01 novembro 2010

Consummatum est

Janer Cristaldo


Foi uma segunda-feira sem novidades. As primeiras páginas dos jornais estavam previstas há meses. Eleita a primeira mulher presidente da República, dizem as manchetes. Pode ser. Mas vejo a coisa por outro lado. Vinte anos depois da queda do Muro, da dissolução da União Soviética e do desmoronamento do comunismo, foi eleito o primeiro presidente da República marxista. Pois, pelo que sei, dona Dilma nunca renegou publicamente sua filosofia de juventude. Pelo contrário, orgulha-se discretamente de ter lutado para transformar o Brasil numa republiqueta soviética.

Meu correio é inundado diariamente por mails de almas ingênuas que contam os dias que faltam para findar o governo Lula. São bobalhões que ainda não se deram conta de que o inimaginável acabará acontecendo: ainda vamos sentir saudades do Supremo Apedeuta. Há uma direita histérica no Brasil, liderada pelo astrólogo Aiatolavo de Carvalho e seus acólitos, que via em Lula uma ameaça comunista. Ora, Lula nunca teve ideologia. Só se apegou a um ismo, um único ismo, o oportunismo. Se alguma virtude teve, foi jogar na lata do lixo os propósitos socialistas do PT.

Mas Dilma tem ideologia. É atrabiliária e vai mostrar as garras. O PNDH-4 aí está, esperando aprovação de uma bandeira sempre cara aos velhos comunistas, a censura de imprensa. Alguns Estados, apressadinhos, ao arrepio da Constituição, já criaram seus conselhos de controle da mídia. O tal de plano legisla em todas as áreas, é quase uma nova Constituição. Parece ter sido elaborado por um analfabeto em termos de legislação. Mas apenas aparentemente. Em verdade, é obra de alguém que, por muito entender de leis, não as respeita.

Antes mesmo de tomar posse, Dilma já está acenando com a reabilitação de um corrupto envolvido no escândalo da máfia do lixo, em Ribeirão Preto. Que teve de renunciar ao ministério da Fazenda por ter violado o sigilo bancário de um humilde caseiro. Por seus feitos, ao que tudo indica, Palocci será contemplado com um ministério.

Imaginei que a fatura, neste 2010, seria liquidada no primeiro turno. Não foi. O que só prolongou a agonia tucana. Serra não ousou atacar Lula nem poderia. São farinha do mesmo saco. Não houve oposição nestas eleições. Ambos os candidatos reivindicavam a continuidade do governo Lula. A tal ponto que Serra, supostamente oposição, grudou um bonequinho de Lula em sua campanha. Houve dois partidos, é verdade: o do sim e o do sim senhor. Dilma prometia manter a Bolsa-Família, Serra prometia um décimo-terceiro salário para a bolsa. O PSDB sequer ousou em propor um governo distinto ao de Lula. Criou a infeliz expressão “pós-Lula”. Ora, se é para dar continuidade ao governo de Lula, melhor então votar em quem Lula indica. Este foi o recado que Serra passou aos eleitores.

Os tucanos amanheceram, nesta segunda-feira, contando mortos e feridos. ”Não é um adeus, é um até logo”, disse Serra após sua derrota. Santa ingenuidade. Serra saiu politicamente morto deste pleito. Tem 68 anos e o máximo que pode esperar é uma secretaria de Alckmin como prêmio-consolação. Tinha dezenas de trunfos em mão para enfrentar o PT. O assassinato de Celso Daniel, o mensalão, dinheiro nas cuecas, quebras de sigilo fiscal e bancário, nepotismo, proteção às falcatruas de Sarney, em suma, corrupção foi o que não faltou para denunciar. Serra preferiu manter um silêncio obsequioso. Se usasse as armas que tinha em mãos, mesmo que perdesse, cairia em pé. Não as usou. Sai aviltado do pleito.

Dilma mentiu descaradamente durante toda a campanha. Há três anos se pronunciava a favor do aborto, publicamente. De repente, virou defensora da vida. Não teve sequer a hombridade de dizer que mudara de idéia. Preferiu entoar o mantra dileto do PT: são boatos e calúnias. Marxista convicta, divulgou fotos de um encontro com o papa e deixou-se fotografar fazendo o sinal da cruz. Serra não deixou por menos, saiu a beijar terços. Só faltou aos candidatos papar hóstias. O Brasil engoliu prazerosamente as mentiras da candidata.

