08 dezembro 2010

Se ainda sou gaúcho

Janer Cristaldo


O bom da Internet é que as crônicas não morrem. Sobre a crônica publicada no 20 de setembro, me pergunta um leitor: ainda és gaúcho? É uma boa pergunta.

Minha definição de gaúcho não é a que vige no Brasil, a de gentílico de quem nasceu no Rio Grande do Sul. Entendo como gaúcho o homem que nasce no campo, entre vacas, ovelhas e cavalos. Não concebo como gaúcho gente nascida no asfalto. Quanto aos cetegistas, recorro à definição dos catarinenses. Qual é o menor circo do mundo? São as bombachas. Só cabe um palhaço dentro.

Nasci no campo, entre vacas, ovelhas e cavalos. Sei o que é o gaúcho. É homem que geralmente nasceu pobre, vive afastado do mundo contemporâneo e tem uma visão peculiar de mundo, que nada tem a ver com a do homem urbano. Para começar, um gaúcho sabe o que é horizonte, noção cada vez mais rara nas cidades. Em minha infância, tive 360º graus de horizonte, que se situava a mais de légua de distância. Isso mexe com a psicologia de qualquer um.

Nasci em um deserto verde, salpicado de capões de árvores e umbus solitários. Quando fui para a cidade, meu primeiro espanto foi ver que nossa casa terminava no pátio. Lá no Upamaruty, terminava no horizonte. Meu espanto só foi maior quando passei a morar em apartamento. Meu espaço terminava na janela.

Meu pai, quando foi para o "povoado" – em função de minha educação – sentiu-se como peixe fora d’água. Cheguei em Dom Pedrito numa época em que botas e bombachas eram sinônimo de “grosso lá de fora”. Mesmo assim, Canário enfrentava a cidade com suas pilchas. Que não eram para bailes, mas seus trajes costumeiros lá no campo. Quanto a mim, larguei as botas, por uma questão de conforto. Mas mantive as bombachas. Com sapatos. O que me valeu muitas piadas no colégio. Acabei traindo os meus. Optei pela calça corrida. Meu pai morreu amargurado, longe dos pagos. Jamais se adaptou à vida urbana. Sentia falta das lides do campo, das vacas e dos cavalos.

A tapera ficou lá fora. Por muitos anos a visitei, meus tios e primos ainda viviam lá. Um belo dia, um fazendeiro da região procurou-me em Porto Alegre. Precisava de uma saída para o Uruguai e me perguntou se eu não queria vender meu “campinho”. Pensei um pouco e considerei que aquele rancho fazia parte do passado, eu jamais voltaria para lá. Virei bicho da cidade e não tinha mais vocação para fazendeiro. Com dor na alma, passei-lhe a escritura. Naquele dia, morri um pouco. Mas que fazer? Não havia porque manter um pedaço de terra ao qual eu jamais voltaria.

Em 77, antes de ir para Paris, levei até lá minha companheira, para mostrar-lhe os campos onde havia nascido. Foi certamente a viagem mais dolorosa que já fiz. O Fusca atolou uma boa légua antes de chegarmos de chegarmos a meu rancho e continuamos a pé. Era inverno e um mar revolto de alhos-bravos e flechilhas agitava as coxilhas e canhadas. Subi pelo Cerro da Tala, em cujo cume havia a Toca da Onça. Era um buraco sob uma pedra onde, crianças, nos escondíamos, para tratar de nossos mistérios. De minha lembrança, me parecia uma imensa caverna. Tentei entrar na Toca da Onça. Já não cabia.

Desci o Cerro da Tala, e entrei pela sanga no Passo do Vime, onde a prima Corininha, acocorada, lavava roupas sobre o empedrado. Eu me postava do outro lado do filete de água, para espiar aquele intrigante triângulo escuro que as mulheres tinham entre as pernas. Rumei à Casa, último resquício da herdade, onde em meus dias vivera tio Ângelo. Era um precursor. Um belo dia entre os dias, decidiu que teria um rádio.

