Coiote do Papa-Léguas e outros clientes da ACME que caem de precipícios e engolem dinamites de pavio aceso, a coisa perde a graça. Como acontece na mitologia cristã, onde Jesus deixa-se matar sabendo que vencerá a morte, voltará a viver. Qual é a graça? Sacrificar-se assim, até eu!

Evangelhos e Branca de Neve

O melhor remake da famosa história da carochinha "A vida de Jesus" é Branca de Neve e os Sete Anões. A rainha má ordena a execução de Branca de Neve após o espelho mágico lhe informar que a inocente enteada é a mais bela de todo mundo.
O malvado Herodes ordena a execução de Jesus (matança dos inocentes) após os Reis Magos lhe informarem que o predestinado será um rei mais poderoso do que ele.

Mas há diferenças:

- Branca de Neve é salva e foge para um bosque, onde encontra sete anões e os ensina a ser justos, limpos e organizados.
- Jesus é salvo e seus pais o conduzem ao Egito. Após um tempo reúne doze apóstolos e os ensina a ser vagabundos (olhai os lírios do campo), injustos (expulsa vendilhões a chicotadas, arruína suinocultores, amaldiçoa a figueira), e desorganizados.

- Os anões trabalham arduamente no ramo da mineração.
- Os apóstolos são vagabundos, vivem de esmolas, confiam na providência, aquela mesma que nos deu Mussolini (palavras de Pio XI) e Stalin (Palavras do Patriarca George).

- A bruxa mata Branca de Neve e os anões arriscam a vida para salvá-la.
- Os fariseus matam Jesus e os apóstolos fogem com a cauda peluda metida entre as pernas.

- Branca de Neve ressuscita ao ser beijada por um príncipe encantado.
- O corpo roxo e inchado de Jesus é subtraído do sepulcro pelos apóstolos enquanto as sentinelas romanas contam a propina.

Dicas de Paris


Janer Cristaldo


Atenho-me principalmente à geografia etilogastronômica, informação que nem sempre encontramos nos guias de turismo. Cabe lembrar que esta oferta é imensa em Paris, e cada viajante sempre encontrará seus rumos. Cito aqueles que encontrei e gostei. São quase todos centenários e podem ser facilmente encontrados no Google ou no Google Earth.

Fora o Chartier e o Polydor, não são restaurantes baratinhos. Mas tampouco são caros. Praticam os preços médios de Paris. Normalmente, entre duas pessoas, janto por algo entre 60 e 90 euros, vinho incluído. Mas pode-se comer por dez euros naqueles restaurantes do Quartier Latin. Há menus executivos que constam de entrada, prato principal, sobremesa e eventualmente um demi pichet de vin. Nem sempre se come bem. Mas também se pode comer bem por esse preço, é questão de ter olho clínico. Evite os que ficam em ruas com alto tráfego de turistas.

Bares

• Os grandes bares de esquina ou de bocas de metrô são sempre mais caros que os botecos mais discretos. Lá, se paga pela paisagem. Num botequinho modesto de meio de rua, pode-se tomar a mesma cerveja dos bares mais imponentes, quase pela metade de preço. Vale o mesmo para cafezinho ou refeições
• Mesmo assim, estacionar em pelo menos um dos dois cafés frente ao metrô Odéon: o Danton e o Rélais de l’Odeon, um quase em frente ao outro. Apanhar um jornal, pedir algo e olhar a fauna. Vale a consumação. Por outro lado, sentar numa terrasse numa tarde de inverno, mesmo que o cafezinho custe um pouco mais, é uma boa hipótese para observar as gentes
• Se você quiser uma taça de vinho, deve pedir um ballon, rouge ou blanc, conforme seu gosto
• Dar um giro pela rue Mouffetard, perto do Panteon. Há uma feira deliciosa nas manhãs de domingo. Almoços ótimos e abordáveis. Gosto em particular de um deles, o Tire Bouchon, na rua Descartes, ao lado da Mouff. É daqueles onde se come bem por dez euros, ao meio-dia. O patron se chama Antoine e sempre me recebe de braços abertos. A Mouff merece uma visita, é uma rua para onde os parisienses tentaram fugir, para escapar ao Quartier Latin. Se bem que o turismo já chegou lá. Saindo da Sorbonne, dá uns 10 ou 15 minutos a pé.
• Um restaurante interessante a visitar é o Polydor, na rue Monsieur Le Prince, a uns cinco minutos da Sorbonne. Almoços relativamente baratos. Gosto muito, particularmente quando tem boudin no cardápio, o que não acontece todos os dias. Modesto, honesto e tradicional. Bom para um almoço sem maiores pretensões.
• Na Rue du Faubourg Montmartre, bem no início, à esquerda, há um restaurante peculiar, o Chartier, no fundo de uma “cour”. Simpático, folclórico e muito barato. Foi construído no final do século XIX, hoje está classificado como monumento histórico e gaba-se de servir o mesmo cardápio desde a inauguração. À noite, fecha às nove. Só pelo ambiente, vale a visita. Lembrar que em Paris as mesas, mesmo pequenas, são coletivas. Não se importe de sentar junto a estranhos ou que eles sentem em sua mesa. É normal em muitos restaurantes de Paris
• Na Gare de Lyon há um restaurante suntuoso, um teto de cair o queixo, o Train Bleu. Vale a pena a visita, que mais não seja para tomar um cerveja no bar e contemplar o ambiente. Não aconselho comer nele. Muito caro. Rapport prix/qualité nada conveniente
• Na Rue de l’Ancienne Comédie, quase ao lado do Deux Magots, há o Procope, fundado em 1686. Lá almoçaram desde Racine, Voltaire, Rousseau, D’Alembert até os revolucionários de 89 e Napoleão. Este deixou lá um chapéu a título de pindura. Está lá também a mesa em que Voltaire escrevia. Preços normais de Paris
• Há um belíssimo restaurante, o Julien, na rue du Faubourg Saint-Denis. Pratos excelentes, nada caros em termos de Paris. A rua é de prostituição, está um pouco deteriorada, mas é freqüentável sem problema algum
• Na rue Mabillon, procurar o Charpentier, excelente cozinha, preços humanos. Recomendo vivamente. Cuisine du terroir. O restaurante, simpaticíssimo, é ligado ao movimento de Compagnonage, uma confraria meio paralela à maçonaria. Recomendo vivamente as andouilletes AAAAA. Isto é, as andouilletes aprovadas pela Association Amicale des Amateurs d'Andouillette Authentiques. O boudin aux pommes é superbe
• Na Île St. Louis, ilha ao lado da ilha da Notre Dame, na rue St. Louis en l’Île, procurar Le Sergeant Recruteur ou, ao lado, Nos Ancêtres, les Gaulois. São dois restaurantes com menu a preço fixo. Entradas, queijos e vinhos à vontade. Quanto aos pratos propriamente ditos, escolhes um entre três opções. Não esquecer que o vinho é “à la volontê”. Não é lugar para se ir sozinho. Como é ambiente de alegria coletiva, o solitário fica um tanto deslocado. Se o garçom demora e você está sedento, estenda sua taça a seu vizinho de mesa e peça um pouco de seu vinho. Ele não vai negar. Nem estranhar
• Algo mais sofisticado e, evidentemente, mais caro: o Bofinger, numa pequena travessa da Place de la Bastille. É só chegar na Place e perguntar pelo restaurante. Sem falar na cozinha, só o interior vale uma tarde e alguns euros a mais. Quando sento lá, não tenho mais vontade de sair. Em frente, o Petit Bofinger, caso o Bofinger esteja lotado. Mas a arquitetura do Petit não se compara à do primeiro
• Um excelente restaurante, o preferido do Mitterrand, é a Brasserie Lipp, no boulevard Saint Germain. Abrigou várias gerações de intelectuais franceses. As esquerdas sempre sabem onde se come bem. Recomendo fortemente. O plat de resistance é o cassoulet, uma espécie de protofeijoada. Mas o jarret de porc tampouco é de se jogar fora
• Frutos do mar há por toda parte. Mas um dos locais mais reputados é o Au Pied de Cochon, no Les Halles. Em matéria de ostras, minhas diletas são as fines de Claire
• Em quase todos os restaurantes que arrolo, se você quiser vinho, em vez da bouteille pode pedir um pichet, ou, para amadores, un demi pichet ou un quart pichet. Ou seja, uma jarra de vinho, uma meia jarra ou um quarto de jarra. Em geral, o vinho é potável. Em restaurante bom, o vinho sempre é bom

