03 novembro 2010

Lei cria nova doença

Janer Cristaldo


Quem não ouviu falar da tal de TPM, a famigerada tensão pré-menstrual? Todos já ouvimos falar. Mas se o leitor tem minha idade – isto é, uns sessenta anos – deve ter observado que sua mãe jamais teve TPM, muito menos suas tias ou avós. Nos dias de meus ancestrais, as mulheres sofriam de cólicas. Agora, padecem de TPM. Outra doença contemporânea, que não existia em meus dias de juventude, é o tal de transtorno de déficit de atenção com hiperatividade, mais conhecida como TDAH. Busco na rede os sintomas relacionados à hiperatividade.

• ficar remexendo as mãos e/ou os pés quando sentado;
• não permanecer sentado por muito tempo;
• pular, correr excessivamente em situações inadequadas;
• sensação interna de inquietude;
• ser barulhento em atividades lúdicas;
• ser muito agitado;
• falar em demasia e sem pensar no que vai dizer;
• responder às perguntas antes de concluídas;
• ter dificuldade de esperar sua vez;
• intrometer-se em conversas ou jogos dos outros.

Ou seja, uns bons 90% ou mais das crianças padecem de TDAH. Ser irrequieto já é sintoma da doença. Ora, qual criança não é irrequieta? Ainda hoje, fui almoçar em um restaurante repleto de crianças com TDAH. Para se diagnosticar um caso de TDAH – dizem os médicos - é necessário que a pessoa em questão apresente pelo menos seis dos sintomas de desatenção e/ou seis dos sintomas de hiperatividade; além disso os sintomas devem manifestar-se em pelo menos dois ambientes diferentes e por um período superior a seis meses. Qual criança não manifesta seis desses sintomas?

Mais ainda: segundo estes senhores, as crianças portadoras do transtorno, aplicam menor quantidade de esforços e despendem menor quantidade de tempo para realizar tarefas desagrádaveis e enfadonhas. Ou seja, o que é virtude, habilidade, passa a ser doença. Para que serve o TDAH? Para os laboratórios venderem uma substância chamada metilfenidato.

Quanto mais doenças são criadas, mais os laboratórios empurram suas drogas. Os americanos estão criando mais uma, a síndrome de alienação parental, a SAP. O mundo contemporâneo está cheio de pais separados e divorciados, não é verdade? Excelente mercado para uma nova doença e novos medicamentos.

Leio no Estadão entrevista com a psicóloga Maria Dolores Toloi, que há 15 anos trabalha como assistente de perícias psicológicas no Tribunal de Justiça de São Paulo. "No grau mais leve, o guardião, normalmente a mãe, faz comentários críticos sobre qualquer coisa que a criança fale sobre o pai. Ou então diz que vai ficar sozinha e triste quando ela for visitá-lo", Com o tempo, a convivência com o pai passa a ter um custo emocional tão alto que a criança diz não querer mais vê-lo.

Em muitos casos, diz Maria Dolores, o alienador se aproveita da distância para doutrinar a criança contra o outro genitor, chegando até a implantar memórias de fatos que nunca aconteceram. "Quando a criança entra nesse jogo e passa a participar da campanha de difamação, está instalada a Síndrome da Alienação Parental (SAP)".

Ora, quando pais se separam é porque algum conflito houve. Que troquem acusações é uma decorrência lógica. Que a criança ouça estas acusações, também, afinal ela faz parte do conflito. Mas se uma criança tem um pai bêbado ou assassino e mãe diz ao filho que seu pai é bêbado ou assassino, voilà: temos mais um cliente para os laboratórios.

No Brasil, a nova “doença” virou lei. Desde agosto passado, vige uma nova norma que pune os que impedem a convivência de crianças e adolescentes com um dos genitores. Segundo o Estadão, 80% dos filhos de casamentos desfeitos enfrentam a situação em diferentes níveis. Quer dizer, se você é mãe e quer afastar sua cria da convivência de um pai bandido, ladrão ou estuprador da própria filha, você está sujeita a uma punição.

