02 maio 2010

A grande mistificação do século passado (II)

Janer Cristaldo


Muitos outros embates tive com esta raça de vigaristas. Ainda jovem, fiz um concurso para secretário de escola. Na hora do exame biométrico, entrei na fila errada, caí na dos concursados para delegados de polícia. Fui examinado por um psicanalista. Não por acaso, um dos que estavam no debate sobre Bergman. Sentado em uma cadeira solene, do outro lado da mesa me analisava com olhar percuciente. Eu, numa cadeirinha de réu. Comecei a rir.

- Por que o senhor está rindo?
- Estou rindo porque o senhor, do alto dessa curul, está me observando nesta humilde cadeirinha.

Não sei se ele entendeu a curul, mas senti que não gostou.

- O senhor está rindo de nervoso.
- Vai ver que é, Dr! O senhor é psicanalista. Eu, provavelmente um neurótico qualquer.
- O senhor tem algo contra a psicanálise? – perguntou-me.

Tinha e muito. Havia lido bastante na época sobre o assunto e fui debulhando meus argumentos. Ele não disse nada e dispensou-me. Algumas semanas depois recebi uma comunicação. Devia submeter-me a uma junta psiquiátrica. Se não aceitava a psicanálise, certamente era um perigoso meliante.

Compareci ao exame. Não consigo esquecer da cena. Três doutores, sentados sempre em cadeiras solenes, me olhavam do alto. Eu, numa cadeirinha de réu. Precisava do emprego, respondi como eles gostavam. Fiquei sem saber se fui condenado ou não pelos Torquemadas. Antes da sentença, consegui emprego em jornal e nem me preocupei com o laudo.

Mais adiante, novo confronto. Escrevi que ser psicanalista dispensava curso universitário. Mais ainda, dispensava qualquer curso. Qualquer analfabeto, se quisesse, podia colocar placa de psicanalista em uma sala e sair clinicando. Na época, em São Paulo, após o curso de cinco anos, ao preço de dez ou quinze mil cruzeiros por mês, pessoas sem o pré-requisito do curso de medicina podiam exercer a profissão de psicanalista. Enquanto 38 alunos faziam o curso, outros cem esperavam na fila. O que constituía uma espécie de subvigarice, já que lei alguma regulamentava a profissão.

A guilda reagiu com fúria. Um psiquiatra, lembro que chamado Ronaldo Moreira Brum, me acusou nos jornais de nada entender de medicina – como se psicanálise fosse medicina. Ok! Doutor. De medicina nada entendo. Mas entendo de Direito. E psicanalista não é profissão regulamentada. Portanto, qualquer um pode exercê-la. A propósito, tem muito engenheiro e economista desempregado no Brasil, que puseram plaquinha de psicanalista em seus escritórios para ganhar seu pão.

Uma psicóloga e jornalista, Ivete Brandalise, resolveu enfiar sua colher na sopa. Escreveu que devia existir uma lei que regulamentasse a profissão de psicanalista. Que ela, psicóloga, tinha uma lei que regulamentava a sua. Ora, a dita lei era um trenzinho da alegria, no qual embarcaram todos os licenciados em Filosofia. De filósofos, vaga e suspeita ocupação, viraram psicólogos. Ora, lei tem número e data. Desafiei a Brandalise, e também o Dr. Ronaldo, a me citar o número e a data da lei que regulamentava a profissão. Nunca tive resposta.

A cada semana, começava minha crônica: “Enquanto o Dr. Ronaldo não nos fornece o número e a data da famosa lei que regulamenta a profissão de psicanalista...” Nunca forneceu. Soube mais tarde que propôs, em uma reunião da Amrigs (Associação dos Médicos do Rio Grande do Sul), que a entidade me processasse por calúnia. Ou talvez difamação, já não lembro. Prudentemente, a Amrigs decidiu que não iria dar atenção a “um jornalista em busca de sensacionalismo”.