• Tivesse eu de visitar apenas cinco restaurantes, pela ordem, eu começaria pelo Julien e Charpentier, continuaria pelo Procope e Bofinger, e terminaria com a Brasserie Lipp

• Não esquecer as virtudes da comida de rua. Há um sanduíche árabe em Paris que adoro, é o merguez au chili. Isto é, merguez é uma lingüicinha picante. Compra-se em quiosques de esquina. Atenção: munir-se de água. Pega fogo na garganta

• A gorjeta vem sempre incluída na conta. Lei do Mitterrand

• Fora isso, deve existir mais uns cinco mil restaurantes e cafés por lá, à sua espera


Outra dicas

• comer ou beber sentado custa uns 20 % a mais do que no balcão. Para um café da manhã, nada melhor que uma tartine au beurre, que é uma baguetinha com manteiga
• em compensação, se você pede um cafezinho ou chope numa mesa, pode a rigor passar uma hora sem que o garçom o incomode
• jamais pedir “une bière”, isto o denuncia como marinheiro de primeira viagem. Se o garçom for sacana, lhe empurra um litro de cerveja. Pede-se “un demi”, ou seja, un demi-verre.
• em boa parte dos bares há uma cerveja belga que gosto muito, é a Abbaye de Leffe. Esta geralmente não é servida em demi, mas em um copo um pouco maior. É mais cara que as triviais, mas vale a pena. Tem três versões: blonde, brune e radieuse. Qualquer uma é boa aposta
• se você vai ficar coisa de uma semana, tratar da carte orange (une semaine, deux zones). A semanal vale de segunda a domingo. Levar fotos 3 x 4. Ou tirá-las nas dezenas de máquinas automáticas, encontradiças em todas as ruas do centro. No metrô, se enfia o tiquete na catraca, no ônibus basta mostrar a carta ao motorista. Outra opção, carnê de dez bilhetes, mais conveniente se você chega no meio da semana
• Comprar a revista Pariscope, ou L’Officiel des Spectacles, em qualquer banca. Saem às quartas e dão toda a programação cultural da cidade. Lembrar que em Paris gastronomia também é cultura
• Usar ônibus tem a vantagem de lhe mostrar Paris. Neste sentido, o 69 é ótimo. Se você fizer o percurso de início a fim de linha, terá o melhor da cidade

Visitas a meu ver obrigatórias

No “centrão”:

As tradicionais: Notre Dame (tem concertos de órgão, domingo, às 17 hs, maravilhoso e grátis) Louvre, Sorbonne. (Na Sorbonne, depois do 11/9, não dá pra entrar mais. Só sendo estudante ou professor). Frente à Sorbonne há uns botecos agradáveis, para um lanche rápido ou leituras.
• Além do Louvre, há o Musée d’ Orsay, às margens do Sena, um desbunde. (E mais uma ou duas centenas de museus, é claro). Conforme seu tempo, terá de passar rapidinho por museus, ou não verá nada da cidade
• Saint Chapelle, no Palais de Justice, no Boul'Mich. Belíssima
• Les catacombes, metrô Denfert-Rochereaux. Antes abriam apenas um domingo por mês. Agora estão abertas durante a semana toda. Imperdível
• Centro Beaubourg, conjunto com biblioteca, exposições, etc. Se você subir ao último andar, terá uma bela vista de Paris, sem ter de enfrentar as filas nem os preços da torre Eiffel. Deambular pelas adjacências
• Um passeio pelo parque Luxembourg, a cinco minutos da Sorbonne é algo imperativo. Diria que são quatro parques em um só: a cada estação do ano, uma beleza diferente.
• Le Forum des Halles. Arquitetura subterrânea criada no espaço do antigo mercado, Les Halles. Hoje é um imenso centro comercial. (A bem da verdade, passei por lá em minha última viagem a Paris e não gostei. Me pareceu muito deteriorado). Mas a arquitetura em seus entornos é interessante.
• Domingo, às cinco da tarde, há concerto de órgão na Notre Dame. Comovente. Entrada franca
• Dedicar pelo menos uma hora percorrendo as gôndolas da FNAC, a mais poderosa livraria do país. Acho que há três FNACs em Paris. Nas FNAC há muita oferta em matéria de som e eletrônicos. Música que você jamais encontrará aqui. Neste sentido, a FNAC de Montparnasse é mais diversificada
• Tudo isto pode ser feito a pé e a arquitetura, por si só, já é uma festa. Se você se perde em algum pedaço, vai descobrindo novas geografias
• Perambular pelo Marais (bairro onde está o centro Beaubourg), Palais Royal, Place des Vosges, principalmente esta última, último reduto da aristocracia parisiense. (Mas já vi mendigos dormindo por lá)
• Dar uma olhadela no café Deux Magots (metrô Saint Germain), pelo menos em homenagem aos existencialistas dos anos 60. Fica em frente ao Chez Lipp.
• Dar uma passada no Boulevard Montparnasse, à noite. Há uma livraria interessante, L’ Oeil qui écoute. Mais cafés dos existencialistas, La Coupole, Le Dôme, também caros e turísticos. Eu gostava de um, o Select Latin, mais modesto, mas que hoje já se tornou esnobe
• Pode-se subir a Montmartre de barco. É só pegar no Sena, às 9 da manhã, um barquinho chamado La Patache, que ancora ao lado da piscina Deligny. Vai subindo por canais subterrâneos e eclusas, até o Canal Saint Martin. Chega-se ao pé do morro lá pelas 11. (Não sei se este barco existe ainda. Conferir no Pariscope)

Saindo do “centrão”:

• Perambular pela Champs Elysées, Trocadero, Eiffel, Arco do Triunfo, etc
• Pegar um metrô expresso, o R.E.R., e ir até La Défense. Ver a Arche, que os jornalistas brasileiros insistem em chamar de Arco. É o lado modernoso de Paris, frio e imponente. Acho que deve ser visto, para não se ficar com uma idéia apenas da Paris que imaginávamos. Estando lá, dar uma olhadela no Omnimax, o cinema de 360 graus. Vale
• Cité de la Science et de l’Industrie, em La Villette, ao norte, no XXe. Tem de tudo. Cabe uma visita ao Geode, outra sala de cinema com uma tela de 360°. Sessões de hora em hora. Melhor escolher um só setor da Cité, senão perde-se um dia todo
• Se der tempo, mas só se der tempo, visitar La Grande Bibliothèque, último monumento faraônico do Mitterrand. Aqueles quilômetros e quilômetros de mogno que forram paredes e pisos foram surripiados do Brasil, via o cacique Paulinho Paiakan.
• Père Lachaise, é claro. Em Asnières, ao sul de Paris, há um cemitério de cães que vale a pena como folclore. Há um outro em Villepinte. Visitá-los em dia de Finados é um espetáculo à parte.
• Procurar a Promenade Plantée. É um passeio belíssimo. Apanhá-la de manhã, por exemplo, de modo a chegar pela 1h ou 2h da tarde na Bastille e aproveitar para um almoço no Bofinger.

Et bon voyage!

