10 fevereiro 2010

Carolina Rediviva e o novo Carandiru

Janer Cristaldo


Nos anos 80, fui convidado pelo governo sueco para uma visita ao país. O convite se devia ao fato de ter traduzido autores suecos ao brasileiro. No programa, fazer palestras em universidades, conversar com escritores e visitar instituições culturais. A visita que mais me surpreendeu foi a que fiz à Carolina Rediviva, a biblioteca de Uppsala, onde li inclusive manuscritos em sueco de José Bonifácio de Andrada e Silva.

Mais conhecido como patriarca da Independência, José Bonifácio não pertencia à atual estirpe de analfabetos que hoje domina a política nacional. Além de estadista e poeta, era naturalista. Em sua viagem à Noruega e Suécia, em 1796, descreveu pela primeira vez e deu nome a quatro espécies minerais novas e oito variedades que se incluíam em espécies já conhecidas. Ah! Em Uppsala tive também a honra de visitar a casa onde nasceu Karin Boye, de quem eu havia traduzido Kalocain.

Guiado pela mulher do diretor da biblioteca, fui introduzido no Santo dos Santos, isto é, a sala onde está a Bíblia de Prata - o Codex Argenteus – assim chamado por ter sido escrito com tinta prateada. É o texto mais conhecido em gótico, língua germânica já extinta. Não chega a ser uma bíblia, mas um evangelário, ou seja, um livro contendo partes dos quatro evangelhos. O nome dos evangelistas e as três primeiras linhas de cada evangelho são ornadas com letras de ouro. É certamente o livro mais raro que já vi em minha vida – e já vi muitos, inclusive a Gramática Castellana de Nebrija. Devo ter passado por quatro ou cinco grades trancadas a sete chaves para chegar até a Bíblia de Prata. Mas não era disto que queria falar.

Uppsala é uma cidade universitária e tem hoje 185 mil habitantes. Não lembro quantos teria na época, mas a cifra deve ser mais ou menos a mesma. Minha guia tinha uma queixa. Que o governo liberava verbas para aumentar as dependências da biblioteca, mas era avaro no que dizia respeito ao acervo. Quantos livros tem aqui? – perguntei. Nosso acervo é pequeno – me respondeu a moça, desolada -. Temos apenas quatro milhões de exemplares.

Foi inaugurada ontem nesta urbe a emblemática Biblioteca de São Paulo, onde antes foi o presídio Carandiru, ao custo de R$ 12,5 milhões. São Paulo, considerada a terceira maior cidade do mundo, tem uma população – intramuros - de 10,5 milhões de habitantes. Aqui vivem mais gentes que em toda a Suécia, que hoje conta com 9,2 milhões de almas. A gloriosa biblioteca paulistana, inaugurada com muita pompa, tem um acervo de... 30 mil livros. 133 vezes menos do que a Carolina Rediviva, da pequena Uppsala, de apenas 185 mil habitantes.

Fosse só isso... Mas não é. Lá onde foi o Carandiru surge uma nova concepção de biblioteca. Disse ontem o secretário municipal de Cultura, João Sayad, em entrevista à Folha de São Paulo:

- Queríamos um lugar que dessacralizasse a imagem da biblioteca e fosse atraente para o público não leitor. Não seguiremos uma orientação acadêmica. Vamos destacar os livros que aparecem nas listas dos mais vendidos na mídia. Pedi para que fosse organizada como livraria, mais do que como biblioteca. Até os funcionários vão se comportar como vendedores. Será uma megastore cultural.

O que merece algumas considerações. Para começar, biblioteca é lugar para quem lê. Que vai fazer o público não leitor numa biblioteca? Público não leitor que vá às favas, aos estádios, aos shows de rock, ora bolas. Que vá assistir Lost, novela das oito, Big Brother. Biblioteca não é lugar para quem não lê.

Continuando, biblioteca tem por vocação ser um acervo de livros que não se encontram nas livrarias. Os mais vendidos que a mídia oferece são sempre subliteratura, lixo impresso em letra de forma. Se é para oferecer ao público autores como Dan Brown, Paulo Coelho, Danielle Steel, Stephenie Meyer e Zíbia Gasparetto, os paulistanos estariam melhor servidos com o Carandiru.

Não menos curiosa é a concepção de biblioteca da diretora Magda Montenegro:

- Este lugar vai fazer sucesso porque não é soturno e não vai ter bibliotecário pedindo silêncio. É um espaço acolhedor, colorido.

Pelo jeito, a preocupação da bibliotecária não é atrair leitores, mas formar leitores.

- Vamos promover intensamente atividades culturais, com oficinas de grafite, contação de histórias e muita programação infantil. Preocupamo-nos muito com a criança, porque queremos formar leitores. Mas não vamos nos esquecer dos outros frequentadores. Já estamos planejando, por exemplo, fazer um baile da terceira idade dentro da biblioteca. Isso é possível porque não estamos falando de uma biblioteca com aquela imagem antiga, toda escura, com todo mundo em silêncio... Será uma biblioteca aberta, onde todos vão poder entrar.

