15 janeiro 2010

Brancos provocam terremoto no Haiti

Janer Cristaldo


"Houve uma coisa que aconteceu no Haiti muito tempo atrás, e as pessoas não querem falar sobre isso" - disse ontem o pastor evangélico Pat Robertson em um programa da Christian Broadcasting Network's (rede de TV comandada por Robertson) -. "Eles estavam sob o domínio francês. Você sabe, Napoleão 3º, ou o que for. Então eles se juntaram e selaram um pacto com o Diabo. Disseram: 'Vamos servi-lo se você nos tornar livres dos franceses’. É uma história verdadeira. Então, o Diabo disse: ok, negócio fechado".

Que um pastor evangélico diga isto é inteligível. Em um país religiosamente fanatizado como os Estados Unidos, o diabo ainda tem grande futuro. Mais ainda: tinha Napoleão III como coadjuvante. Que pessoas simples vejam terremotos como castigo divino, também se entende. Verdade que fica um tanto difícil entender como o bom Deus teria levado junto uma de suas mais fiéis servidoras, Zilda Arns, a Teresa de Calcutá tupiniquim, e quem conhece o que penso de Agnes Gonxha Bojaxhiu, a santarrona albanesa, sabe que nisto não vai nenhum elogio. Zilda Arns, hoje santa, pertence à ala mais rançosa da Igreja católica. Apesar de vivermos em país que se pretende laico, lutou toda sua vida contra o aborto e as pesquisas com células-tronco.

Sem falar que sua Pastoral da Criança não admite anticoncepcionais nem preservativos. Quanto mais famintos existirem no mundo, mais aplainado fica o caminho até o Nobel da Paz, láurea que tem se caracterizado por prestigiar notórios vigaristas internacionais. Zilda tentou três vezes. Verdade que até hoje os noruegueses foram insensíveis às pretensões da irmã do cardeal fanzoca de Fidel Castro e defensor dos terroristas que um dia tentaram transformar o Brasil em uma grande Cuba. Na Folha de São Paulo, por conta própria, Eliane Cantanhêde já lhe conferiu um prêmio Nobel da Paz póstumo.

Que mais não seja, personagem que é louvado por frei Betto e Reinaldo Azevedo, por Lula e Sarney, por Michel Temer e Marina Silva, boa bisca há de ser. Zilda Arns já conta com um milagre em sua vida para futura canonização: reuniu Reinaldo e Frei Betto, Lula e Sarney sob uma mesma bandeira. O recórter hidrófobo tucanopapista finalmente juntou-se aos seus pares. Uma vez Libelu, sempre Libelu.

Sua morte deve ter alguma explicação. Vai ver que foi dano colateral, como costumam dizer os militares americanos para justificar seus assassinatos de inocentes. De qualquer forma, causa espécie que, nestes albores do século XXI, alguém pense que terremotos têm causas teológicas e não geológicas.

Uma outra teologia que não a católica está minando os espíritos na tentativa de explicar a tragédia. É a teologia dos ecochatos: o responsável pelo terremoto é o ser humano. Mal transcorreram três dias do acidente e já ouvi uma cópia de teorias, todas elas transferindo à ação do homem sobre a natureza a responsabilidade pelo sinistro. Como se placas tectônicas estivessem preocupadas com o que os homenzinhos fazem na superfície do planeta. Decididamente, os apocalípticos da ecologia já ganharam o debate.

Trocando os queijos de bolso: mal o termômetro chega a 30º aqui em São Paulo, não falta taxista que branda o efeito estufa. Seria a ação desordenada do ser humano que provoca essas temperaturas. Como se durante séculos 30º graus não fossem normais em São Paulo. Como se as eras de glaciação e aquecimento não tenham se alternado, durante milênios, na trajetória do planetinha, quando o homem ainda nem pisava a Terra. Como se hoje, em plenos dias dos profetas do efeito estufa, a Europa não estivesse soterrada sob um dos mais rigorosos invernos das últimas décadas. Mas fé é fé. Contra a fé, não há argumentos. 30º graus? O culpado é o ser humano.