18 janeiro 2010

Vasto é o mundo e a vida é breve


Janer Cristaldo

Em sua secção Blog 10+, a Veja online traz nesta semana reportagem de Isadora Pamplona intitulada “Furadas” que podem estragar suas férias. A redatora não desrecomenda país algum, mas adverte para épocas ou circunstâncias que é melhor evitar. Por exemplo, ir a Machu Picchu entre dezembro e março, temporada de chuvas. Ir a Veneza durante o carnaval. Ou ir ao Vaticano numa quarta-feira, quando milhares de pessoas se amontoam para ver o papa. Ou ir atrás da Mona Lisa, no Louvre. “O quadro é pequeno (77 centímetros por 53 centímetros), o tempo para apreciá-lo é curto e há chances de você só ver cabeças de outros turistas que embarcaram na mesma furada”. Ou passar o réveillon na Times Square. Alerta ainda os pereginos do Taj Mahal para aspectos desagradáveis da Índia que estão por toda a volta do monumento: o rio que cheira mal, o calor insuportável, os mendigos, as hordas de turistas por todos os lados… (Confira em http://tinyurl.com/y9zh423).

Até aí, nada demais. O curioso é ler as reações iradas de certos leitores a um texto que apenas pretende facilitar a vida de quem viaja. Escreve um deles: “Uma lista tão pobre e preconceituosa só pode ter saído da imaginação de alguém que nunca pôs os pés fora de mais um apartamento burguês de São Paulo. A reflexão devotada à Índia, em especial, é de uma ignorância fascista exemplar! Parabéns ao ombudsman da Folha de São Paulo pela maneira generosa com que permite à juventude branca, fascista e míope de São Paulo, divulgar seus ensinamentos!”

Viagem é como religião. Cada um defende a sua. Em sua indignação, o leitor nem notou que está lendo a Veja e não a Folha. Ao que tudo indica, andou entrando em alguma dessas furadas e sentiu-se ofendido ao ter sua viagem definida como tal. E passa a usar argumentos ad hominem. (No caso, ad feminam). Situa a jornalista como “juventude branca, fascista e míope”, como se ser branca fosse algo tão abominável como ser fascista. Sem conhecê-la, a acusa de morar em um apartamento burguês em São Paulo e de jamais ter posto o pé no mundo. Coincide que conheço a moça de perto. Não mora em nenhum apartamento burguês e seus pés muito já trotearam mundo afora.

Gostei da indignação do leitor. Sua mensagem é talvez a mais significativa de todas. O turista brasileiro, que só começou a viajar mesmo há poucas décadas, é patético. Como todo marinheiro de primeira viagem, se encanta com o primeiro porto em que atraca. Mesmo se passou mal, volta dizendo que a viagem foi divina. Afinal, investiu não poucos dólares ou euros em seu passeio e não vai admitir que deu mancada. Brasileiro adora turismo de massa, a mais burra maneira de viajar. Volta se sentindo cosmopolita. Diz-se que as viagens ilustram. Mas há quem dê dez voltas ao mundo e não aprenda nada.

Quando o assunto é viagem, não resisto. Vou então enfiar minha esquiva colher neste caldo. Diria que a redatora teve mão por demais leve ao relacionar as furadas. De minha parte, não é que eu não vá ao Taj Mahal. Eu jamais iria – nem jamais irei – à Índia. Miséria, vejo aqui mesmo. Certa vez, em Paris, conversei com Severo Sarduy, escritor cubano que degustava o amargo caviar do exílio às margens do Sena. Mostrou-me uma foto sua, semidespido, banhando-se no Gânges, aquele rio onde flutuam cadáveres de vacas e gentes. Senti uma tal repulsa pelo cubano que cheguei a hesitar em estender-lhe a mão ao me despedir. Um ocidental precisa ter muito lixo na cabeça para mergulhar naquelas águas. À Índia, não vou nem de graça. Mais ainda: não vou nem que me paguem. Se um editor um dia me escalasse para ir à Índia, me demitia incontinenti do jornal.

Ao Louvre, já fui. Acho que pelo menos uma vez na vida deve-se passar no Louvre. Mas só uma, não mais. Quanto à Mona, é um mito. Um dos quadros mais sem graça que vi em minha vida. Antes da Gioconda, eu recomendaria a alguém cem, duzentas ou mais pinturas. Hoje, pelo que me contam, o turista dispõe de poucos segundos para contemplá-la. E sai da frente, que atrás vem gente.

Museus, hoje, só visito os Museos del Jamón. Não é exatamente o que se entende por museu. São restaurantes na Espanha que têm paredes e teto forrados de presunto. Em novembro passado, em Madri, a Primeira-Namorada quis visitar o Reina Sofia. Ok! Vai lá, te espero no Gijón lendo meus jornais. Mas abri uma exceção para o Thyssen-Bornemisza, que mais não fosse ficava perto do Gijón. Tinha uma certa curiosidade pelo museu. Já na entrada, me senti cansado. 48 salas. Uma imensa sucessão de quadros, dos quais minha memória não guardaria, talvez, nem um. Na 15ª sala, disse pra Primeira: vai em frente, estou lendo meus jornais lá adiante.

Os museus se tornaram acervos descomunais que só atraem turistas. Não encontramos parisienses no Louvre. Talvez tenham ido lá, quando estudantes. Em São Petersburgo, pensei duas vezes antes de entrar no Hermitage. Acabei entrando, me pareceu muito esnobismo estar na Rússia e não conhecer o museu. Durante três horas, só consegui ver o setor de esculturas. Quando chegou o momento de ver as pinturas, desisti e fui tomar um trago no charmoso Literaturnaya Café, na Nevsky Prospekt, onde Pushkin fez sua última ceia antes de morrer. Furada, a meu ver, não é ir atrás da Mona Lisa. Furada é visitar museus, exceto os del Jamón, por supuesto. Viajante inteligente olha os museus por fora e os bares por dentro.

Hoje, não é que não vá ao carnaval de Veneza. Jamais voltaria a Veneza. Estive lá duas vezes, nos anos 70, uma vez com a Baixinha e outra com uma árdega peoniana. Naqueles anos, Veneza não era ainda uma 25 de Março. “Há cidades que um dia conhecemos e às quais não devemos voltar – disse-me uma amiga, viajora experiente –. Para não nos decepcionarmos”. Prefiro guardar na memória a imagem daquela Veneza de quatro décadas atrás, onde ouvia o chiado de meus passos – de nossos passos – na noite silente, perambulando perdidos entre os canais.

Quanto a réveillons, não me parece que seja roubada ir ao da Times Square. Réveillon é roubada em qualquer lugar do mundo. Como é roubada qualquer data que reúna centenas de milhares de gentes. Isso sem falar na roubada das ceias. Os restaurantes triplicam seus preços e impõem um menu padrão só porque é réveillon. Meus réveillons, sempre os passei isolado do mundo, tomando um vinho com alguma amiga querida.

O texto da Veja demonstra sensatez e bom conhecimento de mundo. Verdade que as roubadas podem ser educativas. Para bom aprendiz, mesmo a experiência negativa é pedagógica. O pior país que já visitei foi a Romênia. Mas talvez tenha sido a mais importante de minhas viagens. Estive lá no tempo dos Ceaucescu e vi de perto o que era o comunismo. Ainda bem que não paguei nada, uma amiga levou-me como guia.

Uns bons dois terços do planetinha, para mim, estão descartados de qualquer projeto de viagem. A equação é simples. Vasto é o mundo e a vida é breve. E a grana, curta. Então, melhor curtir o melhor e deixar o pior para uma outra vida. Felizmente, não há outra vida.

17 janeiro 2010

A santarrona de Forquilhinha


Janer Cristaldo


A pérola das Antilhas – isto é, o Haiti – gaba-se de ter sido o primeiro país latino-americano a declarar-se independente. Unidos sob a liderança de Toussaint L'Ouverture e, mais tarde, do ex-escravo Jean-Jacques Dessalines, negros e mulatos combateram as tropas francesas até a proclamação da independência em 1804. Independência para quê? Hoje, o Haiti é o país mais pobre do continente. Em um ranking de 180 países, seu PIB per capita ocupa o 130º lugar.

