20 fevereiro 2010

Mate uma criança que o ECA garante *

Janer Cristaldo


Vivemos em uma sociedade violenta. Nas grandes cidades, quem sai de casa sempre tem uma certa chance de não voltar. Qualquer atraso de um familiar sempre causa preocupação. Se você tem filhos adolescentes, esta preocupação se multiplica. Se você tem posses, pior ainda: é alvo potencial de seqüestro. Confiar na força que devia fornecer-lhe segurança é inútil. A polícia nunca está no lugar do crime. Chega voando quando se trata de um assalto a banco. Não tem pressa alguma em socorrê-lo quando se trata de ameaça a sua vida ou patrimônio.

Caia na real: você está no mato e sem cachorro. A preservação de sua vida ou de seus bens é uma questão de sorte. Cada dia que você chega são e salvo em casa é lucro. Por enquanto, você está lucrando. Mas nunca se sabe quando a sorte vira.

Não desespere. Se você é jovem, está desempregado e não consegue sustentar-se, tem medo de andar nas ruas e sabe que com a proteção do Estado não pode contar, sempre há uma solução. Se sua vida e seu futuro estão ameaçados, vida por vida melhor salvar a sua. Mate uma criancinha. É investimento dos bons e não tem erro. Você enfrenta uma certa situação desconfortável por um, dois ou três aninhos e, dia seguinte, o Estado lhe garante proteção e sustento pelo resto de seus dias. Se você está enojado de seu bairro ou de sua favela, de suas precárias condições de vida, o Estado lhe oferecerá um outro bairro de sua escolha e o suficiente para viver. Estava cansado de seu nome? Troca-se. Nós nunca temos a chance de escolher nosso nome. Agora, você a tem. Escolha um nome de seu agrado e um novo estilo de vida.

Isso de apostar na mega-sena é coisa de fracassados que vivem de esperanças. E as chances são mínimas. Mate uma criancinha. Ora, dirão certos ingênuos, a criança também tem o direito de viver. Mas você também o tem. E mais do que ninguém. Era você ou ela. E entre ela e você, você escolhe quem? Você mesmo, é claro. Não é nem uma aposta. São favas contadas. Adeus mundo da insegurança, do ter de trabalhar para comer, para ter casa. Já que você teve a audácia de matar – coragem que nem a todos é dada – o Estado o compensará com casa, comida e roupa lavada. Mais trabalho e escola garantidos. Já não dizia um poeta que o mundo é para quem nasce para conquistá-lo? E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.

Encara-te a frio, e encara a frio o que somos...
Se queres matar, mata...
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência! ...
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?


Carros blindados, condomínios fechados, seguranças, sistemas de vigilância, isto tudo até pode ter certa eficácia. Mas não impedem arrastões, roubos, assassinatos. Nada melhor que o aparelho estatal para protegê-lo... quando decide protegê-lo. A melhor proteção é o sumiço. Isto o Estado brasileiro lhe garante, desde que você ouse. O homem que vive em bunkers paga um alto preço pela sua segurança. A segurança do Estado não custa nada, quando o Estado houver por bem garanti-la.

Foi o que descobriu há três anos o jovem E, como a imprensa o chama. Envolvido na morte de um menino de seis anos, descobriu acidentalmente que matando podia salvar sua lavoura. Raramente alguém chega à independência econômica aos 18 anos. O jovem E chegou lá. Bastou juntar alguns amigos e roubar um carro. Depois, surpresa. Um menino ficou pendurado pelo cinto de segurança. Não freie o carro. Continue rodando. A melhor surpresa mesmo virá depois. O Estado lhe fornecerá tudo que é sonho desses pobres diabos desprotegidos sujeitos a chuvas e trovoadas. Três aninhos de cadeia e depois a liberdade dos passarinhos, conforme determina o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Quanto ao menino, não faz nenhuma falta.

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.


E se morresse logo adiante em um acidente? Não traria lucro a ninguém. Provavelmente, só perdas. Já uma criança assassinada, esta sempre rende. Os pais, amigos e próximos vão sofrer e ficarão marcados pela perda da criança por todas suas vidas? O país está chocado? A imprensa pede sua cabeça? Bobagem. Sua cabeça, pelo contrário, agora está definitivamente protegida.

A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que chorem?
Descansa: pouco chorarão...
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco.


Lágrimas sempre secam. As pessoas encharcam um lenço, uma toalha, não vão encharcar um lençol. Uma mortezinha rápida e você está salvo. Não hesite. O generoso Estado brasileiro lhe dá total apoio. Mude sua vida, meu caro. E para melhor.

