17 janeiro 2010

A santarrona de Forquilhinha


Janer Cristaldo


A pérola das Antilhas – isto é, o Haiti – gaba-se de ter sido o primeiro país latino-americano a declarar-se independente. Unidos sob a liderança de Toussaint L'Ouverture e, mais tarde, do ex-escravo Jean-Jacques Dessalines, negros e mulatos combateram as tropas francesas até a proclamação da independência em 1804. Independência para quê? Hoje, o Haiti é o país mais pobre do continente. Em um ranking de 180 países, seu PIB per capita ocupa o 130º lugar.

A Libéria – isto é, a Terra Livre - foi fundada no século XIX por escravos libertos dos Estados Unidos, não tendo conhecido o domínio colonial. O país foi criado pela American Colonization Society, organização criada em 1816 por Robert Finley, cujo objectivo era levar para a África negros livres ou negros que tinham sido libertos da escravidão. Segundo Finley e outros líderes americanos, os negros jamais seriam capazes de se integrar na sociedade do país. A única solução seria reenviá-los para a África, para evitar tanto a criminalidade como o casamento interracial.

Em 1821, a American Colonization Society adquiriu uma parcela de terra na África, onde se fixariam os primeiros colonos negros oriundos dos Estados Unidos. Em 1847, a Libéria declarou a sua independência, tornando-se o primeiro país africano a tornar-se independente. Independência para quê? Hoje, a Libéria é ainda mais pobre que o Haiti. No mesmo ranking de 180 países, seu PIB per capita ocupa o 159º lugar.

Conclusão? Antes que me chamem de racista, apelo ao testemunho de George Samuel Antoine, cônsul do Haiti no Brasil. Sem saber que estava sendo gravado pela reportagem do SBT Brasil, Samuel Antoine disse: “O africano em si tem maldição. Todo lugar que tem africano lá tá fodido". Verdade que logo depois se apressou em dizer que foi mal interpretado. Mas não vejo muito como interpretar mal sua afirmação. Disse, está dito. Como cônsul, deve conhecer bem o país que representa.

Em 1957, o médico François Duvalier, mais conhecido como Papa Doc, foi eleito presidente do Haiti, onde instaurou um governo baseado no terror promovido pelos tontons macoutes, membros de sua guarda pessoal. Em 1964, no melhor estilo de Fidel Castro ou Hugo Chávez, decretou sua presidência vitalícia. Deu ordens para a produção de panfletos, onde, entre outras informações, designava-se deus. Foi quando o Haiti tornou-se a nação mais pobre do continente. Ao morrer, em 1971, foi substituído por seu filho, Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc, que hoje come o amargo caviar do exílio em Paris.

Escrevi ontem sobre Zilda Arns, a Teresa de Calcutá tupiniquim, morta no terremoto, e afirmei: “quem conhece o que penso de Agnes Gonxha Bojaxhiu, a santarrona albanesa, sabe que nisto não vai nenhum elogio”. Não faltou leitor que me interpelasse. Que tens contra a madre Teresa? É leitor que não me acompanha. Entre outras proezas, madre Teresa recebeu das mãos de Baby Doc a "Légion d'honneur" haitiana. Isso sem falar nas flores que levava à tumba de um dos mais sanguinários ditadores dos Balcãs, Enver Hoxha, seu conterrâneo. Mas falava da Arns, a novel santa brasileira.

Escreveu um de meus interlocutores: “Janer, tua biografia poderia passar sem essa crônica. Misturas alhos com bugalhos e de leva ofendes a Zilda Arns. Essa mulher conseguiu criar, no Brasil, um serviço que reúne 250 mil voluntários e atende dois milhões de pessoas. O fato de ser religiosa apenas mostra a base para seus ideais. Independentemente da tua fobia por papas, bispos ou cardeais, poderias ter passado sem realizar essa agressão gratuita para uma pessoa cujo único crime foi a bondade”.

Bondade? Em termos. Por trás da bondade, muitas vezes se esconde a perversidade. Para atender dois milhões de miseráveis é preciso que existam dois milhões de miseráveis. O número deles seria menor se houvesse uma política de redução da natalidade. Isto, como boa católica, Zilda Arns não admitia. Condenava anticoncepcionais e preservativos. The sperm is sacred, como diziam os Monty Python. Esta atitude criminosa da Igreja romana, que só aumenta a miséria no mundo, está dizimando africanos aos magotes, pela AIDS, nos países de predominância católica. A Teresa de Calcutá tupiniquim foi cúmplice desta política assassina. Com sua atitude hipócrita, Zilda Arns criava os miseráveis para depois atendê-los. A Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana é uma caftina de miseráveis. Não por acaso, só se expande em países pobres. Sem miséria, não é fácil ser santo. Falta clientela.