Existe no entanto tese ainda mais insólita que a dos pastores evangélicos americanos ou a dos taxistas paulistanos. Na Folha de São Paulo de ontem, em artigo intitulado "O Haiti já estava de joelhos; agora, está prostrado", Omar Ribeiro Thomaz, antropólogo e professor da Unicamp, culpava pelo terremoto não Deus nem o ser humano. Mas especificamente... o homem branco:

“Diante da fúria da natureza não cabe outro sentimento que o de uma frustração que deita raízes numa história profunda e que subitamente pode ganhar cor: o mundo dos brancos nos destruiu; o mundo dos brancos diz que quer fazer alguma coisa, mas o que faz, além de nutrir seus telejornais com fotos miseráveis que só fazem alimentar a satisfação autocentrada dos países ditos ocidentais?”

A deduzir-se do artigo do antropólogo, os contingentes brancos que estão chegando ao Haiti para tentar salvar os sobreviventes do desastre, as somas milionárias que o Ocidente está despendendo para reerguer o Haiti, tudo isto não passa de “mauvaise conscience” do homem branco ocidental.

Essa agora! Fui responsável pelo terremoto e não sabia. Fomos nós, homens brancos, quem acionamos placas tectônicas subterrâneas para exercer nosso racismo e ódio contra os haitianos. Ainda bem que existem a Folha e a Unicamp para esclarecer-nos sobre nossas ações deletérias contra a saúde do planeta. Desculpem-me os leitores minha mão pesada. Se, em meio a tantos negros, matei alguns branquelas.

Danos colaterais.

9 comentários:

Anônimo disse...

Segundo o bispo católico de San Sebastian (Espanha), «existem males maiores do que o Haiti», tais como… «a nossa pobre situação espiritual».

http://www.publico.es/espana/285653/munilla/recomienda/zapatero/evite/acercarse/tomar/comunion

Rui

Anônimo disse...

Link para a reportagem

Rui

Anônimo disse...

E o bispo esquece de um detalhe:

"O enviado do Vaticano ao Haiti, o arcebispo Bernardito Auza, afirmou nesta quarta-feira que 'centenas de seminaristas e padres' estão sob as ruínas de Porto Príncipe, capital do Haiti e principal cidade atingida pelo terremoto de 7 graus de magnitude desta terça-feira, e podem estar mortos."

Rui

Janer disse...

De onde se deduz que há terremotos que vêm para o bem.

Catellius disse...

Bravíssimo, Janer!

Seus textos são sempre afiadíssimos!
Outro detalhe que temos visto, nessas catástrofes, é o modo desleixado como Javé trata sua própria casa. Já destruiu uma igreja bicentenária em Paraitinga, com a fúria das águas, e inúmeras igrejas e prédios religiosos no Haiti, com o recente sismo. Sem falar no famoso dia de todos os santos de 1755, quando o país mais piedoso da Europa foi atingido por um violento terremoto que destruiu igrejas apinhadas de fiéis.

O clero lisboeta, sabendo que cada fiel guardava um pecadilho em sua consciência, declarou que aquilo acontecera por causa das faltas não confessadas. Obviamente, a massa tratou de rezar com mais fervor...

zefirosblog disse...

O homem branco está para os problemas do mundo como estavam os judeus na época do Terceiro Reich.

Sobre a morada de deus, Jeová é vaidoso, Cattelius. Talvez ele esteja punindo os católicos por não terem expurgado o paganismo da ilha.

Anônimo disse...

Só discordo das críticas à igreja. Ao menos os religiosos ajudam o povo lá.

Os comunistas eram tão anticlericais quanto o Janer. Deu no que deu. Pelo jeito o Janer gostava quando os anarquistas e comunistas espanhóis tocavam fogo nos padres e freiras.

