02 abril 2010

A 63ª volta

Janer Cristaldo


A vida é uma caixinha de surpresas. Em meus dias de criança, sabia da existência de Bagé, Livramento, Dom Pedrito, Santa Maria. Meu ecúmeno – imaginário, pois destas cidades só havia ouvido falar – terminava aí. Nos bailes do Upamaruty e Ponche Verde, soube notícias de um personagem, mais conhecido como Peão Viajado. Ele conhecia Bagé e Livramento e eu o invejava. Tive um tio muito erudito, tio Ângelo, que tinha alguma noção de Europa. “Parece que fica pras bandas de Passo Fundo”. Mais tarde, só bem mais tarde, tive de convir que tinha razão. Ficava mesmo no rumo de Passo Fundo.

Nasci no campo, mas em meio a certo cosmopolitismo. Meu rancho ficava a mais ou menos a meia légua da Linha Divisória entre Brasil e Uruguai. Com meus pais, falava português. Com minha ama, doña Catulina, falava espanhol. Na estrada, em frente a nosso rancho havia um desses marcos divisores de fronteira, em concreto. Até hoje, nos mapas antigos pelo menos, você pode encontrá-lo como Marco dos Moreiras, meu clã. Meu pai costumava colocar-me nos ombros para que eu subisse até o topo do marco. Mandava que eu me virasse para o nascente e dizia: "fala para os homens do Uruguai, meu filho". Depois fazia virar-me para o poente: "fala agora para os homens do Brasil". Nasci entre duas culturas e o primeiro grande poema de minha infância foi o Martín Fierro.

De Porto Alegre, também tinha notícias. Era a capital do Estado, pelo que diziam as professoras. Questão das aulas de geografia, nada mais que isso. Nunca me ocorreu que um dia viveria lá. A bem da verdade, tampouco imaginava que um dia viveria em Dom Pedrito. Era bom nas contas, e meus dias estavam mais ou menos selados como balconista em algum bolicho lá do campo. Ao terminar o quinto ano primário, no Grupo Escolar das Três Vendas, atrelei o tordilho à aranha que nos levava, eu e minha mãe, à escolinha rural, e voltei para encarar meu futuro. Foi quando dona Ivone Garrido, uma professora vinda de Dom Pedrito para aplicar as provas, pulou o alambrado atrás da aranha, quando o tordilho já descia o lançante da coxilha. "Espera, Clotilde, pára, o teu filho é um gênio, tens de mandar esse guri pra cidade".

Fui salvo pelo gongo. O geninho foi pra cidade. Não imaginava, naqueles dias, que um dia subiria rumo ao norte: Florianópolis, Curitiba, São Paulo. Aliás, nem tinha idéia que existisse norte. Norte, para mim, era apenas um ponto cardeal. Dona Ivone me conseguiu hospedagem com uma cunhada sua, também professora, que me preparou para o admissão. Peguei minha bicicleta e rumei ao “povoado”. Dez léguas de carretera, com muito barro e areia. Já falei de minha decepção com a cidade. De tanto ler contos de fadas, eu as imaginava douradas e cheias de torres e castelos. Dom Pedrito era cinzenta e sem torre nem castelo algum. Foi minha primeira viagem. Peguei o vício e depois desta não parei mais. Mais tarde, só bem mais tarde, acabei vivendo nas cidades douradas cheias de torres e castelos. Resfeber, dizem os suecos. Febre de viagens.

Em meus dias de ginásio, invejei quem conhecia Porto Alegre. Havia um certo conflito quando os filhos dos fazendeiros voltavam da “capital”, de seus cursos de Direito ou Medicina. Vinham com carisma e monopolizavam a atenção das gurias. A nós, que não éramos peões viajados, só nos sobrava o restolho. Mas eles nos traziam noções da Heléia. Não dizíamos bunda, em nossos dias de adolescentes. Mas lordo. De lordose, contrabando dos estudantes de medicina. Medíamos a beleza das gurias em milielênios, a capacidade de uma mulher de fazer naufragar mil navios. Contrabando dos estudantes de Direito. Falávamos grego em Dom Pedrito e não sabíamos. Quantos milielênios valia a Regina? A Corinha? A Luludi? A Síssi? Naquele eterno footing na praça General Osório, da era pré-televisiva, distribuíamos notas às meninas que passavam.

Meu professor de História, professor Varílio Meneghetti, nos falava de Queóps, Quéfren e Miquerinos. Para mim eram realidades que pertenciam a um outro planeta. Nunca me ocorreu que um dia as veria de perto. Tampouco que entraria na tumba de Tutankamon e o veria em seu sarcófago. Professor Hugo Macedo, de Geografia, nos falava de mares, desertos e montanhas. Ora, de geografia eu só conhecia a planura monótona da pampa, entremeada pelo vago dar-de-ombros das coxilhas, e não tinha idéia alguma do que fosse mar. Mar, só fui conhecer lá pelos 18 ou 19. Mais tarde, só bem mais tarde, singraria o Atlântico e o Pacífico, o Mediterrâneo e o Egeu, o Negro e o do Norte, o Tirreno, o Adriático e o Báltico.