Segundo o juiz Marco Aurélio Costa, da Segunda Vara da Família do Foro Central de São Paulo, já é possível notar um cuidado no discurso das mães para não dar margem a acusações de alienação parental. "Já existe no ar a perspectiva de que isso pode ser punido. Nesse ponto a lei foi muito útil." Isto gera um mercado de sonho para psiquiatras, psicólogos e psicanalistas. Segundo a psicóloga Maria Dolores, uma avaliação psicológica, para ser bem feita, demora cinco sessões. Multiplique estas cinco sessões pelo número de crianças oriundas de casais desfeitos e não teremos mais psicólogos desempregados no Brasil.

Quem denuncia este embuste é a psicóloga Analicia Martins de Souza. Segundo Analicia, a SAP foi um termo criado em 1985 pelo psiquiatra americano Richard Gardner para retratar o conjunto de seqüelas que podem afetar crianças vítimas de alienação parental. Embora exista a possibilidade de a SAP ser incluída na nova edição do Manual de Diagnóstico e Estatística de Transtornos Mentais (DSM-5), que está sendo revisado para publicação em maio de 2013, a idéia de que ela possa ser considerada uma patologia é polêmica entre os profissionais de saúde mental.

Autora do livro Síndrome da Alienação Parental. Um Novo Tema nos Juízos de Família, a psicóloga considera que a teoria de Gardner tem escasso valor científico. Ainda assim, diz ela, serviu de base para a legislação brasileira.

“As associações de pais separados começaram a difundir a teoria de Gardner logo após a aprovação da guarda compartilhada. Mas não chegou ao Brasil toda a polêmica que existe no exterior sobre a existência ou não da síndrome. Gardner criou uma patologia, uma teoria de escasso valor científico que, de uma hora para outra, virou lei. O campo da psicologia foi alijado da discussão. Não se consultaram pesquisadores que há anos estudam questões relacionadas ao divórcio e à guarda de filhos”.

Um americano arrota e seu arroto vira lei no Brasil. Para onde aponta a nova lei? Analicia responde:

“As mães guardiãs passam a ser vistas como alienadoras; elas e seus filhos, como portadores de transtorno mental. Não nego o exagero de alguns genitores, mas poucos são os casos em que há de fato patologia. O que era exceção vira regra. Isso faz voltar a idéia superada de que filhos de pais separados são portadores de distúrbios. Além disso, há forte campanha para incluir a SAP no DSM-5. Esse manual é referência na produção de novos medicamentos”.

Segundo nossos legisladores, todo filho de casal separado é tecnicamente doente. Os terapeutas têm agora um farto e novo mercado a explorar. Os laboratórios também.

8 comentários:

William de Oliveira disse...

Caro Janer,

Infelizmente seu artigo falha ao apresentar uma visão rasa e unilateral do tema.

Não há como comparar SAP com TDAH.

A profissional citada, tem uma opinião particular, não referendada pelo CFP e portanto, de mesmo peso as opiniões contrárias de outras psicólogas, o que impede olhar para o assunto de forma absoluta.

Provavelmente você não tem nenhum familiar envolvido numa situação de SAP e por isso talvez seja difícil compreender os males que causa.

Quanto as doenças modernas, não é difícil imaginar que a infância 60 anos atrás em nada lembra a infância de hoje.

Apesar de nossa expectativa de vida ter dobrado, tudo acontece dentro de um sentimento de urgência impressionante, ou seja, ter mais tempo, não melhorou as coisas, ao contrário, tudo está acelerado.

Convido-o a estudar melhor o tema da SAP, conversar com profissionais que a reconheçam e ai sim, postar um artigo que equilibre os dois pontos de vista.

[]'s

Cosme disse...

Caro amigo,

temos um problema de direitos civis no Brasil. Um não, vários, mas mantendo este assunto como central...
Nas varas de família ser homem é quase crime. Talvez contravenção.
O preconceito é indisfarçável em dois níveis:
A- Não tem como ser disfarçado
B- Ninguém se preocupa em nem tentar. Nem fazer um tipo.

Objetivos do judiciário
1-O objetivo do judiciário é não julgar.
2- Quando se vê obrigado passa a ser não ter o julgamento questionado.