Era tido como um visionário. Sua primeira providência foi cortar o mais reto e alto dos eucaliptos, no eucaliptal do Toto Ferreira, a uma boa légua de distância. Teria uns quinze, talvez vinte metros de altura. Falquejado, foi levado por uma junta de bois até a Casa. Providência seguinte, pintá-lo de vermelho. O erguimento do poste foi uma operação mais ou menos como a construção das pirâmides, da qual participei com muito orgulho. Com quatro máquinas de alambrar, levantamos o poste e o colocamos num buraco frente ao oitão do rancho.

Era o primeiro passo para a instalação do rádio, o cata-vento. Depois chegaram as baterias, de Villa Indarte, no Uruguai. Depois, finalmente chegou o rádio, um Telefunken mastodôntico, que só meu tio sabia operar. O universo começou a entrar em nosso pequeno mundinho. A propriedade do tio Ângelo passou a ser conhecida como Estabelecimento do Pau Vermelho. Quando o sol começava a cair, a gauchada chegava de longe, para escutar rádio. Meu tio, com a solenidade de um sacerdote, girava o dial e viajava pela Argentina e Uruguai.

À medida que me aproximava da Casa, o coração batia com mais força. Tudo deserto. Sentei-me na laje onde meu tio afiava facas e gritei: “Ô de casa!” Corininha apareceu na porta e perguntou: o que o senhor deseja? Com a voz já embargada, respondi: o tio Ângelo está?

Não estava mais. Ela reconheceu-me e nos abraçamos chorando. Meu rancho ficava a uma meia légua dali. Desci pela canhada e fui revisitar nossa cacimba. Era julho e escorria pelas bordas. Debrucei-me sobre o pedregal e sorvi com gosto aquela água salobra, com sabor de infância. Minhas lágrimas se misturaram às águas da cacimba. Chorei como terneiro desmamado.

Aquela canhada, desci milhares de vezes, sempre em pânico. Ficava até tarde da noite, sob o cinamomo à frente da Casa, ouvindo dos adultos histórias de assombração. Geralmente voltava para meu rancho lá pela meia-noite, hora sinistra, sob um luar gelado que tornava a noite clara. E corria desesperado de um vulto que me perseguia e não me dava quartel, juro que não minto. Era minha sombra. Durante muitos anos, tive medo de passar à noite por um cemitério. Também, pudera, até meu cavalo ficava sestroso, quando uma alma penada montava na garupa.

Nunca mais voltei lá. Nem quero voltar. Dói muito. Se ainda sou gaúcho? Diria que não. Tive um passado de gaúcho, mas este passado ficou perdido no tempo. Bati na marca e saí a correr mundo. Vivi em cidades onde a geada é grossa de mais de palmo. Vaguei por terras onde no verão o sol não se põe e no inverno é noite o dia todo. Ouvi línguas que mais parecem doença da garganta. Estou mais longe dos cavalos e vacas que dos restaurantes da Europa. Faz 33 anos que não volto aos pagos onde nasci. A Paris ou Madri, vou todos os anos.

Nasci na fronteira seca entre Brasil e Uruguai. Coincidia que o Uruguai começava justo no horizonte, onde ficava a Linha Divisória. Nesta linha, de três em três quilômetros há um marco de concreto. De seis em seis, há um marco maior. Em frente a nosso rancho, ficava o Marco Grande dos Moreiras. Canário me erguia até o topo do marco, me fazia virar para o nascente e dizia: “Fala para os homens do Uruguai, meu filho”. Depois, me virava para o poente: “Fala agora com os homens do Brasil”. Nasci entre dois países, sempre olhando para um e outro. Daí a querer ir mais adiante foi só um passo.

Em verdade, diria que nem brasileiro sou. Nasci voltado para o Prata, me sinto melhor em Montevidéu, Buenos Aires ou Madri do que em Porto Alegre ou São Paulo. Martín Fierro foi o primeiro poema que ouvi em minha vida, recitado por meu pai nas fogueiras do galpão. Falar espanhol me proporciona mais prazer do que falar português. Foi minha língua de cuna. Mas isto pouco importa. Não há lei no mundo que obrigue quem nasceu no Brasil a sentir-se brasileiro. Minha infância foi mais platina que rio-grandense.

Infeliz do ser humano que morre igual como nasceu. Não evoluiu. A vida, as viagens, as cidades me transformaram. Virei cidadão do mundo e não consigo mais viver no deserto. Seria um tour de force dizer hoje que sou gaúcho.