Mate. Mate logo antes que seja tarde. Mate que o ECA garante.

* Com escusas ao Pessoa pelas mexidas no poema. Não resisti.

8 comentários:

Lourival M. de Souza Jr. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lourival M. de Souza Jr. disse...

É, Janer...

Definitivamente, este é um país mau-caráter...

Aqui reinam a malandragem, o jeitinho, as leis de coração de mãe, as inúmeras brechas nas leis que se pretendem duras e o Estado só age com rigor quando alguém sonega impostos para salvar uns trocos do próprio trabalho do alcance da corrupção... Enfim, aqui a barbárie não é exceção; é regra... E como vc diz em seu texto, a sorte de cada um de nós está lançada todo dia...

Mas nada disso importa... Daqui a uns meses, o país estará em festa, torcendo em uníssono por 23 marmanjos correndo atrás de uma bola naquele país onde negros matam negros e a culpa até hoje cai nas costas dos brancos...

PS: eu gosto de futebol, até torço por um time, mas, definitivamente, não consigo mais torcer por este país nem no futebol, nem em partida de bolinha de gude, nem em merda nenhuma!!! Tomara que tomem um baile de qualquer outra seleção e voltem da Copa com o rabinho entre as pernas...

blaise2 disse...

O advogado do assassino deveria ser o maior interessado em mantê-lo preso.Numa instituição,pior que fosse,estaria com a vida mais garantida.Seria mais bem vigiado, o que garante mais segurança do que é dada a nós que estamos em 'liberdade'.Caso sofresse alguma lesão ou morte dentro da instituição,coisa bem provável,saberia-se,ao menos,da autoria.De quebra,como o Estado deve garantir a vida dos que estão sob sua tutela(os presos),sua morte dentro da cadeia renderia uma indenização nada desprezível ao parentes,os pais,que ganhariam duplamente:se livrando da peste e ainda posando de vítimas do Estado,como aconteceu no Carandiru.
Só entrevistaram familiares dos bandidos mortos,todos com penas longas por crimes hediondos,latrocidas na maioria,ninguém entrevistou as famílias das vítimas que eles fizeram.O coitado do comandante que naquele dia teve de fazer o serviço,porque foi chamado pra conter uma rebelião interna,que passou pra história como o monstro do Carandiru.De minha parte dei graças por saber que aqueles cento e tantos não comem mais à custa dos contribuintes.
Mas voltando ao "jovem E",solto,não viverá muito não.Pode apostar.Não tem nada que não o ache,mesmo que vá morar na Sibéria.Aparecerá morto,atribuirão a uma bala perdia e a família poderá voltar ao seu mundinho original,sem ter mais que dormir de olho aberto por conta da ovelha negra da família.
O tempo dirá.
E.T:sabe de quanto é o auxílio-reclusão a partir de janeiro?Pesquise...Vai cair durinho.
Lia¬¬

Anônimo disse...

O melhor é meter uma bala num moleque desses, bem como em tantos outros criminosos. Matá-los todos, na prisão ou logo que saiam dela. O que muitas vezes acontece e eu aprovo.

Lourival M. de Souza Jr. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lourival M. de Souza Jr. disse...

Enquanto esse vagabundo recebe a proteção do Estado, aposto que nenhuma membro do governo ou de ONG quer saber como estão os familiares de João Helio...

Catellius disse...

Sou a favor de pena progressiva. O jovem seria inimputável até os 13 anos e ficaria no máximo 30 anos na prisão se assassinasse a partir dos 18. Teríamos acréscimos de 6 anos de pena em regime fechado para cada ano de vida do facinorazinho, no dito período. Ou seis dias a mais na prisão para cada dia a mais de vida.

Alguns monstros poderiam ganhar prisão perpétua com grilhões e trabalho forçado, outros mais monstruosos ainda poderiam até ganhar uma pena de morte no Maracanã, com venda de ingressos. Esta última proposta ajudaria na redução da criminalidade? Claro que não. Seria apenas por vingança mesmo!

Janer disse...

Em meus dias de Direito, meu caro Catellius, falava-se de uma utopia jurídica, o Direito Premial, como contrapartida ao Direito Penal. Mas o Direito Premial premiaria as virtudes, e não o crime.

Agora, com a decisão da tal de Secretaria Nacional de Direitos Humanos, está instituído o Direito Premial. Só que às avessas. Premia-se o crimininoso. Além da bolsa-terorismo, temos agora a bolsa-assassinato.

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