Constituição, direitos civis, ECA, isonomia...
Só servem se não atrapalham os itens numerados acima.

Ritual de uma processo padrão.
Padrão significa dois pais em pé de igualdade sem nenhum destaque negativo gritante. Sem drogas, fotos comprovando socos, prisões, passado violento ou libertino. Sim o estado pode julgar você para ver se os teus direitos podem ser caçados facilmente após um crime. Um homem se separa, aqui e hoje, tem um equivalência de um crime.

Ambos os lados apresentam suas alegações.
O pai é destituído.
Visitas quinzenais do pai a criança.
Pede-se um estudo social para ver se é possível o pai conviver mais com a prole.

De 2 a 4 meses depois.
Aceita-se que o pai veja a criança também um dia por semana, se a mãe não for fortemente contra.

Na percepção que não conseguirá evitar julgar o Juiz já decidiu o que vai fazer, mas observa a audiência eliminado oque atrapalha a decisão tomada e destacando o que a fortalece. Fala coisas como "Se um não quer, dois não brigam. Se ela está brigando o sr deve ter alguma culpa"
Caso ainda pareça estranho sugiro reler a lista numerada acima. Lá está o motivo deste comportamento.

Findo o julgamento, após alguns meses, a guarda é da mãe definitivamente.
De posse dela:
Faz o que quer. Literalmente. Apesar da lei obrigar o pai a fiscalizar, apenas após 2009 e com a entrada de uma lei específica sobre isto, a mãe perdeu o poder de impedir que o pai tivesse acesso às informações escolares. Amigo... isto aqui é a ponta de um iceberg.

Juiz não gosta de pai que aparece reclamando depois com fotos. Só se for algo inquestionável. A lei OBRIGA o não guardião a supervisionar a criança, mas os juízes não gostam disto. Você fica mal visto. Pessoa chata, sabe?

Neste cenário que temos?
- muitos pais desistem. Puxa são uns insensíveis, não é mesmo? Afinal:
- o juíz já disse que vc é cidadão de 2ª
- o promotor, o cara neutro, concordou
- a outra parte diz que vc não conta. Faz um péssimo mingau
- o defensor diz que tudo isto é o melhor para a criança
- o teu advogado diz que se insistir "vai ficar mau com o juiz" e ele pode tira a quarta-feira
- o teu chefe nã entende por que seus filhos se tornaram um problema para as horas extras
- os teus amigos te perguntam por que você que ficar com as crianças, afinal você não está pagando já?

Muitas mães exercem seu poder com prazer. Afinal a elas é que cabe educar a criança. O pai apenas paga.

Neste cenário, sim amigo, existe SAP.
Tuas opções:
- agarre-se ao sofismo e continue a listar erros nos processos humanos para negar este problema
- acompanhe a dor causada por mulheres que perderam o foco no bem-estar das crianças e gostam de exercer a vingança através do poder ganho no judiciário. Existem vários grupos de pais separados, qualquer lista permitirá que você acompanhe sem muita dificuldade.

Obviamente a primeira opção é mais divertida e fácil. Lamentavelmente ela denunciará a tua natureza.

Minha humilde sugestão:
Direcione o teu blog para assuntos que o Sr domina. Estou certo que desta maneira trará contribuições significativamente mais positivas do que esta que li aqui.

Abraços,
Cosme, pai de Sofia.

Janer disse...

Caros:

De certa forma, vivi situação semelhante. Por circunstâncias que não vêm ao caso, houve uma interrupção em meu relacionamento com minha filha durante alguns anos. Acabamos nos encontrando.

Convidei-a para um giro por Paris, Roma e Madri. Ela fazia análise na época. Sua analista vetou a viagem. Considerou que viajar com o pai poderia traumatizá-la. Pode?
Claro que ela não aceitou o veto. Ao final da viagem, sem que tivéssemos sequer tocado no assunto, me disse ter tomado duas decisões. Qual a primeira? – perguntei. Só vou ler livros que me agradem. E a segunda? Vou mandar a analista pastar.

