14 março 2010

Três pais nossos e lava a boca!

Janer Cristaldo


Surpresa ao ler ontem, na edição do El País, esta manchete:

EL FISCAL VATICANO PARA LA PEDOFILIA
RECONOCE 3.000 CASOS EN OCHO AÑOS


Minha surpresa não reside no fato de uma autoridade do Vaticano reconhecer 3.000 casos de pedofilia. Tampouco na safadeza do fiscal vaticano, que reduz a oito anos o universo de busca. Só na Irlanda, seriam 25 mil os abusos sexuais de crianças pobres nas escolas católicas, durante quase 70 anos. Isso sem falar de outros milhares na Alemanha e Estados Unidos. Não, isto não me surpreendeu. O que me causou espécie foi ver El País falar em pedofília. Pelo jeito, pela força dos fatos, entrou uma nova palavra no espanhol de Castilla, la Vieja.

A palavra não consta do dicionário da Real Academia, muito menos do Maria Moliner. Para definir o que chamamos de pedofilia, os espanhóis sempre usaram pederastia. Palavra que, para nós, tem outra conotação. O fiscal do Vaticano em questão é monsenhor Charles Scicluna, entrevistado pelo diário Avvenire, da Conferência Episcopal Italiana. "Promotor de justiça" da Congregação para a Doutrina da Fé, monsenhor não gosta muito da palavra pedofilia. Prefere falar em delicta graviora, os delitos que a Igreja católica considera absolutamente os mais graves, isto é: contra a Eucaristia, contra a santidade do sacramento da Penitencia e o delito contra o sexto mandamento ("Não cometerás atos impuros") por parte de um clérigo com um menor de 18 anos. Delicta graviora soa melhor que pedofilia. Mais elegante.

No que vai um grosso sofisma. O entrevistador, que certamente jamais leu a Bíblia, não lembrou a monsenhor que este “não cometerás atos impuros” não existe no Livro. Você pode revirá-lo de ponta a ponta e não o encontrará. É coisa de catecismo. Na Bíblia, existe no máximo o “não adulterarás”, o que é bastante distinto. O insigne promotor de justiça da Congregação para a Doutrina da Fé, pelo jeito, não tem muita familiaridade com os textos sagrados. Por outro lado, nem no catecismo – que deve ter sido a fonte de monsenhor – se fala de atos com um menor de 18 anos. Ato impuro é ato impuro, seja com maior, seja com menor.

As declarações de monsenhor surgem nestes dias em que as denúncias de pedofilia estão se aproximando perigosamente do santo dos santos, o Vaticano. No início deste mês,surgiu na Alemanha notícia envolvendo nada menos que o padre Georg Ratzinger, regente do coral da catedral de Regensburg (Ratisbona). Ratzinger, isto lembra algo ao leitor? Pois bem, é o irmão do outro, o Joseph Ratzinger. Vulgo Bento XVI.

Descobriu-se recentemente que os meninos-cantores da catedral de Regensburgo eram pasto dos padres que os educavam, entre 1958 a 1973. E padre Georg, o irmão do Bento, dirigiu o coral da catedral de 1964 a 1994. Claro que, como Lula, ele não sabia de nada. Quinze anos de abuso e nada transpirou junto ao regente do coral.

Fosse só isto, seria pouco. Recentes denúncias implicam o irmão do irmão, isto é, o próprio Bento. Um sacerdote alemão obrigou um menor de onze anos a praticar-lhe sexo oral e foi transferido de Essen a Baviera quando Ratzinger – o Joseph, isto é, o atual papa – que foi bispo de Munique entre 1978 e 1981, era o responsável pelo traslado dos curas. Na Baviera, o padre pedófilo foi posto a trabalhar sem interrupção na comunidade e nunca foi denunciado à justiça civil, muito menos afastado de seu cargo, pois continua exercendo o sacerdócio.

Para monsenhor Scicluna, o promotor de justiça do Vaticano, as acusações que pretendem que o papa tenha contribuído a abafar os abusos sexuais são “falsas e caluniosas”. Curiosa coincidência. É o mesmo que diz Lula e o PT a respeito das denúncias do mensalão e demais corrupções do PT.

Mas a imprensa está exagerando. Uma felaçãozinha aqui, outra acolá, não é coisa que não tenha conserto. Leiamos este relato de Peter Rueth, um ex-coroinha em um lar para crianças dirigido pelos salvatorianos perto da cidade de Paderborn, no noroeste da Alemanha, noticiado pelo Der Spiegel:

“Certa manhã, quando ele estava sozinho no vestiário comigo, um padre fechou a porta para ouvir minha confissão antes da missa. Ele disse: apenas um espírito puro pode servir a Deus. Eu tive que me sentar em uma cadeira. Então o padre me vendou com sua estola e amarrou minhas mãos com outra peça, dizendo que tinha que fazer isso porque supostamente não se deve ver a outra pessoa durante a confissão. Ele me pediu para falar sobre meus pecados, e quando confessei, ele me disse que, como punição, eu devia abrir minha boca para que ele pudesse colocar uma esponja embebida em vinagre, como a esponja que foi oferecida ao Senhor na cruz.”