Mas à minha infância, continuo fiel.

7 comentários:

Anselmo Heidrich disse...

“Mas à minha infância, continuo fiel.” Janer, isto pesa. E por causa disto, não adianta, vais morrer gaúcho. Não como eu que não caibo na tua visão cultural, acertada eu diria, mas se algo passa de geração a geração e de região a região, mesmo no asfalto, na periferia de Porto Alegre onde me criei, algo me marcou. Tínhamos um pasto para brincar, não uma praça ou uma rua, mas verdade seja dita, de costas para o edifício que morava havia a Lasar Segall, rua do Parque São Sebastião que a maioria dos meus vizinhos ocultava e substituía pelo Lindóia...
Cresci vendo o horizonte neste limbo urbano, assim como gostei de vê-lo em Ribeirão Preto, SP, ao contrário de São Paulo. Algo fica, embora meu cunhado de Dom Pedrito sempre tenha rido de mim ao falar de minhas pequenas cavalgadas. Ele que foi ensinado a montar pelo pai levando uma pequena varada de bambu toda vez que caía, ele que perguntou “onde estava a escada?” em que o sujeito na janela subiu ao ver um edifício pela primeira vez. Hoje ele nem pensa em voltar sequer para Gravataí preferindo o Moinhos de Vento em Porto Alegre. “Ninguém deve regredir” me disse, mas continua fazendo churrasco como ninguém.
Aqui nessa ilha eu sempre sonho com um sítio, tal qual um poeta romântico que nunca ordenhou uma vaca, mas que fica feliz ao entrar em São Francisco de Paula ou São José dos Ausentes, que não gosta de odor de alga na lagoa, mas acha que bosta de cavalo tem perfume. Há algo.
Algo assim como o cinamomo, que originário da Índia conseguiu se aclimatar no Rio Grande do Sul integrando tua memória, também um de nós pode iniciar o enraizamento.

Catellius disse...

Excelente e tocante texto, caro Janer. Pelo visto este é um blog de gaúchos, rsrs, mesmo que morem em São Paulo, Florianópolis e Brasília. Ainda que eu seja gringo da Serra, de Caxias do Sul, não um gaudério dos pampas.

"Minha definição de gaúcho não é a que vige no Brasil, a de gentílico de quem nasceu no Rio Grande do Sul."

“Para mim” não é correto evocar para se opor a significações consagradas de palavras, que são usadas exclusivamente para comunicação. É necessário o “para mim” e “para você”. Eu tenho um grupo de amigos que têm o capricho de não usarem a expressão “música clássica” para a música que atravessou séculos em vários países e em vários estilos, não apenas no clássico mas no barroco e no romântico, por exemplo. Nesse grupo “música romântica” é aquela compreendida, grosso modo, entre Weber e Wagner, não os lugares-comuns de Roberto Carlos. Mas fora do grupo é melhor dizer “não suporto música romântica” e “adoro música do romantismo alemão”, porque minha intenção é comunicar. Não interessa que “para mim” um anglo-saxão deva ser um real descendente de povos germânicos da Saxônia e da Ânglia, ou que um escocês de verdade seja quem nasceu na Escócia e não coloca açúcar no porridge.

Lemos na Wikipedia: “o termo (gaúcho) também é correntemente usado como gentílico para denominar os habitantes do estado brasileiro do Rio Grande do Sul. Além disso, serve para denominar um tipo folclórico e um conjunto de tradições codificado e difundido por um movimento cultural agrupado em agremiações, criadas com esse fim e conhecidas como CTG.” Também acho burlescos esses parvos que, mesmo fora dos palcos, onde é perfeitamente normal dançar a caráter (descendentes de irlandeses e não descendentes podem aprender o riverdance), bancam os “centauros dos pampas” usando expressões gaudérias (judiado como filhote de passarinho em mão de piá) e interpretando constantemente um personagem.

“Nunca mais voltei lá. Nem quero voltar. Dói muito.”