Resumo da ópera: a mãe dela só não processou a analista para não ter de incomodar-se com advogados. Minha filha é hoje uma menina sensata, profissional competente, adora viajar e sabe gerir sua vida.
Neste mesmo ramo da família, uma outra psicóloga – ou talvez a mesma, não lembro – conseguiu levar para a análise boa parte do clã e gerou conflitos irremediáveis entre irmãos e irmãs, pais e filhos.

Em outro ramo de minha família, tenho sobrinha que se separou de seu parceiro, por ser alcoólatra. A filha é linda, inteligente, sadia, não tem distúrbio algum e nunca apelou a muletas.

Em minhas seis décadas de existência, conheci não poucos casais separados com filhos e – e pelo menos entre os que eu conheço – só vi um desajustado. Não em função da tal de SAP. Mas devido à excessiva proteção da mãe, uma de minhas boas amigas, com quem viajei por muitos países da Europa. Resumo da ópera: acabou matando a mãe.

Em compensação, tenho visto não poucos jovens drogados e inúteis, oriundos de casais que se mantém unidos. O que quero dizer é que existe entidades criando doenças para gerar mercado de trabalho para profissionais doentes, que sequer sabem gerir suas próprias vidas.

Associação Portuguesa para a Igualdade Parental e Direitos dos Filhos disse...

Aconselho-lhe a ler (e à psicóloga que refere) uma abordagem excelente e muito difícil de desmontar cientificamente por aqueles que apenas querem reproduzir um modelo machista de distribuição de papeis de género:
Dinâmica da Alienação Parental
http://drcachildress.org/asp/Site/ParentalAlienation/index.asp

fénix renascida disse...

Gostei muito deste post.

Convido o autor a ler os meus posts, em

http://srevoredo.blogspot.com

Pois eu trato do mesmo assunto. E tento fazer ver as coisas como elas realmente são.

Na esperança de que as coisas sejam como deveriam ser.

fénix renascida disse...

Só tenho a acrescentar que os sintomas da mulher durante uns dias (cerca de metade di mês, ou mais!) não se resumem às colicas. Se assim fosse, muitas de nós estaríamos bem.

Há a vontade de chorar por tudo e por nada, a irritabilidade, falta de paciência, insónias, etc.

Não vejo remédio algum que elimine, exceptuando a pílula que, dizem, suaviza. E melhores hábitos.

Quanto ao resto, estou inteiramente de acordo. Sobretudo quando diz que hoje as mães são "alienadoras". Aos olhos dos outros, elas são.

Veja o meu blog.

http://srevoredo.blogspot.com

fénix renascida disse...

A SAP foi um termo inventado em 1985 por Richard Gardner, um psicanalista que defendia a pedofilia.

Se procurar informações sobre este "monstro", que se suicidou em 2003, verá que não minto.Saberá aquilo que muitos não querem que se saiba.

Ao contrário do Sr Cosme (que aqui assume, nas suas palavras, uma atitude muito Gardner), eu mantenho-me bem informada.

Aconselho ao autor deste blog (que está certo no que diz) e a quem interesse a leitura de EM NOME DOS FILHOS OU 'O RETORNO DA LEI DO PAI', uma entrevista a Martin Dufresne.

Quem melhor do que este jornalista, que já esteve dentro da luta do movimento de pais, para nos clarificar sobre os seus reais objectivos?

Um Homem que se mantém bem informado, não vê apenas um lado.
Veja o dele, se quiser, e veja o meu.

Tire, depois, as suas conclusões. Foi o que eu fiz.

Blog EM DEFESA DO SUPERIOR INTERESSE DA CRIANÇA
http://srevoredo.blogspot.com

fénix renascida disse...

Vou só acrescentar mais uma coisa:
a infância de hoje pode não ser igual à de 60 anos atrás em certos aspectos, mas as necessidades das crianças continuam a ser as mesmas.

Assim sendo, uma criança, particularmente sendo de tenra idade, continua a precisar fundamentalmente da mãe.

Aliás, como qualquer cria na natureza.

Não há lei alguma, em tempo algum, que possa reverter esta verdade.

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