A Libéria – isto é, a Terra Livre - foi fundada no século XIX por escravos libertos dos Estados Unidos, não tendo conhecido o domínio colonial. O país foi criado pela American Colonization Society, organização criada em 1816 por Robert Finley, cujo objectivo era levar para a África negros livres ou negros que tinham sido libertos da escravidão. Segundo Finley e outros líderes americanos, os negros jamais seriam capazes de se integrar na sociedade do país. A única solução seria reenviá-los para a África, para evitar tanto a criminalidade como o casamento interracial.

Em 1821, a American Colonization Society adquiriu uma parcela de terra na África, onde se fixariam os primeiros colonos negros oriundos dos Estados Unidos. Em 1847, a Libéria declarou a sua independência, tornando-se o primeiro país africano a tornar-se independente. Independência para quê? Hoje, a Libéria é ainda mais pobre que o Haiti. No mesmo ranking de 180 países, seu PIB per capita ocupa o 159º lugar.

Conclusão? Antes que me chamem de racista, apelo ao testemunho de George Samuel Antoine, cônsul do Haiti no Brasil. Sem saber que estava sendo gravado pela reportagem do SBT Brasil, Samuel Antoine disse: “O africano em si tem maldição. Todo lugar que tem africano lá tá fodido". Verdade que logo depois se apressou em dizer que foi mal interpretado. Mas não vejo muito como interpretar mal sua afirmação. Disse, está dito. Como cônsul, deve conhecer bem o país que representa.

Em 1957, o médico François Duvalier, mais conhecido como Papa Doc, foi eleito presidente do Haiti, onde instaurou um governo baseado no terror promovido pelos tontons macoutes, membros de sua guarda pessoal. Em 1964, no melhor estilo de Fidel Castro ou Hugo Chávez, decretou sua presidência vitalícia. Deu ordens para a produção de panfletos, onde, entre outras informações, designava-se deus. Foi quando o Haiti tornou-se a nação mais pobre do continente. Ao morrer, em 1971, foi substituído por seu filho, Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc, que hoje come o amargo caviar do exílio em Paris.

Escrevi ontem sobre Zilda Arns, a Teresa de Calcutá tupiniquim, morta no terremoto, e afirmei: “quem conhece o que penso de Agnes Gonxha Bojaxhiu, a santarrona albanesa, sabe que nisto não vai nenhum elogio”. Não faltou leitor que me interpelasse. Que tens contra a madre Teresa? É leitor que não me acompanha. Entre outras proezas, madre Teresa recebeu das mãos de Baby Doc a "Légion d'honneur" haitiana. Isso sem falar nas flores que levava à tumba de um dos mais sanguinários ditadores dos Balcãs, Enver Hoxha, seu conterrâneo. Mas falava da Arns, a novel santa brasileira.

Escreveu um de meus interlocutores: “Janer, tua biografia poderia passar sem essa crônica. Misturas alhos com bugalhos e de leva ofendes a Zilda Arns. Essa mulher conseguiu criar, no Brasil, um serviço que reúne 250 mil voluntários e atende dois milhões de pessoas. O fato de ser religiosa apenas mostra a base para seus ideais. Independentemente da tua fobia por papas, bispos ou cardeais, poderias ter passado sem realizar essa agressão gratuita para uma pessoa cujo único crime foi a bondade”.

Bondade? Em termos. Por trás da bondade, muitas vezes se esconde a perversidade. Para atender dois milhões de miseráveis é preciso que existam dois milhões de miseráveis. O número deles seria menor se houvesse uma política de redução da natalidade. Isto, como boa católica, Zilda Arns não admitia. Condenava anticoncepcionais e preservativos. The sperm is sacred, como diziam os Monty Python. Esta atitude criminosa da Igreja romana, que só aumenta a miséria no mundo, está dizimando africanos aos magotes, pela AIDS, nos países de predominância católica. A Teresa de Calcutá tupiniquim foi cúmplice desta política assassina. Com sua atitude hipócrita, Zilda Arns criava os miseráveis para depois atendê-los. A Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana é uma caftina de miseráveis. Não por acaso, só se expande em países pobres. Sem miséria, não é fácil ser santo. Falta clientela.

Este política pode ser vista em São Paulo. Quando alguma autoridade inventa de retirar os mendigos da rua, lá vêm as igrejeiras: "quem tirou daqui nossos mendigos? Queremos nossos mendigos de volta". Não estou usando de retórica. Esta frase eu a li no Ceciliano, boletim da paróquia de Santa Cecília, aqui ao lado de onde moro. Quando foram retirados os mendigos do largo que entorna a Igreja, os padres chiaram: queremos nossos mendigos de volta.

Miséria, bem explorada, dá lucro. Com milhares de mendigos na rua, estão garantidos os milhões de dólares que a Miseoror, a Cáritas e outras entidades européias enviam para a Igreja brasileira. Com estes milhões, Arns fornecia aos miseráveis uma sopa feita de arroz, milho, sementes de abóbora e cascas de ovo. Ontem ainda, esta gororoba foi saudada pelo senador Flávio Arns, seu sobrinho, como o grande "legado" deixado pela titia na luta contra a mortalidade infantil. Lula já pede um prêmio Nobel póstumo para a santarrona de Forquilhinha.

Obscurantismo, dizem os dicionários, é a atitude, doutrina, política ou religião que se opõe à difusão dos conhecimentos científicos entre as classes populares. O obscurantismo de Zilda Arns não se resume à condenação do controle de natalidade. Ao manifestar-se contra as experiências com células-tronco, a médica sanitarista de Forquilhinha está negando a ciência e condenando experiências vitais para a humanidade. "Quanto mais próximo se está da ciência, maior o crime de ser cristão", já dizia Nietzsche. Esta senhora, a estrela do terremoto no Haiti, de um obscurantismo que nos remete aos dias em que Galileu foi condenado pela Igreja Católica, está sendo hoje promovida a santa pela imprensa nacional.

Last but not least, não tenho fobia nenhuma por papas, bispos ou cardeais. Tenho asco. É diferente.

15 janeiro 2010

Brancos provocam terremoto no Haiti

Janer Cristaldo


"Houve uma coisa que aconteceu no Haiti muito tempo atrás, e as pessoas não querem falar sobre isso" - disse ontem o pastor evangélico Pat Robertson em um programa da Christian Broadcasting Network's (rede de TV comandada por Robertson) -. "Eles estavam sob o domínio francês. Você sabe, Napoleão 3º, ou o que for. Então eles se juntaram e selaram um pacto com o Diabo. Disseram: 'Vamos servi-lo se você nos tornar livres dos franceses’. É uma história verdadeira. Então, o Diabo disse: ok, negócio fechado".

Que um pastor evangélico diga isto é inteligível. Em um país religiosamente fanatizado como os Estados Unidos, o diabo ainda tem grande futuro. Mais ainda: tinha Napoleão III como coadjuvante. Que pessoas simples vejam terremotos como castigo divino, também se entende. Verdade que fica um tanto difícil entender como o bom Deus teria levado junto uma de suas mais fiéis servidoras, Zilda Arns, a Teresa de Calcutá tupiniquim, e quem conhece o que penso de Agnes Gonxha Bojaxhiu, a santarrona albanesa, sabe que nisto não vai nenhum elogio. Zilda Arns, hoje santa, pertence à ala mais rançosa da Igreja católica. Apesar de vivermos em país que se pretende laico, lutou toda sua vida contra o aborto e as pesquisas com células-tronco.

Sem falar que sua Pastoral da Criança não admite anticoncepcionais nem preservativos. Quanto mais famintos existirem no mundo, mais aplainado fica o caminho até o Nobel da Paz, láurea que tem se caracterizado por prestigiar notórios vigaristas internacionais. Zilda tentou três vezes. Verdade que até hoje os noruegueses foram insensíveis às pretensões da irmã do cardeal fanzoca de Fidel Castro e defensor dos terroristas que um dia tentaram transformar o Brasil em uma grande Cuba. Na Folha de São Paulo, por conta própria, Eliane Cantanhêde já lhe conferiu um prêmio Nobel da Paz póstumo.