Este política pode ser vista em São Paulo. Quando alguma autoridade inventa de retirar os mendigos da rua, lá vêm as igrejeiras: "quem tirou daqui nossos mendigos? Queremos nossos mendigos de volta". Não estou usando de retórica. Esta frase eu a li no Ceciliano, boletim da paróquia de Santa Cecília, aqui ao lado de onde moro. Quando foram retirados os mendigos do largo que entorna a Igreja, os padres chiaram: queremos nossos mendigos de volta.

Miséria, bem explorada, dá lucro. Com milhares de mendigos na rua, estão garantidos os milhões de dólares que a Miseoror, a Cáritas e outras entidades européias enviam para a Igreja brasileira. Com estes milhões, Arns fornecia aos miseráveis uma sopa feita de arroz, milho, sementes de abóbora e cascas de ovo. Ontem ainda, esta gororoba foi saudada pelo senador Flávio Arns, seu sobrinho, como o grande "legado" deixado pela titia na luta contra a mortalidade infantil. Lula já pede um prêmio Nobel póstumo para a santarrona de Forquilhinha.

Obscurantismo, dizem os dicionários, é a atitude, doutrina, política ou religião que se opõe à difusão dos conhecimentos científicos entre as classes populares. O obscurantismo de Zilda Arns não se resume à condenação do controle de natalidade. Ao manifestar-se contra as experiências com células-tronco, a médica sanitarista de Forquilhinha está negando a ciência e condenando experiências vitais para a humanidade. "Quanto mais próximo se está da ciência, maior o crime de ser cristão", já dizia Nietzsche. Esta senhora, a estrela do terremoto no Haiti, de um obscurantismo que nos remete aos dias em que Galileu foi condenado pela Igreja Católica, está sendo hoje promovida a santa pela imprensa nacional.

Last but not least, não tenho fobia nenhuma por papas, bispos ou cardeais. Tenho asco. É diferente.

7 comentários:

blaise2 disse...

Se receita de mingau der grau de santidade,prateleira de supermercado é o quê?
¬¬

Santo por santo,fico com São Quaker

Três pessoas que se abrigam da chuva sob uma marquise que desaba e mata todo mundo viram mártires?

Já quase santificaram a mulher cornuda do 'ociólogo',agora mais uma?Aff.

Anônimo disse...

Bons mesmos são os comunistas ateus, que só mataram alguns milhões.

Morena Flor disse...

Ora ora, anônimo... Já se perguntou sobre as matanças de bons "cristãos"? Hitler e Mussolini(só p/ citar 2 exemplos)... Assim como outros grandes genocidas da humanidade, incluindo a própria igreja e sua "santa" inquisição, q aterrorizou a Europa por singelos 700 anos.

Enfim, independente de quem venha, se de cristãos ou de ateus, matança é matança, assassinato é assassinato. É errado do mesmo jeito, não importa o número de vítimas.

Morena Flor disse...

Blaise,

Q "Mulher cornuda do "ociólogo" seria essa?

Catellius disse...

Anônimo,

Não há um ateísmo organizado, uma instituição com séculos ou milênios de existência, pela qual uma esmagadora maioria dos ateus se sinta representada, com uma hierarquia, que fez uma revolução, tomou o poder e passou a perseguir crentes.
Como já se disse, ateus costumam ser como gatos, difíceis de pastorear. Outra coisa é comunistas neófitos que têm tanta fé no comunismo que decidem ser ateus porque assim manda a cartilha do comunismo. Esses mesmos, quando o comunismo rui, retornam à religião antiga. Não temos o exemplo do Olavo de Carvalho e do Reinaldo Azevedo? Eram comunistas nos anos 60, deviam ser irreligiosos e simpatizantes da URSS, abandonaram aquela ideologia e hoje dedicam na defesa do catolicismo o mesmo ardor outrora dedicado à torpe ideologia marxista.
Aliás, sistemas políticos baseados em ideologias, com profecias, divinização do ideólogo, "verdades" não falseáveis, repressão à crítica, são de fato muito parecidos com religião.
Principalmente o comunismo. Duvido que os ateus, na URSS, se reuniam para professar seu ateísmo, rsrs. Parvoíce. Mas se reuniam em grandes salas sob os olhares severos de seus profetas, em grandes pinturas, (Marx e Engels) e santos como Lênin e Stalin. Deviam ler em voz alta seus livros sagrados nas escolas, deviam considerar blasfêmia ridicularizar "O Capital", enquanto creio que não haveria grandes problemas em se ridicularizar Meslier, Demócrito ou outros autores afinados com o ateísmo. Os cartazes, da mesma forma, não exaltavam a glória do ateísmo mas a glória da Revolução Socialista, da foice e do martelo, dos camponeses heróicos. Não se exaltava algum símbolo de ceticismo e livre-pensamento, rsrs.