Após o sexo oral que se seguiu, o menino foi instruído a recitar o Pai Nosso três vezes e então lavar sua boca. Nada que um bom ato de contrição não resolva.

16 comentários:

Jota disse...

Além das "curiosas coincidências" do caso Bento com o caso Lula; há uma pequena e crucial diferença: provas.
Por enquanto são só alegações.

Janer disse...

Pelo jeito, você não lê jornais. Está aí na imprensa: a Igreja está gastando bilhões de dólares com indenizações às famílias das vítimas. Só em 2008, a Igreja Católica dos Estados Unidos gastou US$ 430 milhões com indenizações por abuso sexual cometido por padres.

Vítimas de abuso sexual cometido por padres em Los Angeles receberam mais de US$ 1,5 bilhão — mais do que qualquer outra diocese dos Estados Unidos já pagou em indenizações. A Arquidiocese de Portland, no Oregon, decretou falência, tornando-se a primeira diocese da Igreja Católica americana a decretar falência por causa das acusações de abuso sexual. O pedido de falência teve a intenção de paralisar uma ação de abuso cometido por um padre que estava sendo julgada em Portland.

A ação envolvia Maurice Grammond, acusado de molestar mais de 50 garotos na década de 1980. Autores de duas ações envolvendo Grammond pediram uma indenização de mais de US$ 160 milhões.

Isso sem falar nas indenizações que foram e estão sendo negociadas na Irlanda, Alemanha e Áustria. E a bola da vez, pelo jeito, agora será a Itália.

Janer disse...

Quanto ao Bento, é mais que sabido que foi bispo de Munique entre 1978 e 1981, e responsável pelo traslado dos curas. E que acolheu o padre pedófilo sem denunciá-lo à justiça civil e sem afastá-lo de seu cargo.

João Paulo II foi outro grande acobertador de pedófilos.

Jota disse...

Janer, pelo visto você não leu o que eu escrevi.
Eu não disse que não existem padres que cometeram pedofilia, o que eu disse é que o caso Bento ainda carece de provas.
Logo, todo esse seu comentário recheado de notícias não faz a menor diferença em relação ao meu comentário anterior.
Até agora são só alegações, fontes que se contradizem.

Por enquanto eu fico na espera pela conclusão das autoridades competentes.

Janer disse...

Leia meu segundo comentário, em que me refiro ao Bento. Autoridade alguma chegará a conclusão alguma. Que ele foi responsável pelo traslado do padre pedófilo, isto é inegável. Mas, como o Lula, o Vaticano alegará que o papa não sabia de nada.

Mas como não saber de nada, quando a transferência de uma paróquia a outra era o recurso usual da Igreja para proteger pedófilos?

Jota disse...

Sim, ele transladou o padre não para ser pároco em outro lugar, mas sim para algum tipo de casa fazer terapia, longe dos fiéis. (isso eu li em um jornal(não católico), EM)
Aliás, transferência de uma paróquia a outra ainda é recurso usual da Igreja para inúmeras coisas.
Que de fato faltou um processo civil, sem dúvida.
Não tenho o menor interesse em proteger pedófilos, mas não há nada que de realmente incrimine de alguma forma o (ex bispo) Ratzinger, mesmo ele estando lá no período de tais acontecimentos.
Quanto ao fato de terminar em pizza, é de realmente muito ruim, mas pelo menos não ocorreu isso em todas os lugares, a julgar pelas cifras que você apresentou.
Já estão melhorando.

Janer disse...

Ninguém está acusando o pastor alemão de pedófilo. Mas de acobertador de pedófilos, o que é um pouco mais grave. Pedofilia é crime, é doença, deficiência psicológica, falta de caráter, como quisermos.

Acobertamento de pedofilia é conivência com o crime.

Jota disse...

Sim, era isso que eu quis dizer, acobertar.
Por isso eu disser "incrimine de alguma forma".
Mas foi falha de expressão minha.

Catellius disse...

Entre pastores protestantes não se vê tantos casos de pedofilia. Parece que preferem molestar mulheres adultas e manterem hipócritas relações com gays. Ted Haggard, um mentiroso e embusteiro, segundo definiu-se o próprio após ser pego com a boca na botija, era um dos mais influentes pastores evangélicos dos EUA e quem inspirava G. W. Bush na cruzada contra o casamento homossexual até ser desmascarado publicamente por um dos garotos de programa com os quais aliviava as tensões.