Que mais não seja, personagem que é louvado por frei Betto e Reinaldo Azevedo, por Lula e Sarney, por Michel Temer e Marina Silva, boa bisca há de ser. Zilda Arns já conta com um milagre em sua vida para futura canonização: reuniu Reinaldo e Frei Betto, Lula e Sarney sob uma mesma bandeira. O recórter hidrófobo tucanopapista finalmente juntou-se aos seus pares. Uma vez Libelu, sempre Libelu.

Sua morte deve ter alguma explicação. Vai ver que foi dano colateral, como costumam dizer os militares americanos para justificar seus assassinatos de inocentes. De qualquer forma, causa espécie que, nestes albores do século XXI, alguém pense que terremotos têm causas teológicas e não geológicas.

Uma outra teologia que não a católica está minando os espíritos na tentativa de explicar a tragédia. É a teologia dos ecochatos: o responsável pelo terremoto é o ser humano. Mal transcorreram três dias do acidente e já ouvi uma cópia de teorias, todas elas transferindo à ação do homem sobre a natureza a responsabilidade pelo sinistro. Como se placas tectônicas estivessem preocupadas com o que os homenzinhos fazem na superfície do planeta. Decididamente, os apocalípticos da ecologia já ganharam o debate.

Trocando os queijos de bolso: mal o termômetro chega a 30º aqui em São Paulo, não falta taxista que branda o efeito estufa. Seria a ação desordenada do ser humano que provoca essas temperaturas. Como se durante séculos 30º graus não fossem normais em São Paulo. Como se as eras de glaciação e aquecimento não tenham se alternado, durante milênios, na trajetória do planetinha, quando o homem ainda nem pisava a Terra. Como se hoje, em plenos dias dos profetas do efeito estufa, a Europa não estivesse soterrada sob um dos mais rigorosos invernos das últimas décadas. Mas fé é fé. Contra a fé, não há argumentos. 30º graus? O culpado é o ser humano.

Existe no entanto tese ainda mais insólita que a dos pastores evangélicos americanos ou a dos taxistas paulistanos. Na Folha de São Paulo de ontem, em artigo intitulado "O Haiti já estava de joelhos; agora, está prostrado", Omar Ribeiro Thomaz, antropólogo e professor da Unicamp, culpava pelo terremoto não Deus nem o ser humano. Mas especificamente... o homem branco:

“Diante da fúria da natureza não cabe outro sentimento que o de uma frustração que deita raízes numa história profunda e que subitamente pode ganhar cor: o mundo dos brancos nos destruiu; o mundo dos brancos diz que quer fazer alguma coisa, mas o que faz, além de nutrir seus telejornais com fotos miseráveis que só fazem alimentar a satisfação autocentrada dos países ditos ocidentais?”

A deduzir-se do artigo do antropólogo, os contingentes brancos que estão chegando ao Haiti para tentar salvar os sobreviventes do desastre, as somas milionárias que o Ocidente está despendendo para reerguer o Haiti, tudo isto não passa de “mauvaise conscience” do homem branco ocidental.

Essa agora! Fui responsável pelo terremoto e não sabia. Fomos nós, homens brancos, quem acionamos placas tectônicas subterrâneas para exercer nosso racismo e ódio contra os haitianos. Ainda bem que existem a Folha e a Unicamp para esclarecer-nos sobre nossas ações deletérias contra a saúde do planeta. Desculpem-me os leitores minha mão pesada. Se, em meio a tantos negros, matei alguns branquelas.

Danos colaterais.

13 janeiro 2010

Bode no Planalto

Janer Cristaldo


Leitores me perguntam se não vou comentar o famigerado Decreto 7.037, que estabelece o Programa Nacional dos Direitos Humanos, último estertor das viúvas do Kremlin neste Brasil onde o fundo do ar ainda é vermelho. (Le fonds de l’air est rouge, como diziam os filhinhos-de-papai de 68 em Paris). A bem da verdade, não pretendia comentar. A grande imprensa está denunciando vigorosamente a miniconstituinte com pele de decreto e é óbvio que o texto como está não vai passar. Houve sede demais em ir ao pote. O projeto do terrorista Paulo Vannuchi desagradou muitos e poderosos setores do país, a começar pelas Forças Armadas e a Igreja. O que não convém em período eleitoral, particularmente em ano em que o governo aposta todas suas fichas em outra terrorista.

Gosto de denunciar o que a imprensa não denuncia. Em todo caso, já que os leitores insistem, vamos lá. A miniconstituinte – ou golpe, como a definem alguns jornalistas – entre outras pérolas, abole de uma penada o direito à propriedade, a liberdade de ensino e a liberdade de imprensa. Não é preciso ter boa memória para estar consciente de que já vimos isto. URSS, China, Coréia do Norte, Camboja, Cuba, lembram? É o que dá quando um país permite que tomem assento no poder celerados que deveriam estar na cadeia. Dizem que os militares foram os vencedores de 64. Ledo engano. Os militares foram fragorosamente derrotados em 64. Seu papel na história hoje é o de vilões. Os terroristas que teriam sido derrotados, que queriam transformar o país numa republiqueta de Moscou, ocupam hoje o pódio dos heróis.

Por cima da carne seca, nada mais natural que tentem tornar texto legal o que já existe em germe na prática. O direito à propriedade tem sido esbulhado todos os dias pelos sedizentes sem-terra, com a anuência do Judiciário e do Executivo. Imprensa livre, pedra de toque da Constituição de 88, virou piada. Qualquer juizeco de primeira instância, com um canetaço, proíbe qualquer jornal de denunciar as corrupções do governo. Quanto ao ensino, desde há muito sabemos que é controlado pelos antigos comunossauros. As universidades, hoje, e particularmente as católicas, são laboratórios de marxismo. As sumidades do Planalto devem ter pensado: já que chegamos lá, vamos então oficializar a coisa.

Me escreve uma amiga muito querida, advogada de profissão: “o tresloucado decreto prevê, em casos de invasão de propriedades, deva a vítima buscar a solução do conflito junto a comissões de governo (formada por quem sabe-se lá,"membros da sociedade civil"). A vingar a tentativa terrorista, não mais poderemos deixar nossas casas, por exemplo, para viajar. Pois, ao regressar, talvez encontremos a fechadura já devidamente trocada pelos invasores. Daí, só nos restará chorar no ouvido de uma comissão ("de frente"), cuja decisão não é difícil prever! Somente depois, se a malsinada comissão não resolver, aí, sim, é que o pobre cidadão esbulhado poderá buscar a prestação jurisdicional assegurada pela Constituição Federal. Pode?”

Pode. E desde há muito. Hoje, se um fazendeiro tem suas propriedades invadidas, não pode mais chamar a polícia e expulsar os invasores. O Judiciário, ao avocar a si o julgamento de uma questão de âmbito policial, deu de bandeja à guerrilha católica o que mais desejavam os bandoleiros. Mais ainda: mesmo que o juiz conceda ao proprietário imissão de posse, conforme o Estado o Executivo se arroga o luxo de desobedecer à ordem judicial.

O que me espanta em tudo isto é que os ditos sem-teto ainda não tenham começado a invadir casas de praia, afinal ficam sem “função social” durante quase todo o ano. Mas minha amiga não perde por esperar. No ritmo em que vamos, mais dia menos dia chegamos lá. Com ou sem Decreto de Direitos Humanos. E juiz de esquerda é o que não faltará para reconhecer o direito de posse do invasor.

Na Espanha já se chegou. Um cidadão, não lembro agora em qual cidade, saiu de férias e, ao voltar, encontrou o apartamento invadido e com a fechadura trocada. Aconteceu há uns 15 meses. Até hoje, o proprietário ainda não retomou a posse. Fosse eu, rebentava a porta, entrava na marra e mandava o vagabundo embora. Se alguém pode invadir minha casa, por que eu, o proprietário, não posso? Acontece que o Direito não permite. Se eu tenho a propriedade, o bandido tem a posse. E se na Espanha já houve sentença neste sentido, a moda não vai demorar muito a chegar até nós.