Ah, a timidez de nossos administradores! Ontem ainda, eu comentava a timidez do senador Cristovam Buarque, que propunha duas horas de cinema nacional obrigatório na rede escolar. Por que não mais duas horas de teatro nacional, mais duas de música nacional, mais duas de televisão nacional? Se a dona Magda – pessoa que lida com livros e fala em “contação” de histórias – quer bailes para terceira idade, por que não baladas para jovens? Que tal samba? Ou funk? Ou forró? Seriam poderosos chamativos.

Estamos em ano de Copa. Seria talvez um grande atrativo para captar leitores a instalação de telões para a transmissão dos jogos. E se silêncio não importa em uma biblioteca, que tal matinês aos sábados para a petizada? E por que não shows de rock? Nada melhor que uma boa banda como pano de fundo para induzir os jovens a ler Dostoievski ou Platão, Agostinho ou Renan.

Que mais não seja, se existe a “contação” de histórias, para que livros? Tudo pelo social. Vamos dar emprego bem remunerado a esses ridículos funâmbulos, que começam a invadir bares e hospitais sem que ninguém os chame, para a “contação” de histórias. O leitor que me perdoe, mas isso de “contação” me deixou indignado. Como dizia Gide, no dia em que deixar de indignar-me, é sinal de que estou envelhecendo. Ainda sou jovem.

Quando se designa uma analfabeta funcional como diretora de biblioteca, a cultura do país já está em UTI.

4 comentários:

André disse...

Vai ser mais um “espaço cultural”
inútil.

O cretino do Cristovam também queria distribuir todo o dinheiro (do FMI ou do Fed, sei lá) pra todo mundo. Foi a resposta dele quando começaram a falar em internacionalização da Amazônia, com mapinha falso em livro didático e tudo.
Escreveu um artigo bem piegas, eu ainda estava na faculdade e me lembro de uns coleguinhas pelegos que adoraram.

Ele também já quis, num artigo de jornal, que certas profissões fossem forçadas a prestar serviços sociais, p. ex., o engenheiro teria que construir tantas casas populares, o cirurgião plástico teria que fazer tantas cirurgias reparatórias em pobres, o advogado tributarista (que segundo ele não servia pra nada, só pra “defender rico”) teria que dar assistência jurídica aos pobres por tantos dias no ano, etc e tal. Foi desmontado por um monte de cartas de vários profissionais e calou a boca.

Cristovam é o típico reitor da UnB. Um zero à esquerda. Pomposo, fala e escreve empolado, provavelmente corrupto e não mais do que ornamental. Um adereço. Quem não serve pra absolutamente nada nas escolas e universidades acaba assumindo essas funções administrativas. Se você quer saber quais são os professores mais inúteis, picaretas, basta olhar para a parte administrativa.

Claro, num meio que vai do esgoto ao meio-fio mental da classe média brasileira, o cara é considerado um intelequitual. Mas aqui até cantor de MPB é considerado intelequitual, não tem solução...

Duas horas de cinema nacional obrigatório na rede escolar? Que tal aquelas pornochanchadas urbanóides light bem toscas dos anos 70 e 80, com várias atrizes gatas hoje ainda bem novinhas?

DD disse...

Janer:

Lembro-me de que Cioran dizia que não se deve tentar conter a decadência, sendo melhor estimulá-la, acelerá-la. É preciso deixar a timidez de lado quando o que está em jogo é a destruição das distinções fundamentais que presidem à vida civilizada. É uma caretice reacionária e profundamente brega achar que uma biblioteca deve ser um lugar de leitura. Afinal, em qualquer atividade humana, o que fazemos são "leituras"; não há por que discriminar. E quem não puder ler nada poderá recorrer às "contações" de histórias - de preferência feitas por palhaços.

Tenho esperança - e é mesmo uma questão de esperança - de que os nossos bravos depredadores irão tão longe que chegarão ao ponto em que o papel ridículo a que se prestam se tornará manifesto, mesmo para as pessoas mais simples. Então, como no conto-de-fadas A Roupa Nova do Imperador, não haverá quem não seja capaz de ver que o rei está nu.

Avante, depredadores! Não se constranjam! Sempre haverá uma teta esperando por vocês.

blaise2 disse...

Parabéns pelo último post sobre o "plágio".Tive uns entreveros via e-mail com a criatura que não aceita comentários como "anônimo" ou nick name onde arrotava 'retidão de caráter' e cobrava transparência...
Quem se lê o post plagiado e o texto do e-mail não dá pra acreditar serem da mesma pessoa.
O arauto da transparência na net, flagrado assim numa cópia na qual não só omite o verdadeiro autor,como assina como sendo de sua lavra,não tem preço...
Fica a pergunta no ar:quantos mais ele chupou?

Como dizem cá pras bandas de
Fraiburgo: "nada como um dia atrás do outro e uma noite entreverada".


Lia

Janer disse...

Mandei o link do artigo original para a Veja, e até agora não foi publicado. Pelo jeito, o "correspondente" tem as costas quentes.

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