05 janeiro 2010

Ateus x Crentes ou Comunistas x Sacerdotes?

Líderes religiosos, com seu instinto de sobrevivência, podem ser muito tolerantes com movimentos revolucionários. O papa Pio VII não estava prestes a coroar Napoleão, conferir-lhe sobre a França o direito divino outrora pertencente à nobreza guilhotinada pelos mesmos revolucionários dos quais o corso agora era o senhor?

A Igreja Ortodoxa, tão ligada aos czares, assistiu à matança promovida pelos bolcheviques sem dar um pio, pois se declarou neutra no conflito. O patriarca Thikón excomungou os comunistas quando sua igreja perdeu seus bens mais preciosos – suas posses aqui no planetinha. A partir de então o clero passou a ser perseguido e as manifestações religiosas proibidas. Só no ano de 1937 foram presos 136 mil clérigos, dos quais 85 mil foram assassinados. Bom lembrar que boa parte dos padres desejava restaurar a monarquia, era inimiga declarada do governo comunista.

Stalin começou a afrouxar a perseguição e em 1939 ela cessou. A simpatia para com o comunismo cresceu muito desde então, e após a invasão da Rússia pelas tropas nazistas em 1941, a Igreja Ortodoxa conclamou o povo a lutar ao lado dos comunistas e até mesmo coordenou coleta de donativos para a resistência.

Pio XI referiu-se a Mussolini como “Enviado da Providência”, por ocasião da assinatura do Tratado de Latrão. Quatorze anos depois, o patriarca ortodoxo russo Sérgio I galardoou Stalin com o mesmo epíteto. Em 1943 Stalin autorizou a eleição de um novo patriarca. O próprio deus dos cristãos escolheu Sérgio como metropolita em um divino sorteio. A vaga estava desocupada desde a morte do patriarca Thikón, ainda na época de Lênin. Stalin achava que seria melhor uma única e grande igreja ligada ao partido comunista do que vários grupos religiosos dispersos. O novo patriarca chamou Stalin "sábio líder eleito e famoso pela Providência divina para dirigir a mãe terra pelo caminho da prosperidade e da glória". Stalin, o ex-seminarista, o ateu (na verdade, trocou de deus), disse, em retribuição: "nossa Santa Igreja tem nele um fiel protetor". Pio XI recebeu do Duce, o facínora, o Estado do Vaticano. O novo patriarca ortodoxo recebeu de Stalin, o facínora, a antiga embaixada alemã, um portentoso prédio de linhas clássicas. Os comunistas permitiram que fosse reaberto o Seminário de Moscou, libertaram os clérigos presos, devolveram muitas propriedades da Igreja, incluindo o famoso Mosteiro da Trindade ( e São Sérgio).

Em 1945, Sérgio I recebeu a medalha “pela defesa de Leningrado”, e em 1946 a "Ordem da Bandeira Vermelha" por serviços prestados ao comunismo e a medalha “por serviços distinguidos durante a guerra patriótica de 1941-1945”. O líder da Igreja Ortodoxa chegou a escrever um livro para tentar provar que jamais houvera perseguição religiosa na Rússia comunista, o que é uma demonstração de como é possível mentir descaradamente quando se é movido por “nobres” objetivos e interesses.

Sérgio e a seguir toda a Igreja Ortodoxa Russa passaram a ser instrumento do governo comunista para moldar as consciências e assim ajudá-lo a conduzir o populacho pelo focinho (como diria Nietzsche), mais prático do que com grilhões e chibatadas. Claro que o culto religioso não foi estimulado pelo Partido Comunista, apenas tolerado, afinal era um mal necessário. E a estrutura “religiosa” comunista não admitia concorrência. Os comunistas tinham um evangelho (Manifesto do Partido Comunista) e um livro do Apocalipse (O Capital) escritos por um profeta judeu barbudo (Marx), um juízo final (a revolução), um demônio (o capitalismo), um paraíso socialista, santos (Lênin, Stalin), um logotipo sagrado (foice e martelo), exaltavam o pobre e demonizavam o rico, possuíam uma igreja (Partido Comunista) e um clero (líderes do Partido), um papa (o secretário-geral), e crenças não falseáveis, popperianamente falando, proféticas, pois asseveravam que a história obedece a uma lei misteriosa que permite antecipar o futuro, prever a vitória completa do comunismo, no caso.

A igreja russa sofreu atrozes perseguições? Obviamente, mas soube se adaptar ao regime soviético, o que prova que a questão toda não fora entre ateus e religiosos, mas entre comunistas e sacerdotes, entre comunistas e anticomunistas.