Quanto ao "homem branco", já doou bilhões de dólares ao Haiti, sem qualquer resultado. Há 10.000 ONGs (pré-terremoto) nopaís, uma para cada 800 habitantes. Não adiantou nada. O problema é outro.

DD disse...

Claro que os brancos foram os culpados. Ou vocês acham que foram as placas tectônicas?

Janer disse...

COM A PALAVRA, O ADVOGADO DO DIABO

João Eichbaum
(joaoeichbaum.blogspot.com)


“Não existe ser humano mais perfeito, mais solidário e sem preconceitos que as crianças”.

Essa frase foi atribuída à senhora Zilda Arns Neumann, como sendo um dos pensamentos que expressou em sua última conferência.

Quem é que conhece uma criança “solidária”? Qual é a criança que reparte, imediatamente, sem apelo, o seu brinquedo, o seu doce, a sua comida, o colo de sua mãe?

A exclusão do outro é uma expressão rudimentar, não elaborada, de preconceito. A criança, enquanto criança, é a manifestação mais explícita de egoísmo que se encontra na raça dos primatas humanos. Por instinto, e não por deliberação consciente, ela quer a mãe e tudo quanto implique noção de propriedade exclusivamente para si. O instinto de sobrevivência é que dita as normas e o comportamento para a criança. E por força desse instinto ela não abre mão de seu “ego”.

Enfim, o ser humano, mercê da carga animal de que é composto, nunca foi, nem será perfeito.

Conclusão minha: dona Zilda não conhecia crianças. Ou tinha escassos conhecimentos de antropologia, na proporção inversa do tamanho de sua fé, que a mandava acreditar na estória bíblica de Adão e Eva.

Dona Zilda, que se havia casado com um marceneiro, teve todo o apoio de seu irmão, o bispo Paulo Evaristo Arns, para se tornar médica. Tornou-se médica e arrumou um emprego público, na Secretaria de Saúde do Estado do Paraná. Não se tem notícia de que ela tenha trabalhado em hospital, consultório, que tenha trabalhado, efetivamente, como pediatra.

Até que um dia o secretário executivo da UNICEF, James Grant, bateu às portas do palácio episcopal do arcebispo Paulo Evaristo Arns, convidando –o “para iniciar uma campanha contra a mortalidade infantil”. O americano garantiu ao bispo que “não faltariam recursos”. Como o religioso, segundo diz a notícia “não tinha tempo, nem agenda para a empreitada”, ele trouxe a irmã Zilda, uma médica burocrata que, então, estava “meio encostada” em razão da troca do governo no Paraná.

Trata-se de um caso explícito de nepotismo, pois é difícil acreditar que em todo o Estado de São Paulo não houvesse alguém com honestidade e competência suficientes para administrar grandes somas de recursos contra a mortalidade infantil.

Não sei se a doutora Zilda era concursada ou não. Não sei em que situação funcional ela assumiu a “Pastoral da Criança”. Uma coisa é certa: não faltavam recursos.

Então, a doutora fez o que qualquer pessoa faria: patrocinada pelo prestígio do irmão se entregou a uma tarefa internacional, com recursos garantidos, inclusive do seu amigo e colega Alceni Guerra, também do Paraná, que, na condição de Ministro da Saúde, liberou meio milhão de dólares para dona Zilda administrar.

Agora podem me xingar, porque estou instituindo o paradoxo, andando na contramão. Mas, a hipocrisia não me faz bem. Não acho que dona Zilda seja uma heroína, uma santa, ou qualquer coisa do gênero. Se ela administrou bem o dinheiro e o emprego que recebeu, nada mais fez do que cumprir com o dever.

Nada de extraordinário há nisso. Mas nenhuma surpresa me causará a abertura de um processo de “beatificação” da ilustre viúva, vítima da fúria da natureza, que não respeita nem as igrejas.

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