03 maio 2010

Burka conturba Europa

Janer Cristaldo


Continua a briga da burka na Europa. Antes de ir adiante, melhor explicar o que é burka. É aquele véu – se é que se pode chamar de véu – que envelopa a mulher da cabeça aos pés, usado basicamente no Afeganistão. Nem os olhos ficam a descoberto, mas atrás de uma espécie de grade. A moça fica mais parecendo um saco de batatas. Pelo que sei, os demais países muçulmanos não o impõem às mulheres. Há outros tipos de véus. O nikab, que deixa apenas os olhos à mostra. O hiyab, que deixa o rosto livre. O shayla, um lenço comprido e retangular colocado em torno à cabeça, usado na zona do Golfo Pérsico. E o chador, veste que cobre o corpo todo mas deixa o rosto livre. Jornalista que ache que é indumentária árabe é o que não falta. Não é. É veste iraniana.

Semana passada, a Bélgica aprovou por unanimidade na Câmara Baixa a ilegalização de toda vestimenta que oculte o rosto das muçulmanas, por considerar que este tipo de véu significa uma condição de escravidão. “Somos o primeiro país a fazer saltar o ferrolho que submeteu muitas mulheres à escravidão e esperamos ser seguidos pela França, Suíça, Itália, Países Baixos e outros países que pensam”, disse o deputado Denis Ducarme.

Ficariam proibidos a burka e o nikab, embora o texto aprovado não aluda explicitamente a nenhum destes véus. Apenas determina que as mulheres que se apresentam em espaços públicos com o rosto coberto ou dissimulado, total ou parcialmente, de forma que não sejam identificáveis, serão sancionadas com uma multa entre 15 e 25 euros e/ou com uma pena de reclusão de um a sete dias. Ficam liberados os cascos de motociclistas e disfarces de carnaval. A lei precisa ainda passar pelo Senado. É o que nos conta El País.

A França foi o primeiro país a seguir os belgas. Leio no Figaro que o governo pensa em punir com 150 euros de multa o porte do véu integral e com um ano de prisão e 15 mil euros de multa o fato de obrigar uma mulher a usá-lo. O projeto foi apresentado pela ministra da Justiça Michèle Alliot-Marie e deve ser examinado pelo Conselho de Ministros no próximo dia 19.

Bernard Kouchner, o chefe da diplomacia, declarou hoje que a França estará exposta a críticas no mundo todo se aprovar o projeto. "Haverá certamente países na Europa que irão protestar, a Dinamarca, os Países Baixos, etc., como também um certo número de países muçulmanos, por exemplo o Paquistão e a Turquia, onde nós seremos criticados. Haverá também um país, a Arábia Saudita, que dirá: em seus países, vocês têm o direito de fazer o que quiserem, mas aqui tenho o direito de fazer o que quero, por exemplo, o de não permitir às mulheres que dirijam”.

Intolerância religiosa, alegam os muçulmanos, tentando atingir a Europa em um ponto que lhe é bastante sensível. Ora, não se trata disto. Assim fosse, teriam de ser proibidos o quipá dos judeus e o turbante dos sikhs. O problema é identificação. Como pode um professor identificar em um exame uma aluna cujo rosto está coberto? Ou como pode um guarda de trânsito identificar uma mulher com uma burka? Sem falar que num continente que vive sob a ameaça do terrorismo muçulmano, tais vestes facilitam a vida de quem quer que queira explodir bombas.

Na Itália, há alguns anos, mulás pretenderam que inclusive nas fotos de carteira de identidade as muçulmanas portassem véu. Ora, como identificar um rosto velado? É que para um árabe soa estranha esta expressão, "identidade feminina". Onde se viu mulher com identidade?

Outro problema, a imposição do véu pelo macho muçulmano. Se o véu fosse algo facultativo, penso que a Europa não veria maiores problemas em seu uso. Imposto, é escravidão. E duvido que uma mulher, por mais religiosa que seja, goste de usar véus. O rosto é o que mais define uma pessoa. Entendo que uma leprosa prefira cobrir seu rosto. Mas as árabes não são leprosas.

Me ocorre episódio que vivi em Zeralda, cidade-satélite de Argel, destinada a estrangeiros. Meu quarto era cuidado por uma bérbere baixinha e linda, de divinos olhos azuis. E com uma minissaia estonteante. Certa noite, ao voltar para o hotel, cruzei com uma mulher embuçada, que me fuzilou com dois olhos de um azul mediterrâneo e profundo.

Era ela, de volta a seu triste e cinzento universo muçulmano.

2 comentários:

Leclair disse...

O problema é identificação mesmo. Além disso, esses trajes facilitam muito a ação de suicidas com explosivos. Como as "viúvas negras" chechenas, que se cobrem todas.

Anônimo disse...

É de fato um assunto delicado: se determinada pessoa muda de país deve seguir a cultura do local, agora obrigado por lei.
Não sei até que ponto os ocidentais julgam a burka como "condição de escravidão" da mulher e até se elas o usam para demonstrar isso.
Aliás, se o problema é "identificação" seria bem mais simples que acusar a burka de simbologia de "condição de escravidão".
Tem caroço nesse angu.

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