Janer disse...

"O ateísmo é tão antigo quanto o pensamento humano. Desde as origens da humanidade, é uma das grandes formas de ver o mundo, um mundo onde o homem está sozinho face a si mesmo e à natureza de regras imutáveis. A história do ateísmo não é portanto a simples negação da história das crenças religiosas: é aquela de todos os homens - céticos,livres - pensadores, libertinos, deístas, agnósticos, materialistas - que tentaram dar um sentido à sua vida fora de toda fé religiosa.

"Ao contrário das religiões, o ateísmo é plural: ao longo dos séculos, tomou formas diferentes, sucessivas e simultâneas, às vezes antagonistas: o ateísmo de revolta contra a existência do mal, contra as proibições morais ou contra a limitação da liberdade humana; ateísmo especulativo nos períodos de crises de valores; ateísmo confiante de Hegel e Marx; ateísmo voluntário de Nietzsche; ateísmo pessimista e desesperado de Schopenhauer; ateísmo ambiente de nossa época onde a fronteira entre crentes e descrentes parece cada vez mais tênue".

Georges Minois, Histoire de l'atheísme, Paris, Fayard, 1998.

Janer disse...

COM A PALAVRA, O ADVOGADO DO DIABO

João Eichbaum

“Não existe ser humano mais perfeito, mais solidário e sem preconceitos que as crianças”.

Essa frase foi atribuída à senhora Zilda Arns Neumann, como sendo um dos pensamentos que expressou em sua última conferência.

Quem é que conhece uma criança “solidária”? Qual é a criança que reparte, imediatamente, sem apelo, o seu brinquedo, o seu doce, a sua comida, o colo de sua mãe?

A exclusão do outro é uma expressão rudimentar, não elaborada, de preconceito. A criança, enquanto criança, é a manifestação mais explícita de egoísmo que se encontra na raça dos primatas humanos. Por instinto, e não por deliberação consciente, ela quer a mãe e tudo quanto implique noção de propriedade exclusivamente para si. O instinto de sobrevivência é que dita as normas e o comportamento para a criança. E por força desse instinto ela não abre mão de seu “ego”.

Enfim, o ser humano, mercê da carga animal de que é composto, nunca foi, nem será perfeito.

Conclusão minha: dona Zilda não conhecia crianças. Ou tinha escassos conhecimentos de antropologia, na proporção inversa do tamanho de sua fé, que a mandava acreditar na estória bíblica de Adão e Eva.

Dona Zilda, que se havia casado com um marceneiro, teve todo o apoio de seu irmão, o bispo Paulo Evaristo Arns, para se tornar médica. Tornou-se médica e arrumou um emprego público, na Secretaria de Saúde do Estado do Paraná. Não se tem notícia de que ela tenha trabalhado em hospital, consultório, que tenha trabalhado, efetivamente, como pediatra.

Até que um dia o secretário executivo da UNICEF, James Grant, bateu às portas do palácio episcopal do arcebispo Paulo Evaristo Arns, convidando –o “para iniciar uma campanha contra a mortalidade infantil”. O americano garantiu ao bispo que “não faltariam recursos”. Como o religioso, segundo diz a notícia “não tinha tempo, nem agenda para a empreitada”, ele trouxe a irmã Zilda, uma médica burocrata que, então, estava “meio encostada” em razão da troca do governo no Paraná.

Trata-se de um caso explícito de nepotismo, pois é difícil acreditar que em todo o Estado de São Paulo não houvesse alguém com honestidade e competência suficientes para administrar grandes somas de recursos contra a mortalidade infantil.

Não sei se a doutora Zilda era concursada ou não. Não sei em que situação funcional ela assumiu a “Pastoral da Criança”. Uma coisa é certa: não faltavam recursos.

Então, a doutora fez o que qualquer pessoa faria: patrocinada pelo prestígio do irmão se entregou a uma tarefa internacional, com recursos garantidos, inclusive do seu amigo e colega Alceni Guerra, também do Paraná, que, na condição de Ministro da Saúde, liberou meio milhão de dólares para dona Zilda administrar.

Agora podem me xingar, porque estou instituindo o paradoxo, andando na contramão. Mas, a hipocrisia não me faz bem. Não acho que dona Zilda seja uma heroína, uma santa, ou qualquer coisa do gênero. Se ela administrou bem o dinheiro e o emprego que recebeu, nada mais fez do que cumprir com o dever.

Nada de extraordinário há nisso. Mas nenhuma surpresa me causará a abertura de um processo de “beatificação” da ilustre viúva, vítima da fúria da natureza, que não respeita nem as igrejas.

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