Anônimo disse...

Todo blasfemador tem um desejo oculto, e quase sempre é frustrado porque as reações de Deus são muito diferentes das reações humanas.

Duas pessoas insultam Deus: uma porque não acredita nele e quer ser engraçada; outra porque realmente acredita nele e o odeia.

Quem é pior? Embora a segunda seja malévola e a primeira não, tenho a certeza que a primeira é muito pior. Esse tipo de ateísmo ou agnosticismo despreocupado é a pior forma de insensibilidade e canalhice. Alguém perpetuamente indiferente à Melhor Coisa de Todas. O sujeito que odeia Deus ao menos acredita nele, e o leva a sério. E uma vez li que Mestre Eckhart disse: quanto mais blasfemamos, mais agradamos a Deus. Não sei bem o que Mestre Eckhart quis dizer com isso, mas suponho que o blasfemador agrada a Deus na medida em que não o ignora bestamente. É um princípio que funciona com homens também: é melhor ser odiado que ignorado.

O pior insulto à religião é se livrar dela alegremente e ir dançar charleston. Ou fox-trote, ou sei lá o que vocês estão dançando agora. Acho mesmo que é melhor ser satanista que ser ateu ou agnóstico. É melhor ser Gilles de Rais do que ser alguém, digamos, como Marilena Chauí.

Há pessoas tão más que até mesmo seus impulsos bons são ruins. Assim que resolvem ajudar a humanidade, a primeira coisa que fazem é odiar quem acham que não ajuda a humanidade. Acabam não ajudando a humanidade, porque se esquecem disso entre um cochilo e outro. Mas preservam o ódio. Cuidado com as pessoas que têm lindos sentimentos no atacado.

Veja, por exemplo, as manifestações pela paz antes da invasão do Iraque. Eram caras de ódio.

Anônimo disse...

E uma coisa mais para vcs, pequenos.

Jorge Luis Borges:

“Mas um espírito religioso pode não acreditar em um deus pessoal. Por exemplo, os místicos budistas não acreditam em um deus pessoal, mas isso não importa: a ideia de acreditar em um deus pessoal não é uma parte necessária do espírito religioso. E, por exemplo, os panteístas, ou Spinoza, que era um homem essencialmente místico, e dizia “Deus sive natura”, Deus ou a natureza, para ele as duas ideias são iguais. Por outro lado, para um cristão não, porque o cristianismo precisa acreditar em um deus pessoal, em um deus que julga seus atos. Bom, por exemplo, nesse livro Homens representativos, de Emerson, o tipo de místico é Swedenborg, e Swedenborg não acreditava em um deus pessoal, mas acreditava que o homem escolhe o céu ou o inferno.

Anônimo disse...

“Ou seja, depois de morrer, ele diz concretamente, uma pessoa se encontra em um lugar estranho, e é abordada por diferentes desconhecidos, e é atraída por alguns e por outros não. A pessoa segue aqueles por quem se sente atraída. Se essa pessoa é um homem mau, aqueles que a atraem são demônios; mas ela se sente mais confortável com os demônios do que com os anjos. E se é um homem justo, se sente confortável com os anjos. Mas ele escolhe essa companhia; e uma vez que está no céu ou no inferno, não gostaria de estar em outro lugar, porque sofreria muito. Swedenborg certamente acreditava em um deus pessoal. Mas os panteístas, em geral, não. O importante é que haja um propósito ético no universo. Se houver um propósito ético, e se a pessoa o sentir, bom, a pessoa já é uma mente religiosa. E eu acho que temos que tentar acreditar em um propósito ético, mesmo que ele, de fato, não exista. Mas, enfim, isso não depende de nós, não é? Em todo caso, devemos atuar, bem, seguindo nosso instinto ético.”

Janer disse...

Pelo jeito, você não entende português. Quem está discutindo Deus aqui?

Janer disse...

Estamos falando do vice-Deus.

Anônimo disse...

Pelo jeito, você não sabe ler nas entrelinhas, ô do gorrinho ridículo.

Anônimo disse...

O mano do Bento 1.6 admitiu que dava uns tabefes na gurizada do Coro.Não teriam direito a indenizações também?Ou só rola graninha quando rola 'séquiçu'.
Pedofilia,espancamentos...Deveriam incluir na lista de maldades indenizáveis as mentiras todas,incluindo a bobagem do Natal.Propaganda enganosa por séculos.Quanta falta fez um bom Procon há dois mil anos!

Lia

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