O nó górdio do decreto, no entanto, reside em outro item. É a tentativa de revanche do terror, que quer mandar para a cadeia os militares que um dia, por consenso comum, foram anistiados. Para as esquerdas, anistia é unilateral. Só a esquerda pode ser anistiada. Ocorre que não é este o sentido da instituição. Anistia é para os dois lados, ou não é anistia. Vannuchi, em sua truculência, está propondo uma volta aos tempos primitivos, quando vendeta era uma forma aceitável de justiça.

O famigerado decreto é uma recidiva de marxismo no PT. Depois que o Lula demoliu os ideais do partido, alguns puros e duros decidiram desfraldar de novo a velha bandeira. Se pegar, pegou. Mas não vai passar. Eu diria que é uma espécie de bode na sala. No caso, no Planalto. Retirado o bode, todo mundo fica contente com o que já tem. Restarão, é claro, alguns excrementos do animal.

Para um país que engole Lula, engolir merda é o de menos.

09 janeiro 2010

Questões de fé: Deus e ponto G


Janer Cristaldo


A fé, dizem os teólogos, é a atitude interior daquele que crê. O verbo “crer” faz sua primeira aparição em Gênesis, 15,6, quando Deus faz a Abraão uma promessa inverossímil: “Olha agora para o céu, e conta as estrelas, se as podes contar; e acrescentou-lhe: Assim será a tua descendência”. Verdade que Jeová exagerava em sua bíblica retórica, ou talvez desconhecesse as dimensões do universo que criara, afinal se dos filhos de Abraão hoje temos uma idéia mais ou menos precisa de quantos são, das estrelas não temos idéia alguma. Mas falava de fé: “E creu Abrão no Senhor, e o Senhor imputou-lhe isto como justiça”.

Nasci ateu, como nascem todas as crianças. A fé só me foi inculcada mais tarde, através da catequese. Felizmente, para meu conforto interior, logo descobri que Deus só existia em minha cabeça. Verdade que esta certeza em muito antecede minha existência, mas que se vai fazer? Fora o Fulano aquele, ninguém nasce com a ciência infusa.

Se precisei de alguma reflexão para descrer em Deus, no chamado ponto G nunca tive muita fé. Se a idéia de Deus nasceu bem antes de mim, a idéia do ponto G surge bem depois. Sou homem antigo, quando ainda não existiam TPM, transtorno bipolar nem ponto G. Nasci em 1947 e o tal de ponto erótico só foi aventado em 1950, pelo ginecologista alemão Ernst Gräfenberg, daí o G. Ou seja, antes de meados do século passado ninguém tinha ponto G. Ou, se tinha, jamais havia percebido. Pobre humanidade esta nossa, que durante milênios ignorou um local de prazeres inefáveis. Depois de Gräfenberg, o ponto G virou dogma. E milhares de homens e mulheres saíram em sua busca.

De minha parte, confesso que jamais o encontrei. Por outro lado, jamais o procurei. Tampouco conheci mulher que o tenha encontrado. Ponto G, para mim, faz parte das lendas urbanas. O Journal of Sexual Medicine, do King’s College London, acaba de confirmar minha descrença. A esquiva zona de prazer que existiria em certas mulheres seria um mito, dizem os pesquisadores que tentaram encontrá-la. A pesquisa, que envolveu 1800 mulheres, concluiu que o ponto G é um produto da imaginação das mulheres, encorajado pela imprensa e pelos terapeutas sexuais.

Francesas, indignadas, protestam. Em irado artigo no Libération, sem assinatura mas de óbvia lavra feminina, leio:

“Não gozem mais! Seus orgasmos não passam de auto-sugestão. No 04 de janeiro de 2010, como se fosse necessário começar o ano com um estudo que não serve para nada, uma equipe do King’s College London, composta por Tim Spector (professor de epidemiologia genética) e Andrea Burri (psicóloga de Berna), entregou o resultado da “mais extensa pesquisa jamais feita no mundo sobre o ponto G” (sic), com as seguintes conclusões: o ponto G é um dado totalmente subjetivo”.

A articulista continua derramando sua indignação. Ironiza: que as mulheres que pretendem ter um ponto G teriam imaginação excessiva. Que Andrea Burri inclusive acusou os sexólogos de ter inventado esta zona erógena, tornando assim loucas de inquietação as infelizes que não a tenham encontrado. “É totalmente irresponsável proclamar a existência de uma entidade de cuja existência não se tem prova nenhuma e, isto feito, pressionar as mulheres, que se sentem diminuídas, aleijadas pelo fato de não corresponderem à norma”.

Mutatis mutandis, é o que penso da “existência” de Deus. Com uma diferença: a suposta existência de Deus é muito útil para quem pretende exercer poder sobre seus semelhantes. O ponto G só serve para diminuir mulheres que nele acreditam mas não conseguem achá-lo.

O estudo foi feito entre 1804 mulheres, todas gêmeas, de idade entre 23 a 83 anos. Partindo do princípio de que gêmeas têm um mesmo DNA, os dois pesquisadores tentaram mostrar que não era normal que certas mulheres tivessem um ponto G e não suas irmãs. “Se o ponto G existisse, cada gêmea teria um, não é verdade?” Falso – respondem outros médicos -. As gêmeas geralmente não têm o mesmo parceiro sexual.

Argumento frágil, o destes outros médicos. É como afirmar que o ponto G não está na mulher, mas depende do parceiro. Nos anos 50, Simone de Beauvoir brandiu um argumento que empestou o feminismo durante décadas: não se nasce mulher, torna-se mulher. A sexóloga Beverly Whipple, responsável pela popularização do ponto G em 1981, retoma la Beauvoir: “Ninguém nasce com um ponto G. Encontra-se”. O mesmo eu diria de Deus.

Como o orgasmo, o prazer propiciado pelo ponto G seria fruto de um treinamento, de uma progressiva educação do corpo e, sobretudo... do azar. “Você pode encontrá-lo tateando. Você pode aumentar sua potência e executá-lo como a um instrumento. É como na loteria. Nem todas as mulheres o têm. Algumas o encontram em idade avançada. Outras têm a sorte de pôr o dedo em cima rapidamente”.

O que me lembra o paradoxo do gato de Schrödinger, que existe e não existe ao mesmo tempo. O raciocínio é mais ou menos este: o ponto G provoca orgasmos intensos. Você tem - ou teve - orgamos intensos? Então o ponto G existe. A articulista prossegue, furiosa:

“O corpo humano é tão cambiante que basta às vezes uma carícia inédita, de um(a) novo(a) parceiro(a), de uma mudança do regime alimentar ou de uma maternidade, para colocar bruscamente em tensão partes do corpo que até ali pareciam apenas mediocremente providas de nervos... Cada centímetro de pele esconde tesouros de sensações. Por que então, nestas condições, lançar-se em um estudo assim absurdo que consiste em afirmar que um lugar do corpo não é erógeno enquanto todos os outros o são, potencialmente?”

O que a autora afirma confirma minha intuição inicial. Como Deus, o ponto G está em todas as partes. Ela insiste:

“Para apreciar o vinho, certas pessoas treinam suas papilas a distinguir cada aroma. Para distinguir e memorizar os perfumes, outras participam de concursos de incenso. Aguçamos nosso olfato, como aguçamos outras sensações... provenham elas de mucosas ou não. É provavelmente aqui que falha o estudo britânico. Negando a existência do ponto G, os cientistas afirmam que liberam as mulheres (e os homens) de uma carga muito pesada de portar. Eles se equivocam. Aqueles e aquelas que se queixam do diktat do prazer seriam bem mais aliviados ao saber que não existem um, mas centenas de pontos G, de receptores capazes de transformar os sons, as carícias, os odores, as palavras, as cores, ou os sinais químicos em tantos outros estímulos afrodisíacos. Por que circunscrever as zonas erógenas, reduzi-las a alguns dados médicos (corpúsculos de Krause, glandes de Skene, que sei eu), com esta maldita mania de objetividade?”.