Ver o mar pela primeira vez é sempre um acontecimento na vida de um homem do campo. Dá uma coisa por dentro, parece que o peito vai explodir. Tampouco jamais imaginei que um dia vagaria pelos desertos, mares e montanhas, dos quais professor Hugo nos trazia notícias, mas jamais teve a chance de ver de perto. Nas montanhas de El Hoggar, contemplando um nascer de sol esplendoroso além do Tridente, evoquei professor Hugo.

Professor Hélio Sarubbi nos falava do pêndulo de Foucault. Nunca imaginei que veria a Terra girar, no Panthéon, em Paris. Professor Darcy, de latim, nos falava do Coliseu, catacumbas e Foro Romano. Para mim, pertenciam ao território da lenda. Nem sonhava que um dia meus pés pisariam aquela poeira milenar.

Maria Veiga me ensinou francês. Eu não tinha idéia alguma porque aprendia francês naquelas bibocas, mas me agradava falar outra língua. Era como se saísse de mim mesmo. Só entendi o sentido daquele ensino no dia em que defendi uma tese em Paris. Quando entrei na sala Bourjac, na Sorbonne, meu primeiro pensamento foi para a Maria.

Uma vez conhecido o mar, surge a pergunta: que há do lado de lá? É a mesma que me fazia quando meu pai me ordenava olhar para a República Oriental. Terá sido esta pergunta que moveu os primeiros nautas, que não hesitaram em lançar-se às águas, mesmo imaginando que do outro lado havia monstros ou um abismo. Nasci em época em que se sabia bastante bem o que havia do outro lado. Mesmo assim, foi com uma sensação de milagre e deslumbramento que um dia vi a ponte sobre o Tejo aproximar-se de minha nau. Senti-me um Colombo às avessas. Não conseguia acreditar que, dentro de algumas horas, estaria pisando as terras vetustas do Velho Continente. Europa, durante minha juventude, só existia nas aulas do professor Hugo e do professor Meneghetti e na imaginação desvairada de tio Ângelo. Lá pras bandas de Passo Fundo.

Cumpro hoje a 63ª volta em torno ao sol, viajando neste planetinha do qual já conheço algumas partes. Das coxilhas, sangas e canhadas, às rias, oueds e fjordes. Do bar do Santinho ao Deux Magots. Da capelinha das Três Vendas à Notre Dame. Do Cerro da Tala ao Mont Blanc. Da sanguinha de Upamaruty às margens do Sena. Não está mal para quem nasceu nas grotas.

Não posso queixar-me. O bom deus dos ateus foi generoso comigo. Me ocorre nesta noite um momento de Don Ramón del Valle-Inclán. Discorrendo sobre sua vida aventurosa, o escritor galego falava de um de seus amores. “Hicimos siete homenajes a Venus”. E arrematou: “Y repetimos la sétima”.

Nunca fui de comemorar estas passagens. À medida que as voltas se encurtam, tenho sentido certa vontade de celebrar. Não o que vivi, mas o que resta por viver. Que já não é muito. Mais uns dez anos de vida útil estão de bom tamanho. A idéia de morrer centenário e caquético me horroriza. A hora não é de pé no freio, mas no acelerador.

Solavancos não faltaram. Alguns bruscos, outros nem tanto. Mas a carroça continua andando. Rumo ao fim da estrada. Celebro hoje a data com a Primeira-Namorada, a bona-chira regada com o sangue das uvas. Como Don Ramón, penso repetir nos próximos dias a comemoração da 63ª. Parece pouco, mas cada volta dá cerca de um bilhão de quilômetros. Por ano.

Tempus fugit. Hay que vivir!

4 comentários:

André disse...

Febre de viagens é uma doença muito boa. Também "sofro" disso.

"A idéia de morrer centenário e caquético me horroriza. A hora não é de pé no freio, mas no acelerador."

Concordo.

ObservadorNet disse...

Ah! o Janer.
Se não me engano já li um artigo seu no MSM, mas faz um certo tempo.

Viajar é ótimo. Só não gosto muito das latas de sardinha que temos que entrar para fazer certas viagens.
Não por (falta de) segurança, mas por certa claustrofobia.

ps: Alguém sabe como faço para comentar logado no meu perfil wordpress? Não estou conseguindo por esse sistema do blogger.

blaise2 disse...

Parabéns,Janer!
Não saiu em pole position,mas acaba de completar a 63ª volta no bloco dos vencedores.Espero que demore bastante até subir ao pódio.

Agora chega de festerê e volte pras pérolas religiosas.Nunca os ventos estiveram tão a favor para retirar as máscaras.

Lia

Catellius disse...

Janer,

Feliz aniversário (atrasado)!

Desejo-lhe mulheres, vinho, boa música (aquilo que de uns tempos para cá degenerou para sexo, drogas e rock'n' roll) e muitas viagens estimulantes (nada a ver com Santo Daime).

Abração

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