Giovanni Codevilla, professor de Direito Eclesiástico Comparado e Direitos dos Países da Europa Oriental, defende que os verdadeiros religiosos foram martirizados e uma nova hierarquia subserviente foi nomeada pelo regime comunista. Mas mesmo ele reconhece que “a agressão alemã, e a conseguinte trégua antirreligiosa (a chamada Nep religiosa stalinista), permitiu a sobrevivência das igrejas.” O fato é que o nome de Sérgio e dos outros dois que participariam da “eleição divina” foram apontados pelo sucessor de Thikón, preso pelos comunistas, e não por Stalin.

Mas o casamento não foi nada absurdo. Marxismo e cristianismo têm muito em comum. As Comunidades Eclesiais de Base, a Pastoral da Terra, a CNBB, a Teologia da Libertação, entre outros monstrinhos, são claros exemplos disso. Antes do marxismo, aliás, já havia utopias socialistas cristãs como as de Morus e Saint Simon. Acrescentemos a isso a atração irresistível que sacerdotes têm por ditadores e poderosos em geral, capazes de lhes garantir facilmente aquilo que é sempre tão penoso de conseguir em sociedades livres e democráticas (catolicismo e reis absolutistas, catolicismo e nazismo, catolicismo e franquismo, catolicismo e salazarismo, catolicismo e fascismo de Mussolini), e temos o bizarro exemplo de um metropolita Sérgio I e hierarquia ortodoxa a aspergir água benta no comunismo soviético, a excomungar anticomunistas e a defender ferrenhamente o tirano Stalin, seus métodos e tudo o mais que representava a manutenção dos privilégios recentemente recuperados.

Após o fim do comunismo, a Igreja Ortodoxa sentiu-se livre para canonizar o último czar, Nicolau II, e sua família, e passou a batalhar por reserva de mercado forçando, agora como tutora das consciências dos eleitores, a criação da “Lei sobre a Religião”, promulgada por Yeltsin em 1997. O catolicismo ortodoxo, o budismo, o islamismo e o judaísmo foram considerados religiões tradicionais, enquanto as demais, ocidentais em sua maioria, tiveram suas atividades freadas, tendo sido estabelecido um período de até 15 anos para a obtenção de registro de culto. E viva a liberdade religiosa!

16 comentários:

Anônimo disse...

'Pio XI recebeu do Duce, o facínora, o Vaticano.'

Quem construiu o Vaticano? O Vaticano sempre foi da Igreja Católica.

Anônimo disse...

"Quem construiu o Vaticano? O Vaticano sempre foi da Igreja Católica."
Veja bem caro Anônimo, acho que não é bem disso que se trata. Na verdade, nem com a unificação da Itália se discutiu a "propriedade" do Vaticano: esta, realmente, sempre foi da ICAR.
A questão é o Vaticano como Estado independente...é disso que trata a espúria relação Igreja x Facismo.

Anônimo disse...

Anônimo II.

Ah.... quem construiu o Vaticano? Boa pergunta! Acho que as indulgências compradas pelos ignaros tiveram um peso razoável, não é mesmo?
Aliás, questiono se os sucessores dos parvos/coagidos não poderiam pedir um pedacinho do bolo, ou melhor, do mármore que ajudaram a pagar.

Catellius disse...

Anônimo I,

Como bem disse o Anônimo II, eu referia-me ao Estado do Vaticano.

E o Anônimo III disse tudo! Os católicos criticam a riqueza dos templos da Universal e das residências dos pastores, quando a Basílica de São Pedro foi construída com dinheiro da venda de lotes no céu, as tais indulgências...

Carlos Rafael disse...

Este artigo é a propósito do que mesmo? Aconteceu alguma coisa no mundo atualmente que o justifique? Ao menos o Janer e o Anselmo escrevem sobre algo atual.

Carlos Rafael disse...

Se um ateu é mau, como o foi Stalin, é porque ele não era ateu de verdade, apenas tinha trocado de deus.

Se o comunismo perseguiu religiosos é porque ele era uma religião.

Depois vocês vêm criticar o comportamento de alguns religiosos. Vocês agem do mesmo jeitiinho.

Anônimo disse...

Acho que a idéia do post é demonstrar que não havia uma briga entre ateus e religiosos. Ateus nunca foram organizados o bastante para uma revolução nas dimensões da Revolução Russa. O sentimento anti-religioso pôde existir em deístas como Voltaire e na maior parte dos iluministas.

C.E. disse...