Já melhorou. Neste sentido, tanto o os olhos como os ouvidos podem ser pontos G. Por que então situá-lo na vagina? As coisas que não existem em muito se parecem. A moça fala em vinho e perfumes. Ora, o vinho tem consistência, tem cor, tem sabor. O perfume tem consistência, tem odor. Deus e o ponto G jamais foram vistos, não têm consistência alguma, cor muito menos, sabor nenhum, odor idem. Se já ouvi de crentes: “Deus existe, eu O encontrei”, jamais ouvi de uma mulher: “O ponto G existe, eu o encontrei”.

Deus só existe na cabeça dos teólogos. E o ponto G, no bestunto dos sexólogos.

06 janeiro 2010

Europa já tem tribunais islâmicos

Janer Cristaldo


Ainda os muçulmanos. Segundo Vincent Geisser, estudioso do islamismo e da imigração no Centro Nacional de Pesquisas Científicas francês, quanto mais os muçulmanos da Europa se firmam como parte permanente dos cenários nacionais, mais assustam alguns europeus que pensam que suas identidades nacionais podem ser mudadas para sempre. "Hoje, na Europa, o medo do Islã cristaliza todos os outros medos", disse Geisser. "Na Suíça, são os minaretes. Na França, é o véu, a burca e a barba."

Geisser sofisma. Os europeus não têm exatamente medo do Islã. Antes de ter medo, têm asco. Islamofobia é um neologismo safado. Melhor se diria se falássemos em islamojeriza, ou palavra semelhante. Os suíços não temem os minaretes. Apenas não os querem desfigurando o desenho de suas cidades. Muito menos como símbolo de um poder religioso que quer impor-se ao Estado. Tampouco os franceses temem o véu ou a burca. Apenas não querem símbolos religiosos – que denotam a opressão da mulher – em suas escolas. Quanto à barba, os franceses não têm nada contra. Geisser, que só pode ser porta-voz das esquerdas derrotadas no final do século passado, a incluiu apenas para envenenar a discussão.

"Existe na Europa uma angústia existencial em torno da identidade", diz Geisser. "Há uma sensação de que a Europa está encolhendo e perdendo importância. A Europa é como uma senhora idosa que, a cada vez que ouve um barulho, pensa que é um ladrão." Esse clima generalizado de ansiedade se traduz em um medo específico, diz ele: o medo do islã, "uma caixa que recebe os medos de todos".

Não há sensação que a Europa está encolhendo. Com sua atual taxa de natalidade, a Europa está de fato encolhendo. Não que a Europa esteja perdendo importância. Mas está cedendo terreno ao Islã. Não é que a senhora idosa, a cada barulho, pense que se trata de um ladrão. O ladrão já está dentro de sua casa, roubando seus impostos, sua segurança, sua assistência social, quando não suas vidas.

Segundo Youcef Mammeri, escritor e membro do Conselho Conjunto de Muçulmanos de Marselha, o racismo na França passou de antiárabe para antimuçulmano, o que, para ele, é "um retrocesso terrível". Em primeiro lugar, nunca houve racismo antiárabe, nem na França nem na Europa. Tanto que a UE acolhe hoje algo entre 15 e 20 milhões de imigrantes muçulmanos, isto é, árabes. Continuando, Islã não é raça. É religião. Se pessoas se opõe a uma religião, não se pode falar de racismo. Mammeri desloca o cerne da discussão, para acusar os europeus de racistas.

Há árabes que são muito bem vistos na Europa. Para começar, todos os que lecionam em suas universidades. Foram chamados a contribuir com a cultura européia e contra estes nada consta. A restrição dos europeus não é a uma raça, ou mesmo nacionalidade. Mas a uma religião intolerante e invasiva que começa a minar inclusive as leis do Velho Continente.

Na França há um personagem muito particular, é o chamado “arabe du coin”, o árabe da esquina. É aquele árabe que tem uma quitandinha que fica aberta até altas horas da noite, quando todo francês está entregue ao lazer. É o último recurso de quem precisa de um vinho, patê ou queijo e não tem mais onde comprar. O árabe da esquina não precisa ser da esquina e nem mesmo árabe. Pode ser até um chinês e ficar no meio da quadra. São pessoas que trabalham, estão integradas à sociedade francesa, respeitam as leis do país e jamais lhes ocorreria sair a quebrar vitrines e queimar carros. Francês algum tem algo contra este imigrante.

O que o francês – e o europeu em geral – não suporta é a pretensão de imigrantes que querem criar um Estado dentro do Estado. Houve época em que um imigrante chegava à Europa perguntando quais seriam seus deveres. Hoje, o imigrante chega exigindo seus direitos. Exige inclusive o direito de permanecer ilegalmente no país. Europeu é o que não falta para dar apoio a esta pretensão descabida. Quem é contra a permanência ilegal de um imigrante no continente não é considerado um defensor do Estado de direito. Mas racista. As viúvas do Kremlin, que não conseguiram destruir a idéia de Europa com o marxismo, são os primeiros a apoiar os imigrantes ilegais. Se não conseguimos destruir a Europa e suas instituições com o comunismo, vamos agora destruí-las com o Islã.

Muçulmanos não aceitam as leis dos países que os acolhem. Viciados por Estados teocráticos, onde a religião tem força de lei, querem impor suas leis – isto é, sua religião – para os Estados para onde migram. Leio no Estadão que uma investigação da polícia da Catalunha revelou a existência de tribunais islâmicos clandestinos em plena Espanha. A primeira corte ilegal descoberta na Espanha operaria como em um país muçulmano, com a aplicação do rigor da Sharia, a lei islâmica. O tribunal foi revelado no início de dezembro quando a Justiça da região de Tarragona indiciou dez imigrantes por liderar uma corte que teria sentenciado à morte uma mulher muçulmana.

Ou seja, o imigrante muçulmano – ao arrepio da legislação dos países que os acolhem – criam tribunais paralelos de exceção. Segundo a polícia espanhola, é "provável que se tenha estabelecido um tribunal de honra islâmico". Sete dos acusados estão em prisão preventiva. Se condenados, podem pegar até 23 anos de prisão por cárcere privado, tentativa de homicídio e associação ilícita. E nunca falta um intelectual qualquer na Europa que acuse os europeus de racismo quando os europeus querem apenas defender suas leis e modus vivendi. O “provável” da polícia espanhola é eufemismo. Os tribunais de honra islâmico existem de fato.

O primeiro indício do tribunal foi registrado em março, quando uma marroquina denunciou o marido em uma corte espanhola por maus-tratos e tentativa de assassinato. A Justiça concluiu que o marido, Hassan Oulad Omar, havia denunciado sua mulher a um tribunal islâmico clandestino por desobediência. Ela estava grávida e o marido queria obrigá-la a abortar. Segundo a vítima, cujo nome é mantido em sigilo, ela foi sequestrada e julgada por 20 homens, que deliberaram sobre seu destino por horas. No fim do dia, foi levada para a casa de um dos membros do tribunal, mas conseguiu escapar durante a noite.

Segundo o jornal, na Grã-Bretanha, onde há uma grande população muçulmana, a Sharia começa a ser usada para resolver disputas familiares e pequenas causas. O primeiro tribunal foi identificado em 2008, mas opera desde 2007. Já comentei caso na Escandinávia em que um muçulmano, junto com seus filhos, executou uma filha porque esta tinha relações antes do casamento com um sueco. Não foi preciso tribunal algum. A família se erigiu em tribunal.