Acho que algo parecido pode sentir um sexagenário bem de vida que visita um bairro de classe média, urbanizado, que já foi a favela insalubre onde passou sua infância livre e divertida. Ele chora por ela, um pouco movido por aquele sentimento de autocomiseração de quem projeta para os dias de hoje, cheios de facilidades (seus filhos reclamam da qualidade da LED TV), as dificuldades vencidas com diversão na meninice, as horas felizes que se levava caminhando para a escola, por exemplo, e santifica aquilo, que não era sequer um sacrifício. Mas entendo que essa infância no “deserto verde” não existe mais e deve majorar o sentimento.

Mais uma vez, excelente e tocante texto, caro Janer. Apesar de você não constar no pavonário rio-grandense, é o escritor gaúcho que mais leio - diariamente, para falar a verdade.

Abraços!

Janer disse...

Grato, Anselmo e Catellius. Esse artigo da Wikipedia reflete a deturpacao da palavra gaucho, perpetrada pelo cetegismo.

Quanto as bostas de cavalo, eh cheiro peculiar de minha infancia. Para minha surpresa, fui reencontra-lo no centro de Viena, mal saih do metroh. Eh que junto ah catedral havia algumas bolantas para passeio de turistas e ali estavam os cavalos.

Mário Batista disse...

No geral, penso que entendi a sua mensagem. Coisas parecidas eu sinto com relação à minha história. Se eu gostaria de voltar aos lugares e aos acontecimentos de minha infância? Gostaria de ter essa opção de viajar no tempo, como um visitante que dá uma chegadinha breve, para olhar, ouvir, tocar, cheirar, degustar, sentir, e depois volta para seu próprio tempo e espaço. Mas não gostaria de viver novamente na roça, ou no seminário etc. O passado se encontra em mim como uma coletânea de impressões, algumas das quais emergem depois de terem ficado bastante tempo guardadas em algum lugar, tem algo de acervo como um diário de viagem, porém mais de transformações, como um cenário em movimento. A linguagem pretensamente exata presta-se pouco para reproduzir as impressões da vida até aqui (somente serve para fazer algumas delimitações necessárias). A linguagem poética, com seus recursos conotativos, é mais apropriada a transmiti-las, como faz uma poema sinfônico
de Richard Strauss (com alguma exatidão a mais :D ).

Marcelo P. disse...

Acho seus artigos bastante pedantes. Pode ser que você seja boa pessoa, mas o que escreve me transmite a impressão de que se acha superior. Posso estar errado.

E quem disse que que gaúcho é só quem nasce no campo, entre vacas, ovelhas e cavalos? Então há gaúchos no interior de Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, São Paulo, Pará, Alemanha, China, Austrália, Estados Unidos, México, Uganda...

Mas tudo bem, essa é a sua definição. Não é a minha, nem a do dicionário, nem a da maioria da população, incluídos os gaúchos.

Eu, de minha parte, não sou dado a saudosismos. Curti minha infância, assim como curto minha idade adulta. É engraçado as pessoas sentirem saudades de situações que lutaram para superar, ou desmerecer coisas que lutaram para conquistar. E das quais, diga-se de passagem, não têm a mínima intenção de se desfazer. Cada coisa tem seu valor, e não é preciso diminuir uma para valorizar a outra. Gosto de Gramado, gosto de Belo Horizonte, visito Gramado, volto feliz para Belo Horizonte... Muito melhor assim, pelo menos para mim. Hoje há brinquedos que não existiam quando eu era criança, e que são muito legais. Os que eu tive eram diferentes dos que o pai teve. Mas criança é sempre criança, brinca com o que tiver. Acquaplay, pega-varetas, Atari ou Nintendo Wii, tanto faz, a diversão é a mesma e está dentro de nós. Não acho que os brinquedos de hoje sejam piores que os de antigamente ou nos transformem em patetas. Por que essa pretensa superioridade do campo em relação ao "asfalto", como você diz? Cada coisa tem seu valor, cada pessoa se adapta melhor em um lugar. Sair do campo foi opção do seu pai, e você, por sinal, não quer mais voltar para o campo. Então não entendo o que quer dizer e, sinceramente, achei o texto bastante cansativo.

Abraços a todos,
Marcelo

Janer disse...

Quem disse que gaucho eh só quem nasce no campo, entre vacas, ovelhas e cavalos fui eu. Tenho minhas proprias definicoes e nao me sinto obrigado a aceitar as de dicionarios.

Anônimo disse...

"tenho minhas próprias definições"

ridículo!

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