Leitores mais antigos devem lembrar quando o PT, em seus anos irados, denunciava o regime assistencialista das sociais-democracias européias. Hoje, o PT fez sua presidenta graças ao regime assistencialista que instalou no país. A vitória de Dilma se deve fundamentalmente ao Nordeste que não trabalha e vive das esmolas do Estado. As mesmas esmolas que Lula denunciava, quando eram dadas por Fernando Henrique. Os tucanos não podem queixar-se. Prepararam o ninho para os chupins.

Consummatum est. Teremos pelo menos mais oito anos de lulismo e populismo pela frente. Quanto a mim, estou vacinado. Se sobrevivi a oito anos de Lula, acho que sobrevivo a Dilma. O duro vai ser ver aquele rosto emético nas primeiras páginas dos jornais nos próximos anos. Duro também é ver uma remanescente das tiranias comunistas assumir o poder, vinte anos após a queda do Muro.

Isto é Brasil.

7 comentários:

zefirosblog disse...

Emético, além do semblante da nova presidente, é o paradoxo. Estados que sustentam o país, os únicos que o tornam razoavelmente tolerável, estados que possuem a população mais instruída, são os mesmos estados que não podem decidir que conduzirá o país que eles sustentam. Os sustentados, por outro lado, decidem quem vai comandar o país que eles só fazem estagnar.

A propósito, pensei que o papista Azevedo tinha conquistado do Astrólogo a posição de líder da direita histérica. Por outro lado, pensando melhor, o tucanopapista hidrófobo é um bom coroinha, portanto quase que pupilo do astrólogo.

Jairo Entrecosto disse...

Quem diria, Janer.
Cá em Portugal há quem veja no resultado do pleito eleitoral no Brasil uma vitória de Dilma contra a Opus Dei, eh eh!


Dilma derrota ICAR
31 de Outubro de 2010

Ponte Europa

A vitória de Dilma é, sobretudo, uma manifestação de apoio a Lula, em quem se revêem os brasileiros, e ao progresso económico e social registado durante os seus mandatos.

À partida não havia grande diferença programática entre os candidatos, sendo José Serra o mais experiente mas, para compensar o apoio de Lula a Dilma, ou por falta de pudor, cedo se deixou aliciar pelas poderosas forças religiosas que disputam o poder. A Igreja católica, com a pujante e obstinada Opus Dei, trocou a disputa política pela discussão sobre o aborto.

Bento 16, esquecido dos desastres da sua Igreja com a ingerência nos assuntos internos dos diversos países, sobretudo no apoio a ditaduras sul-americanas, regressou à habitual ingerência nos assuntos internos dos países que julga dominar, e pediu ao episcopado brasileiro para exortar os fiéis a não votarem em candidatos apoiantes do aborto, numa referência implícita a Dilma Rousseff, acusada de defender práticas abortivas.

Nunca as Igrejas investiram tanto nas eleições do Brasil, onde dominam a comunicação social e dispõem de imensos recursos. A própria candidata, Dilma Rousseff, tergiversou na sua posição sobre a descriminalização do aborto assustada com os bandos de beatos que lançavam a confusão entre a defesa do aborto e o direito à IVG em caso de risco de vida da mãe, malformações congénitas e violação.

Por isso a vitória de Dilma constituiu, para lá da gratidão para com Lula, a estrondosa derrota das forças obscurantistas que Serra acolheu na sua campanha. Mais do que uma vitória do PT foi uma estrondosa derrota para a Igreja católica, que fez contra Dilma uma campanha feroz e sem ética.

Com voto electrónico, o Brasil elegeu pela primeira vez uma mulher para a Presidência. Merece um lugar de vanguarda nas grandes democracias. Parabéns Brasil !

Janer disse...

