06 Outubro 2010

Valor, justiça e democracia



Há uma fronteira tênue entre o ceticismo e a justiça. O ceticismo requer mais a dúvida que a crítica (pré-determinada) e a justiça não pode descartar a possibilidade de reversão de nosso pré-julgamento quando tivermos motivos suficientes. O equilíbrio entre esses dois princípios não significa que não tenhamos valores e sejamos imparciais e a imparcialidade é tão nefasta porque é ingênua. Não apoiar a eleição de um candidato político, do qual claramente discordo não significa que defendo sua inelegibilidade.
Exceto pela possibilidade de Francisco Everardo Oliveira Silva, o “Tiririca”, ser analfabeto, que de acordo com a lei é inelegível, não sou contra sua candidatura e eleição. Primeiro por que a democracia não é um sistema que parte da premissa da necessidade de boa qualidade do político, mas sim que a disputa levaria a busca individual por qualidade que, coletivamente, poderia ser consagrada. Portanto, a democracia se baseia na crença de que o processo é que garante a qualidade dos resultados ou tende a mesma.
Se partirmos de um ponto de vista elitista, mesmo que essa elite seja intelectualmente superior, não estaremos privilegiando um sistema similar à economia de mercado e sim partindo da premissa de que eleitores são incapazes de decidir quem deve representá-los. Esta posição limitadora também é inviável porque demanda um mínimo qualitativo para nossos representantes. A tirar pelos projetos de lei que são criados não vejo como isso possa passar. Há leis claramente estúpidas e burras.
Dentre as críticas que já ouvi, a mais recorrente é que o povo votou por escárnio. Ora, e se for? Não é seu direito? Acho ingênua a posição de que aí os valores democráticos estariam sendo ameaçados ou, pelo menos, desrespeitados. O caso não é em relação à democracia, ela apenas refletiria uma situação anterior, de descontentamento talvez. E quem pode garantir que não haja mesmo um ponto positivo nisto tudo ou resultado que possa valer à pena?
Jon Gnarr Kristinsson é um conhecido comediante islandês que neste ano também foi eleito prefeito da capital Reykjavík. Seu partido, chamado de “O melhor partido” tem piadas como plataformas políticas: toalhas gratuitas nas piscinas e um urso polar para o zoológico da cidade. Se isto não é escárnio, não sei o que é. Este tipo de fenômeno político tem a ver com o desencanto e cansaço com a política tradicional, que no caso da Islândia foi afetada pela crise de 2008, mas e o nosso Tiririca? Pensem: pode haver maior palhaçada no cenário político nacional que um Plínio de Arruda Sampaio, candidato do PSOL à presidência da república propor invasões de propriedades para minimizar o problema habitacional?
Talvez tudo isso seja um claro sinal de amadurecimento político na medida em que o “menos palhaço” tenha recebido mais votos...

3 comentários:

zefirosblog disse...

Ainda que isso me incomode, é em tempos como esse que me surpreendo sendo simpático a Sócrates. Ele costumava questionar o porquê de em questões militares parecer ridículo tomar as opinião de sapateiros ou agricultores ao invés do juízo dos generais. Em questões navais, o porquê soar estranho se considerar a opinião dos curtidores e militares ao invés das impressões dos marinheiros, mas nas questões de Estado, paradoxalmente, ser possível a qualquer vivaldino imbecil decidir como se irá proceder (claro que eu descrevi a idéia do irritante filósofo ateniense com algumas adaptações pessoais). Vivemos em tempos onde todos tem uma opinião sobre tudo. Não só, são tempos onde todos tem uma opinião categórica sobre tudo. Do sapateiro ao físico nuclear, é cada vez mais incomum encontrar quem não se considere especialista em politica, aquecimento global, Direito, literatura, futebol, samba quando discutindo esses temas... O sujeito acaba de assistir uma entrevista no GNT sobre, digamos, aquecimento global. É o primeiro contato que ele tem com o assunto, porém o sujeito já se sente apto a sair por aí todo serelepe doutrinando do alto da maior intransigência idiota possível que o fenômeno existe ou não existe.

Eu costumava me orgulhar de ser defensor intransigente da democracia – para mim, um dos princípios ocidentais mais importantes – mas é difícil manter a defesa dessa tal democracia – aquela coisa abstrata e idealizada que costumamos imaginar - quando ela degenera para mera oclocracia estúpida de um povo que merece seus governantes.

Os eleitores são incapazes de decidir quem deve representá-los? Isso me parece cada vez mais claro.
A idéia de que eleger palhaços reflete “votos protesto”, penso, não se sustenta. Fosse esse o caso, a experiência estaria superada quando se elegeu gente como o Clodovil e o tal cantor (creio que se chama Frank Aguiar), dentre outros. O chamado “voto protesto” não é manifestação recente, ninguém pode alegar estar apenas experimentando. A experiência já foi feita e nem por isso as coisas mudaram. Se é mesmo uma questão de fazer piada, então que se feche o Congresso, afinal, essa é uma piada um tanto cara. Há outras mais palatáveis. Comprar um DVD do Monty Python, por exemplo.

Sou contrário a democracia? Au contraire. A droga é exatamente essa, continuo defensor quase que intransigente dela (ainda que minha definição de democracia não prescinda do Estado de Direito, associação que muita gente não vê importância em fazer). No fim, acho que vale a reflexão atribuída a Churchill. A democracia é mesmo a forma de governo mais ruim que existe, com exceção de todas as outras...

Abraço

Anselmo Heidrich disse...

Zéfiro, enquanto lia teu comentário pensava em te responder com a famosa frase do Churchill, mas não foi necessário. Agora, comprar um “DVD do Monty Python” não é pra qualquer um. É muito mais fácil votar no Tiririca que, tu tem razão, não é protesto, pois protestar pressupõe um foco, um objetivo, coisa que a maioria dos que nele votaram simplesmente não tem.
Por outro lado, não penso que a democracia seja um sistema em si. Vejo-a como parte, meio de se chegar a determinados fins. É como se fosse um componente essencial de um processador, mas as frutas in natura estão lá à espera de se transformarem em suco.
Abs,

Everardo disse...

É possível, Sr. Zéfiro, que o senhor compreenda que uma representação parlamentar legítima é uma espécie de corte social do universo representado. A sabedoria vinda dos livros pode ser apenas uma das e não A sabedoria. Fosse assim, teríamos naufragado na crise mundial sob o comando do metalúrgico tão atavicamente odiado. Seria certo que o metalúrgico não teria sequer encontrado espaço no universo do ilustre sociólogo que, este sim, justa ou injustamente, é motivo de chacota nacional.

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