Os privilégios, as prebendas e as sinecuras outorgadas por Benito Mussolini, no citado Tratado de Latrão, foram vastas e generosas: reconheceu o catolicismo como religião oficial desse país, instituiu o ensino confessional obrigatório nas escolas italianas, conferiu efeitos civis ao casamento religioso, aboliu o divórcio, proibiu a admissão em cargos públicos dos sacerdotes que abandonassem a batina e concedeu numerosas vantagens ao clero.
Apesar disso a ICAR não se cansa de declarar espoliada e tem sempre reivindicações a fazer nesta área…

Catellius disse...

Carlos Rafael

Não há um ateísmo organizado, uma instituição com séculos ou milênios de existência, pela qual uma esmagadora maioria dos ateus se sinta representada, com uma hierarquia, que fez uma revolução, tomou o poder e passou a perseguir crentes.

Catellius disse...

Como já se disse, ateus costumam ser como gatos, impossíveis de pastorear. Outra coisa é comunistas neófitos que têm tanta fé no comunismo que decidem ser ateus porque assim manda a cartilha do comunismo. Esses mesmos, quando o comunismo rui, retornam à religião antiga. Não temos o exemplo do Olavo de Carvalho e do Reinaldo Azevedo? Eram comunistas nos anos 60, deviam ser irreligiosos, pressuponho, e simpatizantes da URSS, abandonaram aquela ideologia e hoje dedicam na defesa do catolicismo o mesmo ardor de outrora, dedicado à torpe ideologia marxista.

Baal disse...

Vocês são dignos de qualquer site revisionista do holocausto, de qualquer católico que diz seráficamente que o papado nada teve a ver com o apoio generalizado da igreja às ditaduras, dos comunistas que garantem que nunca houve gulag etc etc.

Assim, para vocês, se um católico persegue um ateu é uma perseguição religiosa ao ateísmo.

Mas se um ateu persegue um católico, não, já não é uma perseguição do ateísmo à religião !

Claro que não ! Aquele ateu especificamente é que tinha mau feitio. Claro.

O quê ? MIlhões de ateus em dezenas de estados ateus perseguiram milhões de religiosos ? Mas o ateísmo tem alguma coisa a ver com isso ? Tem alguma culpa que haja milhões de ateus que, só por acaso, tenham acordado mal dispostos ?

Ah sim ? Por coincidência seguiam todos uma ideologia ateia que preconiza o desaparecimento da religião. Que preconiza o uso do terror para alcançar os seus objectivos ? Bem o problema claro que não pode ser o facto de ser uma ideologia ateia que preconiza o uso do terror para extirpar a religião.

Claro que não, o problema é por ser uma ideologia que usa a força para extirpar a religião - basta retirar a palavra ateia que o problema desaparece.

Eram ateus mesmo que não se fale nisso ? Sem dúvida mas soa muito melhor se não referirmos e elemento ateísta nas perseguições comunistas contra os religiosos.

Assim num esforço de hipocrisia digno de JP II quando ignorava os apelos das mães de Maio, vocês vão directos ao assunto, claro que foi um problema entre comunistas e sacerdotes. O facto de os comunistas serem ateus e os sacerdotes serem crentes e de os primeiros perseguirem os segundos não interessa nada.

Isto é exactamente o que os crentes dizem para justificar as perseguições religiosas. E vocês dizem, com toda a razão, que eles são uma cambada de hipócritas por causa disso.

Portanto das duas uma, ou aceitam as justificações dos crentes e passamos a saber que nunca houve perseguições religiosas, as pessoas é que têm mau feitio, ou então não aceitam, MAS FAZEM O FAVOR DE NÃO USAR EXACTAMENTE A MESMA ARGUMENTAÇÃO quando se trata de sacudir a água do VOSSO capote.


Eu sempre soube que houve ateus perseguidores, mas tinha-vos neste blog como pessoas honestas, denunciadores de TODAS as perseguições. Só que, para isso é preciso admitir os erros de todos os campos, incluindo o nosso.

Mas já vi com quem estou a falar.


PS

Passamos assim a saber que o nazismo nada teve a ver com o holocausto - foi simplesmente um problema entre nazis e judeus.

A religião nunca teve nada a ver com a inquisição, foi só uma questão entre sacerdotes e ateus.


Tirem-me deste filme que isto é horrível, até que ponto o ser humano é capaz de descer ?