Estão mal informados os lusos. O debate sobre o aborto foi circunstancial e envolveu a CNBB - que nada tem a ver com a Opus Dei - e algumas confissões evangélicas. O que elegeu Dilma foi a bolsa-família. No Nordeste, a diferença pró PT foi de 10,7 milhões de votos. O Brasil que vive da esmola estatal venceu o Brasil que financia a esmola.

Anselmo Heidrich disse...

Esses dias, na lotérica (sim, eu jogo), o atendente reclamava do bolsa-família "isto tem que acabar, outro dia uma mulher aqui sacou o bolsa para pagar a SKY!" [*TV via satélite por assinatura]
Se é que restava alguma, isto é um programa monumental de perda moral.

Catellius disse...

Excelente artigo, Janer.
Encaminhei-o para toda minha lista de e-mails.

Raphael (Zefirosblog), o Olavo de Carvalho ser astrólogo é algo muito divertido. Imagine, na recente campanha pela presidência, o Serra indo aos debates vestido de palhaço (papel de palhaço ele fez). Nada do que dissesse seria levado a sério, a Dilma ficaria mais descontraída, rindo da Brutta Figura do careca, todos ririam de sua cara. O Olavo parecia um contendor com argumentos, estúpidos, muitas vezes, mas um contendor de respeito. Após ler uma entrevista que concedeu a uma revista de astrologia e excertos publicados pelo Janer, não consigo mais levar esse Walter Mercado raivoso a sério, ainda que esteja falando algo ajuizado.

Anselmo, jogar para quê? Se for para sonhar no fim de semana, é mais fácil sonhar que você espiará pelo olho mágico de sua casa, após o soar da campainha, e verá do outro lado a Angelina Jolie cheia de amor para dar. E este sonho é gratuito.

Sempre alguém ganha, claro. É a lei dos grandes números. A possibilidade de ganhar é de uma em x milhões. X milhões jogam e alguém ganha. Ou acumula uma ou duas vezes, ou dois ganham. Para termos uma ideia de como é absurdo jogar na Mega Sena, se em um jogo der 01, 02, 03, 04 , 05 e 06, e no jogo seguinte eu jogar os mesmos números, em sequencia, a possibilidade de eu ganhar é exatamente a mesma de qualquer outra pessoa, alguma com números não sequenciais. Sim, a bolinha não sabe que número está nela pintado, o “destino” não entende nossas convenções numéricas. Não vemos resultados assim simplesmente porque a amostragem é mínima. Temos milhões de pessoas jogando mas apenas centenas de edições da Mega Sena (quanto eco). Precisaríamos de milhões de edições, talvez, até vermos uma sequencia como aquela em duas edições consecutivas.

Enfim. É mais fácil sonhar com qualquer coisa. É mais fácil acertar, vendado e girando, dez pedras no centro de um alvo a 50 metros, do que ganhar na Mega Sena. Melhor não jogar, na minha opinião, hehe.

Abraços a todos!

zefirosblog disse...

Walter Mercado... good one.

Gostei da sugestão para sonho, ainda que eu prefira imaginar a Zooey Deschanel do outro lado.

Morena Flor disse...

Ôpa, ôpa, muita calma nesta hora!

Q raios de oposição é esta de "Brasil q sustenta votou em fulano" X "Brasil sustentado q votou em beltrano"?

Mesmo sem o NE, "Dilmão" ainda sim ganharia a eleição! Ela foi muito bem votada em praticamente TODO o país(exeto o sul) E o estado q mais votou na "boneca" do lula foi o Amazonas(um estado nordestino?).

E ainda teve estados nordestinos q mesmo votando na candidata da situação, elegeram governadores da oposição(ex, Alagoas e Sergipe). E o q dizer do RS, q elegeu TARSO GENRO? P/ vcs verem o quanto este tipo de divisão é simplista - tacanha, eu diria - e só gera mais discórdia do q qualquer coisa.

Em todo o país, existiram pessoas q votaram na situação tanto na oposição. Em alguns lugares mais q outros, e verdade, mas nada q justifique tamanho divisionismo com belas doses de ressentimento contra os "povos lá de cima". Aqui no Ne e no N, existiram votantes na oposição e os q não quiseram votar em ninguém especificamente.

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