Ninguém põe na cabeça de um muçulmano que ele precisa respeitar as leis e os costumes do país que o acolhe. Pior ainda, já há juízes europeus, em plena Europa, julgando segundo as leis do Corão. Há três anos, comentei o caso da juíza Christa Datz-Winter, de Frankfurt, que negou o pedido de divórcio feito por uma mulher muçulmana que se queixava da violência do marido. A juíza declarou que os dois vieram de um "ambiente cultural marroquino em que não é incomum um homem exercer um direito de castigo corporal sobre sua esposa". A recomendação de Christa foi condenada até mesmo por líderes muçulmanos.

Quando a mulher protestou, Datz-Winter citou uma passagem do Corão, onde consta que "os homens são encarregados das mulheres". Ironicamente, coube ao Conselho Central dos Muçulmanos na Alemanha defender as leis da Alemanha. A juíza "deveria ter decidido exclusivamente nas linhas da Constituição alemã", declarou o grupo muçulmano. "Violência e abuso contra pessoas - sejam elas homens ou mulheres - também são razões para conceder um divórcio no Islã, é claro".

Quando uma juíza alemã troca o Código Civil pelo Corão e muçulmanos precisam defender a constituição de um país europeu, o Ocidente está mal das pernas. Há horas líderes muçulmanos pedem, na Suécia, a adoção da legislação muçulmana para regulamentar os casamentos de muçulmanos.

Na Alemanha, já nem é preciso pedir.

05 janeiro 2010

Ateus x Crentes ou Comunistas x Sacerdotes?

Líderes religiosos, com seu instinto de sobrevivência, podem ser muito tolerantes com movimentos revolucionários. O papa Pio VII não estava prestes a coroar Napoleão, conferir-lhe sobre a França o direito divino outrora pertencente à nobreza guilhotinada pelos mesmos revolucionários dos quais o corso agora era o senhor?

A Igreja Ortodoxa, tão ligada aos czares, assistiu à matança promovida pelos bolcheviques sem dar um pio, pois se declarou neutra no conflito. O patriarca Thikón excomungou os comunistas quando sua igreja perdeu seus bens mais preciosos – suas posses aqui no planetinha. A partir de então o clero passou a ser perseguido e as manifestações religiosas proibidas. Só no ano de 1937 foram presos 136 mil clérigos, dos quais 85 mil foram assassinados. Bom lembrar que boa parte dos padres desejava restaurar a monarquia, era inimiga declarada do governo comunista.

Stalin começou a afrouxar a perseguição e em 1939 ela cessou. A simpatia para com o comunismo cresceu muito desde então, e após a invasão da Rússia pelas tropas nazistas em 1941, a Igreja Ortodoxa conclamou o povo a lutar ao lado dos comunistas e até mesmo coordenou coleta de donativos para a resistência.

Pio XI referiu-se a Mussolini como “Enviado da Providência”, por ocasião da assinatura do Tratado de Latrão. Quatorze anos depois, o patriarca ortodoxo russo Sérgio I galardoou Stalin com o mesmo epíteto. Em 1943 Stalin autorizou a eleição de um novo patriarca. O próprio deus dos cristãos escolheu Sérgio como metropolita em um divino sorteio. A vaga estava desocupada desde a morte do patriarca Thikón, ainda na época de Lênin. Stalin achava que seria melhor uma única e grande igreja ligada ao partido comunista do que vários grupos religiosos dispersos. O novo patriarca chamou Stalin "sábio líder eleito e famoso pela Providência divina para dirigir a mãe terra pelo caminho da prosperidade e da glória". Stalin, o ex-seminarista, o ateu (na verdade, trocou de deus), disse, em retribuição: "nossa Santa Igreja tem nele um fiel protetor". Pio XI recebeu do Duce, o facínora, o Estado do Vaticano. O novo patriarca ortodoxo recebeu de Stalin, o facínora, a antiga embaixada alemã, um portentoso prédio de linhas clássicas. Os comunistas permitiram que fosse reaberto o Seminário de Moscou, libertaram os clérigos presos, devolveram muitas propriedades da Igreja, incluindo o famoso Mosteiro da Trindade ( e São Sérgio).

Em 1945, Sérgio I recebeu a medalha “pela defesa de Leningrado”, e em 1946 a "Ordem da Bandeira Vermelha" por serviços prestados ao comunismo e a medalha “por serviços distinguidos durante a guerra patriótica de 1941-1945”. O líder da Igreja Ortodoxa chegou a escrever um livro para tentar provar que jamais houvera perseguição religiosa na Rússia comunista, o que é uma demonstração de como é possível mentir descaradamente quando se é movido por “nobres” objetivos e interesses.

Sérgio e a seguir toda a Igreja Ortodoxa Russa passaram a ser instrumento do governo comunista para moldar as consciências e assim ajudá-lo a conduzir o populacho pelo focinho (como diria Nietzsche), mais prático do que com grilhões e chibatadas. Claro que o culto religioso não foi estimulado pelo Partido Comunista, apenas tolerado, afinal era um mal necessário. E a estrutura “religiosa” comunista não admitia concorrência. Os comunistas tinham um evangelho (Manifesto do Partido Comunista) e um livro do Apocalipse (O Capital) escritos por um profeta judeu barbudo (Marx), um juízo final (a revolução), um demônio (o capitalismo), um paraíso socialista, santos (Lênin, Stalin), um logotipo sagrado (foice e martelo), exaltavam o pobre e demonizavam o rico, possuíam uma igreja (Partido Comunista) e um clero (líderes do Partido), um papa (o secretário-geral), e crenças não falseáveis, popperianamente falando, proféticas, pois asseveravam que a história obedece a uma lei misteriosa que permite antecipar o futuro, prever a vitória completa do comunismo, no caso.

A igreja russa sofreu atrozes perseguições? Obviamente, mas soube se adaptar ao regime soviético, o que prova que a questão toda não fora entre ateus e religiosos, mas entre comunistas e sacerdotes, entre comunistas e anticomunistas.

Giovanni Codevilla, professor de Direito Eclesiástico Comparado e Direitos dos Países da Europa Oriental, defende que os verdadeiros religiosos foram martirizados e uma nova hierarquia subserviente foi nomeada pelo regime comunista. Mas mesmo ele reconhece que “a agressão alemã, e a conseguinte trégua antirreligiosa (a chamada Nep religiosa stalinista), permitiu a sobrevivência das igrejas.” O fato é que o nome de Sérgio e dos outros dois que participariam da “eleição divina” foram apontados pelo sucessor de Thikón, preso pelos comunistas, e não por Stalin.

Mas o casamento não foi nada absurdo. Marxismo e cristianismo têm muito em comum. As Comunidades Eclesiais de Base, a Pastoral da Terra, a CNBB, a Teologia da Libertação, entre outros monstrinhos, são claros exemplos disso. Antes do marxismo, aliás, já havia utopias socialistas cristãs como as de Morus e Saint Simon. Acrescentemos a isso a atração irresistível que sacerdotes têm por ditadores e poderosos em geral, capazes de lhes garantir facilmente aquilo que é sempre tão penoso de conseguir em sociedades livres e democráticas (catolicismo e reis absolutistas, catolicismo e nazismo, catolicismo e franquismo, catolicismo e salazarismo, catolicismo e fascismo de Mussolini), e temos o bizarro exemplo de um metropolita Sérgio I e hierarquia ortodoxa a aspergir água benta no comunismo soviético, a excomungar anticomunistas e a defender ferrenhamente o tirano Stalin, seus métodos e tudo o mais que representava a manutenção dos privilégios recentemente recuperados.

Após o fim do comunismo, a Igreja Ortodoxa sentiu-se livre para canonizar o último czar, Nicolau II, e sua família, e passou a batalhar por reserva de mercado forçando, agora como tutora das consciências dos eleitores, a criação da “Lei sobre a Religião”, promulgada por Yeltsin em 1997. O catolicismo ortodoxo, o budismo, o islamismo e o judaísmo foram considerados religiões tradicionais, enquanto as demais, ocidentais em sua maioria, tiveram suas atividades freadas, tendo sido estabelecido um período de até 15 anos para a obtenção de registro de culto. E viva a liberdade religiosa!
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