Se bem que, devo confessar, tive notícias de um psicanalista sensato. Em minhas andanças noturnas, conheci uma mulher esplendorosa. Algumas semanas depois, sem mais nem menos, ela bateu à porta de meu humilde tugúrio. Recém-acordado, perplexo e sem acreditar no que via, perguntei ao que vinha.

- Meu psicanalista me liberou para te visitar.

Entra. E passa meu endereço ao doutor. Que mande mais clientes. E que prescreva a dose. Ou seja, mesmo no universo da psicanálise parece existir alguma lucidez. É a chispa da ferradura quando bate na calçada.

Este debate sobre a psicanálise, para mim já estava resolvido há um bom meio século. Me espanta que seja hoje retomado na culta França. Ou supostamente culta. Retomar a discussão me soa como tentar saber se Ury Geller – alguém ainda lembra? – entortava ou não colheres. Há muito defendo a idéia de que os jornais deviam ter uma espécie de supervisor de uns 80 anos, com pelo menos meio século de redação, que conheça bastante bem a história de seu tempo, para que os redatores mais jovens não achem que é novidade o que em verdade é antigo. Volto ao livro dos Pinckney.

“Segundo o próprio Freud, ninguém tem o direito de criticar a psicanálise. Pelo simples fato de pôr em dúvida os métodos psicanalíticos, a opinião do céptico não merece confiança. Em Freud, lê-se: “Ao céptico se diz que a análise não requer fé; que ele pode ser tão crítico e desconfiado quanto queira; que, em absoluto, não se considera sua atitude como resultante de seu raciocínio, pois não tem condições de formar sobre o assunto apreciação digna de crédito...”

Dogma absoluto, no melhor estilo dos dogmas da Santa Madre. Quem não crê, não tem autoridade alguma para falar sobre o assunto.

“Paradoxalmente, e isto espelha a psicanálise em geral, não é indispensável ter sido analisado ou possuir raciocínio fidedigno para elogiar Freud e seu trabalho; homenagens à psicanálise são sempre aceitas, ainda que seus autores não tenham conhecimento, ou experiência do assunto. Com essa atitude farisaica, Freud e seus discípulos não dão lugar à investigação por métodos científicos, pois o cientista, por sua própria necessidade de testar a validade das teorias, revelar-se-ia suspeito e incapaz de julga com precisão”.

Não há chance alguma para quem discorda. Disse Dr.Freud: “... dando interpretações a um paciente, nós o tratamos sob a famosa fórmula de cara ou coroa. Isto é, se o paciente concorda conosco, a interpretação está certa. Mas se ele nos contradiz, isto é apenas sinal de sua resistência, o que novamente prova estarmos certos”.

Os Pinckney fazem uma distinção entre psiquiatria e psicanálise. Para os autores, a psiquiatria é um ramo da medicina dedicado à causa, diagnóstico e tratamento da doença mental. Esta abrange todas as formas de distúrbios do cérebro e sistema nervoso. O verdadeiro psiquiatra não exclui doenças orgânicas ou físicas, nem exclui a possibilidade de a doença mental resultar de etiologia física, química ou biológica. O psicanalista, pelo contrário, recusa-se a reconhecer qualquer desvio de saúde senão o que ele convenientemente rotula de neurose e, além disso, recusa-se a atender quem manifeste o mais remoto sintoma de doença verdadeira.

“Assim é que, há pouco mais de cinqüenta anos, um homem doente e solitário – um homem que não suportava que outros o fitassem; um homem que tinha sentimentos anormais em relação à própria mãe, a expensas da esposa; um homem que vicariamente se comprazia em sórdidas histórias sexuais – lançou uma doutrina para justificar suas próprias anormalidades”.

Michel Onfray não está dizendo nada de novo. Há muito a psicanálise foi desmistificada.

3 comentários:

Catellius disse...

Anônimo, seu comentário foi apagado. Se quiser criticar e xingar os autores, tudo bem. Mas não cite, em meio às ofensas, familiares e amigos pessoais, que não têm nada a ver com o assunto.