Anônimo disse...

http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/engenheirosdealmas.html

ENGENHEIROS DE ALMAS
—o stalinismo na literatura de Jorge Amado e Graciliano Ramos—
Janer Cristaldo

Trecho (Assim Stalin era chamado):

"— O guia imortal da humanidade
— Nossa luz
— Grandioso edificador do comunismo
— Genial continuador de Marx, Engels e Lênin
— O maior titã de todos os tempos
— Gigante do pensamento e da ação
— Mestre incomparável da ciência marxista
— O cérebro mais poderoso de nossa época
— O senhor dos rios
— Nossa fonte de luz e energia
— O melhor amigo dos judeus
— Corifeu das ciências
— Sabedoria, honra e consciência de nossa época
— O prodigioso cérebro em que se reúnem todas as experiências revolucionárias que o proletariado realizou durante um século
— Sol da verdade
— Arco-íris da humanidade progressista

Etc., etc., etc. Ad nauseam. Os pronomes que o designavam, como nos textos cristãos, são grafados, em meio à frase, com maiúsculas: Ele, Lhe, O, Seu. Stalin é o maior filósofo de todos os tempos, o mais bravo dos combatentes, o maior personagem de cinema, o mais sábio lingüista, o agrônomo por excelência. As vacas dão mais leite com Seu pensamento, os campos produzem mais trigo, os rios não são mais senhores de seus cursos. Superman não faria melhor.
Moscou, para os crentes órfãos do deus hebraico-cristão, torna-se a Terra Prometida, a Nova Jerusalém. Os melhores cérebros do mundo, peregrinos, em procissão, vão adorar o novo Messias. Entre os criadores do Ocidente, coube principalmente aos escritores — definidos por Zdanov como “engenheiros de almas” — fornecer a maior fatia de apóstolos da nova religião.

A lista demandaria páginas e páginas. Alguns nomes, entre milhares: Nikos Kazantzakis, André Gide, Bertold Brecht, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Annie Kriegel, Louis Aragon, Henry Barbusse, Romain Rolland, Heinrich Mann, Paul Eluard, Vaillant-Couturier, Roger Garaudy, Henri Léfebvre, Rafael Alberti.
Na América Latina, sem querer esticar muito a relação: Pablo Neruda, Otávio Paz, Jorge Amado e Graciliano Ramos. Verdade que desta lista alguns nomes irão cair, é o caso de Gide e Otávio Paz. Mas os demais permaneceram cegos ante a evidência dos fatos e morreram stalinistas ferrenhos, ou ainda vivem, confusos crentes incapazes de mudar de crença.

Poucos homens representativos das letras desta primeira metade do século tiveram suficiente lucidez para escapar ao fascínio do novo Deus. Entre estes, Pierre Pascal, Panaïti Istrati, David Rousset, Arthur Koestler, George Orwell, Victor Serge, Albert Camus, Ernesto Sábato. Todos pagaram seu preço. Na Europa e, conseqüentemente, entre nós, extensão da Europa, tiveram decretadas suas mortes civis e uma espécie de excomunhão os baniu — ou tentou banir — do mundo intelectual."

Fábio P. D. disse...

Gostei do texto. Há algo mais para colocares na tua comparação ente comunismo e religião.

Os Comintern, os Congressos Mundiais, eram concílios, sínodos entre comunistas de diferentes congregações religiosas.

Fábio P. D. disse...

E heresias e hereges combatidos, como Trotski

Catellius disse...

Obrigado pelos comentários.
Anônimo, não tinha lido o livro do Janer. Obrigado pelo link.

Muito bom, Fábio, e lemos na Wikipedia:

"Embora carecessem de uma organização internacional, os diferentes Partidos Comunistas seguiam as diretrizes do Partido Comunista da União Soviética com o qual mantinham encontros periódicos."

Hehehe! Realmente, é o papado a orientar os sacerdotes mundo afora...

Anônimo disse...

O marxismo não é e nunca foi uma religião. Essas afirmações são tolices reacionárias: lenin não é santo, o manifesto não é uma bíblia e Marx não era profeta. Tristes tempos de reação. O marxismo é sim a mais contundente crítica ao capitalismo que já foi erigida e continua válida, até mesmo porque o capitalismo continua explorando toda a humanidade e usando os Estados para perpetuar a sua gananciosa dominação. A democracia que dejesamos e merecemos não tem na da a ver com liberalismo e com os interesses privados de uma pequena escória. Não reproduzam essas tolices, esse discurso alienado, o marxismo já era ateísta antes de vocês nascerem e assim era por ser progressista e não por ser uma religião às avessas.

Não confudam Stalin com marxismo, precisamos de justiça social, de esquerda e não de direita raivosa, capitalistas e religiões. Essa guerra ainda não acabou.


Maurício Freire
(Não sou anônimo, só não tenho conta Google)

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