Catellius disse...

Caro Janer,

Acho Freud uma figura interessante, que, querendo ou não, tentava explicar de um modo mais racional o sonho, aquilo que chamam de alma. Tentava encaixar todo o universo em suas teorias, como faziam os monistas, claro, mas é um avanço trocar demônios por neuroses. Ao menos tentava colocar a explicação no indivíduo e nas suas relações sociais, não em espíritos, santos, anjos, demônios, etc. Já Jung era um metafísico maluco. Inconsciente Coletivo, Sincronicidade, escaravelhos, desenhos de loucos, mandalas chinesas, etc. - não há como ler o que ele escreve e não rir.

Mas discordo que os psicólogos sejam vigaristas. Não são burlões que apanham dinheiro aos incautos, servindo-se do conto-do-vigário. Não conheço um que não acredite no que faz, ainda que seja algo absurdo. E muitos fazem análise com outros psicólogos. Vigaristas que vendem elixires feitos com água e açúcar e às vezes compram elixires feitos com água e açúcar de outros "Malatestas"? Não conheço... Psicólogos acham que a água com açúcar é de fato um elixir eficaz...

De qualquer jeito, além do efeito placebo, há o efeito "beijinho no dodói". As mamães dão beijinhos nos dodóis dos filhinhos, para passar a dor. Que médico tem tempo hoje para fazer uma entrevista de duas horas com um paciente falando água, ouvindo água, para depois receitar água? Um homeopata, é claro! Mas essa conversinha pode fazer bem. É o beijinho no dodói. E os psicólogos, do mesmo jeito, ouvem o que os pacientes falam, dão conselhos às vezes úteis, representam uma autoridade envolta em livros e sabedoria, e assim obtêm resultados dizendo aquilo que qualquer um falaria. É capaz de um bêbado ouvir de alguém, a mentir propositadamente: "Deus me disse que você, fulano, deve parar de beber" - e deixar de beber por causa disso, mesmo tendo ouvido a mesma exortação de todas as pessoas próximas.

Padres enganam e estão enganados. A diferença destes é que pertencem e a uma instituição que já teve muito poder e o usou da pior maneira possível - e luta para não perdê-lo completamente - os padres devem à instituição obediência cega, dizem ser representantes divinos, etc. Esses enganadores enganados são muito piores do que os psicólogos.

Janer disse...

Bem, Catellius,

eu falava de psicanalistas e não propriamente de psicólogos. Mas estes também não são flores. Minha filha se analisava com uma destas profissionais. Quando a convidei pela primeira vez para uma viagem à Europa, a psicóloga vetou: que não podia viajar, que voltaria esquizofrênica, desestruturada, sei lá mais o quê.

Pode? Minha filha mandou-a pastar. Ela também tinha um problema banal nos olhos, as tais de moscas volantes, coisa que desaparece com o tempo. Segundo a psicóloga, era doença decorrente de conflitos com o pai. Quando, a bem da verdade, não havia conflito algum.

Além disso, aquele trenzinho da alegria no qual embarcaram os que tinham curso Filosofia (até defroqué pegou carona, com suas aulinhas de seminário), demonstra uma colossal picaretagem na regulamentação da profissão. Que tem a ver Filosofia com Psicologia?

Conheci não poucas pessoas que buscaram psicologia para resolver problemas de ordem pessoal, coisa que acabaram não resolvendo e passaram a transferi-los a outros.

Tenho lástima dessas pessoas que pagam esses gigolôs das angústias humanas para entender a própria vida. Eu - que fiz apenas uma cadeira de psicologia no curso de Filosofia - me considero excelente psicólogo. Já salvei inclusive uma menina à beira do suicídio em Paris. Fui de certa forma psicólogo para minha mulher, e vice-versa. Psicólogo, a meu ver, é aquela pessoa sensata e com experiência de vida com quem discutimos nossos problemas e opções. Sem pagar nada.

Pagando, é vigarice.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...